27/11/2011

o outono e as sombras





                                                                          van gogh

uma porta aberta e o outono a soprar vento – não estou aqui. nem eu. nem aquele outro que mora dentro das pálpebras fechadas – tudo pode acabar a qualquer momento – tenho as palavras caídas num chão que não voltarei a pisar. é um tapete de trapos – trapos!? onde é que eu fui buscar esta ideia? não fui eu. foi o outro. idiota como sempre – estou de pernas para o ar e ninguém vê – e as sombras continuam a dançar nas paredes da caverna







24/11/2011

Saramago - Definição de filho




                                                                         saramago


"Filho é um ser que nos emprestaram para um curso intensivo de como amar alguém além de nós mesmos, de como mudar os nossos piores defeitos para darmos os melhores exemplos e de aprendermos a ter coragem. Isto mesmo! Ser pai ou mãe é o maior ato de coragem que alguém pode ter, porque é expor-se a todo tipo de dor, principalmente da incerteza de estar agindo corretamente e do medo de perder algo tão amado. Perder?! Como? Não é nosso, recordam-se?! Foi apenas um empréstimo".



19/11/2011

ruy belo - os pássaros nascem na ponta das árvores




ruy belo




As árvores que eu vejo em vez de fruto dão pássaros
Os pássaros são o fruto mais vivo das árvores
Os pássaros começam onde as árvores acabam
Os pássaros fazem cantar as árvores
Ao chegar aos pássaros as árvores engrossam movimentam-se
deixam o reino vegetal para passar a pertencer ao reino animal
Como pássaros poisam as folhas na terra
quando o outono desce veladamente sobre os campos
Gostaria de dizer que os pássaros emanam das árvores
mas deixo essa forma de dizer ao romancista
é complicada e não se dá bem na poesia
não foi ainda isolada da filosofia
Eu amo as árvores principalmente as que dão pássaros
Quem é que lá os pendura nos ramos?
De quem é a mão a inúmera mão?
Eu passo e muda-se-me o coração



08/11/2011

perfume




lucian freud



gastas o tempo a não ser. dizes: são palavras senhores – nem atena foi feliz e tu. perdida no saber do que nunca foste capaz de aprender - cultura - será que sabes escrever? foste barriga prenha – és cruz para quem caiu do meio das tuas pernas – parir é dor. criar é amor e tu envolta em canetas – nas fotos que guardam o passado: um pai. faz tranças num cabelo igual ao teu – e o vento já partiu da boca aberta de éolo – aguarda. todas as folhas ao teu lado partirão – e na tua face. os primeiros sinais de outono. pau seco. despido. na pele a memória de uma virgindade perdida – e o belo a crescer – entre as pernas. resta agora o barulho das águas que se perderam. búzio com o primeiro choro  – és mulher. ainda – e mãe?

[e tudo morreu nas entranhas. ao seu lado a placenta jaz imóvel. acabaste de perder a tua única vida]

 



01/11/2011

teresa teixeira – sterea




teresa teixeira


“Às vezes, amigo, caem-me palavras líquidas dos olhos de te ler...”

sterea – 02.06.2011

 

comentário feito ao meu texto -“nunca acaba amiga”

 


como dizer-te que as tuas palavras sufocam – o ar desaparece. um nó de comoção aperta. e eu sem saber deslaçar esta aflição – na cabeça formam-se atalhos que me levam para perto do que dizes –  há palavras que nunca se apagam. e o corpo certifica para sempre o que é ser feliz – a cadeira ainda é a mesma desde aquele dia em que te li pela primeira vez. só o couro perdeu a cor. gastou-se na procura de um lugar seguro onde guardar as palavras que me deixas – escrever é bom – saber que me lês é especial – sempre que me escreves deixas-me cansado – fico sem saber o que fazer ao coração – deito as mãos ao peito e sei que ele bate ao ritmo das tuas palavras. sempre certo. ritmado pelos afetos de quem gosta de ler o que as palavras escondem – e o pensamento sem nada dizer. perdido nas entre linhas da vida que deixas tombar sobre o papel. feito de bondade – as estrelas brilham mesmo quando não há noite – o tempo é a tua alma. fez-te palavra – resta a memória – o que seria dos homens sem ela? sem nomes. sem lugares. sem abraços. sem bondade. há rostos que não se podem esquecer. momentos – momentos escritos são para sempre – memória – e leio e releio e o corpo ali. aqui. acolá. os olhos parados em sorrisos. eternos – não há força que desocupe o tempo quando dizes que as palavras são feitas para abraçar. e eu a agigantar-me ao mundo. a acreditar que o passado nos teus olhos é esperança. até a dor termina quando sorri pela vontade de te dizer: obrigado. obrigado por me fazeres feliz. obrigado por me ajudares a escrever. obrigado por me ajudares a ver o caminho. certo pelas palavras com que me abraças – memória – o que seria dos homens sem ela – há um outro tempo na tua escrita desigual. mulher-abraço. mulher-doce. mulher-dor. mulher-esperança. mulher-futuro. e uma mulher-mulher capaz de escolher a bondade. estender as mãos à vida. à amizade – e eu deste lado a ouvir o que escreves – ouço palavras como se fossem ditas ao ouvido. e o nó aperta. sufoca. e o ar foge. e a dor de estar feliz aqui dentro a dizer-te: doce memória. bendita memória – e abro mais um texto. e lá vens tu devagar. em silêncio é primavera. pelas rosas brancas – as amendoeiras sempre dão flor. todo o ano. o fruto pendurado em palavras que não acabam – e lembro as vinhas do douro. o rio a correr. é outono. à lareira chama-se o inverno. largam-se palavras. frias. à sombra do que arde. é quando a tristeza volta às noites longas. aqui o tempo parou. para sempre – e eu estou no meio de palavras-bondade. palavras-mel. palavras-saber – memória – quando escreves há em ti palavras que me apertam e só a dor. em sorrisos. me faz lembrar que sou mortal – quanta bondade. quanta ternura. quanta beleza há nesses olhos que sabem ler estas minhas palavras tortas. loucas. perdidas no tempo que imaginava só meu. pela incompreensão de nem eu as entender – e eu ali. a contar pedras no chão. juntava-as arrastando as pernas de um lado para o outro. uma a uma. até erguer que me cegou para o outro lado. um muro de vergonha. um muro apenas atravessado pelo som que anunciava a partida dos sorrisos. em bocas que nunca souberam dar um beijo – um beijo teresa. um beijo na face que já não tinha lado – não há lados para aqueles usam palavras para acarinhar. para dizer gosto – gosto porque gosto. porque é quente. é verão. porque é frio. é inverno. e no teu tempo inventas outro tempo. o tempo do que é desigual pela força de um outro tempo. feito à força de nunca veres o erro nos outros – sou erro. mas depois de te ler. volto a ser apenas eu. desigual sim. mas eu. assim como sou em cada palavra que escrevo feita memória – tu nasceste com essa grandeza de saber ler as palavras com abraços. e depois. escreves essas coisas que me fazem ver novamente o tempo como se hoje fosse o primeiro segundo de um dia que nunca tive. um tempo novo onde o erro ainda não tinha nascido – memória – e os muros voltam a cair. as pernas voltam a fazer cair as pedras para lá das nuvens onde vivem os arrependimentos que nunca consegui escrever. linhas em branco. imagino eu – não podes. nunca mais. fazer-me isto. teresa. estou sem ar. e as palavras sufocam. não sei como te dizer obrigado. sem ter de que parar a meio para voltar a ganhar fôlego – estou cansado. estou cansado. mas feliz. por ainda conseguir dizer-te obrigado. obrigado por manteres a memória como um abraço feito de palavras que não sei esquecer – obrigado. teresa. até sempre



15/10/2011

instantes à sombra da luz





j. rafael pintos lopez




olho

submeto-me ao dia de sol

a esplanada toma a cidade

óculos ray-ban

perna cruzada

costas no chão

onde vivem todas as dores

pela frente

o sol e o “garçon”

reclamo atenção aos dois

pssssssssss

um café curto como o raio

de luz

o dia já vai longo

olho

os que não me olham

estamos todos ao mesmo

sol

finalmente o pedido

atiro-me ao café

preciso de um excitante

cafeína

com adoçante

tenho medo da diabetes

de seguida um raio de sol

este é meu. escolhi-o  

pelo sorriso

pela luz

é vida

olho

nestes dias só sei olhar

estou fora do corpo

da roupa

da intelectualidade

dos óculos graduados

há quem pense por aqui

livros abertos

jornais enormes

revistas cor-de-rosa

todos menos eu

a diferença

mais uma vez marginalizo-me

não sei ler com o sol

os raios queimam palavras

olho

não faço nada

sinto umas dores

vivem por detrás

às costas do que vejo

é a vida

olho

para a frente

vento ameno

olhos frágeis

ao tempo

à idade

à cidade

para onde caem os sonhos  

há sol em qualquer canto

nos hospitais. nos asilos. nos olhares

há sol onde há medo e morte

é a vida

olho

cimento negro desbotado

irritado

o cão matou o marido por ciúme

crime passional 

dizem os jornais diários

gente que cuida do que vê

correm carros

correm pessoas

correm cafés

só mendigos permanecem fieis a si mesmo

olho

é a vida

olho

é verão

corre o “garçon”

corre o copo

com água pelas bordas

mais uma  

e é o fim da gota

mas é de equilíbrios o “garçon”

equilibra o copo

o sorriso

no ouvido

o francês com sotaque

da porta da casa:

“un café très rapide”

de seguida o lisboeta:

“uma bica curta se faz favor”

está com pressa

diz a boca

no olhar

no gesto

o suor

é a vida

e os olhos

dos clientes extasiados

seguram o copo como se fosse o mundo

talvez seja

afinal somos feitos de água

e da água não há medos

só quando os sorrisos se afogam

no tempo

no próximo mês

depois das férias

perdem-se de todos os raios de sol

e há tantos pelas ruas

perdidos no calor

abandonam-nos

partem para “vacances”

é a vida

olho

e os candeeiros estáticos

agarrados às placas de trânsito

sentidos obrigatórios

obrigações impostas

rotundas que não os deixam circular

e o polícia vestido de pistola

acena com a mão para dizer:

“mais rápido”

mas estamos de férias

o país está de férias

as matrículas amarelas estão de férias

temos que andar ligeiros

é a vida

olho

o sol cai

a água do copo não

cai a cidade

não cai o “garçon”

caem os óculos ray-ban

não caem os olhos leitores

cai o descanso

não cai a vida

ergo as costas

desdobro as pernas

levanto o corpo

olho a cidade

morta. escura

escura

vivos só eu e o "garçon"

tudo o resto fugiu

do escuro ou de medo

aproxima-se uma nuvem

talvez chova

e eu sem guarda-chuva

talvez fique aqui para amanhã

a cidade voltará com o sol

e o “garçon” também

 


11/10/2011

vou começar um grito com: era uma vez




                                                             gottfried helnwein

 


sem saber o que trazia dentro da pele. nasci – com a primeira palmada. o primeiro grito. de vida. arreliei-me – o peito encheu. o corpo inchou e. em protesto. gritei – gritei alto – foi aí que aprendi a gritar. não a chorar. a gritar – grito por tudo e por nada. de tanto gritar. já ninguém distingue os meus gritos de revolta – noite. sempre noite – vou criar um novo grito para matar os silêncios que nunca acabam – vou começar um grito com: era uma vez – ter um grito com história. um príncipe encantado. montado num cavalo branco. com asas de gaivota. apaixonado encontra a princesa mais bela de todo o universo. mais bela que a branca de neve. e os gritos altos nascerão ainda mais dentro da pele. quebrando todos os sapatos de vidro. todas as abóboras-carruagens encantadas. e as ratazanas. agora homens mentirosos. que inventam finais felizes num mundo intolerante - gritos sem som – malditos ruídos silenciosos – quero um grito apocalíptico. um grito que faça estalar todos os tímpanos da terra. quero um grito que envenene todas as maçãs podres – grito. tudo o que ninguém ouve. grito até que a boca. os lábios. a língua. e as cordas vocais se disformem. rebolo. entrelaço os pés pelas mãos. arranho. arranco os cabelos. os ouvidos. o cérebro. o coração. e por fim os pulmões. para tirar a respiração ao próprio ar – grito pelo castigo que deus me deu: saber-me – sempre soube – um dia. quando cortar os pulsos. os gritos serão sangue aos pés de todos os surdos  



10/10/2011

nada. nadas. ninguém



                                                      mário cesariny


alguém me dá uma ajuda a encontrar o meu nada - isto que me está a acontecer não é nada bom - há nadas por tudo quanto é nada e não consigo reconhecer o meu – talvez esteja por aí misturado com os vossos nadas 



04/10/2011

nos ouvidos a faca




lucian freud


foto: em cima de um banco de pedra a faca sangra. ao seu lado a língua jaz - reconheci a faca. usava-a sempre que não podia falar. com esta cortava a língua junto às cordas vocais. guardando-a depois no bolso da conversa de surdos – anémico pela repetição constante dos sons fónicos. caía em silêncio – assassinado o ruído. entorpecia  o tempo até que o sangue estancasse a morte – ali ficava. adormecido pelas ninfas da morte. ouvia os cânticos da vida dos felizes. refletidos na lâmina. polida e brilhante. projetava imagens de gente que nunca cheguei a conhecer – o melhor era fingir que já não estava vivo. enganar o chamamento da morte por mais um dia. levar os sons a uma nova vida. dobrar o cabo das tormentas no fio da lâmina – as pestanas apodreceram. caíram perdidas no desejo de não ter mais surdos a meu lado – só eu sei que ainda não estou morto. só meus ouvidos morreram entre amigos – eram exclusivos estes amigos. eram meus: dizia a faca. muitos. chegados de todos os lados – sou apenas um. quase morto. sem olhos. a um pequeno nada de cegar – aninho-me. deixo o corpo entrar dentro do meu outro corpo. protejo-me – para trás ficavam as mãos amarradas à cabeça – os olhos quase mortos anunciam outras mortes à gargalhada – todos estaremos mortos. mais cedo ou mais tarde – enterrado entre o braço e o antebraço. a vergonha de ver o que nunca devia ter visto – apontei o dedo indicador para dentro de mim: culpado – não havia piedade naqueles corpos. vaidosos. arrogantes. pretensiosos. presunçosos. elitistas. racistas e anormais de profissão – por fim parava o sangue com um garrote feito de coisas que ouvia. sem valor. nas veias deixava de circular tudo o que era revolta. suspendia a respiração. enroscava-me na posição fetal e hibernava até a memória esquecer a existência dos pequenos nadas – ali ficava. dia após dia – e a primavera chegou com palavras 



30/09/2011

metaforizar




mauríciio takiguthi - o louco



não invento metáforas. vejo-as – o embaraço está na forma como vos entrego esta minha parte abstrata – excêntrico. despejo no papel tudo que contemplo – vivem como os cigarros: acendem-se. duas puxadas. beata. e acabam com o fim da matéria combustível – escrito – nos vossos olhos. o exagero. a crítica ou o sorriso pela maluqueira do que vos oferto – nada muda. apenas o tamanho dos olhos de quem me vê através da figura de estilo – a metáfora será sempre um pedaço da minha inabilidade para dizer o que vejo de uma forma simples – há olhos enormes. do tamanho do feijoeiro mágico. aquele que depois de alcançar as nuvens permite ao gigante descer à terra para descobrir o belo – olhos apaixonados. generosos – outros. como azeitonas. nem sabem que existo. como os pigmeus mbuti. não tenho genes de crescimento. olham-me como se tivesse nascido ainda ontem – olhos desgostosos. distraídos – só a metáfora é real – sei que muitas vezes sou um louco aos vossos olhos. mas não me atropelem pelo exagero do que busco em mim – usem uma metáfora para me descrever. afinal compensa sempre ter um louco escondido em palavras que não se veem – não vos ouço ler   

 

– metáforas: algumas padecimento. outras adorno de amarração: o vosso corpo aos meus olhos –





28/09/2011

clarice lispector




                                                                   claris lispector



É curioso como não sei dizer quem sou. Quer dizer, sei-o bem, mas não posso dizer. Sobretudo tenho medo de dizer porque no momento em que tento falar não só não exprimo o que sinto como o que sinto se transforma lentamente no que eu digo.



27/09/2011

puta vida




salvador dali



estávamos afinal os dois doentes: um ouvia para nada ver. o outro cegou para não ouvir - fora desta caixa mágica esquizofrénica deixei ficar os beijos. entrego-os em mão como carteiro e digo: são flores meus leitores – vestido a rigor. camisa cinza aberta até perto do umbigo. deixa ver tudo o que é entranhas. entre os pelos hirtos do peito sobressai o cordão de ouro com um cristo pendurado pelas orelhas – está de castigo. digo eu – na cabeça um boné de basebol com um bordado a letras vermelho vivo: puta vida    o carteiro fica sempre doido duas vezes – depois. sem que as palavras estivessem autorizadas a sair dos olhos. parto com a caixa amarrada às costas – esfrego-a vezes sem fim mas não há génio – só reconheço o mau génio da doença que me mata: pensar – e a cabeça a cair –


26/09/2011

os ais




paula rego


ai se eu fosse escritor de romances. ai! talvez nunca mais dormisse. escreveria noite e dia. e atrás de cada palavra inventava um novo ai – um ai de amor platónico. um ai de orgasmo. um ai tântrico. um ai febril. um ai húmido. um ai de arrepio de garoto que. pela manhã. com o nascer do sol. procura na imaginação a rapariga que inundou os lençóis de ais – ai como a vida é bela



22/09/2011

escrita desgovernada




rene-magritte-la-victoire



dias em que escrever é uma autêntica loucura. um suicídio – as portas não param de ranger ferozmente. e as letras ficam entaladas com o vendaval – não acredito em fantasmas. mas chego a crer que pode haver por aqui alguma alma perdida. zangada com a minha meditação transcendental na procura das palavras necessárias para compor textos. mas que. infelizmente. ninguém lê –até a janela. perfeitamente geométrica. enfeitada com um tapa sol da última geração. moderníssimo. a condizer com o bege quente das paredes. não resiste ao meu bafo de desagrado: falta de criatividade – não consigo escrever duas linhas seguidas – a verdade é que não sei se foi a mando do tal fantasma que. apesar de tudo. insisto em negar. ou se sou eu. desanimado. prostrado sobre os braços. aproveito a falta de inspiração para embaciar os vidros. evitando a fotossíntese. e assim. limitando os danos no vazio intelectual: evito ver a minha gaivota cinzenta. de tesoura afiada. a recortar nuvens. como o jardineiro faz com os cedros nos jardins – quero escrever. mas tudo são sombras. medos. temores. e o suor encontra nos poros a forma de alimentar a fantasia – as palavras empapam. e pela força do PH ácido desfazem-se. desprendem-se da realidade como lepra. deixam-se cair em pedaços e tudo é letra misturada. sem sentido. sem juízo. sem mão capaz de as juntar – depois. em desespero. parto como carro desgovernado; curva após curva. percebo que quanto mais escrevo mais as retas precisam de ideias lógicas – não têm princípio nem fim. mas têm que ter ideias com lógicas – resta-me pouca lucidez. e como um caminhante de mochila às costas. nunca sei onde pernoitar. nem onde termina a viagem e quando volto a encontrar a palavra-texto – às vezes. em confissão. acabo no caixote do lixo. agoniado pelo cheiro de tinta queimada. papel amarrotado e restos de iogurtes azedos – assim fico a morrer aos poucos até que outro texto me traga à vida – sobrevivo.  resisto. recorrendo ao último grande sucesso do mundo moderno e mediatizado – o medo é uma cena que a mim não me assiste. como diz o hélio: sai da frente guedes 



fernando pessoa - livro do desassossego. por bernardo soares




                                                                    fernando pessoa



"A maioria pensa com a sensibilidade, eu sinto com o pensamento. Para o homem vulgar, sentir é viver e pensar é saber viver. Para mim, pensar é viver e sentir não é mais que o alimento de pensar"



27/08/2011

borboletas de agosto




                                                         lídia póvoa



1.

5 de agosto. o teu dia. todos têm um dia para nascer. apenas um. tu nasceste quando minguam os dias. ao contrário. em mim os dias nunca param de crescer. nasci numa primavera tua – o calor de agosto é  único. sufoca no pico do sol. mas com o cair da noite. desdobro o primeiro casaquinho de lã. agasalho-me na primeira pele. encolho a face. guardo metade dos sorrisos. arrumo o corpo a favor do vento e caminho devagar ao encontro do tempo orvalhado – a melancolia dos dias pequenos está para chegar – quando agosto acaba. setembro  surge sempre a correr. a primeira humidade toca nos ossos. a solidão começa a substituir as pessoas. e as palavras quentes acabam por desaparecer – os dias escurecem mais cedo. e o corpo recupera a memória. precisa de sombra. de silêncio. de solidão. de cadeira. de borralho. de encostar o corpo aos olhos. e rever tudo de novo. reencontrando noutro nas recordações perdidas um outro tempo – nada pode ficar para trás. nada pode ficar esquecido para sempre – um dia. sem que o corpo reconheça emoção. quando a chuva se fizer ouvir nas telhas de vidro. levo-o à janela. descubro mais um natal. sei-o porque as casas estão enfeitadas com lâmpadas às cores. desejam boas-festas num ritmo cadenciado. apagam e acendem as luzes – também tenho uma memória assim.  que se acende e se apaga ao ritmo da saudade. só não tem luz às cores. tem abraços apertados que ficaram perdidos em fotos a preto e branco  – envelheço por cada natal . envelheço por cada agosto. envelheço ancorado a um passado de palavras por dizer – o meu passado sempre foi agosto e natal. agora é mutilação. é ausência. é palavra cortada ao meio. é história sem fim – só a morte voltará a alinhar os corpos lado a lado. os nossos lados

 

2.

mas hoje é 5 de agosto. e todos os 5 de agosto são frios. ainda que o orvalho não tenha força para gelar o coração – hoje é o teu aniversário de nascimento – um pai tem sempre aniversário. mesmo depois de partir. quando as palavras e as velas com números já não iluminam. não há sopro. nem abraço. nem beijo – parabéns pai – hoje não há velas. nem bolo para as segurar de pé. nem as bocas que ensinaste a rir e que neste dia gritavam: parabéns. por muitos anos – hoje há saudade. há memória do bolo cortado em mil pedaços. dizendo que a vida é feita de migalhas – no canto do prato de vidro rendilhado. retirado da vitrina de cristais para dias especiais. as velas deitadas. apagadas para sempre. com os números tombados ao acaso – números. uns fizeram tempo. outros. nunca o farão – imagino como seria se ainda hoje tivesses aqui os olhos feitos de fé. se vestisses aquele polo azul de manga curta. com uma risquinha branca no colarinho. e repetisses aquele tique de mastigar com a boca vazia. as mãos arrumadas à calça vincada. e o corpo a rir com a crença de que no próximo ano. com a graça de deus. o sopro apagaria mais um número – os números fugiram contigo e agosto ficou ali. para sempre parado – foram as últimas velas acesas. para o teu último sopro – nesse ano. já não reconhecias os números e o sopro já não foi teu. foi nosso. fomos nós que apagamos o teu último tempo – as velas cumpriram o seu objetivo. iluminaram o momento. as últimas migalhas da vida – cumpriram o destino – tu também cumpriste o teu destino [e eu acredito no destino]. nasceste para ser doce. cor. alegria. bondade. nasceste para ser pai de família – muitas vezes. estupidamente. exigia-te mais. queria-te diferente. talvez menos açucarado. menos colorido. menos bondoso. menos gesto. menos dos outros e mais meu – mas tu nasceste algodão. algodão-doce – hoje. quando vou a uma romaria procuro sempre o homem do algodão doce. descubro um recanto vazio. fecho os olhos e espreito o passado. e lá estás tu. sempre enorme. e eu a teu lado sempre pequeno – o tempo não mata a saudade – sei que já não te lembras desse dia. mas estavas feliz. como sempre parecias estar. afinal. era das tuas mãos que nascia algodão – depois partimos de mão dada. e passo a passo. cortávamos a multidão ao meio – tu e eu num silêncio-festa. sorríamos felizes. eu levava aquele pauzinho. com o algodão colado à mão para sempre. e tu levavas ao futuro a minha mão  – hoje é 5 de agosto. tomara que te lembres deste dia de algodão. acredito que sim – afinal estás num sítio onde a memória é eterna

 

3.

agosto. 5 de agosto e o verão continua a tombar para norte. só  as noites sabem que mais dia. menos dia. todas as folhas serão chão. e o verde será castanho-ouro. e a chuva cairá devagarinho para lavar as feridas deixadas pelo tempo alegre – não há verões como antes – nos dias quentes. busco refúgio nas memórias da praia para aliviar o corpo da aflição – volto ao passado: a praia. os gelados olá com as miniaturas escondidas dos heróis da banda desenhada. o homem de branco a gritar: olha o pãozinho de leite. o furo na caixa dos chocolates regina com bolas coloridas. as barracas listadas de azul e branco fechadas a norte. os para-ventos alinhados ao mar. os corpos deitados em toalhas coloridas. com as cabeças serenas viradas a sul. e eu ali. enchendo o areal com vida. a sorrir. com a maré a ir e a vir – no passeio alegre os altifalantes acompanham com música o sorriso dos veraneantes. sempre com sugestões comerciais. especialmente para os escaldões. hidratar a pele é essencial. e para isso. nada melhor do que um boião de nívea – no ar. a bandeira verde sorri. sinónimo de banhos. o que me aborrecia eram as horas perdidas na digestão das almoçaradas de uma mãe teimosa. insistia em dizer que o ar do mar puxava corpo. tinha que comer – coisas do iodo que só havia nas praias do norte – valiam os novos amigos de verão. na partilha do relógio tartaruga. os minutos arrastavam-se lentamente até às cinco horas da tarde. hora do mergulho – no último mergulho. já sem o calor do sol. a água gélida cortava os ossos. os dentes rangiam. a pele enrugava. e o bronzeado tornava-se azul – saía da água como um náufrago sai da tempestade. esgotado com os braços pendurados aos ombros. arrastava-me pelo areal como um zombie – no cimo. de toalha na mão. a minha mãe esperava a felicidade dos meus olhos. e o calor cercava o corpo com braços quentes a rabujar: “estás gelado. já te tinha dito que saísses da água. se ficares doente quero ver como vai ser” – era assim que se era feliz – com a noite o banho quente arremessava-me para a cama. cansado. quase morto. adormecia ao som da sarronca. sinal de mau tempo no mar – mas eu estava em terra. feliz. aconchegado aos cobertores. imaginava o próximo dia e adormecia com a certeza de que a manhã traria um novo raio de sol – mas agora o agosto é março. e o sol não é o mesmo. nem a praia. nem há corpo a brincar no areal. a saudade apagou todos os agostos – naquele dia sem data [nenhuma data importa quando alguém parte para sempre] tu partiste. sabias que era uma partida definitiva. nós também – sabíamos que agosto nunca mais voltaria. o calor seria sempre uma memória de março. saudade. dor. perda – noite. na casa que era nossa. havia lágrimas escondidas em todos os cantos. cada uma tombavam de forma diferente. e o barulho não parava de magoar – os corpos dobravam-se sobre si. talvez para o chão ficar mais perto. e as lágrimas demorarem menos a fugir da dor – desesperado. pedia que deixassem de ser barulho. de ser barulho-dor. não podíamos continuar a chorar como se já não houvesse corpo para beijar – não merecíamos esta dor – esta dor vinha de tão longe. ao princípio. nem demos conta. mas depois cresceu. e por último. já não cabia nos nossos corpos –  estávamos todos a morrer há tanto tempo. e o sofrimento sempre a agigantar-se. e os olhos a cair. com as mãos rasas de força – já não tinhas energia para te amarrares à vida – noite. noite escura. e eu ali. sem poder dobrar o corpo. sem poder chorar. sem poder interromper a dor daqueles que seriam vida no dia seguinte – apesar da dor-luto. dentro dos corpos magoados. ainda éramos uma família – a minha mãe de olhos pretos. não chorava. agonizava em água. afogava-se. e eu. sem encontrar um abraço com palavras que aliviasse a dor – eu sabia que. naquela hora. nenhum abraço consola. nenhum abraço adia a partida. nenhum abraço alivia a dor. nenhum abraço mata o luto – naquela noite era preciso gritar. precisávamos de gritar. gritar alto. gritar para sobreviver ao adeus. como se a dor diminuísse com a força dos soluços – sabes pai. eu não queria chorar por ti à frente de tanta gente. não podia. queria ser como tu. forte. a tua vida não podia acabar em lágrimas. há tanto para dizer. a dor não me podia roubar a memória – nessa noite. prometi que seria forte. como tu. e terias paz. partirias. finalmente. para um lugar que te merecesse – orgulhoso de ti. aconchego o nó da gravata. sacudo o pó dos sapatos. aprumo o corpo e digo: a minha família é esta que te chora – o corpo escurecia com a noite. e o passado chamava cada vez mais por nós – não posso chorar. um dia saberei encontrar o momento certo para o fazer. hoje. não posso. a mamã precisa de sossegar. os irmãos. de reaverem o sossego. a ua. diminuitivo de lourdes. de retomar as orações. e os netos. aceitar a vida assim como é – não quero chorar. alguém tem de estar com a face limpa – sabes. pai. importante agora é saber que. depois do beijo. a mãe. a matriarca da tua casa. recobre a força para continuar a agasalhar o teu lugar. o teu perfume. o teu andar. a tua voz. a tua gaveta das meias. as tuas gravatas com nódoas que nunca reparavas. as tuas fotos penduradas – estou em agosto. e esta noite de março não tem fim. e eu sem saber o que fazer com a primavera que sempre chega por estes dias – talvez a culpa seja da escrita. das palavras. que nunca dizem exatamente o que sinto. ou talvez seja desta mania que tenho de pensar. passei a vida toda a pensar. penso por tudo e por nada. e nunca chego a lado nenhum – sabes. pai. ando perdido com o corpo às costas desde sempre. e não sei o que fazer para te dizer que gostava de ter mais boca. mas não tenho. só a uso para dizer coisas que nunca dizem nada. e os sentimentos. estes que me definham por dentro. nunca se chegam aos lábios – malditos sejam – mas está sossegado que não vou chorar. boca que não sabe falar. também não sabe soluçar

 

4.

agosto – 5 de “agosto toda a fruta tem o seu gosto” – neste dia há luto de um tempo cruel – agosto guarda a despedida como se o ontem sobrevivesse ainda dentro do hoje – o relógio não para. e o tempo envelhece. os olhos veem ainda o corpo quase quente. e as mãos trémulas a encobrir meio defunto – o tule branco aconchega a fazenda que cobre os ossos partidos pelo homem vestido de preto. disfarça marcas de dor. e recebe flores como se existisse primavera – há tão pouco de ti. a doença comeu-te. restam apenas pequenos traços teus. pendurada no lábio. a última palavra sem som. morta como tu pelo tamanho da dor – no canto dos olhos. lágrimas feitas pedra. guardam o dia em que te vi chorar pela última vez. imaginei que chorasses por mãos doces que te amparavam. mas não. choravas o adeus – sabes pai. tenho medo que um dia me roubem a memória. não quero perder o passado. quero os agostos com nome. com dor. com saudade – no meu agosto quero recordar o último momento. sentir o corpo dobrar sobre ti. o beijo a cair. e um nunca mais nos nossos olhos. os teus. fechados – quero guardar o barulho do encontro das portas a selar a escuridão. a chave a rodar e a sombra do sol caída no chão para sempre. o nunca mais feito buraco – nunca me tinhas dito que havia chaves só para fechar – sabes. pai. fui eu que guardei a chave. essa que nunca dá para abrir. nunca mais quero outra.  ainda não encontrei lugar para a sossegar.  pousei-a no móvel da entrada. quem sabe para alguma emergência – acabou. a partida era a tua. nossa libertação – acabou. agora não morres mais – os gritos passaram a descanso. o peito guardou o último ar e os olhos partiram para sempre da aflição dos que te viam – acabou. agora não mais levantarás esse braço doente a pedir socorro – acabou. morreu contigo essa dor que não parava de crescer. todos os dias ficava maior e tu todos os dias mais pequeno. definhavas. escondias-te atrás das almofadas. escudos contra as escaras – acabou. já não há mais dor a entrar e a sair do quarto. já não há mais sofrimento  nesse corpo encolhido – acabou. pai. bem sei que estavas só há muito tempo. os olhos já não guardavam a nossa voz. já não viam as palavras sussurradas. nem sentiam as festinhas feitas com a palma da mão – tudo era feito devagarinho. tínhamos medo de te magoar. nunca sabíamos se estavas a dormir ou apenas a enganar a dor – estávamos ao teu lado e não tínhamos forma de te dizer. sempre estivemos. nunca te abandonamos. todos – bem sei que partiste dentro daquela casa enorme. branca. com pessoas vestidas de branco. luzes brancas e as janelas fechadas. como se tu ainda pudesses sair a voar com uma das minhas gaivotas – tu já não querias voar. não podias. estavas cansado e o corpo já não tinha forma de se atirar ao vento – queríamos todos mais um dia. estávamos obcecados. perdidos no desespero. egoístas. e foste sem uma mão que te segurasse o último suspiro – perdoa-nos pai. mas nós também estávamos doentes – não devias ter descido à terra no nosso dia [dia do pai]. mais dois dias e chegava a primavera. e as andorinhas. e o verde. e a esperança das flores a dar cor aos campos que ainda ontem eram terra escura – se eu tivesse envelhecido mais depressa pai. se eu tivesse sido um pouco mais sábio. tinhas partido da tua casa. abraçado aos teus. que somos tantos – mas não foi assim. partiste sozinho. e agora nunca saberei se chamaste por alguém – tínhamos ainda tanto para partilhar. finalmente. eu estava a envelhecer mais depressa do que tu. mas não esperaste por mim. desististe. e eu. com as palavras presas ao tempo que não aproveitei – sabes. tenho medo do tempo. nunca tinha ouvido o nome de alzheimer. nem sabia que roubava os filhos aos pais. os dias ao tempo. as mãos aos abraços.  a boca aos sorrisos – tenho medo. tenho muito medo. não quero este nome nunca mais no futuro. não quero ver o negro nos olhos dos teus netos. e eles estão enormes. se visses como cresceram. se visses como eles têm tanta coisa nossa. tua. porque o que eu tenho é teu e por isso tudo o que temos é teu – ah. se tu um dia encontrasses uma forma de dizer que estás a vê-los crescer. eu ficaria contente. ficaria mais tranquilo – sei que onde estás só acontecem coisas boas. talvez encontres uma maneira de me dizer que ainda ocupas a tua cadeira naquela mesa feita de pão e sorrisos – nessa noite de março. não podia chorar onde todos choravam – nessa noite fiquei homem. como nunca tinha imaginado poder sê-lo de um momento para o outro – sabes. li ainda há pouco tempo num livro de lobo antunes que um homem só se torna verdadeiramente num homem depois de perder o pai – é verdade. naquela noite percebi que uma família é feita de homens de família e estas nunca acabam com as partidas dos homens – hoje somos todos cada vez mais tu – nesta casa já tens netos que brevemente serão homens – nesse dia voltaremos a falar. tenho comigo um montão de coisas guardadas para te levar. vai ser uma conversa e tanto

 

5.

nesta casa lágrimas não sossegam as horas e os corpos deambulam sem saber como esconder a dor – fugi. passo a passo desci pelas escadas que sempre fiz a correr – porquê correr se o tempo está parado – abro a porta de madeira pesada. pintada de vermelho bem-estar. tão antiga como eu. os vidros protegidos por ferro forjado. mantêm-se em harmonia com o tempo passado. resguardam o interior com  curvas e contracurvas apertadas – num dos vidros um postigo. abro-o de tempos a tempos. espreito o mundo – noite cerrada. caio na rua que sempre foi minha. não há vida no passeio das pessoas. nem carros a ziguezaguear – na rua que me viu crescer não há nada. nem tristeza. nem dor. nem lágrimas. nem flores enroladas em círculo. tudo está como ontem. silencioso. até o vento corre em bicos de pés para não ser barulho –  o silêncio é cada vez mais silêncio – as casas paradas de persianas fechadas anunciam recolha. talvez os vizinhos tenham resolvido morrer um bocadinho por ti. reconfortados nos seus sofás. isolados na dor. revivem os sorrisos com que davas bons dias. dobravas sempre o corpo em forma de vénia – havia alegria nos teus bons dias – bom dia sr. manuel. como está – e o sol caminhando para a vertical – também eu deambulo de um lado para o outro. olho o céu. a estrela polar mudou-se para trás da casa – ao cimo da rua a cassiopeia. perdida nos seus esses habituais – resistem os candeeiros de luz a cair devagarinho em chão desenhado por pedras coloridas – hoje a luz é diferente. está ali unicamente para esconder as sombras. não quer iluminar amargura. escutou a dor do outro lado da porta. sabe que o corpo está cansado e as lágrimas presas por um fio – olho o tempo no meio de nada. cigarro na mão.  a cinza cai pela força da gravidade. e a nicotina amarela-me as memórias – tudo parece que já foi há tanto tempo – sento-me no meu carro. os assentos  vazios. motor parado. o limpa para-brisas estático. luzes apagadas. o pé no travão e a vida engrenada em marcha atrás – as mãos amarradas ao volante equilibram o corpo em curvas feitas de dor. conta-quilómetros a zero –  sufoco. o peito encolhe. os olhos incham. a boca treme. o corpo vacila. o coração bate nos ouvidos e o desespero atinge as defesas de quem tinha prometido não chorar – não sei o que fazer. não há espaço entre mim e o volante para dobrar o corpo. só posso olhar em frente – estou desesperado. destroçado. devastado. com toda a força amarro o volante – a noite não abranda a dor. sei que estamos sozinhos. eu no carro perdido entre beatas e tu numa sala escura. sem deus. sem santos. sem nenhum bater de coração – não acredito em mais nada. não há deus capaz de me convencer que as partidas fazem parte da vida. que a dor purifica o homem. e todo o filho tem que sofrer como deus sofreu pelo seu. não acredito neste deus  – desespero brutal – não quero continuar em silêncio . ligo o  rádio. ouço aquela que será para sempre a nossa música. “spiritual”. charlie haden & pat metheny. e os gritos aparecem com lágrimas. eu e a música gememos sem tempo – a dor afinal também pode ter melodia – e o que ainda ontem era vida descansa agora dentro de quatro tábuas. à espera de um último beijo – um sermão. quatro lampejos de água benta. uma benção a deus. beijo. um cortejo. a chave.  com uma pá de terra tudo para sempre acaba – vivemos para sofrer e fazer sofrer – dentro do carro a noite e a dor têm agora melodia.  aqui guardarei todo o meu luto – sinto-me em paz. entre recordações e música – as notas musicais voam como borboletas. é tudo tão suave. tão doce. tão algodão e os gritos meros sopros que mantêm as borboletas a dançar – esta música foi inventada para os corpos partirem serenos – todas as despedidas são menos dolorosas com música. com o contrabaixo nascem  borboletas – os instrumentos  choram comigo. o corpo cambaleia desesperado. braços rompem aos murros o volante que já não me guia para lado nenhum. e grito. grito. grito. insulto deus. insulto o universo. os santos e os médicos. eu. insulto-me. também andava noutro mundo quando a doença destruía a tua vida pai. comeram-te o último olhar – queria tanto um adeus. um abraço e agora não resta nada. só o corpo de olhos fechados. nenhuma fotografia minha dentro  – choro. dor. desespero. raiva e o corpo sem força para resistir à promessa de encontrar o dia certo para chorar – também já não temo a morte. não cumpri a palavra. não devia chorar no dia em que as dores acabaram para ti. para nós – as borboletas só aparecem na primavera e ainda faltam quatro dias – choro. os olhos a gritar. os gemidos abafam o bater do coração – estou esgotado – choro. esta música será minha para sempre. é nosso pai. é uma música feita para fazer nascer borboletas. de todas as cores. livres. a engolir vento para rodopiar de alegria por terem nascido belas. um dia também quero ser assim. livre. a dançar de alegria por ter nascido em ti  – choro. a música. cada vez mais música. a dor. cada vez mais dor – as lágrimas continuam a cair pelas primaveras passadas. e choram os pássaros. as flores. o mar. a floresta. o cheiro. os abraços. os animais. as estrelas. as nuvens. as borboletas. o que continua a nascer nos olhos. choro a vida. choro também eu. porque vivi o suficiente para te ter para sempre dentro de mim. choro porque me ensinaste a ver borboletas. até nas noites de luto  – esta é a minha rua. para sempre. a minha casa. para sempre. e para sempre haverá uma família que chora – um dia choramos saudade. outro dia. choramos recordações – choro. hoje choro eu. amanhã os meus filhos – devem ser os filhos a chorar os pais. basta aprenderem a encontrar borboletas – deus me ajude

 

epílogo

escondo-me. apago-me. disfarço-me. calo-me. exteriormente encubro estes lados-nossos – o tempo passa. e estes lados-nossos desconhecem o tempo. feito relógio – tudo desapareceu velozmente – um dia era criança noutro outono – mas a boca inventou papel. palavra. poesia. prosa. a ampulheta marca um novo tempo – agora sei o que falta dizer – se soubesse escrever palavras aprumadas. mesmo acanhadas. seriam gigantescas. diriam tudo. e o silêncio seria abril e agosto cálido. e os lábios livres suspirariam largueza para um novo desejo: falar sem medo – mas não sei dizer tudo o que penso. o que sinto. o que faz de mim um dos: lados-nossos – não basta saber o que falta dizer – sobra o restauro do tempo estragado em forma de texto – tu sabias deste meu lado silencioso – o trabalho fez-me barulhento. agitado. determinado. ousado. e a vontade de conquistar afeição juntou-nos nas diferenças – havia tanta história de antepassados na tua boca. tanto orgulho. e eu tão longe de ser um dos nossos – tu  querias viver. eu queria vencer – agora é tarde. e as palavras que escrevo são prosas que nunca tiveram ouvidos – este silêncio maldito – o trabalho roubou-nos a linhagem – somos o que somos e já somos assim desde outro tempo. somos gerações que caminham com serenidade pelo tempo – mas a boca teima em continuar fechada e o sofrer não reconhece o corpo que carrega palavras agrilhoadas – para este silêncio não há vida na boca – no dia da terra preta. a que te protege na tua casa eterna. regressei a casa feliz. sabia que finalmente tinhas encontrado paz – também eu agora procuro paz. gostava de a encontrar em vida. não acredito. há coisas que são nossas. e nós nunca saberemos encontrar o que só aos outros pertence. estes lados-nossos. não nos deixam – descansar seria deixar de pensar –pela primeira vez em muito tempo não haverá dor em casa. e a saudade ainda é fado. música que trauteio entre a dor de ontem e o sorriso que levo dentro de mim. tão desconhecido – sinto sossego. por ti. por mim. pela mãe. por todos aqueles que te amavam – mas o tempo passou e a dor chegou. não imaginava que viesse tão depressa e as lágrimas-chumbo penduram-se no corpo – chegou o sétimo dia. o mês. o meu aniversário. o teu. o da mãe e por fim o natal e os anos a repetir sempre os mesmos dias – nada é como antigamente. nunca nada será igual. o mundo é diferente. eu sou diferente. estou velho. conheço a cor da morte. conheço os dias por onde andavas – a minha tarefa está quase acabada. os teus netos já sabem destes lados-nossos. não mais terei de te escrever – nesse dia. nesse dia de sol. de sossego. de paz. em que deixarei de pensar. a boca não será importante. serei só silêncio-paz – partirei sem palavras por escrever – deve ser bom saber que nada mais há para escrever – será bom. eu sem medo 



20/08/2011

combarro



                                                                 foto: david redondo


todos os dias o mar a bater no mesmo pedaço de terra. 

e a terra ali. 

a levar ao mar o ruído das suas gentes graníticas 



16/08/2011

escrever contra o relógio








o dia está triste. o sol não aquece e as palavras não amarram o papel – desesperado. ato uma corda ao pescoço. aperto-a. sem folga. olho a janela. que guarda um som distante. sem nome. encho o peito de ar. peço perdão ao tempo e atiro-me contra o relógio – o momento parecia perfeito para mudar de rumo. passava o décimo terceiro minuto  –  mas o treze já não tem a força do passado. já não traz o azar dos de outros tempos. talvez por lhe faltar a sexta-feira. afinal. hoje é um dia miserável. segunda-feira. feriado católico – sobrevivi. o ponteiro dos segundos não aguentou o peso de um louco obstinado pela escrita – as letras partiram para mais um fim de semana alargado – agora. para ser franco com os leitores. estou preocupado. regredi e. sem compreender a razão. estou supersticioso – deitei sal no canto das mãos. e pendurei dentes de alho ao pescoço – na mão esquerda. uma cruz aponta para um céu de cuja existência desconheço. e na boca. uma dúzia de ladainhas contra o mau-olhado. tirei-as  do livro de são cipriano. dizem que é o único capaz de fazer regressar as almas penadas às profundezas do inferno – não sei se é verdade. no inferno vivo eu e nunca vi nenhuma dessas almas errantes – pode ser coincidência não apanharmos o mesmo autocarro. não fazermos compras no mesmo supermercado. nem partilharmos a FNAC na procura do último best-seller  – talvez seja tudo treta e a culpa seja unicamente da imaginação. que não para de me meter medo. repete-me a cada segundo que não sou capaz de escrever um texto com princípio. meio e fim – estúpida. em vez de valorizar o que é seu. não senhor. deixa-me pendurado de cabeça para baixo num ponteiro que nem é importante. pequeno. frágil. contando o tempo como se este não servisse para coisa nenhuma – segundos serão sempre segundos – bem que merecia um ponteiro de horas. grande. grosso. e imponente. capaz de mudar a vida a cada movimento – talvez isto seja mesmo obra do diabo. talvez pela manhã volte a escrever alguma coisa com pés e cabeça. vou reunir as letras que se extraviaram e. quem sabe. organizá-las de forma que possa voltar a amá-las. possuí-las e engravidá-las de mim


para a minha amiga f: por saberes dar aos meus segundos a eternidade do teu carinho  tempo que nunca acaba – estímulo. ânimo e bondade



11/08/2011

maria bethânia canta "o doce mistério da vida"







queria
tanto 
ter esta fé. queria voltar a ser menino – mesmo que fosse o menino mais pobre. o mais sujo. o mais descalço. o mais esfomeado. o que carregasse a maior cruz. tão pesada que me arrancasse os ossos e a carne caísse no chão em dor. – queria ser um menino capaz de levar esta fé até ao ultimo dia. ao último suspiro – mas não sou – o tempo roubou-me quase tudo – hoje sou homem. não sou rei e adormeço vestido com pesadelos que ainda estão por chegar – necessito de fé. necessito urgente que alguém me leve ao colo e me dê sonhos para brincar. mesmo que seja por uma única noite. uma noite pequenina. com uma única estrelinha luzente. capaz de iluminar devagarinho o caminho ao amanhecer – quando morrer [filhos]. não esqueçam que sempre quis ser criança. sempre quis ter uma pedra na mão que fosse todo o universo. sempre quis ter esta fé de bethânia. deixar uma história com todas as cores que há nas flores – não te esqueças de mim. dá-me sonhos teus para poder continuar a acreditar



[apesar de manipulado o poema de fernando pessoa prefiro valorizar a interpretação de bethânia. na minha opinião fantástica]