13/04/2018

o mecanismo do coração



pintura - pablo picasso



[dia internacional do beijo]


meu coração tem um pequeno cérebro dentro de si. como a pilha nos relógios. não faz tic-tac. mas faz-me sorrir sempre que te dou um beijo



11/04/2018

eu. a escola. e o pão com marmelada



ron mueck



encosto o corpo à cadeira. recolho-me num escritório esgotado de reboliço.  retiro as concordâncias para o lado. fecho o word e olho pela janela com a sensação de dever cumprido – dou o que tenho e o que não tenho por cada palavra. quem assim o faz a mais não é obrigado – a noite anuncia em breve a chegada do dia. as estrelas estão em debandada. o escuro já não é um escuro de meter medo enquanto os demónios fogem a sete pés para as catacumbas – reconforto-me numa poltrona que me pertence. o tempo cavou-lhe o esboço do corpo. acerto-me. encaixo na perfeição e procuro arredar-me do que sobra da noite. engulo duas golfadas de ar. liberto-me na desarrumação mental e livro-me do corpo – por fim. livre de todas as malapatas emito um último pedido em banda divina: encomendo aos meus guias espirituais um punhado de sonhos felizes – quando encontrar esse sono afortunado terei então oportunidade de descansar da vida e retratar a morte: sossego absoluto – viver é uma barulheira infernal – sentado e sem corpo. coloco os olhos no parapeito da janela e ordeno-lhes com semblante autoritário: façam o favor de me trazer ao corpo os primeiros raios de luz da manhã – ninguém consegue dormir em silêncio sem pelo menos um raio de luz dentro do corpo – esta não é uma manhã qualquer. é a manhã que traz a primavera. a estação das flores. dos pássaros. da fruta. dos sorrisos em dias grandes. dos namorados encantados com os ninhos das andorinhas. das amizades leais. dos abraços entre pais e filhos. da esperança. da fartura e do conseguimento do corpo para apreender que a vida depende de um raio de sol – com a primavera esqueço que o março é madrasto. esqueço a saudade do meu pai e também esqueço as saudades que tenho de mim – tenho tantas saudades de mim – cresci em demasia. nunca deveria ter crescido. nunca me devia ter desfeito dos meus calções com suspensórios. da bola de couro. daquele chapeuzinho redondo com que um dia atravessei o rio minho no colo de minha mãe. do cheiro a terra na minha aldeia. ou do reboliço na minha cidade com a feira semanal – hoje sei que cresci enganado – cresci. mas não esqueço a minha rua. o mercado. os camiões da fruta a chegar ao mercado. e os carrejões sujos como áfrica a carregar as primeiras uvas do algarve – não esqueço as tendas a vender coisas e coisinhas e aquela gente de preto. mal vestida. suja por fora. limpíssima por dentro. e o bom dia numa vénia humilde. límpida. de gente genuína. gente do meu chão que carregava à cabeça sorrisos de encantar. simples. bonitos. agradecidos a cada raio de sol mesmo quando a boca se fechava de fome – não devia ter crescido. era um miúdo feliz. bonito por dentro e por fora. gostava da minha escola com os seus catraios esfarrapados. pobres como jó. e eu a comer pão com marmelada. eles especados. com os olhos a afoguear necessidade. e eu de bata azul às riscas a imaginar o mundo do tamanho do recreio da escola. raparigas de um lado. nós do outro. e a professora a meio. alta num corpo de mulher perfeita. bata branca. como se tivesse descido do céu. linda. com as mãos a cheirar a conhecimento. e a boca transbordando de letras e números – assim aprendi a ler. os olhos grandes de alegria e o a. e. i. o. u desenhado na perfeição num caderno de duas linhas que nunca se cruzavam – o mundo cabia-me tudinho nos olhos. os sinos batiam as horas certas e a vida anunciava-se tranquila e pressentível. gostava de viver e gostava de falar com deus – mas cresci. agora estou enorme. afundado numa cadeira maior do que eu. com umas mãos que não sabem escrever em cadernos com linhas –  agora já não há magia. nem hora para o recreio. deus deixou de falar comigo. tirou-me a professora – estou cansado de mim. o sol nasce todos os dias da mesma forma. sem trazer o imprevisível. a inocência. aquela esperança cega ou a teimosia. é um sol amorfo. batoteiro. sem aquele calor que queimava. mas não trilhava e sem aquela vontade ingénua de arrastar o corpo para um imenso que afinal nunca descobri – aqui estou nesta primavera que já não reconheço como minha. a apontar para dentro do corpo perdido de quase tudo. a olhar o passado como se tudo em mim cheirasse a defunto. imóvel. sem uma única palavra da minha escola. com a linha do sorriso a cair do queixo e os olhos emudecidos seguram as pernas para não saírem a correr pela desgraça – que saudades tenho do pão com marmelada. que saudades tenho de mim – olho-me de cima a baixo. junto ao corpo uma pistola imaginária apontada ao que sobra do meu nome. e o dedo a tremer. disparo? não disparo? – onde anda a minha professora? onde anda a minha tabuada? tanta reguada para coisa nenhuma – agora as máquinas resolvem as contas de uma vida num segundo – um segundo que nunca terá a magia das mãos da minha professora. uma máquina nunca será alta. bonita. nem nunca virá do céu. nunca. talvez do inferno. porque tudo à minha volta é máquina e tudo parece um inferno – mas não é a mesma coisa. as máquinas não cantam a tabuada. fazem as contas. mas não cantam. nem sabem o valor de um pão com marmelada. e muito menos do que é ter uma professora – estou triste. amargurado. abril trouxe-me ao mundo e o mundo é demasiado belo para tanta tristeza dentro de mim – nunca sabemos quando vai ser a nossa última manhã. e talvez nem importe. hoje tenho este dia para viver e vou amarrá-lo ao corpo como se ainda usasse calções e a bola rolasse de pé em pé.  os amigos a deitar passos para escolher a equipa do maior para o mais pequeno e o jogo a mudar aos oito e acabar com oitenta primaveras. para todos – brevemente será abril. o mês que me trouxe à vida enrodilhou-me num trapo e ali fiquei para crescer. escondido de mim e de todas as palavras do mundo – é nas noites de abril que resisto aos intervalos do coração a bater. resisto em silêncio para que a magia volte a romper num amanhecer e me traga um raio de sol inocente. porque em cada raio de sol vive uma gaivota. e em cada gaivota um vento sul aberto a abril – sei que um dia carregarei comigo todos os amanheceres de abril – mas resisto. resisto amarrado a um raio de sol. de primavera. de abril



08/04/2018

este poema é teu - audio





este poema é teu



jeffrey smat



este poema é teu

 

[sempre que perdemos alguém que nos quer bem - com a sua leitura]

 

procuro-te

procuro-te todos os dias mesmo que não saiba onde te encontrar

fugiste-me. fizeste-te silêncio

ocupaste as mãos que me tocavam com o primeiro sol da manhã

e o que era pressentimento passou a separação

agora. tudo me rasga nestas veias de sino

emersas em sangue e gás sarin

e sufoco

sufoco quando calo esta boca cada vez mais imunda

e por mais que os astros se alinhem em perdão

o corpo bate em retirada

águas perdidas não moem sentimento

agora

o som da tua voz emancipada pela distância

é fúria de cem fantasmas

paridos em almofia de solidão

 

procuro-te

procuro-te todos os dias mesmo que não saiba onde te encontrar

procuro-te para renasceres

no que sobra deste corpo esquecido

magoaste-me como magoa o som da trovoada

cravaste-me a ausência ao peito

enfureceste-me

roubaste-me o perdão

e agora as palavras são o que são:

sujas e aflitas

maldito seja este eu que vive na ponta da flecha

 

procuro-te

procuro-te todos os dias mesmo que não saiba onde te encontrar

não te procuro para escutar o teu nome ofendido

procuro-te para que me voltes a encontrar em frente a ti

olha-me. corta-me com o silêncio que inventaste

e a pedra que não atiraste

nunca mais te voltará à mão

fugiste-me. fizeste-te memória

nessa corda silenciosa

presa a pássaro que não voa

nem sou deus. nem diabo

nem proveito preso a sino que bate ausência

sou talvez… sentença magoada

 

procuro-te

procuro-te todos os dias mesmo que não saiba onde te encontrar

procuro-te mesmo que o corpo já não saiba o que procurar

e por cada pancada do sino

paira uma gaivota no ar

e pergunto à boca:

será este o meu destino?

não sei -

ouvir-te é um desígnio

nesta imensidão de mim

que te procura sem cansar

serei doente em terra apodrecida?

não sei

as veias dilatadas de tanto escorrer fim

amargam raiva num desvario despercebido

raio de dor essa de ter sinos a gemer

se não sei a cor do que geme

nem o que geme é alerta

dentro de mim

e agora estou assim:

coisa inútil nesta espera

que te espera

 

procuro-te

procuro-te todos os dias mesmo que não saiba onde te encontrar

procuro-te para que me declares de vez

o silêncio da tua boca

mas se as palavras te fugirem para a indiferença

que seja por carta ou por abraço

que o destino me desprenda ao que sobra das manhãs

e se um dia morreres dentro de mim

então

os sinos que batam sem parar

batam sem ser devagar

batam castigo que não seja dor

porque o tempo roubado a vénus

é punição que não sustento

 

procuro-te

procuro-te todos os dias mesmo que não saiba onde te encontrar

e o que parecia um sonho

é afinal um avião a voar para o fim do mundo

fugiste para onde eu nunca parti

e o corpo é agora um grito que ecoa em palavra triste:

mata-me. mata-me ou salva-me da tourada

em que ficou a minha rua

acende-me o corpo com os teus olhos

incendeia-me as mãos de virtude

mesmo que o sol se esconda no teu regaço

e se algum dia escutares touros a correr com saudade

se algum dia ouvires sinos a evocar tristeza

e mesmo que nada entendas de cores

não me voltes a fugir

são apenas palavras minhas

a falar para ti

 

procuro-te

e pela última vez te imploro

este poema é teu

 

[abril trouxe-me ao mundo – brevemente completarei mais um aniversário natalício e. mais uma vez a soma deste aniversário é diferente de tudo aquilo que aprendi no último ano – mas a vida já me ensinou a não procurar mais o santo graal – escrever é a minha expiação. pacificação do corpo – sou feliz a escrever e se houvesse uma porta para o passado. tipo exterminador. sentar-me-ia na primeira carteira da minha escola primária para aprender todas as palavras que perdi pelo caminho – escrever faz-me viver em compromisso com o bem. com dignidade. com verdade. num abraço silencioso. verdadeiro e infindável – por isso aqui estou. em palavra humilde. e com um imenso obrigado a todos aqueles que se me entregam com a sua leitura – confesso-vos que nada mais me poderia deixar-me tão feliz – grato para sempre]



03/04/2018

antenupcial


pintura - paulo fonte


a escrita é um encontro
antenupcial

saibam as ameixoeiras florir
e as metáforas parir
belas e monstros


30/03/2018

silêncio


pintura - gpttfried helnwein 



quando o silêncio me segreda

as memórias do passado vozeiam

bradam. esperneiam

e eu. sem forças. e até porque preciso

espero pelos demónios

sem lagrimas

ouço o passado sem certeza no futuro

silêncio…

justifico as minhas razões

e amo...

[me]. [te]. [vos]

volta a confusão...

a paz espreita…

volta o silêncio

volta a dor

volta a loucura

 

há dias em que o silêncio mata



27/03/2018

deambulações noturnas XXVII



inês dourado



por mais escura que encontre a noite. por mais sofrimento que me traga.  por mais que me invente para não ser o que fui.  há uma coisa que a maldita noite [sei] nunca me traz: asas – ou se nasce com elas. ou não se nasce – escrevo


24/03/2018

beijos brancos


gilberto de abreu



...de nuvem em nuvem
caminham mil beijos vestidos de branco

- para ti -

quando chegarem não te assustes
disse-lhes para te vestirem dos pés à cabeça
um deles. o mais especial. dir-te-á ao ouvido:

   - gosto muito de ti -



23/03/2018

clarice lispector - a hora da estrela



clarice lispector



"Sim, minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem das grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite."


22/03/2018

palavra do poeta



o poeta - roger-de-la-fresnaye



tenho dias que sem saber escrever

encontro um sonho para contar

dias em que nada sou sem a utopia

daqueles que me impelem a escrever

são os mestres. os poetas

donos da proficiência de domar letras

e interrogo-me

como seria se apenas eu escrevesse?

seriam letras sozinhas. chorosas

moribundas do desgosto

despidas de emoção

da pureza das ideias

letras privadas do contraste das cores -

e o amarelo. seria verde?

não sei. sei que

o florir dos campos

seria searas

ceifadas em campos vazios de saber

onde os pássaros voariam

apenas baixinho

e o poeta?

poderá ele morrer

sozinho entre palavras que nunca atracaram?

palavras azedas. onde o pólen

nunca voará

palavra que é palavra

veste-se para ser ouvida

acarinhada. açoitada

maltratada. amada

riscada. desenhada

ou apenas um aceno

no coração de quem precisa

palavra honrada será sempre de todos

desde que traga com ela

o orgulho de camões

a nós. contadores de histórias

compete-nos somente

mantê-las virtuosas e belas




19/03/2018

o dia dos meus filhos



foto - arquivo familiar


hoje é o dia dos meus filhos e também é o dia do pai deles. vejam só. também é o meu dia – sempre desejei este dia. sempre quis ter um dia partilhado com os meus filhos – não se pode ser pai sem ter filhos – sei que crescer pode ser muito doloroso e às vezes pergunto-me: que mais poderia fazer para ajudar os meus filhos a crescer [mais] felizes – não sei. não sei mesmo – sei que um pai sempre achará que nunca fez tudo o que estava ao seu alcance. nada nunca parece suficiente quando se trata dos nossos filhos e da sua felicidade – mas que me perdoem os meus filhos por cada erro em que não deveria ter falhado – quero que saibam que tudo o que fiz foi por amor. o mesmo amor que me juntou à sua mãe – com a nossa história de amor vieram vocês – e foi tudo tão planeado. tão sonhado. tão infinitamente bom saber que vinham perpetuar a nossa existência – vocês serão sempre a única razão para existirmos – mas é todo este amor impossível de escrever que me leva sempre a mais uma questão: será que um pai tem perdão quando erra por amor? não sei. também não quero perdão. pelo vosso bem-estar eu posso com o mundo todo às costas – acreditem. vocês nunca nos pesaram – por isso. neste dia que é nosso. o que vos peço. humildemente. não é o vosso perdão. peço-vos apenas a vossa compreensão. tudo que fiz foi escolher o que me pareceu ser o melhor para vocês – sei que errei em milhentas coisas. errei por excesso. errei por defeito. errei porque vocês são demasiadamente preciosos para vos ter a meu lado tristes e infelizes. errei porque sempre quis ser pai e pai. perdi-me na minha tentativa de perfeição – mas um pai para envelhecer em paz só precisa mesmo da vossa compreensão – tudo fiz para que vocês fossem pessoas felizes e independentes – hoje já pouco ou nada depende de mim. vocês cresceram para lá das minhas mãos. estão enormes. são homens bons. como o avô. são dignos. são justos. são educados e. mais do que preparados para serem cidadãos honrados. estão prontos para serem pais – nunca se esqueçam de serem pais com os vossos filhos – vocês são todos fantásticos. são todos diferentes. mas todos nossos. serão sempre nossos – para este nosso dia existir em pleno. bastava que o vosso avô descesse do céu para nos abraçar – tenho a certeza que isso não será possível. mas é possível recordá-lo e dizer que o melhor capítulo da nossa história começou com ele – ele era especial – mas se de alguma forma nos estiver a ler. já que os desígnios de deus são insondáveis. quero que saiba que sentimos imensa saudade. muita mesmo. e também quero que saiba que nos faz muita falta e hoje o dia também é seu – um dia voltaremos a abraçar-nos. tenho a certeza – obrigado aos meus filhos por me imortalizarem com este dia – não desperdicem nem um segundo da vossa vida. sejam verdadeiros e confiem no triunfo da verdade sobre a mentira. tenho a certeza de que a vida vos há de recompensar –  não deixem nada por fazer – procurem os sonhos e acreditem. sempre – um homem sem sonhos é apenas a sombra do que poderia ser – feliz dia para nós todos


18/03/2018

matrioska das mágoas



                                                                        frida-khalo


mantenho-me acordado e enrodilhado em mim. recuso-me a dormir. fixo o relógio e hipnotizo-me com o bater do coração – não tarda nada nasce o dia – mergulho na imaginação. e revolvo-me mais uma vez à procura do que nunca encontrei. atiro o corpo de um lado para o outro e mantenho-me esperto. só o cansaço me dobrará – sussurro para ter a certeza de que estou acordado. não quero ser sonho. tenho medo dos sonhos. sobretudo dos felizes – às vezes. acordar é perder tudo. mas mesmo assim. preciso de dormir e esperar qualquer coisa boa – o vento corre veloz pelas frinchas e as portas replicam-no em mais barulho. estremecem imitando gente a sair. só a sair. porque não ouço ninguém a caminhar em minha direção. faço silêncio dentro do meu silêncio. escuto o pavor em mim e no vento. arrepio-me. e a pele que me cobre lamenta-se de tudo. é um tudo que desconheço e que me ocupa o quarto todo – fico inquieto e. como não sei rezar. protesto contra o divino. se soubesse talvez o fizesse. mas não sei. estou por minha conta. sempre estive por minha conta. nasci e cresci por conta do que sou e tornei-me senhor de todas as noites – cansado. resisto. agarrando-me ao luar intermitente que trespassa os intervalos da persiana. resgato-me da escuridão. a luz do luar é tudo o que me resta para sobreviver. e logo hoje que é lua minguante – estou esgotado e desapareço de mim a cada noite que passa. não gosto do que guardo no corpo. pesa chumbo. pesa morte e pesa dor – volto-me. volto-me sem parar. reinvento soluções para o que não as tem – distendo-me num espasmo espontâneo. os tendões estalam e o corpo altera-se entre o medo e a resignação. se o coração encravar que se lixe – a noite é cada vez mais desumana – o corpo amarga. remorde-se vezes sem conta e a alma que sente. cada vez mais acordada. faz justiça pelas próprias mãos: mata uma mágoa – mas logo encontra outra ainda maior. tal como a matrioska russa. as mágoas nascem umas dentro das outras e. quando uma desaparece. há sempre outra maior a chamar-nos pelo nome – respondemos presente. um homem não se acobarda. morre de pé como as árvores e também que importa mais dor ou menos dor – nem sempre se grita com a estropiação – e mais uma volta na cama e as voltas do corpo são as voltas da vida. de dia e de noite tudo igual. tudo incerto. tudo a magoar e a balança tombada para o lado que não entendo – o passado não é piedoso. o que guarda nunca se alterará – quero dormir. fecho os olhos. mas não consigo fechar a memória. rebolo-me de um lado para o outro e não me encontro em nenhum dos lados. estou só. completamente só e sem uma única palavra para me confortar – a memória consumida à medida do meu desespero. respiro a antecâmara da morte. sufoco. o coração aperta e os pulmões recuam. barricam-se na escuridão. e o ouvido já não quer socorro. quer silêncio e uma mão para não morrer sozinho de tudo – estendo a passadeira negra para o mal que me tocou. abro a porta do inferno e passa o impossível. logo atrás. a descrença e a injustiça entram de mãos dadas – por fim. vestida de negro. a renúncia. e comigo. o fim do mundo – e o travesseiro vazio implora por uma cabeça que não pense. porque não há dor maior do que uma cama sem sono



14/03/2018

mulher – [minha]



foto - arquivo familiar


sempre que encosto a cabeça perco-me em ti – é então que deixo de ser e me torno teu


13/03/2018

o ofício da palavra


pintura - jean-michel folon



a escrita:
são encontros de palavras
ordenam-se por interesses
comunicacionais

melieiro. o escrevente
exorna com:
traço
aprumo e labor

uma panóplia de
enxertos requintados
esteticismo em apelo
ao regresso das artes

acaba a coluna em:
galanteios ao leitor
um apelo à paixão
imortal



11/03/2018

a noite e os pássaros de ruy belo



gustavo rosa


é noite. vagueio. vagueio por ruas que aos poucos se fizeram minhas – vagueio porque é noite escura e sei que depois de uma noite escura nasce a luz. e com a luz renasce a esperança. e sempre que há esperança os “pássaros de ruy belo voltam a nascer nas pontas das árvores” – é noite. é março. e é inverno em todo o mundo. em mim também. as noites estão cada vez mais escuras e eu sem saber o que fazer com tamanha imensidão de negro – é noite. vagueio porque o corpo continua a mendigar fé. continua a suplicar luz. e esta só chega quando as manhãs brilham com o canto dos pássaros – com a escuridão. não se veem as árvores. e sem árvores não há pássaros. e sem pássaros “as árvores não cantam” e nem a primavera se cumpre – o que faz um homem sem primavera? não sei. sei que “amo as árvores principalmente as que dão pássaros” – pergunto. o que é feito das minhas árvores e dos meus pássaros? calaram-se como se me cala o coração – dizei-me vós senhor. que sois o dono de todas as coisas do mundo. dizei-me por que razão me levaram as árvores. dizei-me uma palavra e sei que serei salvo – agora. senhor. em que mundo cantam os meus pássaros? em que mundo senhor? – se na noite o silêncio me cura. a luz que me entregas faz-me morrer como morrem os dias de inverno: frios. escuros. sozinhos e sem um único pássaro – deixa-me poisar na noite como se fosse um pássaro e quando te encheres de mim deixa-me cair nos teus braços. pois tu sabes. tal “como pássaros. poisam as folhas na terra quando o outono desce veladamente sobre os campos” – vagueio triste. desgostoso e amargurado. vagueio comigo. sozinho. com o passado num relógio a bater o seu termo. e a vida escorrer-se devagarinho. segundo a segundo. olho-me para matar saudade e não me encontro. já não me lembro de mim. tenho saudades de ouvir os meus pássaros. acordar com o doce sabor da primavera mesmo que os campos se cubram de medo e geada – não quero morrer distante de quem fui. não me posso esquecer das minhas gaivotas e de todas as árvores que dão pássaros. não posso. ainda necessito de saber “quem é que lá os pendura nos ramos? e de quem é a mão. a inúmera mão?” – e o corpo parado em março como se fosse outono já a anunciar inverno. e nem um único pássaro a nascer neste mês de morte e primavera – as árvores sem pássaros é silêncio que mata – só este meu abandono me ocupa com coisas que não servem para nada – imobilizo-me para ouvir aquilo que não digo. o coração bate. ouço-o. ouço-o para ter a certeza de que existo. e ele bate para se fazer sentir no mundo – não existe mais nada entre nós a não ser o bater estardalhado do coração e o silêncio do corpo. e o mundo despido de tudo o que é meu – “gostaria de dizer que os pássaros emanam das árvores” tal como eu emano do nome com que me batizaram – faço de conta de que não estou onde estou. sorrio secretamente. trinco os lábios enquanto o corpo se mutila num futuro que começou no dia anterior. e encolho-me até que o corpo volte à posição fetal. escondo-me dentro de mim porque fora já não existe nada – até os pássaros de ruy belo partiram. foram ter com o poeta – perdoai-me senhor. perdoai-me se não encontrei no corpo os desígnios da tua palavra. perdoai-me por não nascerem pássaros nas minhas árvores. mas sabes. não sou poeta e só os poetas são capazes de domar as árvores. só os poetas sabem falar com os pássaros. e só “os pássaros fazem cantar as árvores”. eu não sou nada. não tenho árvores que dão pássaros. não tenho nada senão o que sobra de mim. e isso já não é nada – “eu [apenas] amo as árvores. principalmente as que dão pássaros”

 

este texto faz referência a algumas passagens sobre pássaros e árvores do poeta ruy belo. devidamente identificadas ao longo do texto



02/03/2018

por quem dobram os meus sinos



imagem - google


leio a biografia de ernest hemingway e assisto à sua dor numa contemplação silenciosa e serena – interrogo-me. como seria eu se tivesse nascido em mil novecentos e sessenta e um? e se tivesse nascido na américa? e se trocasse a minha coca cola zero por álcool e nele me afundasse? e se a guerra infindável da minha escrita se fizesse um dobrar de sinos por mim? não sei o que seria. acreditem. nem sei bem o que é que me leva a escrever este texto maluco. afinidades. creio – hoje. com o hemingway por perto. estou convencido de que se fosse possível cavar um buraco a partir da minha terra ele daria na américa. chegado lá. só teria que comprar uma arma para matar as palavras todas. não as que escrevo. porque essas já nascem mortas. as que me habitam a cabeça e que me enganam com esperança – estamos em dois mil e dezoito. março. às portas da primavera e do inferno. e eu num ato de contrição: por minha culpa. máxima culpa vos escrevo. não o que trago na cabeça. mas o que me falta nas mãos – sossego. afinal. nunca saí de onde estou. sou desta terra de portas abertas e que tudo vê tudo por um canudo. finjo-me morto e entrego-me ao pensamento até que uma voz me resgate de volta para o barulho do mundo – morrer não é uma chatice. mas um desígnio que compramos e nos permite nascer. só não nos dizem o dia em que partimos. apenas nos iludem com tempo. como se o tempo fosse uma equação simples de calcular. não é. nem sempre viver cem anos é melhor do que cinquenta – viver é conduzir numa autoestrada em hora de ponta a duzentos quilómetros por hora. fazer dois piões. entrar por uma galgueira. andar em duas rodas. evitar trinta e três acidentes enquanto falamos ao telemóvel e sorrimos para o retrovisor com desdém porque o que fica para trás já não nos serve para nada – ninguém quer saber o que fizeste. só o presente constrói futuro – quando damos conta chegamos ao destino meia hora mais cedo com a sensação de que o mundo está todo atrasado – estamos no nosso velório. e já ninguém nos espera. louvado seja o senhor

 


28/02/2018

deambulações noturnas XXV



pintura - fábio magalhães 



neste quarto onde deixei de me admirar já pouco ou nada é meu. talvez alguns livros por ler e muita vida por aprender – mas sei que será este quarto que não me viu nascer. que um dia me verá morrer


14/02/2018

vai. mas será que vais?



pintura - salvado dali


não desistas corpo notívago. vai atrás do que é teu. vai. corre muito. corre como correm clarões em noites de tempestade – vai. vai por esse mundo imaginário e inventa-te em marte. por lá. tenho a certeza de que há lugar para ti ainda que te tomem por extraterrestre – não te zangues. verás que um dia serás mais do que a tua imaginação. mais do que intuição. mais do que aquilo que escreves nas entrelinhas. serás das ruas com gente a correr de um lado para o outro. dos carros a apitar movimento. dos maus a fugir dos bons. das sirenes a zumbir cuidados. e dos tolos. meu deus. cada vez mais tolos a fugir dos que ainda não são tolos – o mundo esticado ao centímetro quadrado. o corpo esticado ao centímetro quadrado. a alma esticada ao centímetro quadrado. a fé esticada ao centímetro quadrado e a incerteza parada em cada centímetro. e o quadrado enfeitado de malmequeres brancos desenha uma janela que grita: há mais mundo para além do teu medo – sou tanto. tanto para dar e tanto por fazer – mas vai. vai por esse mundo fora. corre. corre muito porque marte é longe e o teu coração já não é novo. vai. vai que a fé já foi à tua frente e a vida está pela hora da morte. dobra-te na tua cruz e ora ao teu deus que por ser teu é o deus de todos os deuses. vai. vai em sinal da cruz porque só na janela há esperança. a morte é negrura. às vezes solução. mas sempre solidão – um dia. os néons deixarão de piscar possibilidades que não te cabem nos olhos. os bons nunca mais fugirão dos maus. as ruas correrão atrás das pessoas e os tolos distribuirão malmequeres pelos não tolos – ó meu deus. porque será que quando vou nunca saio de onde estou? talvez o mundo seja maior do que uma viagem a marte. talvez não consiga voar no espaço como voam as gaivotas no mar. talvez seja quase do tamanho do nada. e tudo que é nada nunca deixará de ser nada. talvez os pés sejam minúsculos e lentos a caminhar. as mãos atrofiadas. o corpo mirrado. corcunda. feio. tão feio que ninguém me quer olhar. nem deus – talvez seja tudo. ou apenas só eu – mas vai. parte com coragem. faz-te ao tempo interstelar. inventa ventos meteóricos. queima a rosa dos ventos e rasga todos os azimutes convergentes com a desgraça. abre a janela ao espaço sideral e grita o teu nome. grita como um selvagem. grita como se o grito fosse a tua história de vida. grita como canta a cigarra em noite de cio. grita como geme a corda saudosa na guitarra do fadista – vai. vai e despe a raiva para trás das costas e atira-te ao espaço em silêncio e luta. luta por ti e por aqueles que te deram vida e se morreres. morre de sorriso na boca porque o que não tem remédio remediado está – afinal és apenas um mortal numa galáxia empanturrada de desejos – vai. vai vertical pela noite. vai. rasteja pelo dia. mas vai. vai para onde te possas encontrar