[dia internacional do beijo]
meu coração tem um pequeno cérebro dentro de si. como a pilha nos relógios. não faz tic-tac. mas faz-me sorrir sempre que te dou um beijo
meu coração tem um pequeno cérebro dentro de si. como a pilha nos relógios. não faz tic-tac. mas faz-me sorrir sempre que te dou um beijo
encosto o corpo à cadeira. recolho-me num escritório
esgotado de reboliço. retiro as
concordâncias para o lado. fecho o word e olho pela janela com a sensação de
dever cumprido – dou o que tenho e o que não tenho por cada palavra. quem assim
o faz a mais não é obrigado – a noite anuncia em breve a chegada do dia. as
estrelas estão em debandada. o escuro já não é um escuro de meter medo enquanto
os demónios fogem a sete pés para as catacumbas – reconforto-me numa poltrona
que me pertence. o tempo cavou-lhe o esboço do corpo. acerto-me. encaixo na
perfeição e procuro arredar-me do que sobra da noite. engulo duas golfadas de
ar. liberto-me na desarrumação mental e livro-me do corpo – por fim. livre de
todas as malapatas emito um último pedido em banda divina: encomendo aos meus
guias espirituais um punhado de sonhos felizes – quando encontrar esse sono afortunado
terei então oportunidade de descansar da vida e retratar a morte: sossego
absoluto – viver é uma barulheira infernal – sentado e sem corpo. coloco os
olhos no parapeito da janela e ordeno-lhes com semblante autoritário: façam o
favor de me trazer ao corpo os primeiros raios de luz da manhã – ninguém
consegue dormir em silêncio sem pelo menos um raio de luz dentro do corpo – esta
não é uma manhã qualquer. é a manhã que traz a primavera. a estação das flores.
dos pássaros. da fruta. dos sorrisos em dias grandes. dos namorados encantados
com os ninhos das andorinhas. das amizades leais. dos abraços entre pais e
filhos. da esperança. da fartura e do conseguimento do corpo para apreender que
a vida depende de um raio de sol – com a primavera esqueço que o março é madrasto.
esqueço a saudade do meu pai e também esqueço as saudades que tenho de mim – tenho
tantas saudades de mim – cresci em demasia. nunca deveria ter crescido. nunca
me devia ter desfeito dos meus calções com suspensórios. da bola de couro. daquele
chapeuzinho redondo com que um dia atravessei o rio minho no colo de minha mãe.
do cheiro a terra na minha aldeia. ou do reboliço na minha cidade com a feira
semanal – hoje sei que cresci enganado – cresci. mas não esqueço a minha rua. o
mercado. os camiões da fruta a chegar ao mercado. e os carrejões sujos como
áfrica a carregar as primeiras uvas do algarve – não esqueço as tendas a vender
coisas e coisinhas e aquela gente de preto. mal vestida. suja por fora.
limpíssima por dentro. e o bom dia numa vénia humilde. límpida. de gente genuína.
gente do meu chão que carregava à cabeça sorrisos de encantar. simples. bonitos.
agradecidos a cada raio de sol mesmo quando a boca se fechava de fome – não devia
ter crescido. era um miúdo feliz. bonito por dentro e por fora. gostava da
minha escola com os seus catraios esfarrapados. pobres como jó. e eu a comer pão
com marmelada. eles especados. com os olhos a afoguear necessidade. e eu de
bata azul às riscas a imaginar o mundo do tamanho do recreio da escola. raparigas
de um lado. nós do outro. e a professora a meio. alta num corpo de mulher
perfeita. bata branca. como se tivesse descido do céu. linda. com as mãos a
cheirar a conhecimento. e a boca transbordando de letras e números – assim aprendi
a ler. os olhos grandes de alegria e o a. e. i. o. u desenhado na perfeição num
caderno de duas linhas que nunca se cruzavam – o mundo cabia-me tudinho nos
olhos. os sinos batiam as horas certas e a vida anunciava-se tranquila e pressentível.
gostava de viver e gostava de falar com deus – mas cresci. agora estou enorme.
afundado numa cadeira maior do que eu. com umas mãos que não sabem escrever em
cadernos com linhas – agora já não há
magia. nem hora para o recreio. deus deixou de falar comigo. tirou-me a
professora – estou cansado de mim. o sol nasce todos os dias da mesma forma.
sem trazer o imprevisível. a inocência. aquela esperança cega ou a teimosia. é um
sol amorfo. batoteiro. sem aquele calor que queimava. mas não trilhava e sem aquela
vontade ingénua de arrastar o corpo para um imenso que afinal nunca descobri –
aqui estou nesta primavera que já não reconheço como minha. a apontar para
dentro do corpo perdido de quase tudo. a olhar o passado como se tudo em mim
cheirasse a defunto. imóvel. sem uma única palavra da minha escola. com a linha
do sorriso a cair do queixo e os olhos emudecidos seguram as pernas para não
saírem a correr pela desgraça – que saudades tenho do pão com marmelada. que
saudades tenho de mim – olho-me de cima a baixo. junto ao corpo uma pistola
imaginária apontada ao que sobra do meu nome. e o dedo a tremer. disparo? não
disparo? – onde anda a minha professora? onde anda a minha tabuada? tanta
reguada para coisa nenhuma – agora as máquinas resolvem as contas de uma vida
num segundo – um segundo que nunca terá a magia das mãos da minha professora.
uma máquina nunca será alta. bonita. nem nunca virá do céu. nunca. talvez do
inferno. porque tudo à minha volta é máquina e tudo parece um inferno – mas não
é a mesma coisa. as máquinas não cantam a tabuada. fazem as contas. mas não
cantam. nem sabem o valor de um pão com marmelada. e muito menos do que é ter
uma professora – estou triste. amargurado. abril trouxe-me ao mundo e o mundo é
demasiado belo para tanta tristeza dentro de mim – nunca sabemos quando vai ser
a nossa última manhã. e talvez nem importe. hoje tenho este dia para viver e
vou amarrá-lo ao corpo como se ainda usasse calções e a bola rolasse de pé em
pé. os amigos a deitar passos para
escolher a equipa do maior para o mais pequeno e o jogo a mudar aos oito e
acabar com oitenta primaveras. para todos – brevemente será abril. o mês que me
trouxe à vida enrodilhou-me num trapo e ali fiquei para crescer. escondido de
mim e de todas as palavras do mundo – é nas noites de abril que resisto aos
intervalos do coração a bater. resisto em silêncio para que a magia volte a
romper num amanhecer e me traga um raio de sol inocente. porque em cada raio de
sol vive uma gaivota. e em cada gaivota um vento sul aberto a abril – sei que
um dia carregarei comigo todos os amanheceres de abril – mas resisto. resisto
amarrado a um raio de sol. de primavera.
de abril
este poema é teu
[sempre que perdemos alguém que
nos quer bem - com a sua leitura]
procuro-te
procuro-te todos os
dias mesmo que não saiba onde te encontrar
fugiste-me.
fizeste-te silêncio
ocupaste as mãos que
me tocavam com o primeiro sol da manhã
e o que era
pressentimento passou a separação
agora. tudo me rasga
nestas veias de sino
emersas em sangue e
gás sarin
e sufoco
sufoco quando calo
esta boca cada vez mais imunda
e por mais que os
astros se alinhem em perdão
o corpo bate em
retirada
águas perdidas não
moem sentimento
agora
o som da tua voz
emancipada pela distância
é fúria de cem
fantasmas
paridos em almofia de
solidão
procuro-te
procuro-te todos os
dias mesmo que não saiba onde te encontrar
procuro-te para
renasceres
no que sobra deste
corpo esquecido
magoaste-me como
magoa o som da trovoada
cravaste-me a
ausência ao peito
enfureceste-me
roubaste-me o perdão
e agora as palavras
são o que são:
sujas e aflitas
maldito seja este eu
que vive na ponta da flecha
procuro-te
procuro-te todos os
dias mesmo que não saiba onde te encontrar
não te procuro para
escutar o teu nome ofendido
procuro-te para que
me voltes a encontrar em frente a ti
olha-me. corta-me com
o silêncio que inventaste
e a pedra que não
atiraste
nunca mais te voltará
à mão
fugiste-me.
fizeste-te memória
nessa corda
silenciosa
presa a pássaro que
não voa
nem sou deus. nem
diabo
nem proveito preso a
sino que bate ausência
sou talvez… sentença
magoada
procuro-te
procuro-te todos os
dias mesmo que não saiba onde te encontrar
procuro-te mesmo que
o corpo já não saiba o que procurar
e por cada pancada do
sino
paira uma gaivota no
ar
e pergunto à boca:
será este o meu
destino?
não sei -
ouvir-te é um
desígnio
nesta imensidão de
mim
que te procura sem
cansar
serei doente em terra
apodrecida?
não sei
as veias dilatadas de
tanto escorrer fim
amargam raiva num
desvario despercebido
raio de dor essa de
ter sinos a gemer
se não sei a cor do
que geme
nem o que geme é
alerta
dentro de mim
e agora estou assim:
coisa inútil nesta
espera
que te espera
procuro-te
procuro-te todos os
dias mesmo que não saiba onde te encontrar
procuro-te para que
me declares de vez
o silêncio da tua
boca
mas se as palavras te
fugirem para a indiferença
que seja por carta ou
por abraço
que o destino me
desprenda ao que sobra das manhãs
e se um dia morreres
dentro de mim
então
os sinos que batam
sem parar
batam sem ser devagar
batam castigo que não
seja dor
porque o tempo
roubado a vénus
é punição que não
sustento
procuro-te
procuro-te todos os
dias mesmo que não saiba onde te encontrar
e o que parecia um
sonho
é afinal um avião a
voar para o fim do mundo
fugiste para onde eu
nunca parti
e o corpo é agora um
grito que ecoa em palavra triste:
mata-me. mata-me ou
salva-me da tourada
em que ficou a minha
rua
acende-me o corpo com
os teus olhos
incendeia-me as mãos
de virtude
mesmo que o sol se
esconda no teu regaço
e se algum dia
escutares touros a correr com saudade
se algum dia ouvires
sinos a evocar tristeza
e mesmo que nada
entendas de cores
não me voltes a fugir
são apenas palavras
minhas
a falar para ti
procuro-te
e pela última vez te
imploro
lê
este poema é teu
[abril trouxe-me ao mundo – brevemente completarei mais um aniversário natalício e. mais uma vez a soma deste aniversário é diferente de tudo aquilo que aprendi no último ano – mas a vida já me ensinou a não procurar mais o santo graal – escrever é a minha expiação. pacificação do corpo – sou feliz a escrever e se houvesse uma porta para o passado. tipo exterminador. sentar-me-ia na primeira carteira da minha escola primária para aprender todas as palavras que perdi pelo caminho – escrever faz-me viver em compromisso com o bem. com dignidade. com verdade. num abraço silencioso. verdadeiro e infindável – por isso aqui estou. em palavra humilde. e com um imenso obrigado a todos aqueles que se me entregam com a sua leitura – confesso-vos que nada mais me poderia deixar-me tão feliz – grato para sempre]
as
memórias do passado vozeiam
bradam.
esperneiam
e eu. sem
forças. e até porque preciso
espero
pelos demónios
sem
lagrimas
ouço o
passado sem certeza no futuro
silêncio…
justifico
as minhas razões
e amo...
[me].
[te]. [vos]
volta a
confusão...
a paz
espreita…
volta o
silêncio
volta a
dor
volta a
loucura
há dias
em que o silêncio mata
tenho dias que
sem saber escrever
encontro um sonho
para contar
dias em que nada
sou sem a utopia
daqueles que me
impelem a escrever
são os mestres. os poetas
donos da
proficiência de domar letras
e interrogo-me
como seria se
apenas eu escrevesse?
seriam letras
sozinhas. chorosas
moribundas do
desgosto
despidas de
emoção
da pureza das
ideias
letras privadas
do contraste das cores -
e o amarelo. seria verde?
não sei. sei que
o florir dos
campos
seria searas
ceifadas em
campos vazios de saber
onde os pássaros
voariam
apenas baixinho
e o poeta?
poderá ele morrer
sozinho entre
palavras que nunca atracaram?
palavras azedas.
onde o pólen
nunca voará
palavra que é
palavra
veste-se para ser
ouvida
acarinhada. açoitada
maltratada. amada
riscada. desenhada
ou apenas um
aceno
no coração de
quem precisa
palavra honrada
será sempre de todos
desde que traga
com ela
o orgulho de camões
a nós. contadores de histórias
compete-nos somente
mantê-las
virtuosas e belas
hoje é o dia dos meus
filhos e também é o dia do pai deles.
vejam só. também é o meu dia –
sempre desejei este dia. sempre quis
ter um dia partilhado com os meus filhos – não se pode ser pai sem ter filhos –
sei que crescer pode ser muito doloroso e às vezes pergunto-me: que mais poderia fazer para ajudar os
meus filhos a crescer [mais] felizes – não sei. não sei mesmo – sei que um pai sempre achará que nunca fez tudo o
que estava ao seu alcance. nada nunca
parece suficiente quando se trata dos nossos filhos e da sua felicidade – mas
que me perdoem os meus filhos por cada erro em que não deveria ter falhado –
quero que saibam que tudo o que fiz foi por amor. o mesmo amor que me juntou à sua mãe – com a nossa história de
amor vieram vocês – e foi tudo tão planeado.
tão sonhado. tão infinitamente bom
saber que vinham perpetuar a nossa existência – vocês serão sempre a única
razão para existirmos – mas é todo este amor impossível de escrever que me leva
sempre a mais uma questão: será que
um pai tem perdão quando erra por amor? não sei. também não quero perdão. pelo vosso bem-estar eu posso com o
mundo todo às costas – acreditem.
vocês nunca nos pesaram – por isso.
neste dia que é nosso. o que vos
peço. humildemente. não é o vosso perdão. peço-vos apenas a vossa compreensão. tudo que fiz foi escolher o que me
pareceu ser o melhor para vocês – sei que errei em milhentas coisas. errei por excesso. errei por defeito. errei
porque vocês são demasiadamente preciosos para vos ter a meu lado tristes e
infelizes. errei porque sempre quis
ser pai e pai. perdi-me na minha
tentativa de perfeição – mas um pai para envelhecer em paz só precisa
mesmo da vossa compreensão – tudo fiz para que vocês fossem pessoas felizes e
independentes – hoje já pouco ou nada depende de mim. vocês cresceram para lá das minhas mãos. estão enormes. são
homens bons. como o avô. são dignos. são justos. são
educados e. mais do que preparados para serem cidadãos honrados. estão prontos
para serem pais – nunca se esqueçam de serem pais com os vossos filhos – vocês
são todos fantásticos. são todos
diferentes. mas todos nossos. serão
sempre nossos – para este nosso dia existir em pleno. bastava que o vosso avô
descesse do céu para nos abraçar – tenho a certeza que isso não será possível. mas é possível recordá-lo e dizer que
o melhor capítulo da nossa história começou com ele – ele era especial – mas se
de alguma forma nos estiver a ler.
já que os desígnios de deus são insondáveis.
quero que saiba que sentimos imensa saudade.
muita mesmo. e também quero que
saiba que nos faz muita falta e hoje o dia também é seu – um dia voltaremos a
abraçar-nos. tenho a certeza –
obrigado aos meus filhos por me imortalizarem com este dia – não desperdicem nem
um segundo da vossa vida. sejam
verdadeiros e confiem no triunfo da verdade sobre a mentira. tenho a certeza de
que a vida vos há de recompensar – não
deixem nada por fazer – procurem os sonhos e acreditem. sempre – um homem sem sonhos é apenas a sombra do que poderia ser
– feliz dia para nós todos
mantenho-me acordado e
enrodilhado em mim. recuso-me a dormir. fixo o relógio e hipnotizo-me com o
bater do coração – não tarda nada nasce o dia – mergulho na imaginação. e
revolvo-me mais uma vez à procura do que nunca encontrei. atiro o corpo de um
lado para o outro e mantenho-me esperto. só o cansaço me dobrará – sussurro
para ter a certeza de que estou acordado. não quero ser sonho. tenho medo dos
sonhos. sobretudo dos felizes – às vezes. acordar é perder tudo. mas mesmo
assim. preciso de dormir e esperar qualquer coisa boa – o vento corre veloz
pelas frinchas e as portas replicam-no em mais barulho. estremecem imitando
gente a sair. só a sair. porque não ouço ninguém a caminhar em minha direção.
faço silêncio dentro do meu silêncio. escuto o pavor em mim e no vento.
arrepio-me. e a pele que me cobre lamenta-se de tudo. é um tudo que desconheço
e que me ocupa o quarto todo – fico inquieto e. como não sei rezar. protesto
contra o divino. se soubesse talvez o fizesse. mas não sei. estou por minha
conta. sempre estive por minha conta. nasci e cresci por conta do que sou e
tornei-me senhor de todas as noites – cansado. resisto. agarrando-me ao luar
intermitente que trespassa os intervalos da persiana. resgato-me da escuridão.
a luz do luar é tudo o que me resta para sobreviver. e logo hoje que é lua
minguante – estou esgotado e desapareço de mim a cada noite que passa. não
gosto do que guardo no corpo. pesa chumbo. pesa morte e pesa dor – volto-me.
volto-me sem parar. reinvento soluções para o que não as tem – distendo-me num
espasmo espontâneo. os tendões estalam e o corpo altera-se entre o medo e a
resignação. se o coração encravar que se lixe – a noite é cada vez mais
desumana – o corpo amarga. remorde-se vezes sem conta e a alma que sente. cada
vez mais acordada. faz justiça pelas próprias mãos: mata uma mágoa – mas logo
encontra outra ainda maior. tal como a matrioska russa. as mágoas nascem umas
dentro das outras e. quando uma desaparece. há sempre outra maior a chamar-nos
pelo nome – respondemos presente. um homem não se acobarda. morre de pé como as
árvores e também que importa mais dor ou menos dor – nem sempre se grita com a
estropiação – e mais uma volta na cama e as voltas do corpo são as voltas da
vida. de dia e de noite tudo igual. tudo incerto. tudo a magoar e a balança
tombada para o lado que não entendo – o passado não é piedoso. o que guarda
nunca se alterará – quero dormir. fecho os olhos. mas não consigo fechar a
memória. rebolo-me de um lado para o outro e não me encontro em nenhum dos
lados. estou só. completamente só e sem uma única palavra para me confortar – a
memória consumida à medida do meu desespero. respiro a antecâmara da morte.
sufoco. o coração aperta e os pulmões recuam. barricam-se na escuridão. e o
ouvido já não quer socorro. quer silêncio e uma mão para não morrer sozinho de
tudo – estendo a passadeira negra para o mal que me tocou. abro a porta do
inferno e passa o impossível. logo atrás. a descrença e a injustiça entram de
mãos dadas – por fim. vestida de negro. a renúncia. e comigo. o fim do mundo –
e o travesseiro vazio implora por uma cabeça que não pense. porque não há dor
maior do que uma cama sem sono
é noite. vagueio. vagueio por ruas que aos poucos se
fizeram minhas – vagueio porque é noite escura e sei que depois de uma noite
escura nasce a luz. e com a luz renasce a esperança. e sempre que há esperança os
“pássaros de ruy belo voltam a nascer nas pontas das árvores” – é noite. é
março. e é inverno em todo o mundo. em mim também. as noites estão cada vez
mais escuras e eu sem saber o que fazer com tamanha imensidão de negro – é
noite. vagueio porque o corpo continua a mendigar fé. continua a suplicar luz.
e esta só chega quando as manhãs brilham com o canto dos pássaros – com a
escuridão. não se veem as árvores. e sem árvores não há pássaros. e sem
pássaros “as árvores não cantam” e nem a primavera se cumpre – o que faz um
homem sem primavera? não sei. sei que “amo as árvores principalmente as que dão
pássaros” – pergunto. o que é feito das minhas árvores e dos meus pássaros?
calaram-se como se me cala o coração – dizei-me vós senhor. que sois o dono de
todas as coisas do mundo. dizei-me por que razão me levaram as árvores.
dizei-me uma palavra e sei que serei salvo – agora. senhor. em que mundo cantam
os meus pássaros? em que mundo senhor? – se na noite o silêncio me cura. a luz
que me entregas faz-me morrer como morrem os dias de inverno: frios. escuros.
sozinhos e sem um único pássaro – deixa-me poisar na noite como se fosse um
pássaro e quando te encheres de mim deixa-me cair nos teus braços. pois tu
sabes. tal “como pássaros. poisam as folhas na terra quando o outono desce
veladamente sobre os campos” – vagueio triste. desgostoso e amargurado. vagueio
comigo. sozinho. com o passado num relógio a bater o seu termo. e a vida escorrer-se
devagarinho. segundo a segundo. olho-me para matar saudade e não me encontro. já
não me lembro de mim. tenho saudades de ouvir os meus pássaros. acordar com o
doce sabor da primavera mesmo que os campos se cubram de medo e geada – não
quero morrer distante de quem fui. não me posso esquecer das minhas gaivotas e de todas
as árvores que dão pássaros. não posso. ainda necessito de saber “quem é que lá
os pendura nos ramos? e
de quem é a mão. a
inúmera mão?” – e o corpo parado em março como se fosse outono já a anunciar
inverno. e nem um único pássaro a nascer neste mês de morte e primavera – as árvores
sem pássaros é silêncio que mata – só este meu abandono me ocupa com coisas que
não servem para nada – imobilizo-me para ouvir aquilo que não digo. o coração
bate. ouço-o. ouço-o para ter a certeza de que existo. e ele bate para se fazer
sentir no mundo – não existe mais nada entre nós a não ser o bater estardalhado
do coração e o silêncio do corpo. e o mundo despido de tudo o que é meu – “gostaria
de dizer que os pássaros emanam das árvores” tal como eu emano do nome com que
me batizaram – faço de conta de que não estou onde estou. sorrio secretamente.
trinco os lábios enquanto o corpo se mutila num futuro que começou no dia
anterior. e encolho-me até que o corpo volte à posição fetal. escondo-me dentro
de mim porque fora já não existe nada – até os pássaros de ruy belo partiram.
foram ter com o poeta – perdoai-me senhor. perdoai-me se não encontrei no corpo
os desígnios da tua palavra. perdoai-me por não nascerem pássaros nas minhas
árvores. mas sabes. não sou poeta e só os poetas são capazes de domar as
árvores. só os poetas sabem falar com os pássaros. e só “os pássaros fazem
cantar as árvores”. eu não sou nada. não tenho árvores que dão pássaros. não
tenho nada senão o que sobra de mim. e isso já não é nada – “eu [apenas] amo as
árvores. principalmente as que dão pássaros”
este
texto faz referência a algumas passagens sobre pássaros e árvores do poeta ruy
belo. devidamente identificadas ao longo do texto
leio
a biografia de ernest hemingway e assisto à sua dor numa contemplação
silenciosa e serena – interrogo-me. como seria eu se tivesse nascido em mil
novecentos e sessenta e um? e se tivesse nascido na américa? e se trocasse a
minha coca cola zero por álcool e nele me afundasse? e se a guerra infindável
da minha escrita se fizesse um dobrar de sinos por mim? não sei o que seria. acreditem.
nem sei bem o que é que me leva a escrever este texto maluco. afinidades. creio
– hoje. com o hemingway por perto. estou convencido de que se fosse possível
cavar um buraco a partir da minha terra ele daria na américa. chegado lá. só
teria que comprar uma arma para matar as palavras todas. não as que escrevo.
porque essas já nascem mortas. as que me habitam a cabeça e que me enganam com
esperança – estamos em dois mil e dezoito. março. às portas da primavera e do
inferno. e eu num ato de contrição: por minha culpa. máxima culpa vos escrevo.
não o que trago na cabeça. mas o que me falta nas mãos – sossego. afinal. nunca
saí de onde estou. sou desta terra de portas abertas e que tudo vê tudo por um
canudo. finjo-me morto e entrego-me ao pensamento até que uma voz me resgate de
volta para o barulho do mundo – morrer não é uma chatice. mas um desígnio que
compramos e nos permite nascer. só não nos dizem o dia em que partimos. apenas
nos iludem com tempo. como se o tempo fosse uma equação simples de calcular.
não é. nem sempre viver cem anos é melhor do que cinquenta – viver é conduzir
numa autoestrada em hora de ponta a duzentos quilómetros por hora. fazer dois
piões. entrar por uma galgueira. andar em duas rodas. evitar trinta e três
acidentes enquanto falamos ao telemóvel e sorrimos para o retrovisor com desdém
porque o que fica para trás já não nos serve para nada – ninguém quer saber o
que fizeste. só o presente constrói futuro – quando damos conta chegamos ao
destino meia hora mais cedo com a sensação de que o mundo está todo atrasado –
estamos no nosso velório. e já ninguém nos espera. louvado seja o senhor
não desistas corpo notívago. vai atrás do que é teu. vai. corre muito. corre como
correm clarões em noites de tempestade – vai. vai por esse mundo imaginário e
inventa-te em marte. por lá. tenho a certeza de que há lugar para ti ainda que
te tomem por extraterrestre – não te zangues. verás que um dia serás mais do
que a tua imaginação. mais do que intuição. mais do que aquilo que escreves nas
entrelinhas. serás das ruas com gente a correr de um lado para o outro. dos carros
a apitar movimento. dos maus a fugir dos bons. das sirenes a zumbir cuidados. e
dos tolos. meu deus. cada vez mais tolos a fugir dos que ainda não são tolos – o
mundo esticado ao centímetro quadrado. o corpo esticado ao centímetro quadrado.
a alma esticada ao centímetro quadrado. a fé esticada ao centímetro quadrado e
a incerteza parada em cada centímetro. e o quadrado enfeitado de malmequeres brancos
desenha uma janela que grita: há mais mundo para além do teu medo – sou tanto. tanto
para dar e tanto por fazer – mas vai. vai por esse mundo fora. corre. corre
muito porque marte é longe e o teu coração já não é novo. vai. vai que a fé já
foi à tua frente e a vida está pela hora da morte. dobra-te na tua cruz e ora
ao teu deus que por ser teu é o deus de todos os deuses. vai. vai em sinal da
cruz porque só na janela há esperança. a morte é negrura. às vezes solução. mas
sempre solidão – um dia. os néons deixarão de piscar possibilidades que não te
cabem nos olhos. os bons nunca mais fugirão dos maus. as ruas correrão atrás
das pessoas e os tolos distribuirão malmequeres pelos não tolos – ó meu deus.
porque será que quando vou nunca saio de onde estou? talvez o mundo seja maior
do que uma viagem a marte. talvez não consiga voar no espaço como voam as gaivotas
no mar. talvez seja quase do tamanho do nada. e tudo que é nada nunca deixará
de ser nada. talvez os pés sejam minúsculos e lentos a caminhar. as mãos
atrofiadas. o corpo mirrado. corcunda. feio. tão feio que ninguém me quer olhar.
nem deus – talvez seja tudo. ou apenas só eu – mas vai. parte com coragem.
faz-te ao tempo interstelar. inventa ventos meteóricos. queima a rosa dos
ventos e rasga todos os azimutes convergentes com a desgraça. abre a janela ao espaço
sideral e grita o teu nome. grita como um selvagem. grita como se o grito fosse
a tua história de vida. grita como canta a cigarra em noite de cio. grita como
geme a corda saudosa na guitarra do fadista – vai. vai e despe a raiva para
trás das costas e atira-te ao espaço em silêncio e luta. luta por ti e por
aqueles que te deram vida e se morreres. morre de sorriso na boca porque o que
não tem remédio remediado está – afinal és apenas um mortal numa galáxia empanturrada
de desejos – vai. vai vertical pela noite. vai. rasteja pelo dia. mas vai. vai
para onde te possas encontrar