20/11/2019

eu. os peixes e o cloro




 

em dezembro de 2010 resolvi trazer para casa um aquário e cinco peixes miscigenados na raça e na cor – instalei a caixa de vidro num local aconchegado e protegido das correntes de ar. forrei o fundo com joguinhas brancas. encalhei uma nau naufragada do tempo do vasco da gama. plantei umas algas verdes fofinhas para que os guelras pudessem jogar ao esconde esconde. encrostei uma ânfora que borbulha bolhinhas de oxigénio e. mais uns quantos “bisegres” para que o fundo da caixa reproduzisse. dentro das inúmeras limitações. o fundo do oceano – depois de tudo devidamente preparado e ornamentado inundei a caixa de vidro com água da companhia – delicadamente. abri a saca de plástico transparente. onde transportei os guelras da loja até casa e. um a um. com delicadeza. operei o transbordo para o meu oceano pacífico privado – e ali fiquei a apreciar os meus novos animais de estimação. quer dizer. os meus novos guelras de estimação e. rapidamente percebi. de que os peixes e as crianças têm uma característica em comum. só precisam de liberdade para serem felizes – ali estava eu parado. também imerso em prazer. a degustar o meu novo e excêntrico “affair” hídrico. suplementado com uma convicção firme de que tinha acertado na escolha dos novos inquilinos para o meu exótico aquário – os guelras estavam felizes e confiantes no seu novo habitat. estavam enérgicos. corriam como loucos. davam piruetas com curvas e contracurvas. faziam bolhinhas pela boca e as barbatanas não paravam de bater. mais parecia o voo das andorinhas a anunciar a primavera. tal era a velocidade e alegria com que se moviam de um lado para o outro – estávamos todos felizes. eu. os peixes e o max. que ao meu lado. intrigado com a singularidade dos feitios e cores dos novos amigos. não parava de abanar a cauda – estava tudo a correr dentro da normalidade perspetivada pela vendedora. especialista em animais de todas as espécies. quando me apercebi que algo estranho estava a acontecer. os guelras estavam tremulosos. os olhos esbugalhados não paravam de piscar – esta altercação não estava prevista no manual de boas práticas de manuseamento e bem-estar de peixes ornamentais – entrei em pânico. não sabia nada da anatomia de peixes. em toda a minha vida só com cães tinha partilhado afetos. não fazia a menor ideia de como se tratar um peixe. nem avaliar a gravidade dos sintomas – será que estavam todos a ter um AVC por intoxicação da água? ou seriam apenas pequenos espasmos nervosos de adaptação ao seu novo lar? o que me desassossega. é que para o bem e para o mal. sou eu o único responsável pelo seu bem-estar – estamos numa época em que não se pode facilitar com os cuidados aos animais. ainda me culpam de maus tratos e quem sabe. acabo em tribunal acusado de negligência – e pior. estou sujeito a que. a qualquer momento. me toque a campainha e me apareça à porta a CMTV acompanhada pelo PAN [partida das pessoas. dos animais e da natureza]– comecei à procura do que poderia estar a causar aquele pisca pisca e pensei: será que os peixes estão nauseados com o cloro da água da companhia? é bem possível. a água ultimamente não anda grande coisa – se fossem humanos. percebíamos com facilidade se o problema recaía sobre a má qualidade da água. reviravam os olhos. esfregavam-nos e logo concluíamos que a maleita passaria com umas gotas oftalmológicas – mas a verdade é que os guelras não têm mãos e as barbatanas são curtas. creio que nem esticadas chegam aos olhos. que chatice. nem uma comichãozinha podem ter – deus lá teve as suas razões para que na sua infinita sabedoria não lhes desse mãos – mas a verdade. é que se lhes tivesse implantado umas mãozinhas. tinha-me aligeirado a resolução do problema. misturava na água umas gotinhas para a conjuntivite e logo via se o piscar abrandava – vá-se lá entender deus e os peixes – mas o melhor é meter a viola ao saco e calar-me. não vá o todo o poderoso aborrecer-se com este meu palavreado e ainda lhes desarranja os intestinos – já deveria saber há muito que os desígnios de deus são insondáveis e nunca questionáveis – começo a ficar preocupado. sinto que o pisca pisca está mais intenso e também os sinto mais paraditos – pudessem ao menos chorar para eu perceber a gravidade do piscar dos olhos – mas como se veria uma lágrima no meio de um oceano? os peixes são uma dor de cabeça – pensando bem. talvez nesta coisa das lágrimas a minha preocupação seja uma tolice. os peixes não choram não por não terem lágrimas. mas porque não têm sentimentos – a verdade é que também conheço muitos humanos assim. sem lágrimas e sem sentimentos e não vivem no meio do oceano – quem sabe se deus quando criou o mundo animal tenha concebido os peixes propositadamente assim. diferentes de todos os outros animais – talvez quisesse um animal que não fosse bem animal. distinto de tudo o que tinha criado até ao momento. distante dos homens. escamado. com guelras para sobreviver escondido na água. frio. sem sorrisos. com mau feitio e indiferente a tudo que existe fora do mundo aquático – e por mais tentativas do homem para influenciar o seu modo de viver. domesticar. ou até mantê-los em cativeiro. a resposta seria sempre um desapego silencioso por tudo o que o rodeia. sem emoções. sem latidos. sem rosnar. sem miar. sem asas e sem sonhos – tudo o que este animal marítimo traz ao mundo dos humanos é um alheamento sincronizado do movimento das barbatanas com o abrir e fechar das guelras. abana o rabo e pisca os olhos para assinalar a marcha pela profundeza dos oceanos – deus substituiu-lhes então as mãos por guelras para que não pudessem abraçar. de seguida. tirou-lhe a voz para que não pudessem dizer: gosto de ti e ainda insatisfeito. trocou os pulmões por guelras para que não pudessem arfar quando se apaixonassem – por fim. meteu-os nos oceanos e mandou-os multiplicarem-se. dizendo-lhes: vocês serão o maior desafio para a humanidade – os homens nunca compreenderão a vossa indiferença. nem tampouco aceitarão a forma como vos amais – e assim se fez a vida dos peixes desde a criação do mundo até à compra do meu aquário – a vida dos animais com guelras é realmente muito complicada e sem sabor – foi quando pensei como a criação do homem foi especial. como é bom dizer a alguém gosto de ti. abraçar e sentir o calor da retribuição. o carinho de um abraço. um sorriso. uma palavra ou uma lágrima – deus fez um grande trabalho – enquanto me inebriava com as correrias dos guelras. sentado a meu lado o meu cão seguia atentamente as acrobacias dos seus novos camaradas com espanto. percebi no seu olhar que estava feliz. não sei se por achar que teria ganho mais cinco companheiros. ou apenas porque estava solidário com a minha alegria – a vida só tem sentido quando não desistimos dos afetos. mesmo quando esses afetos são difíceis de alcançar. como com os peixes – encostei a minha cara ao aquário e com um sorriso de quem gosta de fazer novos amigos apresentei-me: sou o sampaio. muito gosto. sou o vosso encarregado de bem-estar. espero que se sintam confortáveis na vossa casa. que também é a minha – fiquei à espera de uma resposta emocional. um olá. uma cambalhota com um mortal à retaguarda. um borrifo de água. mas nada – foi quando fui levemente surpreendido. depois da apresentação fiquei com a ideia de que deixaram de piscar os olhos e. estava para jurar. que até sorriam – fiquei em paz e resolvi não mais questionar ou mudar o que deus fez – olhei novamente… e decidi batizá-los. talvez assim passassem a ter alma – para batizá-los escrevi o texto: aquário

 

os meus olhos encheram-se de peixes – eugénio. amarelo. explícito na sensibilidade – camões. nos olhos a sua marca – excêntrico. chama-se dali. são cores – torga. veste-se de negro. talvez saiba da morte – pessoa. sempre ele. um vira-casacas. à noite caeiro – eu… sou aquário de ascendente [hoje]. mas só depois de carneiro


11/11/2019

serei o quê?





um dia serei o quê?

um abraço

uma voz

um amigo

um inimigo

um viajante

um bobo

um escritor

um poema

um caminho

um jeito de andar

 

um dia serei o quê nesses vossos olhos?

um sopro

um lenço de mão

uma palavra

um beijo

uma forma de rir

uma lágrima

uma fotografia

um momento

um sol

um dia que se cruzou numa rua

 

um dia serei o quê nessa vossa boca?

uma oração

um pecador

um sedutor

uma flor

um gesto

uma fé

um sorriso

um teimoso

um sonhador

um carro de velocidade

 

um dia serei o quê nessa vossa recordação?

um arrependimento

um azar

um desastre

um amor

uma paixão

um pai encantado

um filho extremado

um marido apaixonado

um avô história

uma saudade que nunca se cansa

 

um dia serei o quê?

serei o quê nessa vossa vida?

serei para vós o mesmo quando o inferno me pungir a alma?

serei para vós o mesmo quando o céu me postular. não o que vós pensais. mas o que as mãos carregam?

serei adeus ou serei goodbye

serei lágrima ou serei silêncio

serei saudade ou serei vai com deus

serei cerimónia fúnebre ou serei cerimónia de conciliação

tudo o que sou será pertença de um único dia: o dia do juízo final

e então… nesse dia estúpido

serei o quê nesses vossos olhos?

serei o quê nessa vossa boca?

serei o quê nessa vossa memória?

alguma coisa sei que serei

porque ser nada

seria castigo que nem a morte desejaria



07/11/2019

teatro


júlio saraiva


[dedicado a júlio saraiva poeta e jornalista já falecido]

 

sou teatro…

parei agora para pensar um pouco

sossegar-me destas aflições

vocês compreendem…

não é fácil representar a vida toda

 

nesta pausa

posso ser quem sou

inclino-me

seguro a cabeça com as mãos

fecho os olhos

e vestido a preceito desde a última cena

viajo até à nascente

lá… onde ainda vivem as fadas.

 

neste encontro,

não preciso do ponto

nem do contraponto

e nas luzes da ribalta

surgem sonhos infrangíveis

neste pensar, encontro-me

em palcos dourados,

tribunas,

plateias,

camarotes,

frisas e palmas

 

é o teatro gigante

e eu tão pequeno

tudo esgotado,

tudo de pé

chamam-me os aplausos

em coro,

acenam cachoeiras de flores

que eclodem aos meus pés.

é a primavera

pensava eu.

                                                                                                    

mas os olhos ainda raíam

deste descer à verdade.

rompem as pancadas de molière

o contrarregra vai subir o pano

também eu subo à vida

 

acabou o teatro.

 

 

no dia em que postei o teatro no luso poemas. agosto de 2009. recebi uma mensagem privada do poeta e jornalista júlio saraiva que. amavelmente. fez questão de me dizer quanto tinha gostado do poema e. na sua simplicidade. pediu-me autorização para o levar para o seu blogue – nem queria acreditar que o júlio saraiva se tinha dado ao trabalho de me escrever. que me elogiasse e quisesse divulgar o poema na sua página – é a primeira vez que torno público este episódio. confesso que fiquei um pouco envergonhado e pensei: e agora o que vai ser de mim. como vou manter o nível. que dirá o júlio se ler o meu próximo poema – admito que nunca me senti nem confortável. nem feliz com a poesia. só a prosa me enredava o tempo com verdadeiro prazer – entrei em pânico e achei que o melhor para a minha poesia seria silenciar-me. quanto menos pessoas soubessem deste episódio. melhor – não sei se alguma vez o postou. confesso que nunca fui bom a seguir a vida dos outros. mas também não é importante. valorizo mais o impulso. a verdade do instante. e esta é sempre mais apreciada quando emerge na espontaneidade – uns tempos depois faleceu e nunca tive oportunidade de lhe agradecer aquele gesto. principalmente. nunca tive oportunidade de lhe dizer como aquela mensagem. naquele instante. me devolveu a vontade de escrever – o luso era um espaço pequeno para tanto ego gigante. sobrava a vaidade. a arrogância. a falta de humildade e. principalmente. o bom senso e a tolerância – reconheço que havia colegas intragáveis. de mau carácter. monstrinhos egocêntricos que projetavam uma grandeza que. em boa verdade. não tinham – ser grande entre os pequenos não os tornava especiais – não era fácil lidar com esse lado sombrio dos poetas –   mas bem lá no fundo confesso que aprendi muito com os meus camaradas do luso e a todos estou agradecido – depois. tal como os mágicos fazem magia. o júlio também criou um momento excecional para mim – durante um tempo esqueci tudo o que era mau – a modéstia chega sempre mais depressa a quem não precisa de se pôr em bicos de pés para ganhar altura. já são grandes. e ponto – que nunca lhe falte nada. esteja ele onde estiver. mas se faltar. que não seja papel. lápis e… amigos. para que. em companhia. continue a beber o seu “choupinho”



31/10/2019

manuel de barros


manoel de barros



Retrato do artista quando coisa


A maior riqueza
do homem
é sua incompletude.
Nesse ponto
sou abastado.
Palavras que me aceitam
como sou
— eu não aceito.
Não aguento ser apenas
um sujeito que abre
portas, que puxa
válvulas, que olha o
relógio, que compra pão
às 6 da tarde, que vai
lá fora, que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai. Mas eu
preciso ser Outros.
Eu penso
renovar o homem
usando borboletas.



22/10/2019

eu. a dama e a celulite



foto google


em contramão. uma dama rebuliça e enérgica dirige-se para mim – acerto-lhe com os olhos. e interrogo-me: será que vou ter problemas. a esta velocidade vai-se-me enfaixar no pescoço – cabelo loiro oxigenado. levantado à frente. face redonda e rosada. não sei se é cor natural ou se está apenas afogueada pela velocidade que imprime ao andamento. uma pochete louis vitton contrafacionada num bairro chinês de pequim. acompanha o movimento das pernas numa desordem perigosa. ainda vai dar com o adereço na cabeça de algum transeunte – botas douradas. furadas com estilização. sobem-lhe pela perna com ganas de chegar o mais longe possível – dois dedos acima de uma rótula rombuda e três abaixo da cintura. uma minissaia branca vestida com desprezo. a fazer sobressair uma cicatriz mal-arrumada no umbigo. mascarada de importância com piercings-diamante falso de quinze quilates – confesso que fiquei com a ideia de que a saia era apenas um adorno para desviar as atenções do umbigo – olhos redondos. claros. a contrastar com uma pintura excêntrica. um negro que não era luto. balançava o corpo numa agitação perigosa para os dois enormes seios amarrotados pela licra preta de uma camisola de alças – confesso que por momentos entrei em pânico. a aproximação apresentava-se desatenta. descuidada. desnorteada. e decididamente em excesso de velocidade – tinha que evitar a todo o custo o embate – já não tenho condições para choques com viaturas que transportam matérias perigosas – cerrei os dentes e preparei-me para a fusão dos corpos – quando pensei que o embate era inevitável. a dama. num movimento de toureio. atira com as ancas para um lado. e sai com o tronco pelo outro – foi tudo tão rápido que comecei à procura da bandarilha espetada no corpo – felizmente tudo não passou de excitação – olhei para trás e ainda não recuperado percebi que a minha alucinação se deveu a uma mini saia comprada nas galerias lafayette de paris. encandeou-me. cegou-me. roubou-me o norte e mesmo numa excitante desordem mental. percebi de imediato que me tinha perdido nos adereços. a testosterona invadiu-me os neurónios. começou a descer-me pelas vértebras. comecei a suar em bica e quando dei conta estava com a dama em pecado. em pensamento. mesmo à minha frente – era muita mulher para mim. era muita curva e contracurva. era um pecado quase mortal. deus. e a minha companheira. nunca me perdoariam um pecado com esta dimensão – desorientado. fiquei sem saber se seria melhor atirar-me para uma valeta ou aceitar o embate como inevitável e preparar-me para as consequências – era impossível ficar indiferente às propriedades naturais. penso eu. desta excêntrica dama – deitei os olhos ao chão. arrependi-me. voltei a olhar. deitei novamente os olhos ao chão. voltei a arrepender-me. voltei com os olhos para o chão. e foi então que. surpreendentemente. a dama me dirigiu a palavra: estás a olhar para onde – surpreendido. envergonhado e embaraçado respondi: estava a olhar para a celulite. isso não está nada bem. e não condiz com a minissaia – e assim. numa manhã de quarta-feira nos cruzámo-nos numa eternidade de tempo: eu tão cedo não vou esquecer esta dama e a dama vai comprar todos 



chico buarque



chico buarque


também acho uma delícia quando você esquece os olhos em cima dos meus





18/10/2019

deambulações noturnas LXII



pintura - menez


escrever: à desonra do erro. ao medo do julgamento – cada leitura uma sentença. e para cada sentença. um castigo – imerecido?

 

11/10/2019

fósforo





escrevo. escrevo e existo para logo desaparecer como desaparece o fósforo em combustão – a palavra é um amor súbito. uma única chama intensa – depois. como se tudo não passasse de um caso. tudo esmorece com a leitura – no chão. como que a dizer que afinal a palavra não é para durar. o pauzinho carbonizado aduba a terra. onde um dia. quem sabe. há de nascer uma flor qualquer – paz ao escritor que se queima para iluminar

 


07/10/2019

talvez



pintura - oskar kokoschka


talvez esteja louco. mas às vezes acredito que estou sempre num lugar onde nunca consigo chegar – se não estou louco. então. sou a vontade de um deus. ou de um génio. ou de uma peça de um xadrez estranha. ou até quem sabe. um caminho tortuoso até chegar a um lugar que ainda não sei se existe. ou sou apenas uma coisa insignificante. sem valor. prostrado no chão da feira da ladra – se eu soubesse que isto terminaria assim. talvez tivesse amado uma boneca de porcelana. só para não ter que me envergonhar. para não ter que encontrar nenhuma palavra que me absolvesse de ter nascido assim. louco – mas se nasci louco como penso. porque raio continuo a gostar de mim. mesmo quando procuro chegar ao que nunca alcanço – não sei. se soubesse possivelmente era dono de uma torre de babel. de um cavalo de corrida. de dezassete gaivotas. e de uma cama que me aceitasse quando sonho 


03/10/2019

eu. o che e a revolução








com o sol de volta renasce a manhã – ergo-me das trevas. espreguiço-me. chego-me à janela. olho o céu como quem quer medir a distância entre o chão e os milagres. sorrio… e por ali fico a existir sem querer saber nada do que dizem os astros para o dia de hoje – apetece-me unicamente viver. aceitar o destino e respirar o mundo – adoro estas manhãs em que olho para o futuro sem me preocupar com o destino e. tal como disse nelson mandela. “Seja qual for o Deus, eu sou mestre do meu destino e capitão da minha alma.” – hoje. também eu me sinto mestre e capitão da minha alma – a imensidão do céu azul liberdade de tomie ohtake disputa a luz com o castanho infantil dos meus olhos. atrás de mim a juventude e a cama por fazer. para a frente. o que me sobrou dos sonhos revolucionários e o fim das camas por fazer – a linha do horizonte é sempre ténue e dolorosa para quem acaba de acordar para o erro. para o sacrifício. para a resiliência e para o combate diário corpo a corpo. não fosse eu um sobrevivente da revolução de abril – olho o fim do mundo que os meus olhos alcançam e digo para mim que estou a acordar: se o mundo é assim tão enorme como dizem. porque será que me sinto sempre tão apertado. tão acanhado. a sufocar. como se o céu a todo o momento me pudesse cair em cima da cabeça – agora percebo bem o medo do obelix. também ele andava sempre apavorado que “le ciel lui tombe sur la tête” – não nasci nem vivo em gália e também sinto que o céu me pode cair a todo o momento sobre a cabeça – sorrio num jeito de deixa andar. hoje não me quero aborrecer. afinal o dia até está bonito – sei e sinto que mereço este dia – para me despedir deste céu que me guarda o infinito. espreguiço-me até tocar com as pontas dos dedos nas fronteiras do mundo e parto em direção ao polibã a cantarolar grândola vila morena. do nosso amado zeca afonso – atiro-me para debaixo da água “muy caliente”. digo uma dúzia de palavrões e reafirmo: fascismo nunca mais.  o povo é quem mais ordena – eu sou esse povo – lavo-me dos pesadelos da noite e prometo a mim mesmo enfrentar o meu destino com briga. “é melhor morrer pelo fogo. em combate. a morrer em casa. pela fome” [fidel castro] – enrolo-me num toalhão estampado com um cravo vermelho de abril. dou duas lufadas de bafo quente para o espelho e desapareço – às vezes não me suporto. mas não é o caso de hoje – limpo-o com a ponta da toalha e dou comigo a brilhar. a sorrir e com a barba a dançar de um lado para o outro – é a minha barba revolucionária da manhã. um pelo virado à esquerda e outro à anarquia – um homem lavado é sempre bonito – sinto-me enorme. poderoso e pergunto-me: será que é hoje o dia certo para vestir a t-shirt do che guevara – penso duas vezes. olho para mim novamente… e. tudo como dantes: sorridente. barbudo. enorme e poderoso – com convicção digo para o gajo do espelho: é hoje que vais vestir o raio da t-shirt – sei muito bem o que vale uma revolução. já vivi as suas mentiras. paradoxos e promessas quebradas – a democracia chegou à minha adolescência exatamente como chegavam os propagandistas às romarias: carregados de quinquilharias para vender ao preço da uva mijona – eram os famosíssimos vendedores da banha da cobra e na verdade. tudo o que impingiam. era muito mais do que produtos de baixa qualidade. era magia.  era o ressurgimento do milagre da multiplicação no mundo contemporâneo. um truque de ilusionismo onde uma nota dava lugar a um saco cheio de nada – tal como os políticos - a ladainha era sempre a mesma. com uma voz firme e uma oratória treinada. tomava conta da vontade do cliente que. como serpente hipnotizada. ficava imóvel e rendido. a sua única motivação era deitar a mão às pechinchas – estes homens subiam para cima das suas caminhetas. levantavam o tolde de lona e logo apareciam umas quantas “rumas” de cobertores. bem empilhados. com as cores organizadas num degradê harmonioso e mais outros mil e tantos produtos que ninguém sabia para que servia cada um deles – ajustavam à boca um micro preso ao peito. protegiam-no com um lenço de mão para absorver os perdigotos. davam três pancadinhas e começavam os testes: um dois três. um dois três. um dois três quatro cinco… seis mil cobertores vendidos. e logo de seguida. para não perder nenhum romeiro. numa voz poderosa a imitar os primeiros locutores da rádio. começava a propagandear os seus produtos com a arte dos grandes mestres da oratória – eram homens cansativos. não se calavam um único segundo e o romeiro nem tempo tinha para se questionar porque estava ali estacado. e quando despertasse do encantamento. estava sem a nota de mouzinho da silveira – o propagandista era um homem astuto e matreiro. e para que os romeiros se sentissem mais tranquilos e confiantes. apontava-lhes o dedo em riste. percorria-os um a um. agora numa locução meiga e doce e. benzia-se com um olho na fé e outro nas notas de quinhentos – comunicar com doçura era a sua arma secreta para apanhar na sua teia comunicacional os clientes mais difíceis e desconfiados – era chegado o momento para juntar à doçura uma laracha inofensiva e quebrar pelo humor o gelo dos mais resistentes:

-- estamos nesta romaria também a pedido do seu santo padroeiro… não fiquem espantados! sim!… é verdade… santo também tem as suas necessidades – o nosso querido s. judas tadeu. mais uma vez. aproveitará a nossa presença nesta gloriosíssima celebração em ação de graças para suprimir muitas das suas necessidades – podem não acreditar. mas os santos também têm frio – por isso é que aqui estamos todos mais uma vez. para agradecer. para louvar e proclamar a obra salvífica de deus. que protegidos pela sua imensa bondade nos permite. mais um ano. estarmos neste convívio religioso. alegrados pelos seus feitos e sempre fiéis ao seu chamamento misericordioso – mais uma vez obrigado meu deus por poder tirar o frio aos teus fiéis. amém

o suor caía-lhe em bica ensopando a camisa em nome da paixão. de arte e do sacrifício – tanto palavreado. tanta gesticulação. tanta imaginação só para vender um cobertor – este sujeito não parava um minuto. talvez use pilhas duracel –

-- mas como vos dizia. este é também o momento para que o nosso querido s. judas tadeu. possa adquirir os nossos fantásticos produtos. que. como sabem. são os mais baixos do universo – já não há milagre que faça baixar o preço destes maravilhosos produtos – só deus e eu sabemos que este é o preço justo para a excelência do que trazemos nesta carrinha que é o nosso ganha pão de quatro rodas – vejam só -apontando para os cobertores- podem dar a volta ao mundo duas vezes que. não encontrarão cobertores com esta qualidade – saibam que com um cobertor fabricado com esta magnifica lã nunca mais terão que ter medo às frentes frias que nos chegam da sibéria – o senhor sabe que falo verdade e porque sou um homem grato aos seus desígnios a “minha boca anunciará todos os dias vossa justiça e vossas graças incontáveis” (Sl 70,14-15) amém – este cobertor será a minha ruína – senhores e senhoras. o que vos peço por este fantástico cobertor será muito menos do que um automóvel. um barco. um avião. uma viagem ao brasil. um jantar no pedro dos leitões… este cobertor… este cobertor vai custar a módica quantia de…

e a multidão em desordem emocional comprime-se para ficar o mais perto possível do mestre das vendas – é importante ver bem esse incrível cobertor que desafia os frios gélidos siberianos – e lá continuava com a ladainha sem anunciar o preço do cobertor – era assim que prendia a atenção dos romeiros

-- senhoras e senhores. meninas e meninos casadoiros. vejam só a qualidade deste cobertor de pura lã virgem – com este cobertor vindo diretamente das conceituadíssimas fábricas da serra da estrela. os vossos invernos nunca mais serão enregelados – adeus frio para sempre. e atenção senhoras e senhores!... para levarem este fantástico e único cobertor para vossa casa… sim. vocês vão querer levar o cobertor para vossa casa. não vai pagar mil escudos. não vai pagar novecentos. não vai pagar oitocentos e seiscentos também não. vai pagar uma miserável nota de quinhentos escudos – por apenas quinhentos escudos terá no seu inverno o insuportável calor deste mês de agosto. será como se vivessem na ilha selvagem das caraíbas. como se embrulhassem num casaco de vison – uma pechincha… e mesmo que viva mais duzentos anos. nunca mais terá a oportunidade de comprar um cobertor com esta qualidade a este miserável preço de uma nota de quinhentos paus

e sem deixar esmorecer o desassossego numa multidão que não parava de aumentar. de se empurrar. o mestre das vendas embriagado com a exaltação dos romeiros não parava de pinchar de um lado para o outro. de gesticular. como se os braços a todo o momento quisessem desprender-se do corpo – já pouco espaço restava à sua volta. tinha captado. definitivamente. a atenção dos romeiros – este homem saltava quilómetros inteiros em cima da sua caminheta. ninguém ficava indiferente à sua resistência física: pernas. braços. olhos e a língua em perpétuo movimento – vender era o seu sustento. dava tudo o que tinha. e até o pouco que já não tinha. nada nem ninguém o desalentava e. se sentisse desânimo num ou outro possível comprador. a solução era falar-lhe olhos nos olhos – e ele fazia-o. arregalava os olhos de tal forma que era como se dissesse: sair daqui sem o cobertor é pecado – o suor caia-lhe testa abaixo. a luta era corpo a corpo. romeiro a romeiro. cada cobertor vendido era um dia de sustento

 

-- e atenção caríssimos senhoras e senhores. saibam que com o cobertor ainda levam uma faca de cozinha em aço inox mil e noventa e cinco. usada pelos famosos ninjas na china antiga. e ainda… e ainda… mais uma dúzia de copos em cristal da mongólia. e mais… hoje estou mãos-largas… e só porque estou aqui nesta terra abençoada. e porque estou tocado pela emoção… quero que saibam que com este maravilhoso cobertor… levam esta fantástica faca. estes deslumbrantes copos. e ainda. e ainda… e ainda… mais um saca rolhas com um design singular do excêntrico magasin printemps parisiense – hoje é o vosso dia de sorte

e uma série de milagres extra pela mesma módica quantia de quinhentos escudos – e o povinho romeiro ali de volta a babar. inquieto. a aconchegar-se o mais à frente possível. não fosse acabar a mercadoria – todos querem ser os primeiros a receber o cobertor da serra da estrela e todas as fantásticas quinquilharias pela insignificância de uma nota de quinhentos escudos – é um grande negócio. o propagandista ganha a vida e o romeiro leva para casa a ilusão de que fez o negócio da sua vida. e mesmo não necessitando de nada do que mercou. sente que foi uma pechincha de ocasião que nunca mais se voltará a repetir – todos felizes: o propagandista. o povinho e também o santo padroeiro. afinal de contas é mais um milagre registado no seu livro de milagres. acabando por subir uns pontos no ranking dos santos e. obviamente.  agradar a deus – ele sabe que ninguém gosta mais de milagres do que deus em pessoa – e quando anunciava o começo da distribuição dos produtos não se cansava de avisar. em voz ainda mais encorpada. que a graça era finita e o stock sagrado era limitado – a agitação era total. empurrões e mais empurrões e as notas de quinhentos no ar em preces desesperadas – era o black friday dos nossos dias

-- e mais um conjunto para aquele cavalheiro. e outro para esta menina casadoira e ainda mais outra para esta bonita família. e esta senhora quer dois cobertores e quem levar dois cobertores não leva uma faca. leva duas. não leva um saca-rolhas. mas sim dois

e o homem a desfazer-se em simpatia e as notas de quinhentos em pilha. pousadas num cobertor com um paralelepípedo em cima não fosse o vento armar-se em democrata e espalhar a fortuna pelos menos abastados – foi mais ou menos assim que chegou a democracia ao meu país. uns quantos políticos subiram para cima do palanque e começaram a vender-nos a banha da cobra gesticulando não só os braços. mas também as idiotices – e o zé povo a viver um momento único e histórico. eufórico. inculto. desprevenido e sem malícia para perceber que estava a lidar não com propagandistas. mas com charlatões – esta raça escabrosa de políticos camaleónicos não troca cobertores por notas de quinhentos. trocava votos por cadeiras numa casa que fingem ser da democracia – mas não. não é a casa do povo nem de coisa nenhuma.  é o esconderijo legalizado de um grupo de malfeitores que a coberto do voto democrático duvidoso sonegam o erário público com a maior hipocrisia e desfaçatez. tornando os pobres mais pobres e os ricos ainda mais ricos e poderosos – é a toca onde duzentos e trinta bandidos. sem escrúpulos. ano após ano. nos afogam em mentiras e sangram a esperança – infelizmente ainda não inventaram uma nova ordem política mais competente e justa – temos que nos aguentar com estes malfazentes. temos que votar nos menos maus. nos que nos roubam com mais discrição e revolta – e o povo iludido na revolução gritava palavras de ordem como se também eles tivessem derrubado a ditadura – a nossa democracia acabou com mais de mil privilégios. mas depressa criou outros que. de tão abundantes. perderam-se na contagem  – o mundo das revoluções está repleto de contradições – uma sociedade livre é uma sociedade desigual. injusta e discriminatória – mais liberdade é igual a mais horror nas desigualdades – e é assim que aparecem os desarreigados. os inconformados. os que precisam de revoluções diárias para aceitar as suas contradições – a revolução de hoje retificará os erros da revolução de ontem – eu vivo numa revolução contínua. também eu retifico hoje os erros de ontem e. amanhã. noutra revolução. já sei que retificarei os de hoje – liberdade. fraternidade e igualdade são conceitos sustentados pela retórica política porque em boa verdade nenhuma destas palavras sobreviveria ao produto final das revoluções – mas como diz nelson mandela: “não existe nenhum passeio fácil para a liberdade em lado nenhum, e muitos de nós teremos que atravessar o vale da sombra da morte vezes sem conta até que consigamos atingir o cume da montanha dos nossos desejos” – é por isso que eu vivo num mundo de revoluções. o meu vale da morte é diário. e a luta para o ultrapassar é o meu grito de guerra – mas o importante é que mesmo nesta democracia imperfeita o meu país ficou mais justo depois da revolução de abril – o meu lamento vai apenas para o tipo de gentalha que tem comandado o destino desta fantástica nação de gente boa e bonita – na verdade. os políticos que nos impingiram a democracia não foram nada diferentes dos propagandistas da minha adolescência. prometeram-nos um cobertor e não sei mais quantas coisas que depressa percebemos que não correspondia à verdade – mas quem for sério não pode nunca dizer que a sua vida não melhorou depois da revolução de abril. melhorou e muito – estou imensamente grato a todos aqueles que de uma maneira ou de outra contribuíram para que aquele movimento das forças armadas rompesse naquela madrugada de abril – confesso que ao fim destes anos todos sou ainda um resistente de abril. faço parte do povo unido jamais será vencido; “da força. força. companheiro vasco. nós seremos a muralha de aço; do trabalho dá pão. repressão não; da terra a quem a trabalha; medo nunca mais; da paz. pão. habitação; e viva a liberdade e o MFA [movimento das forças armadas]” esse punho de abril que rompeu a madrugada – e eu a crescer com a velocidade dos cometas. feliz. como se as revoluções existissem para sempre. como se a adolescência se eternizasse em manifestações e reivindicações e o corpo nunca parasse de gritar: fascismo nunca mais – mas “adelante adelante”. que a saudade também mata – amarro nas jeans e enfio-as até que nada reste das pernas de abril. aperto o fecho e o botão numa correria. enfio a t-shirt do che. calço uns calcantes tipo charlie chaplin. viro-me para a porta no mundo que sustenta os astros e questiono-me: vais a correr ou levas o que te pesa pela mão? saio a correr. corro como se a revolução me perseguisse. olho o céu novamente. o azul já não é de liberdade e as nuvens ficaram mais pesadas. mais nuvens do que nunca – será que o mau tempo está por aí a chegar? talvez não seja má ideia resgatar o guarda-chuva do bengaleiro – volto atrás. contrariado. nas revoluções a chuva não molha. reabro a porta da minha única casa. olho para dentro à minha procura e só encontro ausência: o mais certo é ter ido para a concentração da CGTP [confederação geral dos trabalhadores portugueses] na avenida central – pego no guarda-chuva do 007 não vá a chuva trazer com ela um fascista tresloucado. na gabardina do detetive colombo. nunca se sabe se a PIDE [polícia internacional e de defesa do estado] ainda está operacional.  no chapéu e bengala do poirrot. a vida sorri sempre para quem usa a massa cinzenta. e por último. a lupa do holmes. envelhecer obriga-nos a ver tudo ao pormenor – e fui pelo mundo fora como se tivesse acabado de me tornar num revolucionário da LUAR [liga de unidade de acção popular] – passa por mim. em sentido contrário o zé povinho com um dinossauro político preso a um cordel. um pato bravo a fazer quá quá e um elefante branco num show de trapézio. equilibra-se numa só pata em cima de uma cigarra que não para de gemer. o peso um dia destes parte-lhe a coluna – atrás. em passo lento e de vara na mão. o destino a tocar tudo para o dia seguinte vai gritando: sem cultura não há caminho. nem liberdade – ninguém se mete com o destino. mas eu sou um revolucionário de abril e trago o che ao peito. sem medo disse-lhe: estás a caminhar para o lado errado. a cultura com liberdade é para o lado oposto – olhou-me com ar de poucos amigos. aproximou-se. sacou de uma faca de ponta e mola e encostou-ma ao pescoço. e numa voz rouca-intranquila. disse-me: cresce. vai-te foder – sorri e disse-lhe: outra vez tu?!!!... – virei as costas. olhei para a t-shirt e pensei: sou mesmo um revolucionário não só de abril. mas de todos os meses – e segui rua abaixo cantarolando "hasta siempre comandante che. hasta sempre comandante che" – e lá foi o destino à sua vida e eu à minha – agostinho da silva dizia que a liberdade só existe quando todos os nossos atos concordam com todo o nosso pensamento – não. minha vida nunca foi um reflexo pleno do meu pensamento. mas uma coisa sei. sempre escolhi o caminho que pisei e sempre em total liberdade – “hasta siempre”


30/09/2019

palavra que me escreve




um dia serei apenas este que escreve. porque em boa verdade. neste mundo a que não pertenço. nada mais sou do que uma hipérbole de mim mesmo – e aqueles. por se saberem daqui. insistem que não sou o que as palavras dizem que sou. um dia. depois do sol cair.  hão de dizer que fui o que as palavras diziam – tudo o que realmente sou vive neste corpo estranho que não sabe quem é. nem de onde veio – morrerei feito palavra escrita. porque falar não sei e. mesmo que soubesse. quem haveria de me querer ouvir? – talvez os peixes. talvez


27/09/2019

25/09/2019

cunhada. vou ter saudades tuas




1.

minha querida cunhada. não sei se me ouves aí no céu. mas se me ouvires. como quero acreditar. quero que saibas que tenho muitas saudades tuas – nunca deveriam de existir estes dias de saudade no calendário. não sei quem os inventou. mas quem quer que tenha sido. nunca teve uma cunhada como eu tive: eras um ser de luz rebelde – tu sabes que nunca fui muito de lamechices. nem sei porque raio sou assim. gostava de não ser. mas fico sempre com a sensação de que quando gosto de alguém de verdade não preciso de muito espalhafato para lhe dizer: adoro-te – eu sei que tu sabias que eu gostava de ti – mas hoje é diferente de tudo. hoje o calendário marca dor. viagem. saudade. preciso de todas as lamechices do mundo. preciso abraçar-te. beijar-te. olhar-te e dizer-te: gosto de ti – és parte mim como o céu. do sol. do mar. das gaivotas. do silêncio das montanhas. sei lá o que mais. cunhadinha. continuo a amar-te daqui deste lugar que te perdeu até aí onde te escondeste – adoro-te. zeza. apetece-me dizer mil vezes “gosto de ti”. e mais mil que te adoro. que tenho muitas saudades tuas. e que estou destroçado por me teres deixado sem me ouvires dizer: fica mais um bocadinho. só mais um abraço – minha querida cunhadinha. o que faz um homem com esta saudade que nos magoa? se tivesse um carro com um motor potente. ou um foguetão. ou a varinha mágica do harry potter. quem sabe. metia-me no tempo em marcha atrás e debruçava-me outra vez nos teus braços. amarrava-te novamente essas mãos bonitas e obrigava-te a sorrir mais uma vez e depois. abraçávamo-nos numa despedida sem fim para que o tempo nunca mais andasse para a frente – vou trazer sempre comigo esse teu último abraço. vou segurá-lo dentro de mim. vou guardar esse bater magoado do coração… vou guardar-te dentro de mim para sempre – desculpa zeza. não tive forças para te amarrar à vida – não me conformo com o quão depressa tudo aconteceu– minha querida cunhada. foste tão corajosa. sempre que uma parte do corpo cedia lá inventavas tu uma desculpa para nos animares. para logo de seguida. te esconderes dentro de ti num silêncio fecundo da consciência. alimentando-se de inocência. onde essa alma magoada se interrogava – não havia respostas. a não ser melificar essa dor que crescia sem parar dentro desses olhos-esperança – não permitirei que partas assim. a minha memória vai guardar-te. vou continuar a querer saber por que te ausentas do nosso mundo e depois. como se nada fosse. regressavas com um sorriso que ninguém te levava a mal – desta vez não vai acontecer. vou encher-me de força e raiva e vou desviar o mundo para o lado melhor e falar-te. dizer-te que preciso de ti. de te ouvir. preciso dessa tua teimosia. preciso dessa forma como viravas as costas ao relógio. preciso desse teu jeito de me entrares pela porta a correr. preciso de ti tal como eras. era isso que te fazia especial – agora só quero que a memória não ceda ao tempo. e sempre que acordar vou acreditar que tu estás aí por perto. talvez a passear. talvez a comprar sapatos. ou aquele creme para te tirar as rugas dos olhos e. quando der por mim e perceber que afinal não estás onde os mortais estão. que a raiva me faça fechar os olhos e te traga ao meu mundo interior nem que seja por um minuto. ou um instante tão breve como um flash. mas que nesse clarão. os teus olhos encontrem os meus. e o que era escuridão. seja afinal o milagre da vida para além da morte – não quero saber nada dessa tua viagem. enquanto dormir tu existes porque a saudade só acontece quando estamos acordados – vou dar-te a mão e vamos por essas ruas sem destino. talvez possamos apanhar o avião novamente para milão. visitamos a catedral. as galerias vittorio emanuele e depois. pela noite. voltamos ao mesmo cinema e assistimos ao mesmo filme e saímos a rir por não percebermos uma palavra de italiano.  e vamos comer uma pizza quattro stagioni e falar do que só nós sabíamos falar. falar e rir. rir e falar. e dizer palermices. e rir. e dizer mais palermices. as crianças riem sempre da vida – tu cresceste criança – sempre que a saudade apertar vou-te telefonar e livra-te de não atenderes esse mamarracho teimoso. não venhas com aquelas tretas do costume de que deixaste o telemóvel não sei onde. e que a cabeça está na lua. ou que não tens tempo para nada – sempre que a saudade apertar. doer e precisar de uma amiga. vou buscar-te e sair contigo por esse nosso mundo fora. vamos ver o mar e prometo mostrar-te o voo livre das minhas gaivotas e depois. abrimos os braços e voamos até ao céu e quando o vento amainar e o sol cansar. sentamo-nos no areal. e ficamos em silêncio até a noite a chegar – o sol nunca morre. esconde-se para que possamos ver o brilho das estrelas – tu minha querida cunhada brilhavas como uma das estrelas – tenho a certeza de que quando estiveres devidamente instalada no céu. e deres conta destas palermices que estou a escrever. vais sorrir e achar que sou doido. e se calhar tens razão. e não é como se não mo tivesses dito tantas vezes. mas dizias sempre com tanta doçura e carinho que eu nunca acreditei – sempre achei que um dia destes íamos comer o gelado que te prometi e falar dessas nossas coisas excêntricas que só nós os dois sabíamos falar – éramos os dois loucos. loucos varridos. cúmplices de alma e riso – minha querida cunhada porque nos deixaste? porque raio não percebeste esse monstro que se alimentava dentro de ti – distraíste-te e agora quem paga somos nós que ficamos aqui a escolher a melhor foto. o melhor momento. a melhor conversa. a escolher os momentos da tua vida que queremos guardar para sempre – não foste justa comigo. não foste justa com as tuas irmãs que estão destroçadas. com a tua mãe que continua a dizer. e com toda a razão. que nenhuma mãe do mundo deveria perder um filho. para não falar na tua filha que agora vai ter que inventar mil desculpas por não te ter a seu lado naqueles momentos especiais – o que foste fazer minha querida cunhada – sinto tanto a tua falta. foram tantos anos de carinho. cumplicidade e amizade – a amizade de verdade é indescritível. não se explica. sabemos que aquela pessoa gosta de nós independentemente do que realmente somos. faz-nos sentir bem. seguros e em paz – tu eras a minha amiga do coração – eramos amigos não porque um dia escolhi a tua irmã para viver comigo. éramos amigos porque olhamos um para o outro e percebemos que seria assim para sempre. ficamos amigos como se tivéssemos nascido na mesma rua. andado na mesma escola. jogado à corda. à macaca. sei lá o que mais minha querida amiga – sabes. sempre fui um otimista e também sempre achei que sabia ler o futuro. e não é que te imaginava com cem anos. encarquilhada. com mau feitio. a resmungar por tudo e por nada. em cima dos teus saltos altos. lábios bem pintados. cabelo esticado como só tu sabias fazer. roupa com um aprumo que parecia saída da loja naquele instante – nunca te vi sem esses sapatos enormes que te punham na lua e tu nesse equilíbrio improvável a caminhar como só as rainhas sabem caminhar – sempre caminhaste como se vivesses nas nuvens. como se já fosses um anjo – primeiro foste uma boa menina. depois. envelheceste. mas nunca deixaste de ser uma boa menina. todas as pessoas boas são ingénuas. às vezes acho que essa ingenuidade era o teu jeito de nos dizeres que não querias ser como as outras pessoas. não tinhas os mesmos interesses. vivias num mundo só teu com as tuas próprias cores – tu querias tudo simples. palavras simples. sorrisos simples e até o futuro que julgavas ser eterno o quiseste sempre simples – talvez já adivinhasses o teu destino – mas se o pressentiste nunca nos dissestes nada – vou ter saudades tuas minha querida cunhada. já sinto a falta de quando não ligavas patavina aos telemóveis. vai-me faltar essa teimosia que nasceu contigo como nos nascem os sinais na pele. vou ter saudades de todas as palavras que me foste dizendo e que aos teus olhos me fizeram ser alguém bonito e especial – não era eu o especial. eras tu. eras tu que vias o que mais ninguém via – sinto já falta daquele abraço com que me recebeste naquele dia que entrei de rompante pela porta. tinham passado muitos meses sem nos vermos. correste e abraçaste-me de tal forma que nunca mais o esqueci – vai-me doer a tua ausência. minha querida cunhada. de tanta coisa – como é possível a vida ser tão injusta. agora que tinhas finalmente encontrado o companheiro da tua vida. o homem que te sabia fazer feliz. sabia que eras uma rainha – uma mulher não se faz rainha. nasce rainha – eu não sou crente. mas às vezes gostava de acreditar que estou errado. que quando partimos vamos para um lugar onde encontramos todos aqueles que gostamos e amamos – quem me dera zeza que esteja errado. se estiver. então. talvez encontres aí os meus pais e o nosso tio joão. talvez não estejas assim tão sozinha e se assim for. um dia destes. marcamos aí um encontro para voltarmos a rir com as nossas palermices – minha querida cunhada. quem é que agora me vai dizer essas coisas bonitas que só tu eras capaz de dizer – levo para sempre esse último abraço. choramos. apertámos as mãos e sorriste como se nada te doesse. enquanto eu me sentia perdido e arrasado tu viraste-te para a enfermeira e disseste-lhe: o meu cunhado é o meu sol da minha vida – meu deus zeza. e agora quem me dirá novamente uma coisa dessas – vou ter muitas saudades tuas. vou ter saudades desse teu brilho com que vivias a tua vida. vai-me faltar essa luz que iluminava o caminho de quem vivia a teu lado – vou guardar-te para sempre – por favor. toma conta de mim e dos nossos

 


pequenas grandes notas:

 

2.

não seria justo não dizer que sou um homem orgulhoso da família a que pertenço. a minha cunhada partiu sem que as suas irmãs a deixassem um só instante sozinha – do primeiro dia até ao seu último suspiro – nos últimos dias a zeza esteve sempre acompanhada pela família que a amava. despediu-se de todos com uma serenidade que nos tocou fundo – um beijinho especial para a tia alcina e para a minha sobrinha renata que passaram as duas últimas noites em silêncio cheio de carinho ao lado da zeza – teresa e maria joão deram pleno sentido à minha frase: a família é um compromisso de afetos – é mesmo assim – continuo com uma cunhada fantástica e tenho ao meu lado uma companheira maravilhosa que não me canso um único segundo de amar

por último. um agradecimento especial ao seu companheiro que esteve sempre presente a seu lado – ele sabia que a zeza era a minha menina. terá a minha eterna gratidão até ao fim dos meus dias – pena tenho apenas de não o ter conhecido há trinta anos – mas a vida é o que é. e o importante é sabermos que o tempo na maior parte das vezes é uma ilusão – nessa contagem de tempo que os homens inventaram. a  minha zeza foi inteiramente feliz a seu lado – às vezes o tempo não é tudo – a minha cunhada levou o seu respeito. o seu afeto e o amor inteiro que partilhavam levou-o consigo na sua viagem final – partiu em paz. sabendo que foi a mulher de toda uma vida – desejo-lhe tudo de melhor para a sua vida – em mim terá sempre um amigo. e mais do que isso. terá o meu profundo respeito pela sua humanidade e dignidade – que mais pode um homem ter?



05/08/2019

eu. o max e o avião







toca hauser. toca sem parar e sem me questionar – desperto-me. abandono o instrumental da música clássica e recupero o mundo – estremunhado. aceito contrariado o meu regresso às coisas com espírito: há vida no céu. há um avião a zumbir nos meus ouvidos – o barulho dos aviões. às vezes. confunde-se com a trovoada e fico sem saber se é jesus que está a ralhar comigo ou se é apenas um avião perdido no céu – paro. escuto. acerto o ouvido com a janela. aparto o mundo que vejo para os lados e capturo definitivamente o som do avião. mas não a sua atenção – estou inequivocamente desperto para o mundo real. os seus decibéis resgataram-me do mundo das possibilidades – gosto de sonhar. quando sonho acredito em coisas que acordado seriam impossíveis – sempre que sonho sei que me torno numa possibilidade – tenho até uma leve intuição de que a qualquer instante pode aterrar no meu escritório – o avião voa mesmo. e não se riam: o avião voa pelo ar – gosto de aviões porque estão mais próximos do céu do que eu – eu só vejo o céu à noite quando as estrelas o iluminam – será que há um aeroporto para lá das nuvens? será que os aviões andam no ar para levar os crentes para mais perto de deus? – quem sabe. um dia. um desses médiuns famosos que agora passam na tv. para aumentar o seu share. combine um acordo com deus para aparecer a acenar em cima de uma nuvem – não sei para onde vai este avião. ou mesmo se vai para algum lado. ou se anda às voltas para me irritar. a embrulhar o som na minha vida sonhadora. a tentar questionar-me porque não olho para o céu. para as coisas que voam – o avião faz barulho. voa. voa como alguém que sabe voar. talvez um pássaro. ou alma acabada de falecer. ou papelinho largado ao vento. ou disco voador. ou palavra vociferada por boca magoada – há coisas que foram feitas para voar – eu não sei voar. nem ouso pensar em voar. quer dizer. às vezes penso. mas o espaço no meu escritório é tão reduzido que frequentemente metade do que penso fica fora da janela e é quando dou conta de que está tudo estatelado no meio da rua – por isso é que gosto de ser comedido nos pensamentos. não porque não queira pensar em altos voos. não. só não quero vê-los ignorados e espezinhados – já não tenho estômago para mais desgostos – confesso que estou alterado com o avião. aborreceu-me. roubou-me um daqueles sonhos raros e que só aparecem de tempos em tempos – e agora. que acordei para o mundo das impossibilidades. já não sou capaz de o recuperar – quando perdemos um sonho é para sempre. mistura-se com a realidade e dissolve-se no meio da multidão – por isso é que me irrito quando um avião me desperta com barulho que não vejo. ainda se fosse um automóvel de escape livre. ou uma bulha de vizinhos. era fácil. ia à janela e sempre lhes podia disparar uns quantos impropérios. agora um avião. lá nos confins do céu. por muito que berre ninguém me ouve – quando me altero fico confuso. perco-me de mim. irrito-me e vou às nuvens sem tirar os pés do chão – não gosto de pensar em voar. fico com medo do que o mundo pensa – prefiro a minha solidão em terra. quer dizer. eu nunca estou só. tenho o meu cão. o max – o max é um cão especial. sempre que trocamos olhares fico com a sensação de que posso voar dentro daqueles olhos – mas não posso. nem eu. nem o max – não fomos feitos para voar senão tínhamos nascido com asas e não nascemos – aceitamos a nossa vocação terrestre com resignação e dignidade – creio que o max até aceitou primeiro do que eu. rapidamente o senti conformado com a vida que lhe tocou – para lá dos anjos nos livros da catequese nunca vi ninguém com asas. mas conheço muita gente que voa sem asas – não me peçam para explicar como voam porque não sei – eu sempre que tentei voar estatelei-me ao cumprido – não tenho jeito para as alturas – ainda bem que a minha mortalidade não tem lugar marcado no céu. mas sei que um dia voarei em cinza – e aqui estou eu com o barulho do avião. que tal como os comboios no seu trabalhar nos diz: pouca terra. pouca terra. o avião. porque anda no ar. diz-nos: porque não voas. porque não voas – e a resposta é fácil: não voo porque não tenho asas e mesmo que tivesse estou convencido que não voaria. seria como a avestruz que apesar de ter asas não tira os pés do chão – para vos falar verdade até creio que tenho um pouco do DNA de avestruz. não por não voar. mas por meter a cabeça num buraco e acho que estou escondido do mundo – o buraco é a minha casa que me guarda de todas as dores. e é aqui que me encontro comigo. estendo as mãos e olho para o meu céu: um candeeiro com quatro lâmpadas de casquilho fino e um teclado iluminado com letras aos saltos. como passarinhos no ninho a ensaiar o seu primeiro voo. e todos os sonhos de uma vida na ponta dos dedos – sinto que o max já está irritado com o barulho do avião. rosna. mostra os dentes e olha para mim como se estivesse a perguntar: fazemos alguma coisa? para o acalmar rosno e mostro também os dentes – somos unha com carne e temos o mesmo lema dos mosqueteiros: um por todos. todos por um – resolvi dizer-lhe que um dia também iremos voar. compro dois bilhetes na TAP e voamos para faro. ida e volta. vamos de manhã e vimos à noite. sempre tive curiosidade de ver as estrelas de perto – as estrelas existem só para nos obrigarem a olhar para o céu – hoje não me apetece olhar para o céu. estou sentado na minha cadeira e ainda não comprei os bilhetes – tudo o que sou está capturado num aro de madeira sucupira clara. contorna a janela numa esquadria triste e ausente de liberdade – sem liberdade ninguém é capaz de sonhar ou levantar voo – e o meu mundo a fugir por uma janela preenchida de impossibilidades. protege-se com uma persiana feita de buracos organizados. xis em xis centímetros uma entrada de luz estilizada – gosto de persianas furadas com arte. com design. com criatividade e ao mesmo tempo. como se soubessem que o excesso de luz pode cegar. são também protetoras. controlam o caudal de luminosidade. deixam entrar apenas o necessário para alimentar a vida sem que se corra o risco de cegar – por isso é que gosto de persianas. se estamos deprimidos fechamo-la e temporariamente podemos morrer para o mundo numa solidão escura. e sem hora marcada para o regresso. e quando entendemos ressuscitar da morte silenciosa. abrimos a persiana aos poucos. num vagar sem pressa. e a luz a tomar-nos gota a gota. numa renovada claridade. purificada de todos os males do mundo. prometendo proteger-nos para sempre do inferno da vida – entrego-me à luz. primeiro um braço. depois outro. de seguida o tronco. as pernas e por último os olhos. quero ver tudo. quero ver o que a luz ilumina. quero ver-me na renovada luz e deixo-me subir ao céu como se fosse um avião. e rio como se estivesse a ser carregado por anjos. e voo como se fosse pássaro. e abraço-me como se os braços estivessem carentes de um corpo. e vivo como se quisesse viver. e quando a noite chegar. sento-me numa estrela que desenhei num papel triste e fico a olhar para o que restou de mim. para o que me trouxe a esta paz. a cada pessoa que conheci. a cada flor que colhi e a cada gota de chuva que me tocou e adormeço como se estivesse a sonhar com gaivotas que voam no céu – preciso de deixar de ouvir o avião. se tivesse um canhão atirava-o abaixo e depois. suportava o que o mundo pensasse de mim – estou farto de o ouvir – revolvo-me na cadeira. irrito-me – para que estou eu aqui sentado se a minha vocação é levantar voo – e a janela a pedir-me que voe como um avião – mas não. não voo e também não vivo num quadro de renoir a celebrar a beleza do mundo das flores. dos tons melódicos e das crianças de mãos dadas aos pais e eu no pincel do mestre a pedir-lhe para me pintar. para me misturar com as flores. com as crianças que correm como se voassem e o pincel do mestre a voar na tela como se fosse um avião no céu e a mistura das cores quentes. as crianças quentes. as flores quentes e as cores mescladas com arte a oferecerem agosto quente. saudade quente e o poeta das cores a fazer voar o seu próprio tempo como se fosse um avião que voa sem barulho num céu que se pode apanhar com as mãos – meu deus. como gosto de agosto e de aviões – porque não pinto eu? por agosto e pelo renoir era capaz de voar mesmo sem asas – mas não. estou preso a uma janela em sicupira e tudo o que vejo são pedras no chão a revolver o céu. a guardar as sombras dos aviões que não vejo – mesmo assim gosto da minha janela. gosto da pouca esperança que guarda nos seus caixilhos. um dia vou ver os aviões – um dia a minha janela de sucupira vai voar como os aviões – sei – há noites em que o meu desejo é apanhar uma estrela e trazê-la para junto de mim. mas já percebi que não é possível. o problema nem é a distância porque às vezes do longe se faz perto. o problema é que as estrelas só brilham no céu – para que quero eu uma estrela que não brilhe? tal como escreveu nietzsche quanto mais nos elevamos. menores parecemos aos olhos daqueles que não sabem voar – a noite chegou. o pôr-do-sol morreu de vez. só o barulho do avião resiste à morte. sei que não morreu porque ainda se continua a ouvir – os aviões confundem-se com as estrelas e estas confundem-se com olhos iluminados de tristeza – quando um homem está mal até as estrelas cintilam dor – só os aviões continuam no ar – as minhas coisas não voam como os pássaros. ou os aviões. ou mesmo as desilusões. ou anormalidades que a ciência ainda não catalogou – estou farto. é hora de voar como se pode – com coragem atiro o corpo aos pés e voo. voo de mim até ao chão e na ligeireza da queda a lembrança do alfaiate voador que se atirou da torre eiffel com a infinitude cega de que não importa o tempo de voo. importa mesmo é voar – eu voo da cadeira para o chão e do chão para a janela arrasto-me como se estivesse a voar – se um dia passarem pela minha rua e virem uns olhos pendurados numa janela… sou eu a tentar voar