18/07/2023

vulnerabilidades - 2


foto - sampaio rego

“nascemos. e automaticamente somos injetados de um vírus. que nos torna adaptáveis ao sistema de valores e regras do mundo que nos recebe. e aos poucos. tornámo-nos repteis. começamos a rastejar entre o que os outros são. e o que não queremos ser” – in eu. e as mil e uma vulnerabilidades

 

11/07/2023

o nosso rei sol: memória viva do max






o nosso max partiu – talvez tenha partido para o céu dos seus. talvez para outra vida. talvez para um outro universo. outra reencarnação. talvez para fazer feliz outra família num outro planeta – em boa verdade nada sei do pós-morte dos caninos ou humanos – o que sei. é que o max partiu sem mais cuidados – obedece agora à lei do universo. a outra dimensão. mas também sei que onde quer que esteja. levou-nos consigo. nós todos. amamos o max. fez parte da nossa família – se me perguntarem a origem do max eu não sei dizer. o meu filho encontrou-o a deambular pela cidade. ou talvez tenha sido o contrário. o max encontrou o meu filho a deambular pela cidade – encontraram-se os dois. e como todas as histórias de encantar. foram amigos para sempre – mas de uma coisa estou certo. o max tinha uma alma verdadeiramente nobre. coisa de realeza. talvez britânica. ou coisa superior. todo ele era feito de etiqueta – era o nosso rei sol. especial por caber dentro de nós inteiro – de porte médio. cor de ouro. e nos olhos. carregava duas lanternas acesas de paz. sempre que o olhávamos aumentávamos o hormónio do amor. a oxitocina. e a conexão emocional ampliava-se. despertava em nós um sentimento de proteção e serenidade – a seu lado todas as guerras no mundo faziam uma pausa – o max era o gandhi do mundo animal. não corria. movia-se com elegância. um gentleman. como se o mundo girasse em camara lenta. e ele. naquele vagar. sabia que chegava sempre a tempo de nos honrar – não ladrava. o que era perfeitamente compressível. para quê ladrar se tudo à sua volta é paz e harmonia – pela noitinha. enquanto eu me escondia no sofá e na TV. o max ali estava. a meu lado. a fingir que dormia. aguardando ansiosamente pela hora do seu biscoito. não usava relógio de bolso. mas sabia que a noite trazia sempre a sua merecida guloseima – recebia-a com gratidão. degustava-a com elegância. e adormecia enroscado em si mesmo. amaldiçoando todos os fantasmas caninos – viveu doze anos connosco. envelheceu connosco. adoeceu connosco. e partiu nos braços do meu filho e da maria joão. em paz por saber que deixou em nós uma saudade imensa – não há forma de evitar sentir a sua ausência – o max trouxe-nos paz. tranquilidade. harmonia. silêncio. o max fez-nos bem. tratou de nós. adocicou-nos – a nossa família ficou mais unida com a sua chegada – o max foi um dos melhores acontecimentos da nossa linhagem. continua a ser. pois continua a deambular em nós – estamos com saudades… do nosso max


05/07/2023

voo de mim até ao chão



foto - sampaio rego

 

"com coragem atiro o corpo aos pés e voo. voo de mim até ao chão e na ligeireza da queda a lembrança do alfaiate voador que se atirou da torre eiffel com a infinitude cega de que não importa o tempo de voo. importa mesmo é voar – eu voo da cadeira para o chão e do chão para a janela arrasto-me como se estivesse a voar – se um dia passarem pela minha rua e virem uns olhos pendurados numa janela... sou eu a voar" in: eu. o max. e o avião


21/06/2023

vulnerabilidades - 1


foto - sampaio rego


então. enquanto a nova pele não adquire defesas. cobrimo-nos com um cobertor que nos torna invisíveis. e caminhamos pelo mundo em silêncio. pedindo apenas pão e água para sobreviver. fazendo rolar as pedras dentro de nós. moldando o cérebro ao desconhecido. amedrontando-o. mutilando-o. dizendo-lhe: cuidado com o que queres ser. podes muito bem cair pela tua escada de caracol – in eu. e a vulnerabilidade


10/06/2023

flor





estou no céu… 

agora. ficarei por aqui 

a exaltar-te de um lado para o outro 

acreditando ouvir 

o rebuliço dos teus saltos altos 

sentindo-te em mim 

numa solidão absoluta 

e é nesta aflição 

que este corpo fantasma 

te espera… 

e também desespera

  

mas quando subires ao céu 

colho-te 

como flor da minha vida 

e guardo-te

para sempre neste paraíso

de luz e estrelas

e quando o inverno teimar em voltar 

agasalhámo-nos um no outro

e desta vez 

ardemos juntos 

fazemo-nos luz 

e seremos para sempre 

a supernova do universo


07/06/2023

caminho


foto - sampaio rego

“aqui ando. sem eira nem beira. a avaliar as incertezas. às vezes a olhar o universo. às vezes a contar os dedos dos pés. com as mãos atravessadas no que julgo certo em mim. a suicidar-me pelo que não sei. sem que nenhum rio me queira levar. sem que nenhum pássaro me queira para descansar. sem que nenhum mágico me queira fazer desaparecer” – pedras 2 – saudade


01/06/2023

xeque-mate


foto - sampaio rego


“escrevo num quase definido. um quase texto – percebi que o tempo apesar de malévolo levou-me ao refinamento do supérfluo – escrevo – avalio o tempo ao segundo de um quase – tenho quase a certeza de que vou acabar este texto um dia – este quase não tem definição. talvez previsão. talvez adivinhação. talvez ilusão. talvez desilusão. talvez alucinação. talvez um jogo de xadrez onde o xeque à vida é diário e o mate é uma certeza absoluta – xeque-mate. e o que há para fazer fica para sempre parado no quase – quase realizei aquele sonho. quase – não sei explicar o quase – passei a vida encavalitado em muitos quase[s] e agora resta-me quase nada”


12/05/2023

viver dentro de um paradoxo


foto - sampaio rego


"tenho de aproveitar o que resta do pôr-do-sol. esconder as sombras dos fantasmas e correr como se ainda não fosse tarde para que a boca não sinta a minha ausência – mas se o corpo cumprir um destino e as pedras do caminho uma ironia sem tino. então… quero desaparecer. quero chorar prostrado o fim desta minha eternidade e que esta enorme realidade termine como se de uma história de amor se tratasse" - in: paradoxo de teseu

 

01/05/2023

manual de sobrevivência do antropomórfico

 



um antropomórfico vampírico é um ser que se alimenta dos outros. uma nova espécie de sugadores. com uma genética própria. este não se satisfaz apenas com sangue. exige também a alma. e. não satisfeito. leva ainda a roupagem com que nos cobrimos – é um bicho malvado. suspicaz e traiçoeiro – um antropomórfico é um copista parolo. uma máquina fotográfica sem negativo. dispara chapas em tudo o que mexe e. logo logo. reivindica como sua criação o que apenas reproduz no seu habitat natural – não podes esperar nada deste ser. é um inerte. não pensa. limita-se a associações copistas. e delírios diabólicos – se aquele humano dança. ele não se limita a dançar. quer mais. quer o estilo. as voltas. os passos. as piruetas. e até o empurrar a testa – será sempre um inerte até ao fim do universo. e jamais se tornará potável. nem assimilável. apresentará sempre organismos virulentos – no mundo animal. este distúrbio genético faz com que. na maior parte das vezes. as rãs nasçam sem pernas e moscas sem asas – junto a um antropomórfico vampírico. ouve-se o zumbido das moscas sem asas e o coaxar das rãs sem pernas – o que devemos então fazer quando estamos na presença de um antropomórfico? devemos sorrir. porque ele não sabe sorrir – devemos falar bom português. ele apenas grunhe – devemos usar o cérebro. o seu é exíguo – depois. ignorá-lo. e agir como se não existisse. desprezá-lo. torná-lo invisível aos nossos olhos. e rodearmo-nos rapidamente de humanos com luz própria – os antropomórficos cegam com quem brilha. um pouco como os vampiros com a luz. e quando menosprezados. rapidamente voltam para as suas catacumbas – só não podes é amedrontar-te. esse medo seria perigoso. fatal. faria de ti o seu alimento. que é o mesmo que dizer que te sugaria toda a energia positiva – a verdade tem um valor incomensurável que um antropomórfico nunca abarcará como premissa universal. ele vive para manipular a verdade. a mentira é o seu oxigénio – aqui fica o aviso para quem se cruzar com uma destas bestas. não tente educá-lo. não tente modificá-lo. não lhe mostre um quadro de picasso. uma escultura de miguel ângelo. ou um poema de eugénio de andrade. jamais compreenderá a arte – não lhe mostre o céu porque prefere manter os olhos no chão – não lhe mostre a felicidade porque vai preferir a inveja. e o maldizer – para um antropomórfico o sol gira à volta da sua cabeça – a estas criaturas assenta como uma luva a história daquele sujeito egocêntrico. que circula na faixa de rodagem de uma autoestrada em sentido contrário. e estupefacto diz:

-- esta malta é doida. estão todos a circular em contramão

um antropomórfico está sempre certo. o mundo é que está todo errado – um antropomórfico é o inerte mais perigoso do mundo


26/04/2023

cavar buraco

 

foto - sampaio rego


“hoje. com o hemingway por perto. estou convencido de que se fosse possível cavar um buraco a partir da minha terra ele daria na américa. chegado lá. só teria que comprar uma arma para matar as palavras. não as que escrevo. porque essas já nascem mortas. as que me habitam na cabeça e que me enganam com esperança” –  in por quem dobram os meus sinos


21/04/2023

inteligência emocional



foto - sampaio rego


na busca pela felicidade. nunca encontro refúgio nos meus pensamentos – estes oprimem-me pela imensidão de informação indecifrável – a mente escarnece sem piedade. como se pensar fosse uma condenação – meu pensamento. despido de sumptuosidade. oscila entre o que fiz. e o que gostaria de ter feito – no passado. encontro sempre algo de errado. e assim. tento corrigir o que ainda planeio fazer – nasce então mais uma dúvida – a felicidade distancia-se. é mais próxima das certezas. uma magnificência que o meu pensamento ainda não alcança – tenho agora a esperança de que a morte. em seu silêncio absoluto. me conceda a felicidade eterna. e sim. finalmente. o pensamento render-se-á ao silêncio das pulsações – e assim. alguém dirá por mim: deixou de pensar. deixou de existir – in deambulações noturnas IX



17/04/2023

o tempo que nos leva. o caminho que deixamos – mais um ano

 



como hoje é um dia especial para os meus filhos. decidi oferecer-lhes esta prosa poética de charles baudelaire – e o que lhes peço. em primeiro lugar. é que reflitam nas palavras do autor. escutem-nas com as janelas da alma abertas – depois. e em segundo lugar.  é que se embriaguem todos os dias com a vida e. principalmente. com a própria presença. para que um dia possam fazer como eu. beber água e embriagar-me com os filhos e amigos – a felicidade é um caminho difícil de se percorrer com pressa. é mais de colocar pedra a pedra. pisá-las com firmeza e com jeitinho – um dia tudo fará sentido 


Embriagai-vos

Deveis estar sempre embriagados. Aqui reside tudo. É a única questão. Para não sentir o horrível fardo do Tempo que vos esmaga os ombros e vos verga para a terra, é imperativo embriagar-se sem descanso.

Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, a vosso gosto. Mas embriagai-vos.

E se por acaso, sobre os degraus de um palácio, sobre a relva verde de uma vala, na morna solidão  do vosso quarto, acordardes de embriaguez diminuída ou desaparecida, perguntai ao vento, à onda, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que roda, a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntai que horas são; e o vento, a onda, a estrela, o pássaro, o relógio vos responderão: “É hora de vos embriagardes! Para que não sejais escravos martirizados do Tempo, embriagai-vos; embriagai-vos sem cessar! De vinho, de poesia ou de virtude, a vosso gosto.

 

charles baudelaire. in poemas em prosa


15/04/2023

às vezes julgo ver nos meus olhos






Às vezes julgo ver nos meus olhos

A promessa de outros seres

Que eu podia ter sido,

Se a vida tivesse sido outra.

 

Mas dessa fabulosa descoberta

Só me vem o terror e a mágoa

De me sentir sem forma, vaga e incerta

Como a água.

 

Sophia de Mello Breyner Andresen 

                     

10/04/2023

pai guinness

 





acredito que todos os pais amem os seus filhos com o mesmo sentimento louco. e absoluto com que amo os meus – este mistério do amor incondicional. transversal a todos os progenitores. irrita-me. digo mesmo. irrita-me profundamente – gostava de ser o pai que mais ama os seus filhos em todo o mundo: o pai the best. the best crazy dad in the world – mas para ter a certeza desta minha loucura persistente. e infinita. precisava que houvesse um medidor de amor. tipo um aparelho. como os da tensão. mas em vez de abraçar o braço. abraçava o coração – começava a encher de amor. a apertar cada vez mais. a estrangular o batimento. a acelerar as palpitações. uma dor boa a invadir os aurículos. e os ventrículos a desfalecerem-se em mel. a pedirem mais dor. no pain. no gain. sem dor. sem ganho. e os números no aparelhómetro a subir. a passar os mil e muitos. e os alarmes a zoar. os pulmões a abafar. as pernas a titubear. os braços a tiritar. os olhos a revirar. a mente a levitar. e o túnel de luz branca a chamar pelo nome: sampaio. vem. caminha. aqui o amor é ilimitado – e o visor diria: acabou de entrar para o guinness como o pai que mais ama os seus filhos em todo o mundo – infelizmente não há nenhum medidor de amor. tenho de viver com esta dúvida constante e aterradora. adaptar-me. aceitar. às vezes contrariado. às vezes irritado. às vezes a consentir a dúvida. às vezes permitindo que a dúvida se sente no coração – aflige-me esta incerteza. aflige muito – mas se. por obra do diabo. aparecesse um pai que amasse mais os seus filhos do que eu amo os meus. o que considero ser impossível. mesmo para satanás. juro que morreria de vergonha. colocaria umas asas de cera. e atirar-me-ia contra o sol. incendiasse. e me estatelasse no chão – morto. como ícaro – ser pai foi uma missão desejada. possível. e fantástica – gostava que um dia o carteiro tocasse à campainha e perguntasse: é da casa do pai que mais ama os seus filhos em todo o mundo? e eu. afinada de orgulho. respondesse: é sim. mas saiba que ainda não os amo o suficiente – ando a ler um livro para ver se consigo amar mais um pouco. já amo daqui até marte. mas quero chegar a saturno. e talvez um pouco mais longe – hoje. dou comigo a pensar. o que seria de mim se não tivesse sido pai. como teria envelhecido? que desculpas encontraria para justificar tamanha estupidez?  os meus filhos são o meu paraíso. é neles que descanso. eles são o meu infinito. são a minha ode à vida – com os meus filhos não me ouço respirar. não há mar a ir e a voltar. nem bem-me-queres a espigar. nem vida depois da morte. morro e ressuscito sempre que os tenho ao pé de mim – não é possível passar este amor para papel. não há dom terreno nem divino. nem arranjo nas mãos. nem figuras de estilo que sustentem tamanho afeto. tamanha dor boa – amar os filhos é uma multiplicação diária. é ofertar o corpo e a alma. é viver em generosidade permanente – escrevo estes textinhos com coração. tento escrever este amor que me arde. tento. mas digo: sou teimoso. mas quando chego ao ponto final. envergonho-me. e digo para mim: não vales nada como escritor. sampaio. se não fossem os teus filhos. então é que não valerias mesmo nada – eles são a tua grande obra. o teu grito de edvard munch. a tua noite estrelada de vincent van gogh. o teu beijo de gustav klimt. o teu carregador de flores de diego rivera. a tua persistência da memória de salvador dali… os meus filhos são a minha guernica de pablo picasso. o meu sorriso de mona lisa. a família de paula rego – os meus filhos são a minha arte. o meu espelho mágico. porque em cada um deles acabo sempre por me encontrar. e digo: eu também sou assim. eu também faço assim. eu também ando assim. eu também olho assim – por esta arte eu levaria seta. bala. ou tiro de canhão – gostava que. depois da minha morte. houvesse uma lápide na parede de minha casa. grande. visível da lua. e que dissesse apenas: aqui viveu um homem que amou os seus filhos mais do que tudo – paz à sua alma

 

05/04/2023

sou-te o quê afinal - amor






amor!

sou-te o quê afinal

talvez um dom quixote

um inventor de camas e palheiros

onde o amor medra como pulgas

onde ejacular é mais forte

do que um barril de whisky

do que um charro afegão

do que uma ereção de cavalo

e me quero dentro de ti?

sim. quero

como quero a chuva no verão

como quero o vento nos moinhos

como quero as gaivotas no mar

e se dentro de ti

nada encontrar deste meu amor

meladinho e tonto

então…

quero morrer

porque quem morre de amor

morre em louvor

  

24/03/2023

esse maldito tempo



foto - sampaio rego

" sou o que o tempo me carregou. e assim sigo. sem promessas. sem mapa. apenas com as pedras que não larguei " in pedras 6



22/03/2023

dia do pateta. que quase é poeta



 

 

que dia foi este o da poesia. fico sempre sem saber se me atire abaixo da janela. ou deixe a canzoada ladrar enquanto a caravana passa – mas é assim. hoje temos dias para tudo. só não temos dias para alguns totós que teimam em dizer que fazem poesia – se mandasse na UNESCO. nessa malta que inventa dias para tudo. hoje seria o dia dos que não escrevem poesia – quem sabe se essa gente vaidosa e tresloucada. antes de começar a escrever. começasse a ler – o primeiro livro que recomendaria seria o da humildade. e não são assim tantas páginas. lê-se de uma penada – quando lemos boa poesia. pelo menos no meu caso. sobe-me uma vergonha por mim acima. fico às portas da morte – depois fico a pensar: o que ando aqui a fazer? deveria ter decoro. sou tão mau – e não estou a ser humilde. sou mesmo mauzinho. vá lá. em vez de mauzinho. talvez seja só refugo – a minha sorte é que anda por aí muita gentinha que nem a refugo chega. e acaba por me salvar. torna-me menos mauzinho entre os maus – eu sempre me neguei a escrever poesia. às vezes faço uma incursão por essa arte. mas depressa volto para a minha prosa. esbaforido.  esfrangalhado. com as mãos juntas. a pedir perdão eterno aos poetas – a prosa protege-me – todos aqueles que sabem juntar as letras são escritores. não importa se bem ou mal. com erros ou sem eles. o importante é ir andando. escrever para reinar no nosso quintal – em prosa podemos escrever dez páginas para dizer o que a poesia diz num verso.  podemos escrever sem parar. contar histórias verdadeiras ou falsas. num papel. ou numa resma. criar hipérboles gigantescas. e com tanto exagero. até acreditamos que chegamos ao olimpo. mal damos por isso. aparece o eugénio. e logo chega o pessoa. e mais a sophia. e quando damos conta somos mais de cem. todos poetas. todos menos eu. que escrevo prosa. e dizem que não é coisa fina – já poesia é que é coisa fina. quem a escreve é poeta. e nem toda a gente que escreve poesia é poeta. a maior parte das vezes é pateta. é malta que não se contenta com um banco e quer um escadote. é malta que começou a escrever há dois dias e já transporta o estandarte de criador de arte – esta malta arrogante. não gosta de poesia. gosta de coisas fáceis. quer gastar as palavras. quer notoriedade no seu quintal. na sua rua. no seu grupo de amigos que também nunca tocou num poema – é muito mais fácil de enganar o parolo. ou a família. que nos ama incondicionalmente – o dia da poesia é hoje comemorado por uns quantos pseudos qualquer coisa.  que nunca leram um poema. que nunca compraram um livro de poemas. que nunca se interrogaram: para que serve a poesia? e a resposta é tão simples: a poesia serve para tornar a nossa vida mais bonita. tornar o mundo mais belo – claro que podíamos dar uma resposta mais douta. mais académica e dizer: “A Poesia é um texto poético, geralmente em verso, que faz parte do gênero literário denominado "lírico". Ela combina palavras, significados e qualidades estéticas. nela, prevalece a estética da língua sobre o conteúdo, de forma que utiliza de diferentes dispositivos fonéticos, sintáticos e semânticos.” – com esta definição de poesia noventa e nove porcento dos que se dizem poetas deixariam de o ser – há hoje uma vaga de poetas que não quer o mundo mais bonito. querem-se a si próprios mais bonitos. tornam-se rapidamente vaidosos. arrogantes. e pouco dados ao recato intelectual. preferem o festão. o karaokê das letras – por isso não comemoro o dia da poesia. comemoro o dia dos poetas. porque esses. não me tentam aldravar. esforçam-se. transpiram. e diariamente lutam por cada palavra. porque sabem que para cada palavra bem apurada. nasce um poema de encantar. e o mundo fica mais bonito

 

21/03/2023

dia mundial da poesia

 

foto - google


hoje comemora-se o dia da poesia. um daqueles dias grandes para a humanidade – mas eu. que não sou poeta. prefiro a festa do pateta. que é quase poeta – será amanhã. e não sendo um grande dia. é este que festejo. pois é este que faz de mim um não poeta. mas um que ama os poetas de verdade