25/10/2022

pedras 5

 




[atena]

“segundo epicuro. para atingir a certeza é necessário confiar naquilo que foi recebido passivamente, na sensação pura e, por consequência, nas ideias gerais que se formam no espírito (como resultado dos dados sensíveis recebidos pela faculdade sensitiva).” – gostava de ter a certeza de epicuro. mas não tenho. nunca vivi passivamente. carreguei pedras que não lembra ao diabo. e quando conseguia livrar-me de alguma. logo tropeçava noutra – o que quero acreditar saber. sem certezas porque nunca as tive. é que as pedras fizeram o meu caminho. pisei-as. suportaram-me. e cheguei até aqui – todo o meu percurso foi feito de sonhos e pedras: os sonhos. imolei-os em resignação. as pedras… são o meu jardim de silêncios – trabalhei o meu próprio destino. mas não me canso de me interrogar: o destino está traçado à nascença? em boa verdade. acredito que o destino é o que encontramos depois da procura – se somos guerreiros. procuramos guerra. se somos agricultores. cavamos terra. se somos poetas. escrevemos poemas. a arte com que desempenhamos a nossa missão nos gratificará. ou punirá – e eu fui o quê? ainda não sei. o que sei é que não sou poeta e não sei fazer poemas. o que gosto mesmo é de prosa. que na maior parte das vezes é coisa idiota. ou um inferno para quem lê. e para mim. o estilista. aquele que liga as letras umas às outras. creio que sou um mártir. sempre que escrevo imolo-me num fogo que arde e não se vê – quando procurei aventura encontrei-a. à medida da minha coragem. quando procurei arte. sacrifiquei-me. à medida do alcance da minha mão. ofereci-me à deusa da sabedoria: mas atena despreza de sonhadores – sei que posso sempre dizer que a arte não se define. e que cada artista. ou pseudoartista. cria a sua arte como bem a entende. ou como a vê. ou a sente. ou como o magoa – haverá sempre alguém que a olhará a nossa arte com sarcasmo. ou piedade. ou alegria. ou tristeza. ou com indiferença. sem nunca perceber que a arte é simplesmente aquilo que tiramos de nós. quase sempre. sem poder acrescentar nem mais uma vírgula. ou um ponto final. apenas porque o corpo não dá mais: a mão não escreve mais. o pincel não pinta mais. o pulmão colapsou. o verbo espatifou-se. e o corpo rende-se à invisibilidade – para a maior parte dos artistas a glória é um abismo sem fundo – é nesta altura que o artista se entrega a uma dor lacerante. que o rasga desde a mão a um imenso que não tem fim. e descobre que a arte. a verdadeira arte. vive apenas no olimpo. ao lado dos deuses. ou dos mestres. e esta. a sua. vive apenas dentro dele – o bem e o mal. o certo e errado. a honra e a vergonha. a sorte e o azar. a família que nos trouxe ao mundo. os amigos que conquistamos. é nesta roleta da vida que um dia apostamos tudo no vermelho. e sai o preto – as forças do universo também são insondáveis – e depois. já com o preto encrostado na pele. em luto profundo. tão profundo que os ecos dos lamentos se escondem no corpo. sorvidos pelos pulmões. pelos rins. pelo fígado. pelo cérebro. pelo pâncreas. ou em algum local que nos deixa surdos. aos poucos deixamos de nos ouvir – e o corpo de tanto calar. em desespero. pede-nos para implodir – colocamo-nos então perto do abismo. um pé na terra. e outro na família. e no céu os abutres evocam-no com gozo para um último grito de covardia – raio de passarada. ignóbeis voadores. ratazanas do ar. quem vos ungiu com óleos consagrados? juntam-se em bando. como se fossem donos do destino. como se os tivesse fecundado e parido por minha vontade – e agora quase mártir. despedaçado pela falta de honra. de bondade. de esperança. de harmonia dentro e fora de mim. o meu imperativo categórico. trazido de kant. ruiu como um castelo de cartas. a minha razão é apenas a minha razão. já não será mais uma lei universal. assassinei-me com o meu próprio punhal. espetei atena no coração – não há mais nenhum tipo de compreensão para um pseudoartista. a sentença é morte por asfixia. tão devagarinho que quando estamos prestes a deixar de respirar ainda acreditamos ser possível recuperar o que sempre esteve perdido: a arte – gostava de saber se escrevo porque penso. ou escrevo para me fazer existir. mas não sei – não confio em nada. porque nunca tive certeza de nada – às vezes esforço-me para acreditar que o tempo fluiu em sentido oposto aos ponteiros do relógio. é quando me olho ao espelho e pergunto: onde está o sorriso da minha criança? perdi-me pelos dias. envelheci. enlouqueci. e aos poucos fui-me suicidando com pensamentos – viciei-me no passado. enleei-me em interrogações. apanhei overdoses de medo. ressaquei com dores. e recaí sempre que me livrava de alguma pedra – apunhalei-me centenas de vezes sem nunca ver uma gota de sangue. e chorei como choram as crianças. sem nunca me ter perdoado – o cabelo é agora branco. os olhos fugiram para trás das pálpebras. a boca já não consegue dizer palavras grandes. e os passos são pequeninos ao contrário das noites – só as interrogações continuam a magoar-me como dantes – a vontade de me estrangular com o que não sei é persistente. gostava de me fazer desaparecer e reaparecer em 2122. acredito que por essa altura a ciência já consiga transplantar cérebros – vivo agora e interrogo-me: sou obra de deus ou do universo?  ou cordeiro num altar dos sacrifícios? ou uma experiência de uma entidade extraterrestre? a angústia capturou a esperança. em resumo. às vezes estou meio morto. às vezes meio vivo. caminho de andarilho para chegar mais longe. num vagar doentio já que ninguém me espera. e peço ao universo uma porta para o que ainda tenho dentro de mim – se um dia ficar gelado. mesmo que ainda não seja a minha hora. juro que aproveito e fico morto para sempre – o tempo sempre foi meu inimigo. correu sempre em direção ao abismo – mas agora. que a distância se torna cada vez mais curta. do que tenho realmente medo… é que um dia chova pedras – freud escreveu que os sonhos noturnos são desejos reprimidos que procuramos realizar. eu já não sonho. vivo apenas cada dia como se fosse o último. e também já não peço arte. peço saúde e paz interior 

 


14/10/2022

pedras 4

 

 


[gaivotas]

a minha única forma de evasão à loucura é a caneta. ou teclas – agora é tudo moderno. tudo tecnológico. tudo numa velocidade enfurecida. com gês para lá e para cá. a fabricar estradas que ninguém consegue ver. e as portas USB escancaradas a vírus que chegam sem se saber de onde. e mais fios. mais wireless. o antivírus a trabalhar como um louco. e o correio indesejado a entrar para SPAM. enquanto os convites para sexo virtual apelam à virilidade de um visa dourado – o corpo carregado de pedras e dúvidas. debruçado sobre letras. a tatear melancolia. e as luminárias acesas. a clarear as incertezas num espaço cerebral vazio de grandeza – juro que gostava de saber se escrevo porque penso. ou se escrevo para me fazer existir. mas não sei – talvez as pedras existam para fazerem de mim um terráqueo melhor. um género de passe para a imortalidade da alma. ou uma passagem energética: quantas mais pedras carregares. mais constelações visitarás quando abandonares o planeta terra. e quem sabe. se as pedras forem mesmo grandes. do tamanho da taj mahal. um dia. terás um planeta sem pedras só para ti – é desta forma que o universo recupera a energia que acumulamos ao logo da vida: lava-nos. purga-nos do erro e das pedras. e depois. acolhe-nos para fazer de nós uma estrela. ou um cometa. ou outra qualquer coisa que vagueie pelo espaço – nada do que escrevo é certo. nada do que escrevo me leva para longe do mundo. ou para outra dimensão. ou planeta. ou me faz renascer – hoje. sei melhor do que ontem que tudo o que escrevo nunca passará de um rascunho. um amontoado de riscos quase inúteis. lixo. digo eu sem piedade – então porque escrevo? escrevo para repousar. para conseguir sossego. para viver o que as gaivotas vivem: surfar o vento. voar entre o mar e os astros. planar o sol. e sentir na pele a imensidão de um mundo azul. redondo. com almas. sol e sal – e ao fim de cada voo. quando regresso a mim. absolutamente saciado do mundo azul. redonda. com almas. sol e sal. enredo-me nas memórias. e ali fico numa desapoquentação absoluta. a trazer à vida todos aqueles que não sou capaz de esquecer – estou algemado. preso às reminiscências. a respirar sofrido. a procurar um atalho que me devolva a serenidade das crianças – e por aqui ando. a recolher despojos da minha guerra. a absolver o erro “da minha culpa. tão grande culpa” batendo com a mão no peito vezes sem conta. afligindo-me. martirizando-me. angustiando-me. gerando dor até que esta se agigante e o erro se torne insignificante – tal como o ulisses se fez passar por mendigo para entrar em ítaca. também eu me farei passar por um ser de luz para entrar no universo – um dia. talvez daqui a um século. esse universo em que acredito. me regurgite novamente neste mundo azul. redondo. com almas. sol e sal. e quem sabe. dessa vez… sem pedras. apanharei uma estrada em vez de um atalho – viver não é fácil. fabricamos toneladas de amor. dia após dia. levamo-lo às árvores. aos animais. às nuvens. às montanhas. aos mares. aos canapés. nas festividades. aos amigos. até aos inimigos em forma de perdão. e quando nos sentamos diante do pôr do sol… chega a noite a galope. e leva-nos tudo: o mundo azul. redondo. com almas. sol. e sal. leva-nos o amor. ficamos solitários. somos o mundo num mundo sem luz. e nenhuma estrela se senta a nosso lado. tornamo-nos mendigos. desabrigados. ficamos tão sozinhos que o universo cabe dentro de nós – só nos resta esperar pelo dia para voltar ao amor. fabricá-lo é sobrevivência    

                

08/10/2022

8 outubro [1924]





no passado. este dia era de festa - a família rodeava a nossa mãe. cantava os parabéns. e pedia uma vida longa - depois. entregávamos beijos. muitos. com sorrisos e carinhos - era um dia bonito. "como direi? era uma família absoluta" reunida em volta de uma mulher absoluta - hoje continuamos uma família absoluta. eu e a maria joão somos agora o estandarte vivo desta família absoluta. e o que peço. é que a nossa memória coletiva seja também ela absoluta. a minha mãe. a vossa avó. a vossa bisavó. foi o esteio absoluto desta família - com a idade começo a acreditar que todas as mulheres são o verdadeiro motivo pelo qual o "mundo pula e avança"  

 

03/10/2022

pedras 3

 




[ao sétimo dia descansa]

 

I.   

em criança. ao domingo. o assado deslizava furtivamente pelo corredor da minha casa-família. *“era uma casa - como direi? - absoluta” – o génio da carne assada. em concertação com a doutrina da igreja católica. e também com a dos meus pais. libertava-se do aparador em folguedo anunciando aleluias: “bendito seja o senhor. que de dia em dia nos cumula de benefícios. salmos 68.19” – assim era a minha casa. de absoluta gratidão: eu. o meu pai. a minha mãe. a minha irmã. o meu irmão. a minha lurdes. todos felizes. todos crentes na senhora do sameiro. e gratos por nos acolher na sua graça e proteção – eram domingos absolutos. numa casa absoluta. num amor também absoluto. com comida melhorada. roupas melhoradas. sorrisos melhorados. e quando nada falta. nem se ralha. nem o pão amarga – a bondade de deus morava na minha casa – eu crescia num quarto enorme: uma cama de bilros parada a norte. duas mesinhas de cabeceira amarradas a dois abajures. e à direita um guarda-vestidos a esfregar-se no teto – a sul. uma cómoda aformoseada com um espelho mágico que. quando lhe perguntava quem era a criança mais feliz do universo respondia: és tu – à esquerda uma cadeira forrada a veludo. e uma janela aberta ao mundo. tudo iluminado por um candeeiro pregado ao teto – era um quarto feliz com uma criança absolutamente feliz. que sonhava sem saber que um dia ia crescer – antes do sino do carmo bater chamamento. já o cheiro à carne assada lembrava que era dia de comungar – depois de percorrer a casa absoluta. divisão a divisão. entra pelo meu quarto. e pé ante pé. toma de assalto o meu sistema olfativo e. delicadamente. desenlaça-me as pálpebras do escuro – as pupilas apanham as primeiras nesgas de luz. o corpo vira-se para um lado. depois para o outro. espreguiça-se até não crescer mais. sorri como quem acaba de nascer pela primeira vez. e abre-se graciosamente como um girassol para mais um dia a medrar

-- toca a levantar. vais chegar atrasado à missa

bradava a minha mãe socorrida pela lurdes

-- menino zé luisinho. levante-se já passa das onze

o sétimo dia era do senhor. e na minha casa as leis do senhor eram levadas a preceito. visitar a igreja fazia parte do cardápio domingueiro juntamente com sustento melhorado. “nem só do pão o homem viverá. mas de toda palavra que procede da boca de deus. mateus 4.4” – já com os olhos acesos de pressa. pulava do ninho e corria em velocidade para a casa de banho. atirava apressadamente duas mãozadas de água para a face. um pente corrido com mestria ao cabelo. e por fim. umas bombadas de laca para fixar a poupa – em espera. aos pés da cama. a roupa domingueira. bem dobrada e passada. a cheirar a sabão e generosidade; aprumava-me ajustando-a ao corpo. calça com vinca. camisa alinhada. e sapato de couro polido a graxa. pronto. bonito e asseado para receber o senhor em mim – de seguida. uma chávena de leite com cevada e uma bucha de pão. e lá ia eu em passo de quem é bem-afortunado – voava em perdão até à casa do meu senhor – mal entrava no templo dava de frente com o meu cristo pregado à cruz. confesso que nunca me habituei à brutalidade daquela imagem. àquele ar sofrido. com os olhos virados para o chão. com uma chapa em cima da cabeça a dizer que era o rei dos nazarenos. e ali pregado com taxas. com espinhos selvagens a magoar mais do que o corpo. e eu sem perceber de onde vinha tanta malvadez – aquela imagem roubava-me a inocência – fazia-lhe então uma vénia respeitosa desenhando com a mão direita uma cruz em mim. cabeça bem encaixada nos ombros. orgulhoso. orgulhoso da minha linhagem. subia até ao altar-mor. ajoelhava-me pesarosamente para o sacrário. onde a píxide. o ostensório. e a eucaristia estavam guardadas. e logo procurava um lugar onde o santíssimo pudesse ver a minha devoção – sentava-me calmamente. e ali ficava estático até que a palavra litúrgica se fizesse ouvir – o sr. padre era um homem de palavra. anunciava a pregação para as onze e trinta. e ao bater da meia. lá vinha ele. sempre com cara de quem era perseguido pelo rei herodes – atrás dele. dois acólitos novinhos que. com as suas túnicas brancas. mais pareciam anjos acabados de sair da cozedura – sisudo. a olhar o chão. ajoelhava-se para onde o senhor estava escondido e. de seguida. abria o livro sagrado – ali estava eu. cheio de fé. sem nada que me pesasse no corpo. nem pedras. nem a consciência. nem pecados mortais. nem omissões – naquele tempo o pecado venial era a minha distração de criança. um palavrão ali. outro acolá. uma mentira à lurdes. uma resmunguice com a minha mãe. mas com o meu pai… não ousava sair da linha. tinha uma mão que parecia uma máquina de lavar. torcia mesmo a frio – velava a missa com devoção. levanta-me sempre que os crentes se levantavam. eles já conheciam o andamento litúrgico de trás para a frente. eu era noviço. mas quando o senhor padre arrancava a plissar com o ato de contrição. e proferia por minha culpa. tão grande culpa. batia com a mão no peito com tanta força que as costelas até rangiam – era um bom miúdo. sem nenhuma pedra às costas. sem culpa de nada. inteiramente crente. já com a primeira comunhão feita. confessado e absolvido por três pai-nossos e duas ave-marias. puro como o branco. e com a alma entregue aos desígnios de deus até ao dia do juízo final – a missa ia andando no seu passo secular. e eu ia fazendo o que era exigido a um bom menino. rezava o pai-nosso. fazia o sinal da cruz com elegância. orava pelos falecidos. pelos santos. pelos infiéis. pelas missões. pela família. pela salvação do mundo. e cobria-me de vergonha sempre que o ministro de deus erguia a hóstia consagrada e dizia: “tomai e comei. isto é o meu corpo que será entregue por vós”. e a sineta. na mão de um acólico. agitava-se a exigir silêncio absoluto – eu também dentro de mim – depois. comungava. sentia deus tomar conta das minhas entranhas. pedia saúde. luz. proteção para toda a família. e esperava ansiosamente pelas últimas palavras do dono daquela gente toda: “ide em paz e o senhor vos acompanhe” – e lá ia eu em passo feliz. agora livre de pecados que nunca tinha tido – hoje. sei que nenhuma criança no mundo é pecadora – acelerava para um assado que não podia esperar. muito menos o meu pai que ao bater da uma hora estava sentado à cabeceira da mesa

 

II.

hoje é domingo. acordo. procurei pelo assado. cheirou-me a pedras. procurei pela minha mãe e não a senti. o meu pai já não vem almoçar há mais de vinte anos. e a lurdes. já não me manda correr para a missa das onze e trinta. sabe que perdi a fé – entreguei-me ao universo. serão as suas forças que me carregarão até a última morada: com fogo vos abandonarei. e em cinzas habitarei o mar – dessa casa absoluta resta-me a lurdes. a conspirar a nosso favor há cinco gerações; tratou dos meus bisavós. avós. dos meus pais. de mim e dos meus irmãos. das minhas sobrinhas. dos meus filhos. e agora é a bisa também dos meus netos – a lurdes ainda mantem a mesma fé. devota da virgem maria. a nossa senhora. a filha de deus pai. a mãe de deus filho. esposa de deus espírito santo – todos os nossos problemas são negociados por ação direta da lurdes com deus. escuta a missa diariamente na rádio renascença. e em troca da sua devoção. pede proteção para todos aqueles que ama – acredito que não haverá ninguém mais influente junto de todo o poderoso do que a lurdes. fala com ele todo o dia. diria que são unha com carne – é a lurdes quem ainda pede perdão para as minhas faltas. jura ao seu deus que ainda sou o mesmo menino. só que envelheci e desencantei-me – este deus da lurdes nunca quis nada comigo. nunca percebi o porquê. nunca lhe fiz nada de mal. mas vá-se lá saber as suas razões. carregou-me de pedras – tempos houve em que acreditava na passagem bíblica - romanos 11.33: “quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis os seus caminhos!” – a lurdes diz que a minha falta de fé é obra do diabo.  coisa de satanás.  que tem mil chifres e mil formas de nos fazer pecar. mas que deus não dorme. está em todo lado. e nunca abandona uma ovelha do seu rebanho – não sei se é ou não verdade. o que sei é que tenho duas hérnias e já não tenho lida para carregar pedras que não mereço – vida severina. o tempo escapa-se de mim. e eu a correr sem saber para onde. como se ainda pudesse chegar a algum lado. como se ainda fosse possível voltar atrás e começar de novo. como se o sino do carmo voltasse a bater o meu nome – nos dias em que me dou ao mundo. olho para as mãos e pergunto: quais são os teus desígnios se o que penso teima em não se fazer palavra? estou agora preso ao universo de aromas. a recordar a minha fé absoluta. numa casa também ela absoluta. a pedir que o sino não bata a defunto enquanto não tiver respostas – preciso de saber se escrevo porque penso. ou escrevo para me fazer existir – agora. começo a habituar-me a viver cada dia como se fosse o último. a resistir. a sobreviver. e por cada raio de luz que colho. desato um sorriso ao universo. às vezes apaixonado. às vezes encantado. às vezes zangado. desiludido também. às vezes apenas por me sentir quase pronto para a invisibilidade. e é quando parto para o lado oposto de mim. e ali fico criança. à espera que o céu me caia nos braços

 

*herberto Hélder


09/09/2022

pedras 2

 




[saudade]

tenho saudade de ser criança. tenho saudade de dar a mão ao senhor meu pai. de me sentar no colo da senhora minha mãe. tenho saudade do tempo em que desejava o que ainda não existia. de querer o impossível. da infinidade do corpo. de me encontrar sem castigos – o tempo voou. e com esse voo chegaram os relógios. os dias. as normas. os valores. os princípios. o amor. a desculpa. a etiqueta. a mentira. a honra. a insegurança. a maldade… e o fim da pureza – tornei-me pecador – a vela do batismo apagou-se. passei a viver entre a noite e o dia. entre o certo e o arrependimento. entre amar os outros e amar o que sou. tornei-me um soldado ao serviço da estupidez. inventei a maior idade. forjei desejos para os castrar com manigâncias. e criei infernos para poder viver o céu – agora. já não desejo o impossível. a minha criança interior é. humildemente. um forasteiro resignado – o que gostava mesmo de saber é se escrevo porque penso. ou se escrevo para me fazer existir. mas não sei. acredito que nunca saberei – agora vivo entre nostalgia e medo. é nesta fraqueza que me sento a escrever. interrogando-me. o que mais virá para fazer de mim um defunto? estou aqui. talvez quase morto. talvez só medo. talvez as duas coisas. talvez… nem sei. estou qualquer coisa. que não sabendo dizer bem que coisa é. digo assim para que me entendam: estou pré-morto – ruy belo no seu poema a mão no arado escreveu: é triste ir pela vida como quem regressa e entrar humildemente por engano pela morte dentro – eu escrevo. sim. é triste – cavei um fosso até ao centro da terra. e é com essa terra que me cubro diariamente – vou de norte para sul. sempre dos pássaros de ruy belo para as minhas gaivotas. sempre de romeu para a julieta. sempre de mim para os que amo ilimitadamente – não se ama muito. ama-se. nenhum amor é demais. por isso me curvo em gratidão para todos aqueles que me ensinaram a amar sem limites – sou um homem perdido de amores. amo os meus pais com saudade. a minha companheira. os meus filhos. as minhas noras. os meus netos. os meus irmãos. os meus amigos. alguns recentes. outros. da minha nascença. amo viver. amo as gaivotas. o mar. os meus cães. e esta sensação de quem ama. às vezes até amo as pedras que carrego – que mais pode um homem viver se não o amor? só a harmonia. os afetos. o perdão. e a compaixão dão sentido à nossa pegada terrestre – beethoven a tocar. a empurrar-me para o tempo dos esquecidos. enquanto as mãos massajam o coração para que não pare sem que o buraco chegue ao outro lado do mundo – pudesse eu ter sido água do rio. e um dia. talvez morasse no fundo do mar – mas não fui água. nem jangada. nem peixe. nem margem para que ao menos pudesse ver a água passar. fui… sei lá bem o quê. fui… às vezes crescido em demasia. outras. parado a olhar a imensidão de tudo o que me rodeava. a interrogar-me. porque há peixes pequenos se o mar é tão grande? carrego o meu próprio destino. e nunca consegui um antídoto para o largar no abismo das coisas sem resposta – somos o que somos. nasci com esta sorte. agora… procurar-me é a minha distração – aqui ando. sem eira nem beira. a avaliar as incertezas. às vezes a olhar o universo. às vezes a contar os dedos dos pés. com as mãos atravessadas no que julgo certo em mim. a suicidar-me pelo que não sei. sem que nenhum rio me queira levar. sem que nenhum pássaro me queira para descansar. sem que nenhum mágico me queira fazer desaparecer – fui por onde atalhei. às vezes como peregrino. às vezes a pé por desgraça. outras a correr por não saber parar sem morrer. mas fui. fui sem nunca perceber que o mundo não pode oferecer a todos o que não chega para alguns – triste destino que me levou como um conto. de pedras me carregou. com atalhos me iludiu – o relógio é carrasco do erro – agora. no tempo que me castiga. só quero saber se escrevo porque penso. ou se escrevo para me fazer existir – somos o que somos. cumpramos então o que somos – o que quero mesmo. sim. o que quero mesmo. é um dia chegar ao mar. mas se nenhum rio me carregar. se nenhum pássaro me levar. irei dependurado num balão. e quando uma onda me exaltar. deixo-me cair até que os olhos se afoguem na escuridão. e se um tubarão me engolir. que me leve em silêncio para o fundo do mundo – preciso de harmonia e paz. preciso de me encontrar novamente com o impossível. acreditar. serenar e aceitar. nada é pior de que um corpo esquartejado de sonhos – estou cansado. sinto as mãos a abrandar. e o corpo a mingar. mas se o meu cérebro tivesse pedais… juro que subia ao santuário da senhora da graça. e quem sabe contar-lhe-ia uma desgraça: falava-lhe de mim e do meu destino. e sem a maçar. mostrava-lhe a gaveta onde me escondo quando me perco em interrogações. fica num baixio. mesmo por detrás do olho esquerdo. ao lado do ouvido. e por baixo da língua. é aqui que todos os dias faço o milagre da incerteza sobreviver ao destino – porque me carregaram as costas de pedras se nem pedi para nascer? estou enfermo. sinto o corpo a bracejar. a resmungar. sinto a loucura a chegar silenciosamente. devagarinho. só para não assustar – e eu por aqui. a pensar. um dia hei de encontrar-me com as palavras e farei o meu epitáfio: aqui. nesta urna de cinzas. vive a única certeza de quem nasce

 

22/08/2022

pedras 1

 





[incerteza]

às vezes gostava de saber se falo porque penso. ou se falo para me fazer existir – não tenho nenhuma certeza verdadeira além da dúvida em que vivo. só o estridor provocado pela passagem irrequieta do ar me faz acreditar que existo mesmo sem pensar – às vezes ouço o mar. e mesmo não o vendo. sei que está algures por aí colorido de gaivotas e sal – às vezes em silêncio ouço-me. mas não me vejo. e pergunto: o que há dentro de mim que fala enquanto a boca se cala. não sei – qual a razão para uma pedra estar num determinado lugar e não noutro? não sei. provavelmente não há nenhuma razão. se há ninguém sabe. eu pelo menos não sei nada do aparecimento de pedras. mesmo daquelas que carrego. nasceram-me nas costas. como uma corcunda – e lá vou eu caminhando na incerteza. carregando a dor das pedras e da voz que se esconde atrás da boca – leminski no seu poema dor elegante fala deste sofrimento:

 

“Um homem com uma dor

É muito mais elegante

Caminha assim de lado

Como se chegando atrasado

Andasse mais adiante

 

Carrega o peso da dor

Como se portasse medalhas

Uma coroa, um milhão de dólares

Ou coisa que os valha

 

Ópios, édens, analgésicos

Não me toquem nessa dor

Ela é tudo o que me sobra

Sofrer vai ser a minha última obra”

 

não sei se vou elegante. sei que vou. vou com a minha corcunda. empurrando as pedras de um lado para o outro para chegar mais adiante – mas não gosto das pedras. pelo menos destas que carrego. das outras nada digo. não são minhas e nada fiz para que existissem. quem as mereceu que se enfade. é labuta sua – e eu aqui a falar das pedras para evitar falar de mim. ou de pássaros. malmequeres. pão com marmelada. água benta. ou desesperança – tanta incerteza – às vezes escrevo. e não sei se o que escrevo é resultado do que penso. ou escrevo para fazer existir o que não consigo trazer à boca – às vezes quero apanhar transporte para as maldivas. e ao fim do dia estou em monção – às vezes saio com uma roupinha levezinha. de verão. e vou sem pensar pelo meio das pedras como se não tivesse saído para lado nenhum. e sem que nada o fizesse adivinhar. o dia cresce para um inverno frio. de enregelar. e é quando penso: precisava de um casaquinho de lã para me aconchegar. ou de um abraço. ou de qualquer coisa que me devolva o calor – é o que a vida me deu. e lá voltam as incertezas. não seria mais fácil ir de avião para as maldivas em vez de me apear numa paragem de autocarro? apesar das incertezas. acredito que um dia apanharei o meu autocarro. e mesmo que não vá para as maldivas. irei para onde me levar – será nesta incerteza que um dia chegarei aonde nunca vivi. levar-me-ei à procura de um mundo que não termine atrás da boca. carregarei o que tiver que ser. e mesmo que o destino se faça numa pedra maior que a lua. dinamitá-la-ei com tudo o que resta de mim – mas se tiver que carregar a pedra-lua até ao fim do que sou. que nenhum ópio. édens. ou analgésicos me iluda com o que nunca tive. eu sou a incerteza maior. certo em mim só o tempo a passar – sacudo-me por dentro e por fora e pergunto: porque vivo neste sufoco de incertezas? darão as pedras sentido à dor que carrego sem elegância? seria o mesmo sem elas? escreveria sem este peso? não sei. o que sei é que ”tenho a verdadeira sensação de mim mesmo apenas quando eu estou insuportavelmente infeliz”* – esta sensação de mim acrescenta-me palavras. pedras e medo. digo. muitas palavras. muitas pedras… e ainda mais medo – não quero um édipo rei para os meus desabafos. mesmo que em cada um deles eu encontre mais incertezas do que dias vividos – viver não é uma tragédia. viver é a intensificação de existir –**“não existe testemunha mais terrível. acusador mais poderoso. do que a consciência que habita em nós”. é esta consciência doentia que me faz trazer para fora da boca o que não consigo guardar. remexendo-me numa agonia absoluta. agitando-me. arrastando-me por cada canto de mim. gritando para lá do que me é permitido ouvir. escrevendo palavra a palavra mesmo quando a boca se contorce em clemência; sei agora que o que não sei escrever nunca existirá – ninguém pode dizer que está vivo se não existir para além de uma boca solta. digo eu. que não sei se falo porque penso. ou falo para me fazer existir – a dúvida é devastadora. envelheço carregado de pedras. como se vivesse dentro da fome com um manjar sobre a mesa – e o corpo preso a uma pergunta horrível. catastrófica na dor: porque me nasceram pedras nas costas? quero acreditar que existam para que um dia. talvez breve. possa despedir-me de mim sem saudade – triste forma de desaparecer – é tudo louco. é este ardor. este fervor. este trepar do feijoeiro malvado que me dá coragem para trazer à escrita o que digo em silêncio – acredito que um dia. mais perto do fim de tudo. quando as árvores já não suportarem o peso leve das andorinhas. possa saber tudo sobre pedras – por esses finais. sei que a delicadeza frágil dos dias iludirá o pensamento. pacificará a culpabilidade. perfumando o caminho com jasmim forte e doce. oferecendo-me um pedaço do universo sem pedras e medo – farei então com as próprias mãos a cova onde me apagarei. oferecerei uma lágrima por cada dia perdido. por cada nome olvidado. por cada noite acesa. por cada estrela fundida. juntarei os pés um ao outro para nunca mais os separar. apontarei os olhos com coragem para o fim de tudo e deixar-me-ei cair para sempre no final deste mundo-pedra – será apenas o momento em que recusarei oferecer mais de mim ao mundo

 

*franz kafka

** sófocles

 

15/07/2022

dia ou noite

 



seis da manhã. a aurora empurra o escuro para a morada dos fantasmas. e interrogo-me: pertenço ao dia ou à noite? bem gostava de saber responder. mas não sei – às vezes é dia e quero que a noite aconteça. outras. é noite e digo: nunca mais amanhece – só quero o que não tenho. e tudo o que tenho não é suficiente para fabricar luz quando escurece. ou sombra quando aclara – por aqui ando a carregar esta gula embriagada de palavras. sorte a minha. um dia morrerei empanturrado com uma hipérbole – que se lixe. prefiro morrer com uma figura de estilo. do que ser atacado por uma faca de dois gumes – escreverei até que os dedos me caiam num caos de silêncio. ou... o meu amor me chame para os seus braços


06/07/2022

o meu avô vive aqui

 




1.

o mundo é uma pintura surrealista. milhares de quadros. todos diferentes. de várias épocas. várias tendências. várias escolas. alguns de mestres. outros de habilidosos. e ainda daqueles que são bafejados pela sorte de uma pincelada de génio – na tela a arte é suportada em cores indecididas. ora com traços largos. ora finos. retos. com curvas para lá e para cá. e riscos que só os espíritos livres sabem distinguir – a fruição da arte foi assim durante séculos. do mestre ao pé rapado. do pré-histórico ao surreal. do renascentista ao naif. todos fizeram emergir o belo. cada um à sua maneira – para aristóteles o belo não pode ser desligado do homem. já que ele está em nós. é uma fabricação humana – às vezes. quando os quadros ficam de pernas para o ar. o artista estica o braço. endireita o pincel. fecha o olho cego. tira as medidas. acerta as sombras com a luz. e desrespeita todas as regras da criação artística: pinta como quer. e como bem lhe apetece. é a sua razão áurea – depois. coloca o quadro de pernas para o chão. e tudo lhe parece certo e colorido – a arte. ou a sua falta. é a sua identidade. a sua liberdade. pinta o que mais ninguém vê ou não sabe ver. e mesmo com um olho cego. é a sua escolha pintar ou borratar – tudo acontece por dentro. e logo aparece um nu se há beleza. um retrato se prefere eternizar a relevância. uma natureza morta porque dos vivos trata deus. às vezes naif. às vezes ingénuo. às vezes mais complexo do que o cubo rubik. pinta a manta com as cores que vão da imaginação ao realismo extremo – e quando dá a última pincelada. assina com miserável desinquietação… um xis. e promete um dia desnudar-se por inteiro perante o mundo critico que o persegue ou com vivas. ou ameaças de manicómio – pintam o agora para que o futuro os veja – cada traço é o seu autorretrato. a cor. o seu caráter. revelam-se de uma forma límpida e autêntica. numa simbiose rara: todos veem a mesma pintura. mas cada um a sente como única – a missão de vida de um artista é sobreviver a cada olhar. a cada leitura. a cada ouvido. a cada parecer. por mais injusta que lhe pareça ser – cada momento pertence a um único homem-talento. esse instante terá que ser obrigatoriamente respeitado e glorificado – o artista vive no seu mundo. quase sempre ausente do mundo comum. assusta reis e plebeus com mostarda pastel. se está zangado. pincela um vermelho irado. às vezes um verde esperança. mas o negro… essa cor de dor e luto. fica para si. é assim que se esconde do mundo – e a paleta de cores misturada ora faz raiva. ora faz luz. ora faz negrume. ora faz uma estrada que ninguém sabe onde termina – às vezes diz apenas: aqui estou eu nesta arte que um dia me levará ao fim do universo – os invejosos dizem que a cor é diferente e impostora. uma trapaça. escura de dia. florescente de noite. como se fosse obrigatório pintar o mundo com estilo – os indiferentes. apáticos. “não sentem. nem sofrem”. desapegados da arte como das pessoas. encolhem os ombros numa neutralidade dolorosa. ignorando as cores e a mensagem – finalmente os determinados. assassinam a obra e o artista com um único golpe de língua. numa indiferença malvada e terrifica. e dos destroços imerge a interrogação: que é feito do negro que me encobre a dor? a quem pertence o meu belo?

talvez por isso eu escreva: para que alguém. um dia. diga em voz baixa – o meu avô vive aqui

 

2.

nunca serei escritor enquanto as palavras não decidirem entre a luz e a escuridão. entre o anonimato e a multidão. e enquanto isso. fico suspenso. sem chão. como quem assina sem saber se existe – um dia. breve. rubricarei o meu nome para uma eternidade qualquer. talvez pequena… talvez grande – ou apenas assim – ninguém o sabe – bem sei que aos olhos dos leitores nada existe para além da arte. o artista é apenas a ferramenta da criação. às vezes ignorado. maltratado e incompreendido. existe como existem as auroras depois de uma qualquer noite. existem – a arte é interpretada a gosto. sem sacrifício. sem tolerância. sem devoção. sem compaixão. sem harmonia. sem contraste. sem visão – cada olhar uma sentença. às vezes morte. às vezes glória. às vezes habilidade. às vezes transpiração. às vezes nada. apenas indiferença. anonimato. vazio – é com a obra que os artistas se eternizam – há também os indiferentes. passam pela obra como quem passa por um espelho coberto de pó – o belo e o seu julgamento em harmonia com a massificação artística tornam-no também popular. a internet é o novo louvre dos pequenos artistas. não sabemos quem nos visita. mas sabemos que vamos por essa autoestrada digital. num silêncio que não magoa – a arte já não sobrevive sem o louvor. necessita de aplauso proporcional ao seu valor – a morte existe para quem cria. só a obra resiste ao tempo. essa sim. imortaliza-se – por isso escrevo. para que se eternize a minha arte. que apesar de menor. me faz existir em cada palavra – um dia. os meus netos dar-me-ão vida a cada leitura. e dirão. talvez em silêncio: o meu avô vive aqui 



27/06/2022

mesmo que não exista glória







não existe benquerença para palavras escritas em esquinas. mesmo que as ruas se dividam em comédia. mesmo que os corvos se façam andorinhas. mesmo que a fortuna prometa salvação para os que caminham em contramão – um dia. em abril. respirei. e assim me fiz até onde nunca cheguei – não sei se respirei pela sapatada no rabo. ou por saber que a minha mãe me carregou nove meses magoados. o certo é que cresci. e assim me fiz até onde nunca cheguei – e agora. mesmo que não exista indulto para quem viveu morrendo. eu existo tal e qual como sou. mesmo que tenha pintado o inferno em cada dedo. mesmo que carregue um corpo apeado. mesmo que me rasgue num silêncio de perdão – não há misericórdia para quem não chegou a lado nenhum. mesmo que os braços se cravem em inutilidades. mesmo que a cidade não acorde quando pranto. mesmo que a sina prometa honra no óbito – e porque um dia respirei. sei que vou para o fundo da terra como os submarinos vão para o fundo do mar – que seja o meu nome castigado pelo que não fui capaz. apenas eu. sem uma única morada para trás. nem mil anos para a frente. que seja o presente a fragrância em desordem – e se amanhã a terra se abrir. que seja engolido de uma só vez. e que o inferno se apague em mim para sempre – nesse dia. talvez de agosto. quero que uma brisa fininha me leve para os braços da minha mãe. e se o que restar de mim se cruzar com o que não fiz. que seja o silêncio esse atalho – e quando a dor se tornar insuportável. que o escuro tome a leveza da alma e me transporte para a morada de uma estrela. que se faça a minha vontade. que a carne desapareça em chamas. e o que ficou por fazer e dizer. se faça em sorte. e noutro mundo. ou não. eu exista dentro de mim – mas que importa o que escrevo em esquinas. se a glória para mim é uma rua sem fim – estou morto. mesmo que insista em respirar. em olhar para onde nunca cheguei – nesta vida que pranto. seja o esquecimento a minha fortuna. o silêncio o meu perdão.  e que de mim… não se fale nunca mais


23/06/2022

que seja eu






num dia de março fiquei sem pai. o mar encrespou. a noite desvairou. e o corpo zarpou para tempos inquietos – mais tarde. em dezembro. perdi a minha mãe. senti-me sozinho. abandonado de tudo. amargurado – mais um ano e perdi a minha cunhada zeza. para no ano seguinte perder o meu sogro – desta vez senti-me no inferno. enfureci-me. a tristeza galgou as margens e a saudade acomodou-se a magoar. e magoou muito – *“uma alegria exuberante (não moderada por nenhuma preocupação com a dor) e uma tristeza intensa absorvente (não mitigada por nenhuma esperança), ou desgosto, são emoções que ameaçam a vida.” – senti-me ameaçado e perguntei-me: que mal me chegará amanhã? parti então atrás de recordações e encontrei uma nostalgia que me fustiga num vagar cruel. absolutamente cruel – apesar da dor trazer habituação e aceitação. também traz confortação e aconchego às lembranças – o medo torna-se persistente e constante. e volto a perguntar-me: quem ainda me falta perder? que seja eu. que parta sem dizer adeus. com velocidade. como se fosse um foguetão. ou um astro que passa sem razão – e lá do sítio. quando a noite acontecer. que seja agora eu a pôr a mão por baixo dos meus borrachos – e nos segredos do universo a recomposição: o papá. a mamã. a zeza. o meu sogro joão.  o meu tio joão. e não sei quantos anjos e querubins. guardiões das preces. a cantar: salve. hosana. nas alturas – o tempo flui. dobra-se. encolhe-se. curva-se. alimenta-se do futuro que há de vir. de mim também. os dias aparecem e desaparecem como navios fantasmas. e a saudade a trabalhar. a martelar. às vezes nos dedos. a magoar. às vezes a vergastar – avelhento. apenas eu e o meu espelho. vou ao passado. e regresso a mim perguntando-me: que missão me trouxe à vida? não sei. talvez nenhuma. ou coisa parecida – sei apenas que a família é a minha morada – “por essa razão, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e eles se tornarão uma só carne - Genesis 2:24” – esta é a minha missão. acredito. senão o milagre dos filhos não tinha acontecido – nada mais em mim me parece útil – mesmo que as vozes na terra me pareçam distantes. mesmo que os olhos teimem em escurecer. mesmo que os braços não abracem nunca mais. aqueles que amo estão sempre em algures no meu tempo – nenhuma família se constrói sem sacrifícios. sem compreensão. sem tolerância. sem respeito. e sem memória – cada um de nós foi abençoado pelos seus antepassados – cumpramos o que somos. nada mais nos é dado


                                                                   -- // --

                    

**Cada um cumpre o destino que lhe cumpre.

 

Cada um cumpre o destino que lhe cumpre.

E deseja o destino que deseja;

                Nem cumpre o que deseja,

                Nem deseja o que cumpre.

Como as pedras na orla dos canteiros

O Fado nos dispõe, e ali ficamos;

                Que a Sorte nos fez postos

                Onde houvemos de sê-lo.

Não tenhamos melhor conhecimento

Do que nos coube que de que nos coube.

                Cumpramos o que somos.

                Nada mais nos é dado.

 

**ricardo reis

*immanuel kant 


29/12/2021

eu. o contabilista. e a pistola do meu pai

 




estaria pelos meus dez anos. talvez onze. mais coisa menos coisa. quando estive prestes a cometer homicídio involuntário. digo eu que gosto de dramatizar mais uma memória feliz da minha infância – o meu pai. apesar de patrão. industrial no ramo de marroquinaria e afins. era também vendedor. corria o país de lés a lés. cidades e vilarejos. nada ficava por visitar. cada peça vendida era um pão na mesa – naquele tempo. as autoestradas não existiam. as estradas principais eram péssimas. com curvas e contracurvas. estreitas e em paralelo – no interior do país. as urbes eram pequenas e rurais. pouco comércio. e ainda menos gente para comprar. portugal era lisboa e tudo o resto paisagem – as deslocações eram estimadas em tempo e não em quilómetros. uma viagem a trás-os-montes começava no primeiro dia da semana. e o regresso acontecia inevitavelmente à sexta-feira – os carros não eram como os de hoje. suspensões de molas. assentos rijos. ar condicionado fazia-se de vidros abertos. e devido à fragilidade dos motores. não era raro ficar abeirado em qualquer canto – não havia telemóveis. assistência em viagem. nem reboques. nem mecânicos. quando um carro ficava empanado no meio de uma serra. a única solução era pernoitar ali. esperar que o dia raiasse. e tentar apanhar boleia num dos raríssimos carros que por ali passasse. ou caminhar a pé até à população mais próxima. e tentar encontrar um curioso em mecânica que o pudesse desenrascar – a vida de vendedor era muito complicada. dura e perigosa – todos os vendedores andavam armados. o meu pai para não ficar atrás também se armou.  tinha uma pistola de 9mm legalizada pelo governo civil de braga e registada na PSP. sentia-se mais seguro. acreditava na intimidação. os meliantes preferem evitar conversas com balas – naquela época era normal os homens fazerem-se acompanhar de pistola. dava-lhes importância. virilidade. e dinheiro. que a maior parte dos vendedores não tinha – antes do 25 de abril todos éramos pobres. vivia-se num país miserável. ainda vivemos – quando não estava em viagem o meu pai guardava a pistola na primeira gaveta da mesinha cabeceira. oculta debaixo dos lenços e meias – sempre que me apanhava em casa sozinho. tal como a produção de hollywood com que somos brindados todos os natais. aproveitava para dar largas à minha rebeldia.  assaltava a mesinha de cabeceira. sacava-lhe a arma e tornava-me no mais cruel justiceiro de todos os tempos – apontava a tudo que era bugiganga. às vezes apontava para um espelho e matava-me a mim próprio. nada ficava sem que levasse chumbo. justiça e ordem era o meu lema – na remodelação da minha casa. feita em exclusivo para o casamento da minha irmã. a minha mãe tinha adquirido uns suportes em talha dourada. coisa fina. confecionados pelo melhor marceneiro de real. um lugarejo à saída da cidade – em cima dos suportes de talha colocou-lhes umas figurinhas em barro pintadas num bronze-dourado. figuras com pergaminhos. cultas: camilo castelo branco. eça de queirós. júlio dinis. lev tolstói. escritores. mais o mozart. para dar ritmo musical ao silêncio dos corredores – mal se entrava na porta da entrada da minha casa dávamos de caras com aquelas figuras. quatro escadas. o eça. mais quatro escadas. o júlio. mais quatro. o tolstói. já no átrio. em frente a uma cardência em talha dourada. o mozart. vigiado por dois anjinhos. pousados em suportes de madeira castanho escuro. quase do meu tamanho. a olharem o chão. como se tivessem envergonhados – no corredor que dava para a sala de jantar das visitas. o camilo. sozinho. excomungado dos seus amigos das letras. não sei se os meus pais tinham alguma coisa contra o homem. talvez por ter vivido em famalicão. talvez por acaso. o que sei é que o deixaram sozinho num corredor escuro e sem nobreza – estas personagens vigiavam-nos dia e noite. faces sisudas. impávidos. com bigodes farfalhudos. com cara de menino. só o mozart.  quando passava por esta elite cultural a vontade era deitar os olhos ao chão. não fossem eles chamarem-me atenção do meu desempenho escolar. que naquela época até nem era mau – os meus pais adoravam aquelas estatuetas. acreditavam que davam ao lar um ar mais secular. e tornavam os seus moradores mais eruditos. mais cultos. e creio também. que no seu íntimo. acreditassem que seriam uma motivação extra para mim. quem sabe. amarrar-me-ia aos livros e acabava doutor dos dentes – o grande sonho da minha mãe era que eu fosse dentista. havia poucos e dava muito dinheiro – não fui eu. foi o seu primeiro neto. – os desejos das avós acabam sempre por serem cumpridos – tem agora o meu filho do meio. pedro. que cumprir uma promessa que lhe fez antes de nos abandonar e juntar-se ao meu pai para a eternidade – as promessas são feitas para se cumprirem – sempre que tinha a pistola à mão um desses homens cultos falecia com um tiro certeiro na testa. nos dias em que estava mais revoltoso e com mais pontaria. era uma mortandade de escritores. a cultura ficava cravejada de balas imaginárias. nem o camilo. escondido no corredor. escapava – felizmente nunca dei um tiro a sério. se o tivesse feito. a minha mãe ter-me-ia partido a cabeça com uma chapada mais certeira do que as minhas balas – quando já não havia mais nada para abater. voltava a guardar a pistola no mesmo lugar. com a promessa de que voltaria noutro dia para continuar a luta contra as forças do mal – um dia. o contabilista da empresa. o senhor leites. veio para a minha sala de jantar com os livros de contabilidade. pelos vistos estavam os fiscais das finanças a conferir as contas do caixa – naquele tempo. os números apagavam-se com lixivia e mata-borrão – era o que estava a fazer. a apagar o rasto de uma qualquer venda feita sem o imposto de transação. mais tarde IVA – se ainda houvesse lixivia nos nossos dias o sócrates não tinha ido morar para évora – o senhor leites estaria na casa dos quarenta anos. magro. e coxo para caraças. a arrastar a perna. equilibrava-se numa moleta. tinha uma doença degenerativa. creio que esclerose múltipla. anos mais tarde foi obrigado a reformar-se. acabou numa cadeirinha de rodas. mas por milagre divino ou sorte. a doença estagnou. pelo que sei acabou por falecer de velhice – estava então o homem concentrado nos números. atarefado. com os olhos pregados nas rasuras. quando me lembrei de lhe pregar uma partida – vou buscar a pistola. que para mim era a maior arma de guerra do mundo. e entre a sala de jantar diária e o corredor havia uma cortina. coloco-me atrás de um daqueles folhos aveludados. amarelo torrado. abro uma brecha. aponto-lhe a pistola. e com voz de bandido digo-lhe:

- sr. leites. mãos ao ar. dinheiro ou vida

o senhor leites nem lhe passava pela cabeça que a pistola era real. e num repente de quem não tem vagar para a miudagem responde-me:

- ó menino. não quero brincadeira. preciso de silêncio. isto é um trabalho de responsabilidade. o seu paizinho está à espera dos livros

não fiquei nada satisfeito com a resposta. esticando ainda mais o braço para o interior da sala. engrossando a voz como se fosse um mafioso italiano. voltei a dizer-lhe:

- mãos ao ar. o dinheiro ou a vida

o senhor leites olha para a pistola. esbugalha os olhos em pânico. levanta-se de supetão. encosta-se à parede de mãos no ar. e completamente desfigurado pelo medo. a gaguejar. implora pela vida

-ó zé luisinho. ó zé luisinho

eu estava deliciado. divertia-me à brava. senti-me o maior bandido de todos os tempos. al capone era um menino ao pé de mim – saio de trás da cortina e começo a dirigir-me para o senhor leites. muito lentamente. com cara de quem ia dar fogo. contornando a mesa passo a passo. enquanto o senhor leites recuava. passo a passo também. suplicando que não disparasse – o senhor leites recuava. eu avançava determinado a não o deixar sair dali com vida. e o homem cada vez mais próximo da porta da sala não se cansava de dizer:

- ó zé luisinho. ó zé luisinho. ó zé luisinho

quando se apanha junto à porta desata a correr pelo corredor em ais desesperados e aflitos – qual coxo. qual quê. o senhor leites meteu a moleta debaixo do braço e correu pelas escadas. voou pelas escadas abaixo. gritando sem parar:

ó zé luisinho. ó zé luisinho

quando acabou de bater a porta fiquei com a ideia de que as estatuetas estavam todas numa galhofada. desde que tinham entrado em minha casa que não tinham tanta diversão. até os anjinhos levantaram a cabeça dos seus pedestais – eram eles e eu. feliz e divertidíssimo. afinal tínhamos todos presenciado um milagre. o senhor leites tinha deixado de mancar. já não precisava da muleta – entrou na fábrica mais morto do que vivo. com ar de quem tinha sido cravejado de balas. dizendo ao meu pai que nunca mais ia lá para casa. eu era doido barrido – era mesmo. um doido brincalhão e malandro – nunca mais veio apagar contas com lixivia para minha casa. o que me fez acreditar que desempenhei muito bem o meu papel de vilão. estava orgulhoso – claro que eu era uma criança. mas sabia muito bem o que estava certo ou errado. e também sabia que aquela brincadeira ia ter consequências. o meu pai ia dar-me uma coronhada com a pistola. e não seria a fingir – felizmente o meu pai percebeu que nunca deveria ter deixado a pistola à mão de uma criança. voltou a casa mais aliviado por o filho não ter disparado a sério. do que zangado – levei um sermão. disse-me tudo aquilo que um pai deve dizer a um filho em relação às armas. mas tudo acabou em bem. não houve violência física. apenas um raspanete – houve uma memória que guardei para sempre. nunca existiu o perigo de eu puxar o gatilho da pistola. nunca mesmo. tenho isso ainda hoje bem presente. tinha dez ou onze anos. mas correspondia a quinze ou dezasseis dos dias de hoje – as crianças daquele tempo não eram como as de hoje. vivíamos na rua. no meio de camaradas mais velhos e experientes. era normal pregarmos partidas uns aos outros. não havia computadores com jogos violentos. corríamos atrás da bola e chegávamos a casa cansados e felizes – sempre adorei pregar uns sustos valentes. ainda hoje adoro – sei de uma coisa. era um miúdo com luz. alegre. a querer crescer rapidamente – os dias naquele tempo precisavam de ter quarenta e oito horas para tanta vontade de viver – talvez não chegasse


26/11/2021

eu. o primeiro desejo. e o meu pai

 






ainda não teria chegado aos meus dezasseis anos quando o desejo de ser pai se tornou em mim persistente – durante a adolescência só me recordo de ter dois desejos: ser pai. e tirar a carta de condução – não sei qual deles nasceu primeiro. talvez deva aplicar um dos maiores enigmas da humanidade: quem nasceu primeiro. o ovo ou a galinha? sei que o primeiro realizado foi o da carta de condução – no dia em que fiz dezoito anos. feliz por atingir a maioridade e poder finalmente fumar à frente do meu pai. apresentei-me na porta da escola de condução serra. em braga. e meti os papeis para conduzir automóveis ligeiros – estávamos em abril. e a 29 de agosto. fiquei aprovado. deram-me uma guia para a mão que me autorizava a conduzir até moscovo e votos de boa sorte – e lá fui eu. encartado e sorridente. a correr pelo mundo que imaginava tão grande quanto o sonho de um jovem – uns meses antes já o meu pai tinha comprado um NSU TT. em segunda mão. e por gentileza sua. foi só lotar o carro de amigos e arrancar para aproveitar o que restava do verão – a praia da apúlia fervilhava com miúdas em bikini. e nada como um tipo encartado para captar a sua atenção – há coisas que é impossível esquecer por mais anos que se viva – nesse dia ao meu pai que ia passar o fim-de-semana à praia. depois de uma pregação dolorosa para que conduzisse com cuidado. tirou a carteira do bolso. e num sorriso preocupado pediu-me cautela com a velocidade. e passou-me para as mãos cinco contos – era muito dinheiro para a época – depois. de cima dos seus cinquenta e muitos anos. disse-me: sei que irás ter um fim-de-semana agitado. com muitas voltinhas e folia. vais precisar de um reforço monetário para a gasolina. mas também vais  precisar de muito juízo. e a ladainha renovada com cautelas para os excessos – já o disse milhentas vezes. mas nunca será demais. o meu pai era um ser humano extraordinário. raro para a seu tempo. e também com um raro talento para compreender os jovens – todos os meus amigos gostavam do meu pai. sempre que apanhava um a jeito aproveitava para contar umas larachas. ou futebol. ou política. o importante para ele era falar. falar até se cansar – nada o fazia mais feliz do que uma boa conversa – sempre foi um jovem. bom. envelhecido numa paz tranquila. conquistada com muitos sacrifícios e perseverança – certo dia estava eu nas aulas noturnas no liceu d. maria II quando irrompeu pela porta um amigo. aflitíssimo. a arfar. com os pulmões prestes a saltar pela boca. ofegante e aflito. lá foi dizendo: a… fábrica… esta… a arder – saltei em fúria da carteira. corri pelos corredores como se fosse o carl lewis numa final dos cem metros. atirei-me para dentro do carro e arranquei a alta velocidade. ignorando sinais de trânsito e semáforos. assustando cães. galinhas e gatos – em pouco mais de dois minutos estava ao lado dos bombeiros – em simultâneo. um outro amigo avisava o meu pai. estava no centro da cidade. numa loja comercial. a entreter a funcionária com dois dedos de conversa – tal como o amigo que me levou a nova ao liceu. também este chegou ofegante. o batimento cardíaco nos limites. os pulmões desafinados. prestes a estoirar. e em dificuldade dirigiu-se ao meu pai: sr. lopes. a empresa está a arder. mas os bombeiros já estão a combater o sinistro – contra todas as espectativas o meu pai respondeu-lhe calmamente: ai é. isso é que é mau. vamos então ver o que se passa – e vieram a pé até à empresa a falar das coisas triviais. como se nada de anormal estivesse a acontecer – no dia seguinte não se falava de outra coisa entre os meus camaradas de rua. e todos chegaram à conclusão de que quem estava certo era o senhor meu pai. afinal os bombeiros estavam a combater o fogo e a presença dele. ou de quem quer que fosse. naquela fase. nada adiantaria ou alteraria o combate às chamas – ao contrário do meu pai eu vim feito parvo. a alta velocidade. à mercê de um acidente grave. a pôr em risco não só a minha vida. mas também a de todos que se cruzavam comigo. e em boa verdade. não contribuí com absolutamente nada. não apaguei uma única labareda. o que fiz. foi observar os que tinham o saber e os meios para dominar as chamas – felizmente tudo não passou de uma pequena fogueirinha na zona administrativa. e ao nascer do dia já tudo estava a funcionar normalmente – o meu pai tinha uma notável capacidade de manter a calma em situações de crise. só mais tarde percebi que este tipo de comportamento estava intrinsecamente ligado à forma desprendida como encarava os bens materiais – o importante para o meu pai sempre foi estar próximo das pessoas. independentemente do seu estrato social. ou extrato bancário. para todos tinha uma vénia. a todos oferecia um sorriso – gostava de ser patrão porque o aproximava das pessoas. com todas aprendia. e a todas dava o melhor de si: alegria. bondade. respeito. humildade. e esperança – as pessoas eram o melhor do mundo e estavam sempre nas suas prioridades – o meu pai nunca despediu um trabalhador. por muito mau que fosse ele encontrava sempre alguma coisa de bom. e mesmo que não tivesse nadinha que o recomendasse. tinha família. tinha os filhos que dependiam do seu soldo. a mulher era uma desgraçada e trabalhava como uma moura para alimentar a família. havia sempre alguém. e quando tudo ruísse. ainda recorria a outro expediente. quem pediu para o empregar foi fulano e sicrano e não é correto despedir. ou devemos consideração. ou outra coisa qualquer mesmo que viesse dos confins do espaço – quem ficava sempre com o papel difícil era a minha mãe que tinha mesmo que despedir uma pessoa que não se adaptasse àquele tipo de tarefa. e por isso sempre ouvi dizer que a patroa é que era lixada. estou a ser contido na linguagem. mas o sr. lopes é que era uma joia rara de pessoa – e era. o meu pai era mesmo uma joia rara. descendia de uma família riquíssima. monárquica. com médicos. militares e padres. alinhados com a aristocracia bracarense. era nestas artes que a importância de uma família se fazia notar: cura do corpo. da alma. e redenção pela guerra – com a instauração da república perderam tudo – o meu avô fundou um periódico monárquico. e por via dessa sua opção política. sempre que os republicanos tomavam o poder era preso. e solto quando os monárquicos reconquistavam os domínios da nação – um certo dia foi de vez. e a república solidificou-se. e os negócios da família passaram para as mãos dos recém-chegados ao poder – aos dezassete anos o meu pai estava pobre como job – encontrou então emprego numa mercearia no porto. fazia entregas ao domicílio dos clientes. tantas vezes me contava de quanto lhe custava subir a rua do almada com uma caixa às costas de arroz. batata e feijão – mais tarde trabalhou nas minas da borralha. depois como estava um pouco acima dos seus camaradas em gestos e limpeza foi para rececionista do grande hotel do gerês. mudou-se para o balcão da torrefação bracarense. uma casa de comércio de café e bebidas. e encontrou a minha mãe. modista e dona do seu nariz. mas acabou por levá-la ao altar – encontra trabalho num cunhado. um grande retalhista de loiças na cidade do porto – começa a sua nova arte e vocação. vendedor. nos dias de hoje comercial. onde rapidamente se destaca pela sua afabilidade e sorriso – cria o seu negócio de retalhista em braga. e com imensas dificuldades. com a ajuda da minha mãe. criam primeiro um armazém de louças e mais tarde uma empresa de sacos de viagem – estávamos no período da migração para as províncias ultramarinas – com o começo da guerra do ultramar. angola. moçambique e guiné-bissau. veio a mobilização das forças armadas portuguesas. eram precisos soldados para defender o território dos turras – esta deslocação de pessoas e mercadorias impulsionou rapidamente o negócio ajudando ao desafogo financeiro. ninguém viajava sem comprar sacos e malas – foram mesmo assim momentos difíceis e de muito sacrifício. sem capital e sem ajuda de ninguém. o dinheiro era coisa rara. e o estado falido e forreta – a solução passava sempre por virar fatos do avesso para aguentar mais uma estação. caminhar com as solas dos sapatos esburacadas. calças remendadas. e muita contenção nas despesas familiares – o tempo foi passando. o meu pai em viagem constante pelo país e províncias ultramarinas. a minha mãe a trabalhar de sol a sol presa a uma máquina de costura. e eu pelas ruas a consumir o tempo – com muito esforço conseguem erguer uma empresa desafogada e amealhar uns tostões. devolvendo ao meu pai a honra da família. e principalmente uma paz grata à vida – sempre que alguma coisa corre mal na minha vida. é das memórias dos meus pais que me socorro. é o seu exemplo de resiliência que me faz acreditar que um dia também serei grato à vida – resisto estoicamente aos milhentos apelos da alma a pedir que desista. resisto porque sou obrigado a resistir. porque sou seu filho. porque sou a continuidade da história. sou mais uma página de um livro que não sei quando terminará – aprendi a caminhar com fé. afinal eu sou filho do meu pai. e se ele se encantou com a vida. também eu me encantarei. um dia serei também refúgio nas amarguras dos meus filhos – viver é bom. saber de onde venho é uma dádiva. e saber para onde os meus filhos irão. a minha única preocupação. a única razão válida para nunca desistir de conquistar também eu a minha paz. a minha tranquilidade. tudo a que tenho direito e mereço nesta vida – assim foi. o carro não parou um segundo. corremos as praias todas das redondezas. numa alegria de que tenho saudades. ainda não sabia que envelhecíamos. ainda não sabia que nos tornávamos cotas preocupados com o futuro – assim passei dois anos. com o carro sempre a girar e a vida a acontecer num deslumbramento de liberdade. com milhentas peripécias. e a dúvida a roer-me por dentro: aventurar-me pelo mundo ou dedicar-me por completo ao negócio da família – estava a caminho dos vinte anos quando pela noitinha fomos guardar o carro do meu pai numa garagem no centro da cidade. caminhávamos calmamente em direção a casa. quando o meu pai me chama atenção para a necessidade de acalmar. na sua opinião não era bom para a saúde não dormir. passar os fins-de-semana fora de casa. tinha que me dedicar mais ao trabalho. e quando parecia que não tinha mais nada a dizer. sai-se com esta

-- porque não te casas. tens uma miúda gira. boa moça. acredito que te faria bem

desde então nunca mais tive paz. as palavras do meu pai não me saíam da cabeça. sabia que tinha razão. eu precisava de desacelerar. focar-me mais na nossa empresa. tornar-me mais empreendedor – o meu pai acreditava em mim. os primeiros dois anos tinham revelado sinais de ambição. e tinha planos para fazê-la crescer – a esta ambição profissional juntava-se outra que não saía do pensamento: ser pai – há coisas que surgem sem sabermos de onde vêm. mas este desejo de ser pai compara-se a um apelo interior para seguir uma vida consagrada. recolher-me num mosteiro. ou partir para a áfrica em missão – era tão presente em mim que era impossível afastar-se do pensamento. queria ser pai porque achava que nada no mundo poderia ser melhor do que ter algo que não sendo nosso em definitivo. lança-nos num amor incondicional. um filho é sempre mais do que o pai. é o melhor de mim levado à imortalidade – nunca encontrei nada que me desse mais satisfação do que ser pai. não houve um dia em que me sentisse cansado ou desiludido – lembro-me que quando ficava doente. nada de grave. acreditava ser possível morrer de uma amigdalite. o que me atormentava mais era morrer sem ser pai. era uma agonia – casei-me aos vinte anos e fui pai aos vinte e um – tinham passado dois meses da boda já eu andava de cabeça perdida por a maria joão não engravidar – de imediato comecei a imaginar cenários: sou infértil – nunca me passou pela cabeça que o problema estivesse na minha companheira. não. o problema era eu. sempre eu. de resto todo o mundo era belo. perfeito e saudável – no dia em que nasceu o luís. tudo mudou. o meu mundo mudou. foi como se a juventude tivesse desaparecido no ar. como se um buraco negro tivesse sugado toda a leveza da alma – passou a acompanhar-nos para todo o lado. não havia um único momento em que não estivesse ao meu lado. tornou-se a mascote dos meus amigos. e mesmo nos fins-de-semana de montanhismo. com dois anos e pouco. já ele subia às costas dos meus amigos pelas montanhas – tornou-se adulto rapidamente. e continuou a subir montanhas ao longo da vida – é um rapaz fantástico. todo do avô. bom. honrado. um pai excecional. com uma companheira feita para ele. que é quase tão minha quanto dele. primogénito. amigo. protetor e líder. com a medida certa para o materialismo – tenho a certeza de que os seus avós estão orgulhosos. e por mais que nos tentem dizer que não devíamos ser assim. por vezes ingénuos. tolerantes. aldrabados. parvos. cansados da ingratidão. não podemos renegar o que herdamos por linhagem – somos de onde vimos. e assim iremos continuar. somos boas pessoas e continuaremos a ser nem que o mundo se vire de pernas para o ar – estou grato desde o dia em que chegou. e mais grato fiquei quando chegaram o pedro e o joão – a minha casa-família é um verdadeiro conto de fadas. eu faço parte desse conto. tal como os meus pais  



29/10/2021

eu. e o confinamento II e III







1. paz depois do medo

as cadeiras certas em volta da mesa. e eu a contá-las. uma. duas. três. quatro. cinco. seis. sete. oito. nove. dez. onze. e duas guardadas com saudade – quando voltaremos a ocupá-las? o dia igual à noite. e a noite igual ao dia. e os olhos acertados com o que é importante: a minha casa-família – pergunto-me: o que trouxeste ao mundo nesta vida? por onde caminhaste? aonde chegaste? ainda não tenho resposta. mas sinto-me em paz. acredito que o melhor de mim ainda está para chegar – se eu tivesse experimentado esta paz em miúdo. talvez nunca tivesse envelhecido cansado e atormentado – um homem em paz é infinitamente mais generoso – a cuca e o max confinados aos meus pés. como se o mundo dos caninos vivesse também uma pandemia. a fitarem-me os olhos com um sossego absoluto. a perguntarem-se: porque está ele ali sentado se o sol está no ar – tantas vezes invejei a sua vida tranquila. tantas vezes me interroguei: porque não fogem para a liberdade? porque aceitam este cativeiro a troco de uma malga de comida? a resposta é simples: por amor. gostam de mim. adotaram-me. mesmo sabendo que caminho em duas pernas hesitantes – eu também estou confinado por amor. amo a minha família. os meus amigos. os meus cães. amo até as pombas que diariamente pousam no beiral do meu terraço a troco de umas migalhas – amo o mundo apesar dos os seus paradoxos e imperfeições – como poderia desafiar esta doença maldita correndo o risco de perder todos aqueles que amo? não podia – preciso ainda de fazer tanta coisa. preciso de alcançar a honradez do meu pai. preciso de continuar a ser pai. avô até que os ossos cedam. até que o coração se canse e morra enlaçado em saudade – tenho absoluta necessidade de morrer de amor. assim como píramo e tisbe. romeu e julieta. ou pessoa e ofélia. não importa como parto. desde que parta numa viagem de amor. se possível perfeito – “se queres ser [um amor] perfeito. vende o que tens e dá-os aos pobres – depois segue-me – não leveis nada pelo caminho. nem bastão. nem alforge. nem uma segunda túnica”. crente ou não a bíblia é um bastião de saber – a felicidade encontra-se na humildade. na simplicidade. no sorriso. na bondade. no silêncio e na contemplação. diria. nas coisas mais simples – o belo emerge do nada sempre que nos despojamos do supérfluo – quero um amor perfeito como promessa de vida eterna – talvez os meus cães vivam comigo um amor perfeito. despojaram-se do supérfluo. vivem sem bastão. sem alforge. e sem uma segunda túnica. vivem em paz plena – agora tenho a certeza de que são eles que me invejam. e se interrogam: porque não corre ele pelo mundo fora? porque tenho o meu prato de comida. a minha malga de água. as cadeiras que conto por amor. e a certeza de que se ocuparão de alegria muito para além da minha vida terrena – amar é ressurreição. e o único caminho para a imortalidade – só me falta deitar no chão. ao pé dos meus amigos mais fiéis. dar duas voltas sobre mim. enroscar o corpo. e fechar os olhos num vagar doce e sossegado. e se alguma coisa me aborrecer. liberto um latido mimado. ou rosno com ferocidade. de seguida. volto a enroscar-me e adormecer com o melhor da vida: paz – nesta brevíssima passagem por este mundo complexo. podemos comprar tudo. podemos viajar. ir ao cinema. à discoteca. ao restaurante. agora até já se pode ir ao espaço ver as estrelas de mais perto. mas a paz… a paz verdadeira… não se pode comprar. é preciso procurá-la. conquistá-la. trabalhá-la. encontrar um espacinho dentro do corpo. mesmo que pequenino. e depois aconchegá-la às memórias. e quando olhamos para trás. percebemos que a juventude acabou. percebemos que as rugas e os cabelos brancos são a contagem do tempo – o confinamento deu-me essa oportunidade. arrumei o que há muito tempo estava desarrumado.  empilhei tudo a um canto dentro de mim. e instalei pela primeira vez a paz no corpo por inteiro – foi muito bom ter encontrado essa paz. confesso-vos. foi mesmo muito bom. fui feliz. feliz como se fosse um catraio – como é bom viver com paz e luz – só os cristais ficaram foscos. sem brilho. zangados penso eu. talvez adivinhassem o fim das festas. das visitas. do champanhe. do reboliço e das conversas vazias. tudo o resto numa calmaria bela: telefone. campainha. TV. despertador. tudo num marasmo absoluto. como as manhãs de sol nas pradarias. com aquele ar pejado de silêncio-calmo. e o vento escorrido das montanhas a tombar as searas para o lado certo da vida – está tudo parado em minha casa. eu também. faço companhia aos relógios. sem corda a meu mando. sem que um único ponteiro possa correr pelo meu novo tempo – e eu ali sentado. a olhar a minha maria joão. mais minha do que nunca. e a interrogar-me: o que verá em mim agora que nos escondemos do mundo – eu sei. paz. paz como nunca tivemos – nascemos e logo nos ensinam a juntar coisas. a procurar ser o melhor na escola. depois chegam as melhores notas. a melhor criança do mundo. chegam os louvores: é um bom rapazinho e muito inteligente. ainda não perdeu um ano – depois. a barba chega. em passo acelerado chega também a vaidade. e já tem carro. e tem amigos que nunca mais acabam. e o sucesso à medida de cada mente infetada. agora mais uma viagem à volta do mundo. e férias nas maldivas. e depois no japão a degustar um peixe fugu. e uma foto em áfrica abraçado a uma hiena que não para de rir à gargalhada. para de seguida mergulhar no oceano à procura do tesouro do pirata das caraíbas. e agora só quero chegar à lua e pôr um pé em marte – mais isto e aquilo. e ainda mais. e quando não tinha imaginava ter. amanhã levanto-me e faço isto. e depois aquilo. e mais não sei o quê – tudo isto deve chegar para dar mais duas voltas ao mundo – foi preciso uma pandemia para compreender que afinal tudo o que quero está dentro da minha casa – a pandemia trouxe-me o medo e o desespero. mas também a sabedoria para compreender que é nas coisas mais simples que existimos com verdade e paz – nada do que pudesse ter comprado ou amealhado se compara à paz de estar naquele sofá. mesmo desaparecido em medo e rezas – encontrei o que tinha perdido com o crescimento. ouvi pela primeira vez em muitos anos o meu silêncio. encontrei uma paz que nem sabia existir. e vivi o tempo em pleno. sem que um único relógio assinalasse o meu envelhecimento – se com a morte alcançar esta serenidade. então… estou pronto

 


 2. confissão


confesso que nunca fui tão feliz como em todo o tempo que estive confinado – bem sei que muitos foram obrigados a trabalhar e a colocar a sua vida em perigo para que eu pudesse estar a salvo do covid-19 – a todos esses heróis o meu obrigado eterno – também sei que muitos milhares de pessoas perderam os seus negócios. as suas casas. o seu emprego. famílias inteiras ruíram. e como sempre as crianças são as que mais sofrem. para não falar no isolamento dos idosos. meses a fio sem um único abraço. sem verem uma única face familiar – foi tudo muito mau. o nosso mundo não estava preparado para esta maleita. diria que a pandemia foi a nossa terceira guerra mundial. desta vez. infelizmente. não nos foi possível declarar neutralidade. tivemos baixas em combate. muitas. foi tudo aterrador e angustiante – àqueles que estiveram doentes e principalmente aos familiares daqueles que pereceram. o meu lamento sincero – felizmente a covid-19 não passou aqui por casa. também é verdade que tudo fizemos para que a maldita não tivesse qualquer oportunidade de continuar a sua propagação. mesmo assim. acreditamos que na vida é sempre preciso uma pontinha de sorte. nós tivemos essa sorte. e estamos gratos por isso

 


14/10/2021

eu. e o confinamento








1. silêncio-pânico

aqui estou neste ano de 2021. no meio de uma pandemia. com o mundo suspenso em medo. enterrado em máscaras e morte. e eu a sobreviver aos dias para a imunidade de grupo. para uma liberdade falsa. tão falsa como todas as supostas razões que procuro na rua para alimentar a alma de alegria – as ruas desertas de medo. e eu em casa a contar as mortes pelo mundo. agora mais mil. agora mais uma cidade. e mais um país. e a TV em pânico. a dizer que a covid-19 pode chegar até pelo ar. ou quem sabe pelo olhar. e eu escondido. fechado numa casa a cadeado. a contar os dias em saúde. a resistir ao medo. ao fim do mundo. e a cabeça a lamentar tanta coisa que deixei por fazer. a lembrar os amigos: quantos abraços ficaram por dar. quantas palavras ficaram por dizer – que estupidez. gastamos o tempo a correr e afinal tudo pode acabar de um momento para o outro – tenho saudades de não ter medo. de tocar por tocar nas coisas. de querer conhecer quem nunca conheci. de falar. de tossir sem estremecer. e a boca em rezas contínuas. em promessas a s. bentinho da porta aberta: se me livrar desta maleita ofereço-lhe uma vela do meu tamanho e derreto-a até o último fio de luz – assim estava eu. parado em rezas e pedidos de perdão. acabrunhado entre quatro paredes. sem que o tempo contasse para mais nada a não ser envelhecer – sentado no meu sofá. a olhar a sala como se o mundo todo coubesse no seu interior. os espelhos a dar conta de uma vida numa verdade crua. a desnudar a alma. a desfiar arrependimentos como se dentro de mim houvesse uma linha de montagem. só que em vez de balões. confeitos ou fustão. eram contrições – resisto em lamentos: que pena não ter percebido mais cedo que esta vida são dois dias. às vezes nem isso – a barba por fazer. o corpo mole. imolado num fato treino que não me faz correr para lado nenhum. vou do quarto para a sala. da sala para a minha secretária. da secretária para a sala. e o corredor cada vez mais escuro e cumprido. a levar-me de um lado para o outro como se fosse o corredor da morte. e eu à espera da injeção letal – a pandemia trouxe-me o pânico. os arrepios e as interrogações. o medo da falência dos pulmões. o pavor de morrer sozinho. envolto em tubos e batas brancas sem compaixão: mais um. e a TV a dar conta da minha partida num número frio. duzentos e oitenta mortos de covid. a taxa de mortalidade mais alta no minho – e a urna fechada. lacrada. enviada com urgência para debaixo da terra. esburacada por um coveiro também cheio de urgência. e o padre mais perto de deus do que do defunto. com a boca a correr para fora do cemitério. a despachar os louvores de uma vida com água benta apavorada. e a família contada pelos dedos de uma mão. sem saber se a terra leva o que é seu. sem beijo de despedida. sem saberem se as lágrimas se ouvem naquele silêncio-pânico – medo. muito medo. e a cabeça dia e noite a interrogar-se: de que mal morrerei? que praga me comerá a carne? em casa. de porta fechada a sete chaves. com as mãos mergulhadas em álcool gel. carrego poetas e escritores de um lado para o outro numa cabeça assustada. às vezes escrevo eu. abro o word e escondo-me em rascunhos assustados e sem sentido. folha atrás de folha. e a reciclagem do PC a abarrotar de inutilidades. e o medo das palavras infetadas de terror. a viajar pela internet à velocidade da pandemia. e as curas aos milhares: tens de comer muito alho; vitamina D mata todos os vírus. e se juntares a C então não há mal que te chegue; no japão um ancião com cento e vinte anos curou-se da covid-19 com escaldas pés e calinhos de habushu; e mais um outro na finlândia. espeta agulhas nos pés sentado num cubo de gelo; e um feiticeiro em áfrica esmagou os testículos de um leão num pilão. acrescentou-lhe dois dedais de capuca. uma asa de morcego. e dança kuduro todas as noites para afugentar o mal – que posso eu fazer em minha casa para que a maleita se distraia comigo? nada. fecho as janelas e espreito pelas frinchas o que resta do mundo que um dia conheci – pelo menos as casas não ruíram