hoje estou assim. há em mim um abraço ainda por dar a todos
aqueles de quem gosto – gosto como o filme da minha vida me ensinou a gostar:
cinema paraíso – gosto como gosto das flores. do sol. dos carros que passam guiados
por desconhecidos. da mãe que empurra o carrinho do bebé. da avó que corre
atrás do neto. do esfarrapado que teima em vestir a roupa limpa. gosto das
bolas de sabão que se perdem das mãos de uma criança. das nuvens. do mar. das
minhas gaivotas livres. enfeitadas pelo sal da vida – gosto. sem saber muito do
quê. num dia como o de hoje – gosto da amizade – é desta varanda que escolho o
que quero ver. e hoje. quero ver todos aqueles que me fazem acreditar que a
vida tem momentos que são um paraíso
06/12/2011
cinema paraíso
05/12/2011
esotérico
dentro
de mim há cada vez menos de mim. estou a ausentar-me – há momentos em que já não
existo. já não estou. não estou para nada – gosto desta palavra nada. sempre
que a uso fico invisível. não me reconheço. e não reconheço os outros. talvez
os outros me vejam. talvez identifiquem a minha face. a minha voz. os meus
olhos. até aqueles gestos que se repetem por serem tão meus. pretérito –
epilepsia emocional. espasmos. contração involuntária dos músculos. dos olhos.
da boca. da mente. resta o ADN – o ADN tem uma particularidade única. reproduz
com elegância a sinopse do seu corpo. mesmo quando o seu dono está ausente
– predominam os tiques. a boca a pender
para o lado. as mãos transpiram. os olhos piscam mais de três vezes e depois
aquela maneira de inclinar o corpo. como quem vacila. talvez até morrer – e os
outros dizem: é ele. e eu digo: não sou eu porque eu nunca deixaria que os
olhos fechassem. ou a língua sossegar – gosto dos músculos da face exaltados e do
corpo firme. tão firme como as árvores que se perpetuam no chão com raízes de
séculos – não reconheço ninguém porque não me reconheço a mim – aceno. sorrio.
pulo. faço o pino. estendo a mão para um cumprimento de circunstância. entremeio
com duas dúzias de palavrões. e digo:
prazer em conhecê-lo e. num ápice. torno-me parte do mundo. sou igual. porque
ninguém sabe o que penso – quando penso. invisível ao mundo. das ruas apinhadas
de gente. dos carros. dos relógios nas torres da igreja a bater por gente que
já não é. das crianças com fome de um pão com marmelada. com sapatos desfeitos
de subirem sempre a mesma rua esfomeados. dos mendigos. dos sem-abrigo. dos
infelizes. de todos os infelizes deste mundo cruel – tudo isto é uma sala de
espelhos onde o corpo gira com o retorno das imagens. umas vezes sou alto.
outras baixo. outras apareço aos ésses. com as mãos no chão. e depois ainda há
aquele outro espelho que divide o corpo em dois: do lado esquerdo a cabeça. e
do lado direito o corpo distorcido da realidade – sou muitos e não sou nenhum. os
espelhos possuem-me. não há forma de descobrir a verdade do corpo sem os
estilhaçar. e quando se parte um espelho são sete anos de azar – talvez já não
tenha tempo para gastar o tempo todo. isto para não dizer que azarento como sou
o mais certo era partir o espelho onde o corpo guarda a memória – estilhaçado.
perco tudo. os nomes de que gosto e os de que não gosto. as vozes que me
adormecem e as que amarram à noite aos fantasmas. ao vento que corre pelas
brechas mais exíguas do que sou. e até a minha gaivota cinzenta perderia o voo.
não haveria dentro de mim espaço para asas abertas – talvez um dia possa fazer
dos vidros estilhaçados um novo eu – em vidrinhos
02/12/2011
poema numa esquina de paris - antónio gedeão
Umas para lá.
Outras para cá.
Umas para cá.
Outras para lá.
Mas cada uma que passa
tem de fazer na esquina um pequeno rodeio
para não se esbarrar com o par que aí se abraça.
Olhos cerrados, lábios juntos e ardentes,
tentam matar a inesgotável sede.
Através dos seus corpos transparentes
lê-se na esquina da parede:
DANS CETTE PLACE A ÉTÉ TUÉ
MAURICE DUPRÉ
HÉROS DE LA RESISTANCE.
VIVE LA FRANCE.
27/11/2011
o outono e as sombras
van gogh
uma porta
aberta e o outono a soprar vento – não estou aqui. nem eu. nem aquele outro que
mora dentro das pálpebras fechadas – tudo pode acabar a qualquer momento –
tenho as palavras caídas num chão que não voltarei a pisar. é um tapete de
trapos – trapos!? onde é que eu fui buscar esta ideia? não fui eu. foi o outro.
idiota como sempre – estou de pernas para o ar e ninguém vê – e as sombras
continuam a dançar nas paredes da caverna
24/11/2011
Saramago - Definição de filho
"Filho é um ser que nos emprestaram para um curso intensivo de como amar alguém além de nós mesmos, de como mudar os nossos piores defeitos para darmos os melhores exemplos e de aprendermos a ter coragem. Isto mesmo! Ser pai ou mãe é o maior ato de coragem que alguém pode ter, porque é expor-se a todo tipo de dor, principalmente da incerteza de estar agindo corretamente e do medo de perder algo tão amado. Perder?! Como? Não é nosso, recordam-se?! Foi apenas um empréstimo".
19/11/2011
ruy belo - os pássaros nascem na ponta das árvores
As árvores que eu vejo em vez de fruto dão pássaros
08/11/2011
perfume
gastas o tempo a não ser. dizes: são
palavras senhores – nem atena foi feliz e tu. perdida no saber do que nunca
foste capaz de aprender - cultura - será que sabes escrever? foste barriga
prenha – és cruz para quem caiu do meio das tuas pernas – parir é dor. criar é
amor e tu envolta em canetas – nas fotos que guardam o passado: um pai. faz
tranças num cabelo igual ao teu – e o vento já partiu da boca aberta de éolo –
aguarda. todas as folhas ao teu lado partirão – e na tua face. os primeiros
sinais de outono. pau seco. despido. na pele a memória de uma virgindade
perdida – e o belo a crescer – entre as pernas. resta agora o barulho das águas
que se perderam. búzio com o primeiro choro
– és mulher. ainda – e mãe?
[e
tudo morreu nas entranhas. ao seu lado a placenta jaz imóvel. acabaste de
perder a tua única vida]
01/11/2011
teresa teixeira – sterea
“Às
vezes, amigo, caem-me palavras líquidas dos olhos de te ler...”
sterea
– 02.06.2011
comentário
feito ao meu texto -“nunca acaba amiga”
como dizer-te
que as tuas palavras sufocam – o ar desaparece. um nó de comoção aperta. e eu
sem saber deslaçar esta aflição – na cabeça formam-se atalhos que me levam para
perto do que dizes – há palavras que nunca
se apagam. e o corpo certifica para sempre o que é ser feliz – a cadeira ainda é
a mesma desde aquele dia em que te li pela primeira vez. só o couro perdeu a
cor. gastou-se na procura de um lugar seguro onde guardar as palavras que me
deixas – escrever é bom – saber que me lês é especial – sempre que me escreves
deixas-me cansado – fico sem saber o que fazer ao coração – deito as mãos ao
peito e sei que ele bate ao ritmo das tuas palavras. sempre certo. ritmado pelos
afetos de quem gosta de ler o que as palavras escondem – e o pensamento sem
nada dizer. perdido nas entre linhas da vida que deixas tombar sobre o papel.
feito de bondade – as estrelas brilham mesmo quando não há noite – o tempo é a tua
alma. fez-te palavra – resta a memória – o que seria dos homens sem ela? sem
nomes. sem lugares. sem abraços. sem bondade. há rostos que não se podem
esquecer. momentos – momentos escritos são para sempre – memória – e leio e
releio e o corpo ali. aqui. acolá. os olhos parados em sorrisos. eternos – não
há força que desocupe o tempo quando dizes que as palavras são feitas para
abraçar. e eu a agigantar-me ao mundo. a acreditar que o passado nos teus olhos
é esperança. até a dor termina quando sorri pela vontade de te dizer: obrigado.
obrigado por me fazeres feliz. obrigado por me ajudares a escrever. obrigado
por me ajudares a ver o caminho. certo pelas palavras com que me abraças – memória
– o que seria dos homens sem ela – há um outro tempo na tua escrita desigual. mulher-abraço.
mulher-doce. mulher-dor. mulher-esperança. mulher-futuro. e uma mulher-mulher capaz
de escolher a bondade. estender as mãos à vida. à amizade – e eu deste lado a
ouvir o que escreves – ouço palavras como se fossem ditas ao ouvido. e o nó
aperta. sufoca. e o ar foge. e a dor de estar feliz aqui dentro a dizer-te:
doce memória. bendita memória – e abro mais um texto. e lá vens tu devagar. em
silêncio é primavera. pelas rosas brancas – as amendoeiras sempre dão flor.
todo o ano. o fruto pendurado em palavras que não acabam – e lembro as vinhas
do douro. o rio a correr. é outono. à lareira chama-se o inverno. largam-se palavras.
frias. à sombra do que arde. é quando a tristeza volta às noites longas. aqui o
tempo parou. para sempre – e eu estou no meio de palavras-bondade. palavras-mel.
palavras-saber – memória – quando escreves há em ti palavras que me apertam e
só a dor. em sorrisos. me faz lembrar que sou mortal – quanta bondade. quanta
ternura. quanta beleza há nesses olhos que sabem ler estas minhas palavras tortas.
loucas. perdidas no tempo que imaginava só meu. pela incompreensão de nem eu as
entender – e eu ali. a contar pedras no chão. juntava-as arrastando as pernas
de um lado para o outro. uma a uma. até erguer que me cegou para o outro lado.
um muro de vergonha. um muro apenas atravessado pelo som que anunciava a
partida dos sorrisos. em bocas que nunca souberam dar um beijo – um beijo teresa.
um beijo na face que já não tinha lado – não há lados para aqueles usam palavras
para acarinhar. para dizer gosto – gosto porque gosto. porque é quente. é verão.
porque é frio. é inverno. e no teu tempo inventas outro tempo. o tempo do que é
desigual pela força de um outro tempo. feito à força de nunca veres o erro nos
outros – sou erro. mas depois de te ler. volto a ser apenas eu. desigual sim.
mas eu. assim como sou em cada palavra que escrevo feita memória – tu nasceste
com essa grandeza de saber ler as palavras com abraços. e depois. escreves
essas coisas que me fazem ver novamente o tempo como se hoje fosse o primeiro
segundo de um dia que nunca tive. um tempo novo onde o erro ainda não tinha
nascido – memória – e os muros voltam a cair. as pernas voltam a fazer cair as pedras
para lá das nuvens onde vivem os arrependimentos que nunca consegui escrever.
linhas em branco. imagino eu – não podes. nunca mais. fazer-me isto. teresa.
estou sem ar. e as palavras sufocam. não sei como te dizer obrigado. sem ter de
que parar a meio para voltar a ganhar fôlego – estou cansado. estou cansado.
mas feliz. por ainda conseguir dizer-te obrigado. obrigado por manteres a
memória como um abraço feito de palavras que não sei esquecer – obrigado.
teresa. até sempre
15/10/2011
instantes à sombra da luz
olho
submeto-me ao dia de
sol
a esplanada toma a
cidade
óculos ray-ban
perna cruzada
costas no chão
onde vivem todas as
dores
pela frente
o sol e o “garçon”
reclamo atenção aos
dois
pssssssssss
um café curto como o
raio
de luz
o dia já vai longo
olho
os que não me olham
estamos todos ao mesmo
sol
finalmente o pedido
atiro-me ao café
preciso de um excitante
cafeína
com adoçante
tenho medo da diabetes
de seguida um raio de
sol
este é meu. escolhi-o
pelo sorriso
pela luz
é vida
olho
nestes dias só sei
olhar
estou fora do corpo
da roupa
da intelectualidade
dos óculos graduados
há quem pense por aqui
livros abertos
jornais enormes
revistas cor-de-rosa
todos menos eu
a diferença
mais uma vez
marginalizo-me
não sei ler com o sol
os raios queimam palavras
olho
não faço nada
sinto umas dores
vivem por detrás
às costas do que vejo
é a vida
olho
para a frente
vento ameno
olhos frágeis
ao tempo
à idade
à cidade
para onde caem os
sonhos
há sol em qualquer
canto
nos hospitais. nos asilos.
nos olhares
há sol onde há medo e
morte
é a vida
olho
cimento negro desbotado
irritado
o cão matou o marido
por ciúme
crime passional
dizem os jornais
diários
gente que cuida do que
vê
correm carros
correm pessoas
correm cafés
só mendigos permanecem
fieis a si mesmo
olho
é a vida
olho
é verão
corre o “garçon”
corre o copo
com água pelas bordas
mais uma
e é o fim da gota
mas é de equilíbrios o
“garçon”
equilibra o copo
o sorriso
no ouvido
o francês com sotaque
da porta da casa:
“un café très rapide”
de seguida o lisboeta:
“uma bica curta se faz
favor”
está com pressa
diz a boca
no olhar
no gesto
o suor
é a vida
e os olhos
dos clientes extasiados
seguram o copo como se
fosse o mundo
talvez seja
afinal somos feitos de
água
e da água não há medos
só quando os sorrisos se
afogam
no tempo
no próximo mês
depois das férias
perdem-se de todos os
raios de sol
e há tantos pelas ruas
perdidos no calor
abandonam-nos
partem para “vacances”
é a vida
olho
e os candeeiros
estáticos
agarrados às placas de trânsito
sentidos obrigatórios
obrigações impostas
rotundas que não os
deixam circular
e o polícia vestido de
pistola
acena com a mão para
dizer:
“mais rápido”
mas estamos de férias
o país está de férias
as matrículas amarelas
estão de férias
temos que andar ligeiros
é a vida
olho
o sol cai
a água do copo não
cai a cidade
não cai o “garçon”
caem os óculos ray-ban
não caem os olhos
leitores
cai o descanso
não cai a vida
ergo as costas
desdobro as pernas
levanto o corpo
olho a cidade
morta. escura
escura
vivos só eu e o "garçon"
tudo o resto fugiu
do escuro ou de medo
aproxima-se uma nuvem
talvez chova
e eu sem guarda-chuva
talvez fique aqui para
amanhã
a cidade voltará com o
sol
e o “garçon” também
11/10/2011
vou começar um grito com: era uma vez
sem saber o que trazia dentro da pele.
nasci – com a primeira palmada. o primeiro grito. de vida. arreliei-me – o
peito encheu. o corpo inchou e. em protesto. gritei – gritei alto – foi aí que
aprendi a gritar. não a chorar. a gritar – grito por tudo e por nada. de tanto
gritar. já ninguém distingue os meus gritos de revolta – noite. sempre noite –
vou criar um novo grito para matar os silêncios que nunca acabam – vou começar
um grito com: era uma vez – ter um grito com história. um príncipe encantado.
montado num cavalo branco. com asas de gaivota. apaixonado encontra a princesa
mais bela de todo o universo. mais bela que a branca de neve. e os gritos altos
nascerão ainda mais dentro da pele. quebrando todos os sapatos de vidro. todas
as abóboras-carruagens encantadas. e as ratazanas. agora homens mentirosos. que
inventam finais felizes num mundo intolerante - gritos sem som – malditos
ruídos silenciosos – quero um grito apocalíptico. um grito que faça estalar
todos os tímpanos da terra. quero um grito que envenene todas as maçãs podres –
grito. tudo o que ninguém ouve. grito até que a boca. os lábios. a língua. e as
cordas vocais se disformem. rebolo. entrelaço os pés pelas mãos. arranho.
arranco os cabelos. os ouvidos. o cérebro. o coração. e por fim os pulmões.
para tirar a respiração ao próprio ar – grito pelo castigo que deus me deu:
saber-me – sempre soube – um dia. quando cortar os pulsos. os gritos serão
sangue aos pés de todos os surdos
10/10/2011
nada. nadas. ninguém
mário cesariny
alguém me dá
uma ajuda a encontrar o meu nada - isto que me está a acontecer não é nada bom
- há nadas por tudo quanto é nada e não consigo reconhecer o meu – talvez esteja
por aí misturado com os vossos nadas
04/10/2011
nos ouvidos a faca
foto: em cima de um banco de pedra a faca
sangra. ao seu lado a língua jaz - reconheci a faca. usava-a sempre que
não podia falar. com esta cortava a língua junto às cordas vocais. guardando-a
depois no bolso da conversa de surdos – anémico pela repetição constante dos sons
fónicos. caía em silêncio – assassinado o ruído. entorpecia o tempo até que o sangue estancasse a morte –
ali ficava. adormecido pelas ninfas da morte. ouvia os cânticos da vida dos
felizes. refletidos na lâmina. polida e brilhante. projetava imagens de gente
que nunca cheguei a conhecer – o melhor era fingir que já não estava vivo.
enganar o chamamento da morte por mais um dia. levar os sons a uma nova vida.
dobrar o cabo das tormentas no fio da lâmina – as pestanas apodreceram. caíram
perdidas no desejo de não ter mais surdos a meu lado – só eu sei que ainda não
estou morto. só meus ouvidos morreram entre amigos – eram exclusivos estes
amigos. eram meus: dizia a faca. muitos. chegados de todos os lados – sou
apenas um. quase morto. sem olhos. a um pequeno nada de cegar – aninho-me. deixo
o corpo entrar dentro do meu outro corpo. protejo-me – para trás ficavam as
mãos amarradas à cabeça – os olhos quase mortos anunciam outras mortes à
gargalhada – todos estaremos mortos. mais cedo ou mais tarde – enterrado entre
o braço e o antebraço. a vergonha de ver o que nunca devia ter visto – apontei o
dedo indicador para dentro de mim: culpado – não havia piedade naqueles corpos.
vaidosos. arrogantes. pretensiosos. presunçosos. elitistas. racistas e anormais
de profissão – por fim parava o sangue com um garrote feito de coisas que ouvia.
sem valor. nas veias deixava de circular tudo o que era revolta. suspendia a
respiração. enroscava-me na posição fetal e hibernava até a memória esquecer a
existência dos pequenos nadas – ali ficava. dia após dia – e a primavera chegou
com palavras
30/09/2011
metaforizar
não invento metáforas. vejo-as – o embaraço
está na forma como vos entrego esta minha parte abstrata – excêntrico. despejo
no papel tudo que contemplo – vivem como os cigarros: acendem-se. duas puxadas.
beata. e acabam com o fim da matéria combustível – escrito – nos vossos olhos.
o exagero. a crítica ou o sorriso pela maluqueira do que vos oferto – nada muda.
apenas o tamanho dos olhos de quem me vê através da figura de estilo – a
metáfora será sempre um pedaço da minha inabilidade para dizer o que vejo de
uma forma simples – há olhos enormes. do tamanho do feijoeiro mágico. aquele que
depois de alcançar as nuvens permite ao gigante descer à terra para descobrir o
belo – olhos apaixonados. generosos – outros. como azeitonas. nem sabem que
existo. como os pigmeus mbuti. não tenho genes de crescimento. olham-me como se
tivesse nascido ainda ontem – olhos desgostosos. distraídos – só a metáfora é real
– sei que muitas vezes sou um louco aos vossos olhos. mas não me atropelem pelo
exagero do que busco em mim – usem uma metáfora para me descrever. afinal
compensa sempre ter um louco escondido em palavras que não se veem – não vos
ouço ler
–
metáforas: algumas padecimento. outras adorno de amarração: o vosso corpo aos
meus olhos –
28/09/2011
clarice lispector
claris lispector
27/09/2011
puta vida
26/09/2011
os ais
ai se eu
fosse escritor de romances. ai! talvez nunca mais dormisse. escreveria noite e
dia. e atrás de cada palavra inventava um novo ai – um ai de amor platónico. um
ai de orgasmo. um ai tântrico. um ai febril. um ai húmido. um ai de arrepio de
garoto que. pela manhã. com o nascer do sol. procura na imaginação a rapariga
que inundou os lençóis de ais – ai como a vida é bela
22/09/2011
escrita desgovernada
há dias em que escrever é uma autêntica
loucura. um suicídio – as portas não param de ranger ferozmente. e as letras ficam
entaladas com o vendaval – não acredito em fantasmas. mas chego a crer que pode
haver por aqui alguma alma perdida. zangada com a minha meditação
transcendental na procura das palavras necessárias para compor textos. mas que.
infelizmente. ninguém lê –até a janela. perfeitamente geométrica. enfeitada com
um tapa sol da última geração. moderníssimo. a condizer com o bege quente das
paredes. não resiste ao meu bafo de desagrado: falta de criatividade – não
consigo escrever duas linhas seguidas – a verdade é que não sei se foi a mando
do tal fantasma que. apesar de tudo. insisto em negar. ou se sou eu. desanimado.
prostrado sobre os braços. aproveito a falta de inspiração para embaciar
os vidros. evitando a fotossíntese. e assim. limitando os danos no vazio
intelectual: evito ver a minha gaivota cinzenta. de tesoura afiada. a recortar
nuvens. como o jardineiro faz com os cedros nos jardins – quero escrever. mas tudo
são sombras. medos. temores. e o suor encontra nos poros a forma de alimentar a
fantasia – as palavras empapam. e pela força do PH ácido desfazem-se. desprendem-se
da realidade como lepra. deixam-se cair em pedaços e tudo é letra misturada.
sem sentido. sem juízo. sem mão capaz de as juntar – depois. em desespero.
parto como carro desgovernado; curva após curva. percebo que quanto mais
escrevo mais as retas precisam de ideias lógicas – não têm princípio nem fim.
mas têm que ter ideias com lógicas – resta-me pouca lucidez. e como um caminhante
de mochila às costas. nunca sei onde pernoitar. nem onde termina a viagem e quando
volto a encontrar a palavra-texto – às vezes. em confissão. acabo no caixote do
lixo. agoniado pelo cheiro de tinta queimada. papel amarrotado e restos de
iogurtes azedos – assim fico a morrer aos poucos até que outro texto me traga à
vida – sobrevivo. resisto. recorrendo ao
último grande sucesso do mundo moderno e mediatizado – o medo é uma cena que a
mim não me assiste. como diz o hélio: sai da frente guedes
fernando pessoa - livro do desassossego. por bernardo soares
fernando pessoa
27/08/2011
borboletas de agosto
lídia póvoa
1.
5 de agosto.
o teu dia. todos têm um dia para nascer. apenas um. tu nasceste quando minguam
os dias. ao contrário. em mim os dias nunca param de crescer. nasci numa
primavera tua – o calor de agosto é único.
sufoca no pico do sol. mas com o cair da noite. desdobro o primeiro casaquinho
de lã. agasalho-me na primeira pele. encolho a face. guardo metade dos
sorrisos. arrumo o corpo a favor do vento e caminho devagar ao encontro do
tempo orvalhado – a melancolia dos dias pequenos está para chegar – quando
agosto acaba. setembro surge sempre a
correr. a primeira humidade toca nos ossos. a solidão começa a substituir as
pessoas. e as palavras quentes acabam por desaparecer – os dias escurecem mais
cedo. e o corpo recupera a memória. precisa de sombra. de silêncio. de solidão.
de cadeira. de borralho. de encostar o corpo aos olhos. e rever tudo de novo. reencontrando
noutro nas recordações perdidas um outro tempo – nada pode ficar para trás.
nada pode ficar esquecido para sempre – um dia. sem que o corpo reconheça
emoção. quando a chuva se fizer ouvir nas telhas de vidro. levo-o à janela.
descubro mais um natal. sei-o porque as casas estão enfeitadas com lâmpadas às
cores. desejam boas-festas num ritmo cadenciado. apagam e acendem as luzes – também
tenho uma memória assim. que se acende e
se apaga ao ritmo da saudade. só não tem luz às cores. tem abraços apertados
que ficaram perdidos em fotos a preto e branco – envelheço por cada natal . envelheço por
cada agosto. envelheço ancorado a um passado de palavras por dizer – o meu passado
sempre foi agosto e natal. agora é mutilação. é ausência. é palavra cortada ao
meio. é história sem fim – só a morte voltará a alinhar os corpos lado a lado.
os nossos lados
2.
mas hoje
é 5 de agosto. e todos os 5 de agosto são frios. ainda que o orvalho não tenha
força para gelar o coração – hoje é o teu aniversário de nascimento – um pai tem
sempre aniversário. mesmo depois de partir. quando as palavras e as velas com
números já não iluminam. não há sopro. nem abraço. nem beijo – parabéns pai – hoje não há velas. nem bolo para
as segurar de pé. nem as bocas que ensinaste a rir e que neste dia gritavam:
parabéns. por muitos anos – hoje há saudade. há memória do bolo cortado em mil
pedaços. dizendo que a vida é feita de migalhas – no canto do prato de vidro
rendilhado. retirado da vitrina de cristais para dias especiais. as velas
deitadas. apagadas para sempre. com os números tombados ao acaso – números. uns
fizeram tempo. outros. nunca o farão – imagino como seria se ainda hoje tivesses
aqui os olhos feitos de fé. se vestisses aquele polo azul de manga curta. com uma
risquinha branca no colarinho. e repetisses aquele tique de mastigar com a boca
vazia. as mãos arrumadas à calça vincada. e o corpo a rir com a crença de que
no próximo ano. com a graça de deus. o sopro apagaria mais um número – os
números fugiram contigo e agosto ficou ali. para sempre parado – foram as últimas
velas acesas. para o teu último sopro – nesse ano. já não reconhecias os
números e o sopro já não foi teu. foi nosso. fomos nós que apagamos o teu último
tempo – as velas cumpriram o seu objetivo. iluminaram o momento. as últimas migalhas
da vida – cumpriram o destino – tu também cumpriste o teu destino [e eu
acredito no destino]. nasceste para ser doce. cor. alegria. bondade. nasceste
para ser pai de família – muitas vezes. estupidamente. exigia-te mais.
queria-te diferente. talvez menos açucarado. menos colorido. menos bondoso.
menos gesto. menos dos outros e mais meu – mas tu nasceste algodão. algodão-doce
– hoje. quando vou a uma romaria procuro sempre o homem do algodão doce. descubro
um recanto vazio. fecho os olhos e espreito o passado. e lá estás tu. sempre
enorme. e eu a teu lado sempre pequeno – o tempo não mata a saudade – sei que
já não te lembras desse dia. mas estavas feliz. como sempre parecias estar.
afinal. era das tuas mãos que nascia algodão – depois partimos de mão dada. e
passo a passo. cortávamos a multidão ao meio – tu e eu num silêncio-festa. sorríamos
felizes. eu levava aquele pauzinho. com o algodão colado à mão para sempre. e
tu levavas ao futuro a minha mão – hoje
é 5 de agosto. tomara que te lembres deste dia de algodão. acredito que sim – afinal
estás num sítio onde a memória é eterna
3.
agosto. 5
de agosto e o verão continua a tombar para norte. só as noites sabem que mais dia. menos dia. todas
as folhas serão chão. e o verde será castanho-ouro. e a chuva cairá devagarinho
para lavar as feridas deixadas pelo tempo alegre – não há verões como antes – nos
dias quentes. busco refúgio nas memórias da praia para aliviar o corpo da
aflição – volto ao passado: a praia. os gelados olá com as miniaturas
escondidas dos heróis da banda desenhada. o homem de branco a gritar: olha o
pãozinho de leite. o furo na caixa dos chocolates regina com bolas coloridas. as
barracas listadas de azul e branco fechadas a norte. os para-ventos alinhados
ao mar. os corpos deitados em toalhas coloridas. com as cabeças serenas viradas
a sul. e eu ali. enchendo o areal com vida. a sorrir. com a maré a ir e a vir –
no passeio alegre os altifalantes acompanham com música o sorriso dos
veraneantes. sempre com sugestões comerciais. especialmente para os escaldões. hidratar
a pele é essencial. e para isso. nada melhor do que um boião de nívea – no ar. a
bandeira verde sorri. sinónimo de banhos. o que me aborrecia eram as horas
perdidas na digestão das almoçaradas de uma mãe teimosa. insistia em dizer que
o ar do mar puxava corpo. tinha que comer – coisas do iodo que só havia nas
praias do norte – valiam os novos amigos de verão. na partilha do relógio
tartaruga. os minutos arrastavam-se lentamente até às cinco horas da tarde.
hora do mergulho – no último mergulho. já sem o calor do sol. a água gélida
cortava os ossos. os dentes rangiam. a pele enrugava. e o bronzeado tornava-se
azul – saía da água como um náufrago sai da tempestade. esgotado com os braços
pendurados aos ombros. arrastava-me pelo areal como um zombie – no cimo. de
toalha na mão. a minha mãe esperava a felicidade dos meus olhos. e o calor cercava
o corpo com braços quentes a rabujar: “estás gelado. já te tinha dito que
saísses da água. se ficares doente quero ver como vai ser” – era assim que se
era feliz – com a noite o banho quente arremessava-me para a cama. cansado.
quase morto. adormecia ao som da sarronca. sinal de mau tempo no mar – mas eu
estava em terra. feliz. aconchegado aos cobertores. imaginava o próximo dia e
adormecia com a certeza de que a manhã traria um novo raio de sol – mas agora o
agosto é março. e o sol não é o mesmo. nem a praia. nem há corpo a brincar no
areal. a saudade apagou todos os agostos – naquele dia sem data [nenhuma data
importa quando alguém parte para sempre] tu partiste. sabias que era uma partida
definitiva. nós também – sabíamos que agosto nunca mais voltaria. o calor seria
sempre uma memória de março. saudade. dor. perda – noite. na casa que era nossa.
havia lágrimas escondidas em todos os cantos. cada uma tombavam de forma diferente.
e o barulho não parava de magoar – os corpos dobravam-se sobre si. talvez para
o chão ficar mais perto. e as lágrimas demorarem menos a fugir da dor – desesperado.
pedia que deixassem de ser barulho. de ser barulho-dor. não podíamos continuar
a chorar como se já não houvesse corpo para beijar – não merecíamos esta dor –
esta dor vinha de tão longe. ao princípio. nem demos conta. mas depois cresceu.
e por último. já não cabia nos nossos corpos –
estávamos todos a morrer há tanto tempo. e o sofrimento sempre a agigantar-se.
e os olhos a cair. com as mãos rasas de força – já não tinhas energia para te amarrares
à vida – noite. noite escura. e eu ali. sem poder dobrar o corpo. sem poder chorar.
sem poder interromper a dor daqueles que seriam vida no dia seguinte – apesar
da dor-luto. dentro dos corpos magoados. ainda éramos uma família – a minha mãe
de olhos pretos. não chorava. agonizava em água. afogava-se. e eu. sem encontrar
um abraço com palavras que aliviasse a dor – eu sabia que. naquela hora. nenhum
abraço consola. nenhum abraço adia a partida. nenhum abraço alivia a dor.
nenhum abraço mata o luto – naquela noite era preciso gritar. precisávamos de gritar.
gritar alto. gritar para sobreviver ao adeus. como se a dor diminuísse com a
força dos soluços – sabes pai. eu não queria chorar por ti à frente de tanta
gente. não podia. queria ser como tu. forte. a tua vida não podia acabar em
lágrimas. há tanto para dizer. a dor não me podia roubar a memória – nessa
noite. prometi que seria forte. como tu. e terias paz. partirias. finalmente.
para um lugar que te merecesse – orgulhoso de ti. aconchego o nó da gravata. sacudo
o pó dos sapatos. aprumo o corpo e digo: a minha família é esta que te chora –
o corpo escurecia com a noite. e o passado chamava cada vez mais por nós – não
posso chorar. um dia saberei encontrar o momento certo para o fazer. hoje. não
posso. a mamã precisa de sossegar. os irmãos. de reaverem o sossego. a ua.
diminuitivo de lourdes. de retomar as orações. e os netos. aceitar a vida assim
como é – não quero chorar. alguém tem de estar com a face limpa – sabes. pai. importante
agora é saber que. depois do beijo. a mãe. a matriarca da tua casa. recobre a força
para continuar a agasalhar o teu lugar. o teu perfume. o teu andar. a tua voz. a
tua gaveta das meias. as tuas gravatas com nódoas que nunca reparavas. as tuas fotos
penduradas – estou em agosto. e esta noite de março não tem fim. e eu sem saber
o que fazer com a primavera que sempre chega por estes dias – talvez a culpa
seja da escrita. das palavras. que nunca dizem exatamente o que sinto. ou talvez
seja desta mania que tenho de pensar. passei a vida toda a pensar. penso por
tudo e por nada. e nunca chego a lado nenhum – sabes. pai. ando perdido com o
corpo às costas desde sempre. e não sei o que fazer para te dizer que gostava
de ter mais boca. mas não tenho. só a uso para dizer coisas que nunca dizem
nada. e os sentimentos. estes que me definham por dentro. nunca se chegam aos
lábios – malditos sejam – mas está sossegado que não vou chorar. boca que não
sabe falar. também não sabe soluçar
4.
agosto – 5 de “agosto toda a fruta
tem o seu gosto” – neste dia há luto de um tempo cruel – agosto guarda a despedida
como se o ontem sobrevivesse ainda dentro do hoje – o relógio não para. e o
tempo envelhece. os olhos veem ainda o corpo quase quente. e as mãos trémulas a
encobrir meio defunto – o tule branco aconchega a fazenda que cobre os ossos
partidos pelo homem vestido de preto. disfarça marcas de dor. e recebe flores
como se existisse primavera – há tão pouco de ti. a doença comeu-te. restam apenas
pequenos traços teus. pendurada no lábio. a última palavra sem som. morta como
tu pelo tamanho da dor – no canto dos olhos. lágrimas feitas pedra. guardam o
dia em que te vi chorar pela última vez. imaginei que chorasses por mãos doces que
te amparavam. mas não. choravas o adeus – sabes pai. tenho medo que um dia me
roubem a memória. não quero perder o passado. quero os agostos com nome. com
dor. com saudade – no meu agosto quero recordar o último momento. sentir o corpo
dobrar sobre ti. o beijo a cair. e um nunca mais nos nossos olhos. os teus.
fechados – quero guardar o barulho do encontro das portas a selar a escuridão.
a chave a rodar e a sombra do sol caída no chão para sempre. o nunca mais feito
buraco – nunca me tinhas dito que havia chaves só para fechar – sabes. pai. fui
eu que guardei a chave. essa que nunca dá para abrir. nunca mais quero outra. ainda não encontrei lugar para a sossegar. pousei-a no móvel da entrada. quem sabe para
alguma emergência – acabou. a partida era a tua. nossa libertação – acabou.
agora não morres mais – os gritos passaram a descanso. o peito guardou o último
ar e os olhos partiram para sempre da aflição dos que te viam – acabou. agora não
mais levantarás esse braço doente a pedir socorro – acabou. morreu contigo essa
dor que não parava de crescer. todos os dias ficava maior e tu todos os dias
mais pequeno. definhavas. escondias-te atrás das almofadas. escudos contra as
escaras – acabou. já não há mais dor a entrar e a sair do quarto. já não há mais
sofrimento nesse corpo encolhido –
acabou. pai. bem sei que estavas só há muito tempo. os olhos já não guardavam a
nossa voz. já não viam as palavras sussurradas. nem sentiam as festinhas feitas
com a palma da mão – tudo era feito devagarinho. tínhamos medo de te magoar. nunca
sabíamos se estavas a dormir ou apenas a enganar a dor – estávamos ao teu lado
e não tínhamos forma de te dizer. sempre estivemos. nunca te abandonamos. todos
– bem sei que partiste dentro daquela casa enorme. branca. com pessoas vestidas
de branco. luzes brancas e as janelas fechadas. como se tu ainda pudesses sair
a voar com uma das minhas gaivotas – tu já não querias voar. não podias.
estavas cansado e o corpo já não tinha forma de se atirar ao vento – queríamos
todos mais um dia. estávamos obcecados. perdidos no desespero. egoístas. e
foste sem uma mão que te segurasse o último suspiro – perdoa-nos pai. mas nós também
estávamos doentes – não devias ter descido à terra no nosso dia [dia do pai].
mais dois dias e chegava a primavera. e as andorinhas. e o verde. e a esperança
das flores a dar cor aos campos que ainda ontem eram terra escura – se eu tivesse
envelhecido mais depressa pai. se eu tivesse sido um pouco mais sábio. tinhas
partido da tua casa. abraçado aos teus. que somos tantos – mas não foi assim.
partiste sozinho. e agora nunca saberei se chamaste por alguém – tínhamos ainda
tanto para partilhar. finalmente. eu estava a envelhecer mais depressa do que
tu. mas não esperaste por mim. desististe. e eu. com as palavras presas ao
tempo que não aproveitei – sabes. tenho medo do tempo. nunca tinha ouvido o
nome de alzheimer. nem sabia que roubava os filhos aos pais. os dias ao tempo.
as mãos aos abraços. a boca aos sorrisos
– tenho medo. tenho muito medo. não quero este nome nunca mais no futuro. não quero
ver o negro nos olhos dos teus netos. e eles estão enormes. se visses como
cresceram. se visses como eles têm tanta coisa nossa. tua. porque o que eu
tenho é teu e por isso tudo o que temos é teu – ah. se tu um dia encontrasses
uma forma de dizer que estás a vê-los crescer. eu ficaria contente. ficaria mais
tranquilo – sei que onde estás só acontecem coisas boas. talvez encontres uma
maneira de me dizer que ainda ocupas a tua cadeira naquela mesa feita de pão e
sorrisos – nessa noite de março. não podia chorar onde todos choravam – nessa
noite fiquei homem. como nunca tinha imaginado poder sê-lo de um momento para o
outro – sabes. li ainda há pouco tempo num livro de lobo antunes que um homem
só se torna verdadeiramente num homem depois de perder o pai – é verdade.
naquela noite percebi que uma família é feita de homens de família e estas
nunca acabam com as partidas dos homens – hoje somos todos cada vez mais tu –
nesta casa já tens netos que brevemente serão homens – nesse dia voltaremos a
falar. tenho comigo um montão de coisas guardadas para te levar. vai ser uma
conversa e tanto
5.
nesta casa
lágrimas não sossegam as horas e os corpos deambulam sem saber como esconder a
dor – fugi. passo a passo desci pelas escadas que sempre fiz a correr – porquê
correr se o tempo está parado – abro a porta de madeira pesada. pintada de
vermelho bem-estar. tão antiga como eu. os vidros protegidos por ferro forjado.
mantêm-se em harmonia com o tempo passado. resguardam o interior com curvas e contracurvas apertadas – num dos
vidros um postigo. abro-o de tempos a tempos. espreito o mundo – noite cerrada.
caio na rua que sempre foi minha. não há vida no passeio das pessoas. nem carros
a ziguezaguear – na rua que me viu crescer não há nada. nem tristeza. nem dor.
nem lágrimas. nem flores enroladas em círculo. tudo está como ontem. silencioso.
até o vento corre em bicos de pés para não ser barulho – o silêncio é cada vez mais silêncio – as casas
paradas de persianas fechadas anunciam recolha. talvez os vizinhos tenham
resolvido morrer um bocadinho por ti. reconfortados nos seus sofás. isolados na
dor. revivem os sorrisos com que davas bons dias. dobravas sempre o corpo em forma
de vénia – havia alegria nos teus bons dias – bom dia sr. manuel. como está – e
o sol caminhando para a vertical – também eu deambulo de um lado para o outro.
olho o céu. a estrela polar mudou-se para trás da casa – ao cimo da rua a cassiopeia.
perdida nos seus esses habituais – resistem os candeeiros de luz a cair
devagarinho em chão desenhado por pedras coloridas – hoje a luz é diferente. está
ali unicamente para esconder as sombras. não quer iluminar amargura. escutou a
dor do outro lado da porta. sabe que o corpo está cansado e as lágrimas presas por
um fio – olho o tempo no meio de nada. cigarro na mão. a cinza cai pela força da gravidade. e a
nicotina amarela-me as memórias – tudo parece que já foi há tanto tempo – sento-me
no meu carro. os assentos vazios. motor
parado. o limpa para-brisas estático. luzes apagadas. o pé no travão e a vida
engrenada em marcha atrás – as mãos amarradas ao volante equilibram o corpo em
curvas feitas de dor. conta-quilómetros a zero – sufoco. o peito encolhe. os olhos incham. a
boca treme. o corpo vacila. o coração bate nos ouvidos e o desespero atinge as defesas
de quem tinha prometido não chorar – não sei o que fazer. não há espaço entre mim
e o volante para dobrar o corpo. só posso olhar em frente – estou desesperado. destroçado. devastado.
com toda a força amarro o volante – a noite não abranda a dor. sei que estamos
sozinhos. eu no carro perdido entre beatas e tu numa sala escura. sem deus. sem
santos. sem nenhum bater de coração – não acredito em mais nada. não há deus capaz
de me convencer que as partidas fazem parte da vida. que a dor purifica o homem.
e todo o filho tem que sofrer como deus sofreu pelo seu. não acredito neste
deus – desespero brutal – não quero
continuar em silêncio . ligo o rádio. ouço
aquela que será para sempre a nossa música. “spiritual”. charlie haden &
pat metheny. e os gritos aparecem com lágrimas. eu e a música gememos sem tempo
– a dor afinal também pode ter melodia – e o que ainda ontem era vida descansa agora
dentro de quatro tábuas. à espera de um último beijo – um sermão. quatro
lampejos de água benta. uma benção a deus. beijo. um cortejo. a chave. com uma pá de terra tudo para sempre acaba –
vivemos para sofrer e fazer sofrer – dentro do carro a noite e a dor têm agora
melodia. aqui guardarei todo o meu luto
– sinto-me em paz. entre recordações e música – as notas musicais voam como
borboletas. é tudo tão suave. tão doce. tão algodão e os gritos meros sopros
que mantêm as borboletas a dançar – esta música foi inventada para os corpos
partirem serenos – todas as despedidas são menos dolorosas com música. com o contrabaixo
nascem borboletas – os instrumentos choram comigo. o corpo cambaleia desesperado.
braços rompem aos murros o volante que já não me guia para lado nenhum. e
grito. grito. grito. insulto deus. insulto o universo. os santos e os médicos.
eu. insulto-me. também andava noutro mundo quando a doença destruía a tua vida
pai. comeram-te o último olhar – queria tanto um adeus. um abraço e agora não
resta nada. só o corpo de olhos fechados. nenhuma fotografia minha dentro – choro. dor. desespero. raiva e o corpo sem
força para resistir à promessa de encontrar o dia certo para chorar – também já
não temo a morte. não cumpri a palavra. não devia chorar no dia em que as dores
acabaram para ti. para nós – as borboletas só aparecem na primavera e ainda
faltam quatro dias – choro. os olhos a gritar. os gemidos abafam o bater do
coração – estou esgotado – choro. esta música será minha para sempre. é nosso
pai. é uma música feita para fazer nascer borboletas. de todas as cores.
livres. a engolir vento para rodopiar de alegria por terem nascido belas. um
dia também quero ser assim. livre. a dançar de alegria por ter nascido em ti –
choro. a música. cada vez mais música. a dor. cada vez mais dor – as lágrimas continuam
a cair pelas primaveras passadas. e choram os pássaros. as flores. o mar. a
floresta. o cheiro. os abraços. os animais. as estrelas. as nuvens. as
borboletas. o que continua a nascer nos olhos. choro a vida. choro também eu. porque
vivi o suficiente para te ter para sempre dentro de mim. choro porque me
ensinaste a ver borboletas. até nas noites de luto – esta é a minha rua. para sempre. a minha
casa. para sempre. e para sempre haverá uma família que chora – um dia choramos
saudade. outro dia. choramos recordações – choro. hoje choro eu. amanhã os meus
filhos – devem ser os filhos a chorar os pais. basta aprenderem a encontrar
borboletas – deus me ajude
epílogo
escondo-me. apago-me.
disfarço-me. calo-me. exteriormente encubro estes lados-nossos – o tempo passa.
e estes lados-nossos desconhecem o tempo. feito relógio – tudo desapareceu velozmente
– um dia era criança noutro outono – mas a boca inventou papel. palavra. poesia.
prosa. a ampulheta marca um novo tempo – agora sei o que falta dizer – se soubesse
escrever palavras aprumadas. mesmo acanhadas. seriam gigantescas. diriam tudo.
e o silêncio seria abril e agosto cálido. e os lábios livres suspirariam
largueza para um novo desejo: falar sem medo – mas não sei dizer tudo o que
penso. o que sinto. o que faz de mim um dos: lados-nossos – não basta saber o
que falta dizer – sobra o restauro do tempo estragado em forma de texto – tu
sabias deste meu lado silencioso – o trabalho fez-me barulhento. agitado.
determinado. ousado. e a vontade de conquistar afeição juntou-nos nas diferenças
– havia tanta história de antepassados na tua boca. tanto orgulho. e eu tão
longe de ser um dos nossos – tu querias
viver. eu queria vencer – agora é tarde. e as palavras que escrevo são prosas
que nunca tiveram ouvidos – este silêncio maldito – o trabalho roubou-nos a
linhagem – somos o que somos e já somos assim desde outro tempo. somos gerações
que caminham com serenidade pelo tempo – mas a boca teima em continuar fechada
e o sofrer não reconhece o corpo que carrega palavras agrilhoadas – para este
silêncio não há vida na boca – no dia da terra preta. a que te protege na tua
casa eterna. regressei a casa feliz. sabia que finalmente tinhas encontrado paz
– também eu agora procuro paz. gostava de a encontrar em vida. não acredito. há
coisas que são nossas. e nós nunca saberemos encontrar o que só aos outros
pertence. estes lados-nossos. não nos deixam – descansar seria deixar de pensar
–pela primeira vez em muito tempo não haverá dor em casa. e a saudade ainda é fado.
música que trauteio entre a dor de ontem e o sorriso que levo dentro de mim. tão
desconhecido – sinto sossego. por ti. por mim. pela mãe. por todos aqueles que
te amavam – mas o tempo passou e a dor chegou. não imaginava que viesse tão
depressa e as lágrimas-chumbo penduram-se no corpo – chegou o sétimo dia. o
mês. o meu aniversário. o teu. o da mãe e por fim o natal e os anos a repetir
sempre os mesmos dias – nada é como antigamente. nunca nada será igual. o mundo
é diferente. eu sou diferente. estou velho. conheço a cor da morte. conheço os
dias por onde andavas – a minha tarefa está quase acabada. os teus netos já
sabem destes lados-nossos. não mais terei de te escrever – nesse dia. nesse dia
de sol. de sossego. de paz. em que deixarei de pensar. a boca não será
importante. serei só silêncio-paz – partirei sem palavras por escrever – deve
ser bom saber que nada mais há para escrever – será bom. eu sem medo
















