07/11/2017

perder-me para me encontrar



bem howe


não olheis vós para o que faço. mas sim para o que rabisco – o que enxergais em mim é uma ilusão para me libertar do que escrevo – com a chegada da noite amarro-me aos sonhos e vagueio pelas madrugadas tal qual um cigarro se incinera: brasa instável. cor impulsiva. metodicamente vagaroso a retrair-se para o fim da combustão – e assim. em contagem decrescente. dissolvo-me em cada pedaço de fumo que sobe ao céu – perco-me. perco-me na noite pelo que penso e também me perco quando me recuso a pensar – perco-me. perco-me na noite em sonhos e também me perco quando me recuso a divagar – perco-me. perco-me na noite dentro de mim e também me perco quando não estou em mim – um homem perdido só está bem onde não pode estar – a insustentável leveza do meu ser vacilou. quebrou. faleceu com o corpo ainda a reclamar mais vida – e o fumo proibido a chegar à casa dos deuses como chegam os balões das romarias. perdidos. sem rumo. num vento incerto. sem tino – e a enormidade do que sou a deixar de o ser numa terra em apartheid – segreguei-me – devagar devagarinho elevo-me rumo às bem-aventuranças. como se fosse o último fumo. como se fosse vento. como se fosse catraio e me quisesse perder num paraíso iluminado por uma luz esquecida no fundo da gaveta – por isso te digo: perde-te com um laço. aperta-o à volta do inferno e faz-te memória – perde-te de raiva e cospe para o chão que nunca te deu de comer – perde-te de coragem e prende a ponta da corda à barbatana de um tubarão. deixa-te arrastar ao fundo das palavras – absolve-te num parêntesis e não deixes que um ponto de interrogação te faça voltar a [re]acreditar –  morre pois já não tens mais tempo para te [re]perder –  perde-te antes que te falte a vontade de escrever



03/11/2017

deambulações noturnas XXII



pintura - robin eley


flagício: com a noite mato-me de mil maneiras. e a todas sobrevivo. e em sobressalto acordo

 

31/10/2017

tempo


                                                                       imagem google


sacudi a noite

pela primeira janela da manhã

restos de sonhos suspensos

no pretérito

 

as orvalhadas já se

fazem sentir

e as noites

outrora lúdicas e quentes

são agora

fatigosas e frias


30/10/2017

exilibris baco


imagem - Google



…com o frio o corpo procura agasalho – abrimos a lareira. abrimos exilibris baco. abrimos a alma. e por fim. convidamos o corpo ao aconchego – tomamos o primeiro aroma. a medo – embrenhamo-nos com o rótulo. perdemo-nos nas subtilezas – vertemos o primeiro trago e somos resgatados da insensibilidade – procuramos uma adjetivação. não encontramos – o momento é de degustação silenciosa – a felicidade procura-se – e ali ficamos a pedir que a lenha não acabe. sim. a lenha – o exilibris baco é para sempre

17/10/2017

depois do outono


pintura - jackson pollack


a chuva apronta a faina sobre a terra

escala ao sol

em cada raio solar

uma gotícula. uma refrega

 

às nuvens:

o inverno adestra o rigor

 


11/10/2017

correspondência violada - 03



imagem google


e tudo tão longe. tão afastado destas folhas de papel - não há tristeza nas palavras que gastamos a falar um com o outro - e depois. tudo é dentro do corpo. tudo é feito de abraços e cada palavra veste a alma com uma cruz bordada de primavera - e somos assim. falamos ao ouvido para enganar a distância - somos feitos de vento. gaivotas com uma caneta na mão

 

resposta a um comentaria da vânia ao meu texto – sinto.abril 



04/10/2017

ouço no escuro


pintura - ron muek


noites em que o escuro é feito unicamente de sons – ouço o coração. ouço o corpo a definhar. ouço vozes que trazem saudade e outras que não consigo esquecer – ouço o medo. ouço os pés no soalho gasto e gargalhadas de pânico também – ouço ouço o terror. ouço as pernas presas ao destino e os pulmões imploram um último cigarro – ouço as mãos a pedir papel. ouço o negrume do tinteiro e os dedos a bater palavras sem sentido – ouço – ouço a brisa. ouço o tempo que faz na rua e também ouço o tempo que vive dentro de mim – ouço aflição. ouço as montanhas a parir um rato e ouço o sino a bater quartos como se fossem horas de partir – ouço – ouço os cantos à casa. ouço o corpo a virar de lado para lado e ouço o que não mereço ouvir – ouço o outono. ouço os sorrisos das corujas e ouço pássaros que não sabem que existo – ouço – ouço as marés. ouço as gaivotas no mar e também ouço gaivotas que não sabem voar – ouço saudade. ouço fantasmas que não conheço e outros que ajudei a criar – ouço – ouço a viagem. ouço um futuro que não pisarei e ouço sapatos que não são meus – ouço o mundo com estes ouvidos que me nasceram no peito e que se abrem como cravos pregados a uma cruz que não profetiza remissão – fui condenado a ouvir os meus próprios ouvidos – aqui estou. com o que me resta da audição a suplicar aos deuses que me façam humano e me tapem os ouvidos com a cera de ícaro – prometo que não voltarei a voar na direção do sol 


03/10/2017

in II - carne. lembra-te que és mortal


calvin



 a escrita não muda o homem. 
apenas ensina-o a ver-se tal e qual como é 


in: “carne. lembra-te que és mortal II” – 18 de setembro de 2012

18/09/2017

o homem só cresce em silêncio



francisco sousa

tenho a certeza de que é sábado. os raios de sol. hoje. parecem-me diferentes dos que me abordaram há oito dias – há nestes raios de sol um calor desigual. menos envolvente. menos sedutor. mais divergente. egoísta. em total contramão com o ideal de todos diferentes. todos iguais – este sol acordou num formato de apatia discriminatória. mais seletivo. só aquece o que quer. elitista. sem equidade. sem passar cartão. diria. indiferente – sinto o corpo a tremer. a pele pálida. enquanto os ossos engastalhados seguram. em dificuldade. as mãos a pedir um novo desafio – a vontade de escrever está cada vez mais intrincada. o sol. hoje. não aquece – os pés cansados fogem do corpo a sete léguas. enquanto este. em esforço. não para de os incomodar – já compreendi que não adianta fugir do que o destino emparelhou – sinto o corpo diferente. assim como se me fosse desconhecido. estranho. sem nome próprio – se fosse uns sapatos diria que eram novos. novos em folha. a estrear no mundo dos caminhantes. nas primeiras passadas. vaidosos por ostentar uns calcantes a inaugurar caminho – acontecem os primeiros obstáculos: duas bolhas nos calcanhares. vermelhas como um pôr-do-sol escaldante. zangadas. obrigam o corpo a caminhar inclinando para o lado do desespero – o primeiro sinal de que não há caminhos sem compromisso – tudo que é novo tem que ser aprovado pelo corpo. primeiro desconfia. rejeita. depois tolera. suporta. adapta-se – ou obriga o molde a adaptar-se a ele – sei apenas que esta calor. de abrasamento excessivo. talvez exista para me lembrar que não há dois dias iguais – vivo este sábado como se fosse o primeiro da minha vida. com medo – é sábado. o sol apanha-me de frente. forte. a expulsar as sombras para norte. enquanto o passado. incrédulo. não sabe como fugir da luz – coloco-me de lado. de perfil não existo. metade do corpo recebe luz. a outra metade é mistério – excesso de luz faz mal à saúde – envaidecemo-nos. encandeamo-nos. cegamos com os olhos abertos – tudo que é em demasia acaba por fazer mal – não sei muito bem decifrar este calor. um calor-fogo que não se explica. talvez transpiração. talvez aflição. talvez uma premonição que ultimamente não consigo expulsar dos meus delírios – estou no meu velório. e não sei como dizer ao cangalheiro que me leve com urgência para o crematório – as obséquias deixam qualquer morto à beira de um ataque de nervos – já não há paciência para tanta pieguice sentimental – em boa verdade. o que se aproveita de estar morto é o silêncio – mas preocupa-me não ver ninguém a chorar – devo ter tido uma vida de merda – não deixo saudades a ninguém – mas estou a ser ridículo. enquanto estive vivo. nunca me preocupei com estas coisas do choro. e agora. só porque estou morto. sinto a falta – razão tinha a minha mãe quando dizia que a velhice é ingrata – se tivesse feito um pé-de-meia de amigos de peito. talvez hoje houvesse lágrimas suficientes – não fiz. agora nada feito – o que não tem remédio. remediado está – nunca fui capaz de fazer amigos de conveniência – não quis viver em mentira para morrer em verdade – talvez devesse deixado ordens para contratarem carpideiras. não umas quaisquer. umas com provas dadas em velórios difíceis – evitar vergonhas à família é fundamental – talvez seja melhor assim – sempre gostei do silêncio. o homem só cresce verdadeiramente em silêncio – mas depois de morto já nada cresce – que se dane. afinal estou morto – o melhor mesmo é continuar neste choro interior. este choro que é só meu. mereço-o. mesmo que ninguém o ouça – as pessoas entram todas esfíngicas pelo velório adentro. com ar de quem sofre – aproximam-se do defunto. baixam os olhos. fazem o sinal da cruz. e pernas para que te quero – mas não consigo encontrar explicação para tanto receio – o morto nunca tratou ninguém mal em vida. não seria no velório que pediria satisfações – mesmo que me apeteça não posso chorar – não é depois de morto que vou dar esse prazer a quem nunca me conheceu – um homem não deve chorar em frente a desconhecidos. nem que esteja com as tripas na mão – é sábado. está sol – talvez este calor me tenha afetado a moleirinha – talvez não esteja a bater certo – aos sábados costumo estar sempre mais morto do que vivo – para todos os efeitos ainda não estou morto. estou a escrever. e nenhum morto escreve – escrever só mesmo os moribundos 


12/09/2017

reencontro



salvador dali


não era sem tempo – há muito que me perdi no vosso tempo. um que vocês inventaram para me fazer perder algo que jamais recuperarei – hoje. estou de volta ao meu próprio tempo. estou só. melhor. estou comigo – é bom estar comigo novamente



14/08/2017

silhueta do tempo



r.b. kitaj


o tempo sorveu um corpo

a concupiscência

que albergou a sensualidade

é agora uma figura geométrica

 

o varão

outrora prazer

rendeu-se

ao futuro 




06/08/2017

no meu peito já não cabem gaivotas* 3



adelino ângelo 

 

3. a morte terapêutica

 

nesta terceira parte a minha dissertação incide objetivamente nos benefícios da aplicação da morte terapêutica em mentes em avançado estado de instabilidade emocional – recorremos então a algumas boas práticas já comprovadas na morte assistida e transpomo-las para fórmula terapêutica – o que realmente torna interessante a aplicação desta morte é a possibilidade de fazer falecer apenas o que nos magoa – começamos por sedar a nossa existência. aliviamos a dor. aprisionamos o passado. silenciámo-lo. bloqueamos a memória de longo prazo e introduzimos na memória recente doses de elevada esperança – obviamente que como em qualquer tratamento é necessário ter sempre em atenção as dosagens. foram muitos anos de sofrimento e o corpo pode reagir negativamente ao excesso de esperança – a solução é a prescrição de doses de baixo teor de felicidade. administradas sob uma apertada vigilância – evitar recaídas é fundamental – ao passado é-lhe finalmente oferecido uma morte controlada. boa. honrada e sem dor – é essencial definir com precisão o que deve verdadeiramente sucumbir. não se pode fazer falecer o coração. nem os pulmões. nem o cérebro. nem o que resta da vontade de viver – estas áreas são vitais para a sobrevivência emocional. não é uma morte onde para falecer baste um pouco de coragem e uma bala no tambor. não. não é – esta morte. consiste em eliminar. silenciar ou simplesmente enclausurar. por um período de tempo estabelecido. uma determinada área do corpo. um membro ou apenas um insignificante sentimento – tomar a decisão de eliminar o que quer que seja num corpo diminuído não é tarefa simples para o seu executor – não é fácil castigar um corpo quando o que resta de motivação é praticamente nada – o momento é de aflição para o carrasco – quando o corpo está doente a dor torna-se numa força incontrolável. os sentimentos desaparecem e a automutilação toma posse do centro de comando cerebral – o pensamento está refém do desespero – selecionamos então um alvo específico no corpo que acreditamos estar possuído de um mal sem solução. desligamo-lo do suporte de vida libertando-o da teimosia de viver em agonia – aos poucos a memória de longo prazo começa a desprender-se das rotinas. abandonando o corpo numa marcha de silêncio e paz – o silêncio. agora fúnebre. acompanha a saída das reminiscências numa viagem de aceitação. de perdão. sem castigo. sem remorso. sem medo que no dia seguinte o passado ressuscite num dedo apontado à covardia – entramos então em modo de segurança extrema. sobreviver é a palavra de ordem – personalizamos o nosso próprio plano de recuperação e com a ajuda da esperança aplicamos finalmente o tratamento final da morte terapêutica – cortamos a mão que escreve. substituímos uma perna de carne e osso por uma de pau. sacrificamos a ambição. matamos um pouco da ternura. escondemos a paixão e doseamos ao máximo o caudal da amargura. ameaçamos o sorriso com uma faca de dois gumes e reforçamos os cuidados ao corpo caso este insista em reviver esperanças já condenadas – aproxima-se o momento das decisões. é fundamental eliminar o acessório e assim. permitir que a vontade de viver se projete num novo espaço temporal – einstein dizia que “o tempo não é aquilo que parece. Não corre em uma única direção, e o futuro existe simultaneamente com o passado” – se o tempo não corre numa única direção não há motivo para nos acorrentarmos ao passado – para grandes males. grandes remédios. a solução passa por aplicar a estratégia de terra queimada. exterminar tudo que possa ser útil ao inimigo – um género de contrafogos que mais não é do que uma “contra-morte” – se o que arde não volta a arder também o que morre não volta a morrer – ficamos mais doentes quando olhamos mais para o passado do que para o caminho que ainda temos a percorrer – a angústia apenas consegue sobreviver se mantiver acorrentado a si o desânimo. a ansiedade e o medo – sobreviver é uma luta diária. um inferno. uma descarga elétrica contínua que nos amarra em cada dia do ano. não há férias. não há aniversários. não há natal. não há desculpa para nada. o que existe é apenas os dias marcados a negro no calendário – um corpo depressivo não vive. sobrevive – o oposto da depressão não é a felicidade. é a vontade de querer viver. a força. a determinação. a procura da liberdade – nenhum homem é livre quando a dor lhe confisca todos os pensamentos – ninguém pode desvalorizar o silêncio de um homem tomado pela dor. o seu sofrimento é a sua impressão digital – este penar não se torna infernal apenas porque desacertadamente. ou não. optamos pelo caminho errado. recusamos ajuda médica ou dizemos não aos ansiolíticos – a dor nasce escondida no corpo. primeiro rasteja. depois começa a gatinhar. de seguida aprende a caminhar. em bicos de pés. com a graciosidade de uma bailarina. e o corpo gargalha com a subtileza com que vai amargando. o que era em bicos de pés transforma-se agora em passos delicados. abrindo caminho por uma estrada desconhecida. lentamente. tão lentamente que o corpo se vai alterando. adaptando. moldando. até que chega um dia. sem que tenha dado conta. cada passo é um compasso entre caminhar ou parar – a dor já não engana. multiplicou-se em amargura. em angústia. em revolta. em intolerância. arrestando o corpo num desequilíbrio irracional. doentio. falso. e por fim. como todos os impostores. promete-lhe um precipício libertador – o que cresceu como uma anormalidade dolorosa é agora uma normalidade consentida. aceite e autorizada a viver numa vergonha silenciosa – a dor já não é estranha. é íntima. próxima. carne da sua carne. como se o tivesse acompanhado desde o útero de sua mãe – a manifestação externa do sofrimento só se torna audível ao fim de muitos e muitos anos de conflitualidade interpessoal – se por um lado todo o corpo dói. por outro. estas dores são a razão da sua teimosia em continuar com a vida – tudo que ocorre no nosso mundo solitário é feito de sofrimento. de interrogações. de dúvidas e de uma cabeça que não sabe descansar para tornar mais fácil o que quase sempre parece impossível – tudo acontece simultaneamente e à mesma hora. o cérebro ora implode. ora explode e uma e outra parte combatem-se sem entendimento. sem tréguas – o descanso não existe para quem faz do seu dia a dia um combate com as interrogações – acreditar que tudo tem uma razão para acontecer é resistir. encontrar essa razão é a causa de todos os problemas – infelizmente nem tudo tem uma razão. nem tudo pode ser explicado – claro que ainda haveria sempre o recurso a um charro terapêutico. umas quantas passas distribuídas pelos períodos mais críticos do dia como forma de aliviar as dores ou estimular o funcionamento dos órgãos sensoriais para novas formas de luta – mas não. esta maleita dolorosa está muito para além do charro. da pastilha ou de um sono mal aparelhado por uns quantos fantasmas erráticos – não. não é assim.  esta dor cresce com o pensamento e alimenta-se do sofrimento – todo o homem nasce com o entendimento natural de valores negativos e positivos e uns e outros lutam entre si em busca de uma pacificação natural entre o bem e o mal. o certo e o errado – infelizmente nem sempre esta biossíntese é adaptável às exigentes e naturais formas de vida que nos rodeiam – um dia. o corpo diz: basta. já não há razão que me faça ver outras razões. chegou a hora – usamos então todo o mal armazenado para um último momento e assim devolver definitivamente a liberdade ao corpo – o que dói na pele ou na carne é diferente do que dói no coração – há estradas que nunca nos levarão para lado nenhum – volto a repetir a frase do mia couto. acrescentando-lhe um novo ponto final: “cada homem é uma raça” que respira para caminhar e sempre que caminha aumenta a estrada para mais perto do seu fim – a estrada não se escolhe. nasce connosco – cada homem tem a sua estrada para a morte

 

- a quarta parte do texto será dedicada à morte dolosa ou fraudulenta

- *título extraído do livro de nuno camarneiro – no meu peito não cabem pássaros



31/07/2017

deambulações noturnas XXI



rene magritte


maior amigo é o silêncio da noite – digo-lhe o que não diria a mais ninguém. e ele ouve-me como só os verdadeiros amigos sabem fazer



24/07/2017

amo-te porque existes dentro de mim



foto - sampaio rego


apenas uma pequena nota sobre a celebração dos meus trinta e três anos de casado – o casamento é um compromisso de amor entre duas pessoas que juram cuidar uma da outra até que a morte os separe – tudo o que sobra deriva desta única premissa: o amor – mas para os homens é muito mais do que um compromisso [quase sempre] selado aos olhos de deus. é essencialmente a libertação em definitivo da volubilidade jovem. da imaturidade. do egoísmo. da impetuosidade e da irresponsabilidade – essa libertação trouxe-me a segurança das noites que. com o seu efeito lento e repetitivo. me ensinaram a crescer numa cumplicidade graciosa – nunca mais parei de crescer. tu também – prometi amar-te um dia de cada vez. assim fiz – ao fim do dia. depois de o sol se esconder. os lençóis abriram-se sempre em seda. os chinelos descansam aos pares à entrada dos sonhos partilhados – nunca tivemos medo do tempo. envelhecemos a saber sempre tanto um do outro – fecho os olhos. dou-te a mão e levo-te ao dia em que tudo começou e recapitulo o meu sim: sim. aceito esta mulher na alegria e na tristeza. na saúde e na doença. em todos os dias da nossa vida – nunca mais aquela igreja viu uma noiva tão bonita – acasalamos os olhos na eternidade. depois. ansiosos. unimos as mãos e trocamos um beijo que é todo feito de gratidão e entregamo-nos um ao outro sem medo de nenhuma palavra – os nossos filhos são a nossa graça e testemunhas de que os dias voaram – o amor ensinou-nos a viver numa cumplicidade feita também de aceitação – não me canso de te pedir perdão mesmo que tantas vezes as minhas palavras fiquem por dizer – são mais de doze mil noites – amo-te porque existes dentro de mim



12/07/2017

deambulações noturnas XX



foto - sampaio rego


frequentemente o pensamento veste-se de mendigo – arrogante. o ego. fixa-se apenas nos botões de ouro em camisa de seda – engano tremendo – tantas vezes. por baixo dos farrapos. esconde-se a alma de um poeta privado de papel para cobrir a sua escrita em noites de aprumo literário


03/07/2017

no meu peito já não cabem gaivotas* 1 - 2



adelino ângelo


1.    a morte física ou da personalidade


a morte física de um corpo – declara-se o óbito quando é devidamente comprovada a inexistência de sinais vitais no corpo humano. isto é. a total falência dos seus órgãos e a ausência completa de atividade cerebral – o médico-legista declara o término da vida. apontando as possíveis causas do óbito e permitindo deste modo o desaparecimento do corpo para sempre do mundo sensível

 

2.    a morte emocional


aponto o meu foco para uma morte menos dolorosa. menos repentina. uma morte que vai acontecendo aos poucos. quase sempre em passo de tartaruga. tão lenta que o sistema de alerta cerebral acaba ludibriado pelo seu vagar: a morte emocional – esta. sem que na maior parte das vezes a ciência saiba explicar. acontece quando as defesas do corpo. num conluio terrorista. consentem no descarnamento da sua rede de neurónios. expondo assim a sua intimidade a uma censura coletiva. insensível e muitas vezes injusta – dá-se então o curto-circuito. o cérebro atrofia. o corpo estremece de medo. de seguida estremece de um frio que é mais do que gelo. é um imobilismo aterrador perante o desconhecido – o corpo humano revela na sua plenitude a sua fragilidade – só há uma forma de se proteger. imolar-se na indiferença. esquivar-se ao raciocínio e esconder-se no abismo dos silêncios que carrega – e ali fica. parado. quase sem respirar para enganar as chispas que agora lhe escorrem dos olhos em forma de apatia letal – se hoje o mundo ruir este corpo já não lhe pertence – tudo que lhe sobrevive resiste num cosmos desocupado de emoção – do passado só reconhece o barulho. sempre impertinente. como se o mundo andasse numa fona irracional. noite e dia. sem descanso. arrastado por um pêndulo ritmado pela indiferença. a marcar os dias num desinteresse total pela quietação – e o que ainda sobrevive à derrocada sentimental é agora tratado com doses maciças de um químico afetivo. fertilizado no útero de uma mulher mais pura do que o céu – resistir é agora a única mensagem emitida por si e apenas para si – mas a sua vontade já não chega – o corpo por dentro contorce-se numa desordem incontrolável. uma tempestade impossível de acalmar. enquanto por fora. a ressaca é um turbilhão de imagens que já não quer compreender – tudo o que compreende o lhe fere a alma – não se quer compreender os livros. a religião. a família. o amor. a compaixão. a vida. os amigos. a razão pela qual se nasce ou pela qual se demora tanto tempo a morrer fisicamente – no caos da morte emocional já não é possível acontecer uma nova ordem. um novo recomeço. um novo ciclo de vida imaginado. traçado ou idealizado – corpo e mente degradam-se numa responsabilidade repartida. uma guerra sem vencedor em que cada uma das partes responsabiliza a outra pela falência emocional – cai por terra a regra da sobrevivência do mais adaptado – o corpo perde o medo da dor enquanto o cérebro perde a vontade de chorar. e assim. se esvaia de forma definitiva as frugais probabilidades de um regresso à lucidez – enquanto a memória se apaga seletivamente o silêncio vai-se alastrando ao corpo todo – o mundo já não é mensagem – já nada traz movimento. as mãos recusam brigar enquanto os pés se recusam caminhar – apaga-se as origens para não a envergonhar. apaga-se o amigo para não o magoar. apaga-se a felicidade para não trazer saudade. apaga-se a ambição para evitar o erro. apaga-se o futuro porque só o presente existe. apaga-se a fé porque deus é um mito. e por fim. apaga-se a luz para que ninguém nos veja no escuro – louvar a vida é uma provocação ao destino que pode terminar a qualquer momento tragicamente. basta que o mal vença o bem uma única vez – o mundo é um vício que nos pode matar de uma overdose – levanto os olhos abatidos e transformo o vinho em água. desmultiplico o pão. elimino a confiança e digo-lhe apontando para o céu: quem me seguir entrará no reino do inferno e viverá na dor para toda a eternidade – o silêncio pinga agora uma única pergunta: porque eu? – não há resposta – e todos os mortos emocionais perguntam o mesmo e a resposta é desespero: salve-se quem puder porque cada cabeça terá a sua sentença – fecham-se as portas por fora. correm-se as janelas para a escuridão e entrega-se o corpo à tortura até que a coragem se sobreponha à mágoa – é obrigatório expiar o erro – sofre corpo. sofre corpo porque só a dor torna o homem superior – um corpo doente acredita em tudo – mas para que interessa tudo isto se o corpo está a morrer de apatia – não interessa. não importa. não vale a pena – o corpo que morre emocionalmente ignora os estímulos humanistas. os valores morais. a justiça. a liberdade. a fraternidade. a solidariedade. o amor pelo próximo. mas acima de tudo o amor por si próprio – este corpo. desfalecido e esgotado. é forçado a refugiar-se em zonas escuras. proibidas. suicidas. onde prolifera a autocomiseração – uma viagem ao centro de uma dor inesgotável. indomável. selvática. impiedosa. acabando por se perder numa espiral de tragédias. de desastres e de fatalidades que raramente permitem a sua reutilização para uma nova vida – com a morte emocional perde-se tudo. até a dignidade – este mundo mata pela mentira. promete a todos o que só pode conceder a alguns – termino com uma frase do mia couto: “quem vive num labirinto, tem fome de caminhos”

 

- a terceira parte do texto será dedicada à morte terapêutica

- *título extraído do livro de nuno camarneiro – no meu peito não cabem pássaros


11/06/2017

o que resta de nós: um tratado sobre a desilusão



caravaggio


1.

quando a desilusão se chama amigo – num tempo de interrogações amargurei. depois. em dificuldade. dei uma oportunidade à lucidez que acabou por emergir num exercício prático de libertação do homem – nietzsche afirma que o homem livre é um guerreiro – não sendo guerreiro. mas em liberdade absoluta. resolvi então escrever um tratado simplificado de uma amizade magoada – bem sei que quem espera desespera. eu desesperei – mas as palavras acabaram por chegar no seu vagar. tal e qual como me foi chegando a vida cinzenta – tudo foi acontecendo numa demora estranha. tomada por uma nostalgia gasta pelo tempo – dei então início à minha busca: encontrei-me nas origens. nas causas. nas motivações. na ambição. na imbecilidade e regressei ao ponto de encontro apenas para me deparar novamente com o desencontro – sei agora o que quero dizer numa escrita que desejo clara mesmo que a causa não me dignifique – perder um amigo é sempre uma culpa dividida – descobri a serenidade e despojei-me da alma para me encontrar mais de perto com a verdade. assumi a mortalidade e pedi a têmis que me ajudasse a derrotar o erro e a escrever a justeza numa consciência iluminada – encontrar a minha verdade depurada da imperfeição é fundamental – sei que será sempre uma verdade minha e que muito bem pode não ser a de mais ninguém – com o corpo em braços avaliar-me-ei pelo conhecimento num processo autocrítico: colocar-me no centro da humanidade. avaliar escolhas. questionar processos. aceitar e compreender o erro. reconhecer a individualidade e por fim. com a verdade purificada. combater e derrotar a desilusão como uma das mais violentas formas de enfraquecimento e eliminação da estabilidade emocional – afinal. toda a desilusão não passa de um pedaço de terra desabitado. uma porta fechada que esconde apenas um quarto vazio

 

2.

decompôs-me em segmentos finíssimos de lucidez. e à velocidade de uma bala atingi o desencanto – corpo e mente aceitam a deceção num estado de alma de acolhimento cristão: perdoa-lhe que não sabe o que faz – estamos os dois perdoados. eu por te fazer existir num pedaço de terra que acabou desabitado. e tu por me trazeres enganado num abraço que acabou por nada abraçar – juro que não sabia que os abraços se perdiam como o vento – mas não há forma de nos esvairmos da condição humana que tragicamente carrega em si o erro. numa contagem de tempo sempre provisória – a imperfeição do homem é uma das razões da sua diversidade – sei agora que o corpo se partiu em milésimos de segundo. onde antes estávamos juntos. agora. ficámos separados. marginalizámo-nos nas razões. as mãos desuniram-se violentamente. tu lavaste-as como pilatos. enquanto eu. envergonhado. enterrei-as na fundura dos bolsos – de seguida dividimos as palavras. tu recuperaste as tuas e eu quebrei as minhas para nunca mais as usar – há palavras que nunca deveriam ter nascido – ficamos os dois dentro de um quarto vazio. numa porta que se fechou quase sem fazer barulho – quando te virei as costas trouxe toda a raiva do mundo no corpo. explodi numa dor que me atravessou todos os anos da vida. num arrependimento alucinogénio. culpei o mundo. de seguida culpei as pessoas do meu mundo. depois a rua onde crescemos. o passeio onde jogávamos à bola. o jogo da estátua. as caricas. e aquele candeeiro que se apagava sempre que lhe dávamos um pontapé –  eu é que devia ter levado esse pontapé. afinal a minha casa ficava numa rua a descer mas eu sempre a quis subir. teimoso – a dor cortou-me os pulsos dias sem conta. e eu sem saber como conter a raiva. e um murro na parede. e outro na mesa. e um ralhete a um deus que sempre me pareceu surdo – houve um tempo em que tu e eu acreditávamos nesse nosso deus. ele morava na mesma religião. na mesma pregação. na mesma prática do bem: “a lei de deus é justa e boa – “quem obedece à lei de deus faz o bem e ama as pessoas” – nós prometemos-lhe praticar o bem. amar as pessoas. não mentir e honrar os amigos – a humilhação serrava-me a alma num barulho que me enlouquecia – tu não me honraste. mentiste-me com palavras que prometemos nunca usar – esqueceste-te do combinado com deus. esqueceste-te de mim e esqueceste-te de tudo o que era meu – fiquei só. perdi-me do corpo. do que o meu pai me ensinou. da compaixão. do perdão. fiquei sem uma única palavra que me trouxesse de volta a casa – no corpo só cabia agora raiva e interrogações – o que fazer aos aniversários em que me desejaste muitos anos numa vida feliz? o que fazer aos natais sem aquele abraço-tradição? o que fazer ao teu número de telefone? o que dizer aos amigos? como viver separados por um muro de cólera? – a amizade verdadeira é uma forma de amor incondicional – durante muito tempo andei desaparecido de mim. não me reconhecia. estranhava o corpo. os seus desejos. os medos e o que a memória desejava pela noite perdia-se na manhã – banir-te da minha humanidade não era tarefa fácil – magoei-me com tudo o que tinha à mão. atirei-me para dentro de palavras que me torturassem até que a dor se transformasse numa raiva tão escura que nunca mais fosse possível encontrar-te pelo nome – mutilei-me com a confiança. sangrei honra. chorei humilhação. despedi-me da esperança e o que era amizade foi substituído por luto – quando um amigo nos morre nas mãos é para sempre – sempre amei os meus amigos – mas a tua morte resistia aos meus dias. nunca foi bom a mentir nem a matar a saudade: um café partilhado. uma conversa urbana. uma miúda cobiçada. um automóvel da mesma marca a caminho da tua casa. um nome geminado. e estas duplicações a dizerem-me que a tua partida foi um equívoco do tempo. uma noite mal dormida. um pesadelo horrendo depois de uma farra de copos – uma armadilha para a amizade – quis acreditar que um guronzan e uma dietinha de arroz branco me trariam de volta os dias como sempre foram – ao nascimento do sol recuperaria a luz da confiança. eu voltaria a aceitar-me tal e qual como sou. e tu tornavas a aparecer dentro daquele sorriso que nunca te deixou crescer – mas não. afinal o luto é muito mais que roupa negra. é o corpo negro. pisado. enraivecido numa acidez que me faz arder num inferno que não foi desejado por mim – não aguentei. atirei-te de um penhasco para o mar e nunca mais procurei o teu corpo – este meu luto durou um tempo que nunca quis aprender a contar – quanto mais tempo tivesses desaparecido mais prazo tinha para escapar do abismo – com os dias a passar tudo foi sendo substituído por silêncio. um silêncio que não é dor. não é raiva. não é azia. é uma saudade que nos enfeitiça e liberta serenamente. sem que nada possamos fazer. as memórias que obstinadamente escondemos – esta saudade dói. dói pela distância. dói porque os dois fomos um e agora somos ausência – não há forma de controlar esta saudade. simplesmente aparece. devagar devagarinho e o corpo tomado por um marasmo sereno. tranquilo. silencioso. sem arrependimento – à boca são roubadas todas as palavras que magoam. enquanto as mãos se espreguiçam delicadamente – é importante não amedrontar o dia seguinte – o tempo em silêncio assustou-as. envergonhadas esconderam-se no escuro dos bolsos que. em boa verdade. não as escondiam de nada – e o dia seguinte a exigir uma renovada aliança com a fé. as nuvens a correr para sul. sem pressa. enquanto um novo arco-íris adorna o céu num colorido de cores quentes – o sol rompe pelo corpo. as sombras desfalecem no passado. e o coração retoma os batimentos numa alegria que é hino – beethoven – os olhos renovam-se. florescem em campos inesperados campos de flores: bem-me-quer. mal-me-quer. bem-me-quer e o vento a soprar de fininho. manso.  quente. de norte para sul. a envolver o erro numa carícia de indulto – o corpo recupera a inocência numa calmaria que já não anuncia mau tempo. finalmente – invadido por uma trégua delicada recuo ao passado. à pureza dos ideais. todos por um. um por todos. deito a cabeça a uma árvore. tapo os olhos. e conto até mais de cinquenta. depois. desenfreadamente. volto a correr pela vida. voltamos a jogar à bola. ao deita fora. e celebramos vitórias sem ganhar coisa nenhuma – sorrimos. somos puros. e o mundo também – para haver um mundo impuro é necessário haver gente impura – não havia. nesse tempo tudo era perfeito – juntamos a família às celebrações. os amigos também. festejamos o meu aniversário e de seguida o teu que acontecia sempre um dia depois do de meu pai – estamos em agosto. nunca senti frio em agosto. era um mês especial. não havia tristeza. nem solidão. nem saudade. nem medo. nem injustiça. nada. só havia sol. luz. muita luz e uma vontade enorme de a trazer para dentro do corpo – um dia o meu pai deixou de festejar a vida. e o agosto quase desapareceu. passaste a existir só tu num mês moribundo. mas também quiseste partir. deixaste de festejar a amizade e o agosto esfriou para sempre – eu gelei – juntei então tudo que era teu num dia depois de agosto. acrescentei-lhe os abraços. os sorrisos. as promessas. as juras. as palavras que nos tornaram amigos. os natais. principalmente aqueles em que me levavas a casa um abraço quente de verão. a tua bondade e aquela tua vontade única de partilhares a vida com afeição – nós amávamos o natal – prometo que este ano escreverei a verdadeira história do meu pai natal – quero guardar o melhor de ti – devo-te isso – há dividas que só se pagam com afetos – um homem grato faz o mundo muito mais bonito – nunca te deixei de ser agradecido nem mesmo no dia em que te atirei para o fim do mundo – o corpo ainda dói. sempre que o sol se esconde o corpo dói. e eu sem entender como lidar com uma dor que não quero que continue dor – e ali fico eu preso às horas da noite num emudecimento que me enlouquece – não é fácil perder o que se pensa ser eternal – o tempo passa e o teu corpo teima em reaparecer – aceitei o desafio – passaste a viver numa dimensão que não sabia existir: estás longe. mas ao meu lado – és memória – reinventei para ti outro corpo. outros olhos. outros gestos. outro modo de andar e um outro sorriso. desocupei-te as mãos dos bolsos. tornei-os mais largos e mais fundos para te caber toda a cobiça do mundo. e dei-te um lugar na terra rodeado de gente por todos os lados – ficaste mais parecido com todos aqueles que não conheço. mais banal. menos divinizado. passaste a ser apenas mais um homem que envelhece no meu tempo – só os amigos não envelhecem –  mas tu envelheceste num instante – afinal também já tens cabelos brancos. tens o corpo mais tombado para a frente. as unhas cada vez mais ruídas e o sorriso que te fazia criança está agora muito mais cansado. adulto. indiferente ao mundo. ao teu e ao meu – sem esse sorriso deixei de reconhecer aquele rapazinho franzino. magricela. sempre a correr desenfreadamente à frente da sua própria bicicleta. numa velocidade estonteante. louca. de um lado para o outro – só estavas bem onde não estavas – e assim ficaste para o resto da vida. sempre gostastes de estar em todo lado sem nunca estar em nenhum – escondi-te do erro. fingi que os amigos nunca falham e fui-te perdendo devagarinho para não me magoar – ultimamente já quase não falávamos. perdeste a fala. aprendeste a pisar. humilhar e fazias gosto em o mostrar – refugiei-me no tempo – quando gostamos de alguém. somos capazes de jurar que o mundo não é redondo – perdeste a juventude. depois a inocência. as leis do teu deus. não faças aos outros o que não queres para ti. perdeste a coragem. as origens. escolhestes os mais fracos para te tornares mais forte. ficaste injusto. prepotente. cego. egocêntrico. interesseiro e vaidoso. mais vaidoso que a sé de braga – passaste a sentir-te bem com o mal dos outros – tu não eras assim – por mais de mil vezes tentei dizer-te que estavas errado. que o sucesso não tem um só caminho – essa personagem magoava-me. avisei-te que mais tarde ou mais cedo a vida te iria cobrar. o teu deus não dorme – a justiça tarda. mas não falha não foi assim que te conheci – não me deste ouvidos. perdeste-os com a ambição e não foste capaz de tirar os olhos do papel e da montblanc – tiveste medo de me olhar nos olhos – desisti esperando. não há mal que sempre dure nem bem que nunca acabe – mas enganei-me. o tempo não te curou. pelo contrário. aprendeste a mentir sobre ti e. sobretudo. sobre os outros – um homem mentiroso não vale nada – abandonei o diminutivo no teu nome e passei a chamar-te pelo nome que todos te dão – eu também perdi o meu diminutivo – descobri que a vida é muitas vezes ingrata. aprendi a resignar-me. nem sempre a luta leva à glória – mas também descobri que não te quero como inimigo. um amigo só necessita de um cantinho no coração para existir. um inimigo precisa do corpo todo – não te darei o meu corpo. nasci sem inimigos e também morrerei sem eles – abri então uma porta que não dava para um quarto vazio. deixei entrar o que sobreviveu de melhor dos dois. abracei-te com tudo o que me magoou. e chorei. chorei até que as lágrimas me enchessem as mãos de ti. expulsei-te da raiva e voltei à vida. fechei a porta. dei dois passos em frente. parei. e não voltei a olhar para trás – parti – jurei nunca mais te voltar a ver

 

3.

momentos dos quais nunca te conseguirei apagar. momentos em que teria feito por ti tudo o que me pedisses – um homem honrado não pode esquecer o bem que lhe fizeram – e eu nunca o esqueço – sempre te fui leal – e o que foi um caminho de afetos é agora um corpo encalhado numa montanha de palavras inúteis – quando estou só. já não sou capaz de falar contigo – aquele pedaço de terra desabitado perdeu a cor do céu. as gaivotas abrigaram-se do sal e as flores murcharam com os restos da primavera. não sobreviveram à desilusão – gostava de lhes ter perguntado se a minha vida seria diferente se tivesse nascido noutra rua – mas não há uma única flor que me possa responder – morrerei sem saber – um homem quando perde os sonhos. fica só. afunda-se no corpo à procura do que já não existe e acaba por se magoar com a ilusão de que ainda pode modificar o passado – não pode. por mais que volte a sonhar. o desfecho será sempre dor  – o que está feito. feito está – há dois momentos que marcam a nossa vida. o primeiro ocorre com o nascimento. aparece sem que nada possamos fazer para o evitar. nascemos e pronto. toca a respirar para sobreviver – o segundo momento é aquele que se torna certo para quem tem a ousadia de nascer: a morte – não pode ser evitada. mas pode ser dignificada. para isso. basta que no dia da partida. leves um sorriso na face – ainda há gente que o leva – procuro agora o meu sorriso. um que me recompense por todos os sonhos que ficaram por realizar – ainda não o encontrei. mas sei que anda algures por este mundo – desencontrado? sim. culpa minha. creio eu – estou cansado. as noites esgotam-me. os olhos não se fecham. deito-me sobre o corpo e ali fico de olhos abertos até que o cansaço me atire para a antecâmara da morte: o desespero – quero muito acreditar que há sempre uma razão maior para o que nos acontece de menos bom na vida – neste momento sobreviver é um desafio tremendo – sinto o corpo a pedir dignidade. estou sem fé. e sem um único sorriso para me poder despedir – bato à porta do meu deus de criança e pergunto-lhe se ainda há lugar na sua cruz para crucificar uma amizade – não me responde. nunca me respondeu coisa nenhuma – tento agora aceitar-me nesta infindável dor da perda – aceito em mim a inevitabilidade da desilusão e preparo o corpo para conhecer o seu último sorriso – o meu lugar está guardado no pedaço de terra desabitado

 

4.

ainda não te consegui perdoar. mas tento todos os dias – não sei se algum dia conseguirei – creio que não. já não há tempo – envelheci



07/06/2017

deambulações noturnas XIX


pintura - r.g. nascimento


um amigo precisa apenas de um cantinho no coração para existir. um inimigo ocupa o corpo inteiro



02/06/2017

deambulações noturnas XVIII


kit king e corey oda popp


e lá continuo eu com: o que resta de nós: um tratado sobre a desilusão – deixei de contar as noites. perdi a soma das horas. do desespero. da raiva. e do medo de não encontrar a palavra exata para que a verdade não se perca na distorção – a minha arte vive unicamente do esforço – confesso-vos que. na maior parte das noites. acabei por me perder dentro de mim – reencontrar-me é uma prova da minha justeza – não é fácil dar voz aos afetos perdidos – cada linha deste tratado sobrevive à custa de cem linhas rasuradas. e todas levaram um pouco de mim – também eu me apaguei para sobreviver – sofrerei até à linha final – tem de ser. eu mereço. e merecem-no os que continuam a gostar – ou a acreditar – em mim


deambulações noturnas XVII


ran ortner


e assim continuo eu. com o que resta de nós: um tratado sobre a desilusão – chego às 6 da manhã. escondendo o sono  atrás de cada palavra escrita – ousadamente escrevo noite após noite este tratado que vale mais do que um abraço que se perdeu para sempre – afinal. tudo o que é desilusão não passa de um pedaço de terra desabitado. uma porta fechada que guarda apenas um quarto vazio – nenhum corpo merece uma dor que é perda. independentemente dos defeitos cometidos ou desfeitos