31/07/2017

deambulações noturnas XXI



rene magritte


maior amigo é o silêncio da noite – digo-lhe o que não diria a mais ninguém. e ele ouve-me como só os verdadeiros amigos sabem fazer



24/07/2017

amo-te porque existes dentro de mim



foto - sampaio rego


apenas uma pequena nota sobre a celebração dos meus trinta e três anos de casado – o casamento é um compromisso de amor entre duas pessoas que juram cuidar uma da outra até que a morte os separe – tudo o que sobra deriva desta única premissa: o amor – mas para os homens é muito mais do que um compromisso [quase sempre] selado aos olhos de deus. é essencialmente a libertação em definitivo da volubilidade jovem. da imaturidade. do egoísmo. da impetuosidade e da irresponsabilidade – essa libertação trouxe-me a segurança das noites que. com o seu efeito lento e repetitivo. me ensinaram a crescer numa cumplicidade graciosa – nunca mais parei de crescer. tu também – prometi amar-te um dia de cada vez. assim fiz – ao fim do dia. depois de o sol se esconder. os lençóis abriram-se sempre em seda. os chinelos descansam aos pares à entrada dos sonhos partilhados – nunca tivemos medo do tempo. envelhecemos a saber sempre tanto um do outro – fecho os olhos. dou-te a mão e levo-te ao dia em que tudo começou e recapitulo o meu sim: sim. aceito esta mulher na alegria e na tristeza. na saúde e na doença. em todos os dias da nossa vida – nunca mais aquela igreja viu uma noiva tão bonita – acasalamos os olhos na eternidade. depois. ansiosos. unimos as mãos e trocamos um beijo que é todo feito de gratidão e entregamo-nos um ao outro sem medo de nenhuma palavra – os nossos filhos são a nossa graça e testemunhas de que os dias voaram – o amor ensinou-nos a viver numa cumplicidade feita também de aceitação – não me canso de te pedir perdão mesmo que tantas vezes as minhas palavras fiquem por dizer – são mais de doze mil noites – amo-te porque existes dentro de mim



12/07/2017

deambulações noturnas XX



foto - sampaio rego


frequentemente o pensamento veste-se de mendigo – arrogante. o ego. fixa-se apenas nos botões de ouro em camisa de seda – engano tremendo – tantas vezes. por baixo dos farrapos. esconde-se a alma de um poeta privado de papel para cobrir a sua escrita em noites de aprumo literário


03/07/2017

no meu peito já não cabem gaivotas* 1 - 2



adelino ângelo


1.    a morte física ou da personalidade


a morte física de um corpo – declara-se o óbito quando é devidamente comprovada a inexistência de sinais vitais no corpo humano. isto é. a total falência dos seus órgãos e a ausência completa de atividade cerebral – o médico-legista declara o término da vida. apontando as possíveis causas do óbito e permitindo deste modo o desaparecimento do corpo para sempre do mundo sensível

 

2.    a morte emocional


aponto o meu foco para uma morte menos dolorosa. menos repentina. uma morte que vai acontecendo aos poucos. quase sempre em passo de tartaruga. tão lenta que o sistema de alerta cerebral acaba ludibriado pelo seu vagar: a morte emocional – esta. sem que na maior parte das vezes a ciência saiba explicar. acontece quando as defesas do corpo. num conluio terrorista. consentem no descarnamento da sua rede de neurónios. expondo assim a sua intimidade a uma censura coletiva. insensível e muitas vezes injusta – dá-se então o curto-circuito. o cérebro atrofia. o corpo estremece de medo. de seguida estremece de um frio que é mais do que gelo. é um imobilismo aterrador perante o desconhecido – o corpo humano revela na sua plenitude a sua fragilidade – só há uma forma de se proteger. imolar-se na indiferença. esquivar-se ao raciocínio e esconder-se no abismo dos silêncios que carrega – e ali fica. parado. quase sem respirar para enganar as chispas que agora lhe escorrem dos olhos em forma de apatia letal – se hoje o mundo ruir este corpo já não lhe pertence – tudo que lhe sobrevive resiste num cosmos desocupado de emoção – do passado só reconhece o barulho. sempre impertinente. como se o mundo andasse numa fona irracional. noite e dia. sem descanso. arrastado por um pêndulo ritmado pela indiferença. a marcar os dias num desinteresse total pela quietação – e o que ainda sobrevive à derrocada sentimental é agora tratado com doses maciças de um químico afetivo. fertilizado no útero de uma mulher mais pura do que o céu – resistir é agora a única mensagem emitida por si e apenas para si – mas a sua vontade já não chega – o corpo por dentro contorce-se numa desordem incontrolável. uma tempestade impossível de acalmar. enquanto por fora. a ressaca é um turbilhão de imagens que já não quer compreender – tudo o que compreende o lhe fere a alma – não se quer compreender os livros. a religião. a família. o amor. a compaixão. a vida. os amigos. a razão pela qual se nasce ou pela qual se demora tanto tempo a morrer fisicamente – no caos da morte emocional já não é possível acontecer uma nova ordem. um novo recomeço. um novo ciclo de vida imaginado. traçado ou idealizado – corpo e mente degradam-se numa responsabilidade repartida. uma guerra sem vencedor em que cada uma das partes responsabiliza a outra pela falência emocional – cai por terra a regra da sobrevivência do mais adaptado – o corpo perde o medo da dor enquanto o cérebro perde a vontade de chorar. e assim. se esvaia de forma definitiva as frugais probabilidades de um regresso à lucidez – enquanto a memória se apaga seletivamente o silêncio vai-se alastrando ao corpo todo – o mundo já não é mensagem – já nada traz movimento. as mãos recusam brigar enquanto os pés se recusam caminhar – apaga-se as origens para não a envergonhar. apaga-se o amigo para não o magoar. apaga-se a felicidade para não trazer saudade. apaga-se a ambição para evitar o erro. apaga-se o futuro porque só o presente existe. apaga-se a fé porque deus é um mito. e por fim. apaga-se a luz para que ninguém nos veja no escuro – louvar a vida é uma provocação ao destino que pode terminar a qualquer momento tragicamente. basta que o mal vença o bem uma única vez – o mundo é um vício que nos pode matar de uma overdose – levanto os olhos abatidos e transformo o vinho em água. desmultiplico o pão. elimino a confiança e digo-lhe apontando para o céu: quem me seguir entrará no reino do inferno e viverá na dor para toda a eternidade – o silêncio pinga agora uma única pergunta: porque eu? – não há resposta – e todos os mortos emocionais perguntam o mesmo e a resposta é desespero: salve-se quem puder porque cada cabeça terá a sua sentença – fecham-se as portas por fora. correm-se as janelas para a escuridão e entrega-se o corpo à tortura até que a coragem se sobreponha à mágoa – é obrigatório expiar o erro – sofre corpo. sofre corpo porque só a dor torna o homem superior – um corpo doente acredita em tudo – mas para que interessa tudo isto se o corpo está a morrer de apatia – não interessa. não importa. não vale a pena – o corpo que morre emocionalmente ignora os estímulos humanistas. os valores morais. a justiça. a liberdade. a fraternidade. a solidariedade. o amor pelo próximo. mas acima de tudo o amor por si próprio – este corpo. desfalecido e esgotado. é forçado a refugiar-se em zonas escuras. proibidas. suicidas. onde prolifera a autocomiseração – uma viagem ao centro de uma dor inesgotável. indomável. selvática. impiedosa. acabando por se perder numa espiral de tragédias. de desastres e de fatalidades que raramente permitem a sua reutilização para uma nova vida – com a morte emocional perde-se tudo. até a dignidade – este mundo mata pela mentira. promete a todos o que só pode conceder a alguns – termino com uma frase do mia couto: “quem vive num labirinto, tem fome de caminhos”

 

- a terceira parte do texto será dedicada à morte terapêutica

- *título extraído do livro de nuno camarneiro – no meu peito não cabem pássaros


11/06/2017

o que resta de nós: um tratado sobre a desilusão



caravaggio


1.

quando a desilusão se chama amigo – num tempo de interrogações amargurei. depois. em dificuldade. dei uma oportunidade à lucidez que acabou por emergir num exercício prático de libertação do homem – nietzsche afirma que o homem livre é um guerreiro – não sendo guerreiro. mas em liberdade absoluta. resolvi então escrever um tratado simplificado de uma amizade magoada – bem sei que quem espera desespera. eu desesperei – mas as palavras acabaram por chegar no seu vagar. tal e qual como me foi chegando a vida cinzenta – tudo foi acontecendo numa demora estranha. tomada por uma nostalgia gasta pelo tempo – dei então início à minha busca: encontrei-me nas origens. nas causas. nas motivações. na ambição. na imbecilidade e regressei ao ponto de encontro apenas para me deparar novamente com o desencontro – sei agora o que quero dizer numa escrita que desejo clara mesmo que a causa não me dignifique – perder um amigo é sempre uma culpa dividida – descobri a serenidade e despojei-me da alma para me encontrar mais de perto com a verdade. assumi a mortalidade e pedi a têmis que me ajudasse a derrotar o erro e a escrever a justeza numa consciência iluminada – encontrar a minha verdade depurada da imperfeição é fundamental – sei que será sempre uma verdade minha e que muito bem pode não ser a de mais ninguém – com o corpo em braços avaliar-me-ei pelo conhecimento num processo autocrítico: colocar-me no centro da humanidade. avaliar escolhas. questionar processos. aceitar e compreender o erro. reconhecer a individualidade e por fim. com a verdade purificada. combater e derrotar a desilusão como uma das mais violentas formas de enfraquecimento e eliminação da estabilidade emocional – afinal. toda a desilusão não passa de um pedaço de terra desabitado. uma porta fechada que esconde apenas um quarto vazio

 

2.

decompôs-me em segmentos finíssimos de lucidez. e à velocidade de uma bala atingi o desencanto – corpo e mente aceitam a deceção num estado de alma de acolhimento cristão: perdoa-lhe que não sabe o que faz – estamos os dois perdoados. eu por te fazer existir num pedaço de terra que acabou desabitado. e tu por me trazeres enganado num abraço que acabou por nada abraçar – juro que não sabia que os abraços se perdiam como o vento – mas não há forma de nos esvairmos da condição humana que tragicamente carrega em si o erro. numa contagem de tempo sempre provisória – a imperfeição do homem é uma das razões da sua diversidade – sei agora que o corpo se partiu em milésimos de segundo. onde antes estávamos juntos. agora. ficámos separados. marginalizámo-nos nas razões. as mãos desuniram-se violentamente. tu lavaste-as como pilatos. enquanto eu. envergonhado. enterrei-as na fundura dos bolsos – de seguida dividimos as palavras. tu recuperaste as tuas e eu quebrei as minhas para nunca mais as usar – há palavras que nunca deveriam ter nascido – ficamos os dois dentro de um quarto vazio. numa porta que se fechou quase sem fazer barulho – quando te virei as costas trouxe toda a raiva do mundo no corpo. explodi numa dor que me atravessou todos os anos da vida. num arrependimento alucinogénio. culpei o mundo. de seguida culpei as pessoas do meu mundo. depois a rua onde crescemos. o passeio onde jogávamos à bola. o jogo da estátua. as caricas. e aquele candeeiro que se apagava sempre que lhe dávamos um pontapé –  eu é que devia ter levado esse pontapé. afinal a minha casa ficava numa rua a descer mas eu sempre a quis subir. teimoso – a dor cortou-me os pulsos dias sem conta. e eu sem saber como conter a raiva. e um murro na parede. e outro na mesa. e um ralhete a um deus que sempre me pareceu surdo – houve um tempo em que tu e eu acreditávamos nesse nosso deus. ele morava na mesma religião. na mesma pregação. na mesma prática do bem: “a lei de deus é justa e boa – “quem obedece à lei de deus faz o bem e ama as pessoas” – nós prometemos-lhe praticar o bem. amar as pessoas. não mentir e honrar os amigos – a humilhação serrava-me a alma num barulho que me enlouquecia – tu não me honraste. mentiste-me com palavras que prometemos nunca usar – esqueceste-te do combinado com deus. esqueceste-te de mim e esqueceste-te de tudo o que era meu – fiquei só. perdi-me do corpo. do que o meu pai me ensinou. da compaixão. do perdão. fiquei sem uma única palavra que me trouxesse de volta a casa – no corpo só cabia agora raiva e interrogações – o que fazer aos aniversários em que me desejaste muitos anos numa vida feliz? o que fazer aos natais sem aquele abraço-tradição? o que fazer ao teu número de telefone? o que dizer aos amigos? como viver separados por um muro de cólera? – a amizade verdadeira é uma forma de amor incondicional – durante muito tempo andei desaparecido de mim. não me reconhecia. estranhava o corpo. os seus desejos. os medos e o que a memória desejava pela noite perdia-se na manhã – banir-te da minha humanidade não era tarefa fácil – magoei-me com tudo o que tinha à mão. atirei-me para dentro de palavras que me torturassem até que a dor se transformasse numa raiva tão escura que nunca mais fosse possível encontrar-te pelo nome – mutilei-me com a confiança. sangrei honra. chorei humilhação. despedi-me da esperança e o que era amizade foi substituído por luto – quando um amigo nos morre nas mãos é para sempre – sempre amei os meus amigos – mas a tua morte resistia aos meus dias. nunca foi bom a mentir nem a matar a saudade: um café partilhado. uma conversa urbana. uma miúda cobiçada. um automóvel da mesma marca a caminho da tua casa. um nome geminado. e estas duplicações a dizerem-me que a tua partida foi um equívoco do tempo. uma noite mal dormida. um pesadelo horrendo depois de uma farra de copos – uma armadilha para a amizade – quis acreditar que um guronzan e uma dietinha de arroz branco me trariam de volta os dias como sempre foram – ao nascimento do sol recuperaria a luz da confiança. eu voltaria a aceitar-me tal e qual como sou. e tu tornavas a aparecer dentro daquele sorriso que nunca te deixou crescer – mas não. afinal o luto é muito mais que roupa negra. é o corpo negro. pisado. enraivecido numa acidez que me faz arder num inferno que não foi desejado por mim – não aguentei. atirei-te de um penhasco para o mar e nunca mais procurei o teu corpo – este meu luto durou um tempo que nunca quis aprender a contar – quanto mais tempo tivesses desaparecido mais prazo tinha para escapar do abismo – com os dias a passar tudo foi sendo substituído por silêncio. um silêncio que não é dor. não é raiva. não é azia. é uma saudade que nos enfeitiça e liberta serenamente. sem que nada possamos fazer. as memórias que obstinadamente escondemos – esta saudade dói. dói pela distância. dói porque os dois fomos um e agora somos ausência – não há forma de controlar esta saudade. simplesmente aparece. devagar devagarinho e o corpo tomado por um marasmo sereno. tranquilo. silencioso. sem arrependimento – à boca são roubadas todas as palavras que magoam. enquanto as mãos se espreguiçam delicadamente – é importante não amedrontar o dia seguinte – o tempo em silêncio assustou-as. envergonhadas esconderam-se no escuro dos bolsos que. em boa verdade. não as escondiam de nada – e o dia seguinte a exigir uma renovada aliança com a fé. as nuvens a correr para sul. sem pressa. enquanto um novo arco-íris adorna o céu num colorido de cores quentes – o sol rompe pelo corpo. as sombras desfalecem no passado. e o coração retoma os batimentos numa alegria que é hino – beethoven – os olhos renovam-se. florescem em campos inesperados campos de flores: bem-me-quer. mal-me-quer. bem-me-quer e o vento a soprar de fininho. manso.  quente. de norte para sul. a envolver o erro numa carícia de indulto – o corpo recupera a inocência numa calmaria que já não anuncia mau tempo. finalmente – invadido por uma trégua delicada recuo ao passado. à pureza dos ideais. todos por um. um por todos. deito a cabeça a uma árvore. tapo os olhos. e conto até mais de cinquenta. depois. desenfreadamente. volto a correr pela vida. voltamos a jogar à bola. ao deita fora. e celebramos vitórias sem ganhar coisa nenhuma – sorrimos. somos puros. e o mundo também – para haver um mundo impuro é necessário haver gente impura – não havia. nesse tempo tudo era perfeito – juntamos a família às celebrações. os amigos também. festejamos o meu aniversário e de seguida o teu que acontecia sempre um dia depois do de meu pai – estamos em agosto. nunca senti frio em agosto. era um mês especial. não havia tristeza. nem solidão. nem saudade. nem medo. nem injustiça. nada. só havia sol. luz. muita luz e uma vontade enorme de a trazer para dentro do corpo – um dia o meu pai deixou de festejar a vida. e o agosto quase desapareceu. passaste a existir só tu num mês moribundo. mas também quiseste partir. deixaste de festejar a amizade e o agosto esfriou para sempre – eu gelei – juntei então tudo que era teu num dia depois de agosto. acrescentei-lhe os abraços. os sorrisos. as promessas. as juras. as palavras que nos tornaram amigos. os natais. principalmente aqueles em que me levavas a casa um abraço quente de verão. a tua bondade e aquela tua vontade única de partilhares a vida com afeição – nós amávamos o natal – prometo que este ano escreverei a verdadeira história do meu pai natal – quero guardar o melhor de ti – devo-te isso – há dividas que só se pagam com afetos – um homem grato faz o mundo muito mais bonito – nunca te deixei de ser agradecido nem mesmo no dia em que te atirei para o fim do mundo – o corpo ainda dói. sempre que o sol se esconde o corpo dói. e eu sem entender como lidar com uma dor que não quero que continue dor – e ali fico eu preso às horas da noite num emudecimento que me enlouquece – não é fácil perder o que se pensa ser eternal – o tempo passa e o teu corpo teima em reaparecer – aceitei o desafio – passaste a viver numa dimensão que não sabia existir: estás longe. mas ao meu lado – és memória – reinventei para ti outro corpo. outros olhos. outros gestos. outro modo de andar e um outro sorriso. desocupei-te as mãos dos bolsos. tornei-os mais largos e mais fundos para te caber toda a cobiça do mundo. e dei-te um lugar na terra rodeado de gente por todos os lados – ficaste mais parecido com todos aqueles que não conheço. mais banal. menos divinizado. passaste a ser apenas mais um homem que envelhece no meu tempo – só os amigos não envelhecem –  mas tu envelheceste num instante – afinal também já tens cabelos brancos. tens o corpo mais tombado para a frente. as unhas cada vez mais ruídas e o sorriso que te fazia criança está agora muito mais cansado. adulto. indiferente ao mundo. ao teu e ao meu – sem esse sorriso deixei de reconhecer aquele rapazinho franzino. magricela. sempre a correr desenfreadamente à frente da sua própria bicicleta. numa velocidade estonteante. louca. de um lado para o outro – só estavas bem onde não estavas – e assim ficaste para o resto da vida. sempre gostastes de estar em todo lado sem nunca estar em nenhum – escondi-te do erro. fingi que os amigos nunca falham e fui-te perdendo devagarinho para não me magoar – ultimamente já quase não falávamos. perdeste a fala. aprendeste a pisar. humilhar e fazias gosto em o mostrar – refugiei-me no tempo – quando gostamos de alguém. somos capazes de jurar que o mundo não é redondo – perdeste a juventude. depois a inocência. as leis do teu deus. não faças aos outros o que não queres para ti. perdeste a coragem. as origens. escolhestes os mais fracos para te tornares mais forte. ficaste injusto. prepotente. cego. egocêntrico. interesseiro e vaidoso. mais vaidoso que a sé de braga – passaste a sentir-te bem com o mal dos outros – tu não eras assim – por mais de mil vezes tentei dizer-te que estavas errado. que o sucesso não tem um só caminho – essa personagem magoava-me. avisei-te que mais tarde ou mais cedo a vida te iria cobrar. o teu deus não dorme – a justiça tarda. mas não falha não foi assim que te conheci – não me deste ouvidos. perdeste-os com a ambição e não foste capaz de tirar os olhos do papel e da montblanc – tiveste medo de me olhar nos olhos – desisti esperando. não há mal que sempre dure nem bem que nunca acabe – mas enganei-me. o tempo não te curou. pelo contrário. aprendeste a mentir sobre ti e. sobretudo. sobre os outros – um homem mentiroso não vale nada – abandonei o diminutivo no teu nome e passei a chamar-te pelo nome que todos te dão – eu também perdi o meu diminutivo – descobri que a vida é muitas vezes ingrata. aprendi a resignar-me. nem sempre a luta leva à glória – mas também descobri que não te quero como inimigo. um amigo só necessita de um cantinho no coração para existir. um inimigo precisa do corpo todo – não te darei o meu corpo. nasci sem inimigos e também morrerei sem eles – abri então uma porta que não dava para um quarto vazio. deixei entrar o que sobreviveu de melhor dos dois. abracei-te com tudo o que me magoou. e chorei. chorei até que as lágrimas me enchessem as mãos de ti. expulsei-te da raiva e voltei à vida. fechei a porta. dei dois passos em frente. parei. e não voltei a olhar para trás – parti – jurei nunca mais te voltar a ver

 

3.

momentos dos quais nunca te conseguirei apagar. momentos em que teria feito por ti tudo o que me pedisses – um homem honrado não pode esquecer o bem que lhe fizeram – e eu nunca o esqueço – sempre te fui leal – e o que foi um caminho de afetos é agora um corpo encalhado numa montanha de palavras inúteis – quando estou só. já não sou capaz de falar contigo – aquele pedaço de terra desabitado perdeu a cor do céu. as gaivotas abrigaram-se do sal e as flores murcharam com os restos da primavera. não sobreviveram à desilusão – gostava de lhes ter perguntado se a minha vida seria diferente se tivesse nascido noutra rua – mas não há uma única flor que me possa responder – morrerei sem saber – um homem quando perde os sonhos. fica só. afunda-se no corpo à procura do que já não existe e acaba por se magoar com a ilusão de que ainda pode modificar o passado – não pode. por mais que volte a sonhar. o desfecho será sempre dor  – o que está feito. feito está – há dois momentos que marcam a nossa vida. o primeiro ocorre com o nascimento. aparece sem que nada possamos fazer para o evitar. nascemos e pronto. toca a respirar para sobreviver – o segundo momento é aquele que se torna certo para quem tem a ousadia de nascer: a morte – não pode ser evitada. mas pode ser dignificada. para isso. basta que no dia da partida. leves um sorriso na face – ainda há gente que o leva – procuro agora o meu sorriso. um que me recompense por todos os sonhos que ficaram por realizar – ainda não o encontrei. mas sei que anda algures por este mundo – desencontrado? sim. culpa minha. creio eu – estou cansado. as noites esgotam-me. os olhos não se fecham. deito-me sobre o corpo e ali fico de olhos abertos até que o cansaço me atire para a antecâmara da morte: o desespero – quero muito acreditar que há sempre uma razão maior para o que nos acontece de menos bom na vida – neste momento sobreviver é um desafio tremendo – sinto o corpo a pedir dignidade. estou sem fé. e sem um único sorriso para me poder despedir – bato à porta do meu deus de criança e pergunto-lhe se ainda há lugar na sua cruz para crucificar uma amizade – não me responde. nunca me respondeu coisa nenhuma – tento agora aceitar-me nesta infindável dor da perda – aceito em mim a inevitabilidade da desilusão e preparo o corpo para conhecer o seu último sorriso – o meu lugar está guardado no pedaço de terra desabitado

 

4.

ainda não te consegui perdoar. mas tento todos os dias – não sei se algum dia conseguirei – creio que não. já não há tempo – envelheci



07/06/2017

deambulações noturnas XIX


pintura - r.g. nascimento


um amigo precisa apenas de um cantinho no coração para existir. um inimigo ocupa o corpo inteiro



02/06/2017

deambulações noturnas XVIII


kit king e corey oda popp


e lá continuo eu com: o que resta de nós: um tratado sobre a desilusão – deixei de contar as noites. perdi a soma das horas. do desespero. da raiva. e do medo de não encontrar a palavra exata para que a verdade não se perca na distorção – a minha arte vive unicamente do esforço – confesso-vos que. na maior parte das noites. acabei por me perder dentro de mim – reencontrar-me é uma prova da minha justeza – não é fácil dar voz aos afetos perdidos – cada linha deste tratado sobrevive à custa de cem linhas rasuradas. e todas levaram um pouco de mim – também eu me apaguei para sobreviver – sofrerei até à linha final – tem de ser. eu mereço. e merecem-no os que continuam a gostar – ou a acreditar – em mim


deambulações noturnas XVII


ran ortner


e assim continuo eu. com o que resta de nós: um tratado sobre a desilusão – chego às 6 da manhã. escondendo o sono  atrás de cada palavra escrita – ousadamente escrevo noite após noite este tratado que vale mais do que um abraço que se perdeu para sempre – afinal. tudo o que é desilusão não passa de um pedaço de terra desabitado. uma porta fechada que guarda apenas um quarto vazio – nenhum corpo merece uma dor que é perda. independentemente dos defeitos cometidos ou desfeitos



24/05/2017

a antecâmara da noite


pintura - diego fazio


não há forma de me reencontrar na noite – perdi-me por completo. de um lado eu. do outro também eu - e os dois eus cada vez mais cúmplices - se um diz mata. o outro não ousa dizer não mates. se um diz basta. o outro responde que o basta tarda. se um diz coragem. o outro grita muita. se um não diz nada. o outro encolhe-se no nada - afinal o silêncio é a antecâmara da morte - nos meus eus. há apenas uns quantos pássaros a chilrear numa alegoria que desconheço. sobrevivo nos intervalos do que me resta da janela - talvez o sol nasça apenas para quem o canta em esperança - eu continuo preso às minhas lâmpadas de baixo consumo. numa fé moribunda. incapaz de emitir qualquer som que desperte a manhã com um sorriso – falta-me um abraço e um segredo ao ouvido que convença a noite a não ser eterna 


18/05/2017

deambulações noturnas XVI


van gogh


quando sentires o vento por baixo das palavras. aferrolha tudo e repousa até o tempo amainar –  palavras soltas ao vento de nada valem

15/05/2017

vânia – afinal. deus mora nos nossos quintais



vânia lopez


com coragem aqui estou em palavras para enobrecer a tua amizade – chegou o momento de te dizer o quanto foram e são importantes as tuas palavras-estímulo ao longo desta minha aventura prosista – ser prosista nunca é fácil –– retribuo então esse teu carinho com o talento que me sobra nestas mãos que te querem bem. sei que não será muito. serão apenas umas quantas palavras. algumas velhas. gastas. puídas. outras sem nexo que. de tão desajustadas do corpo. caem dos bolsos –  dobrei uma em forma de triângulo. um triângulo perfeito. com os ângulos todos iguais. e coloquei-a no bolso da frente do casaco a imitar um lenço de seda – um homem quer-se arranjado quando está prestes a oferecer o seu bem mais precioso: a palavra – gosto de palavras. sempre gostei. servem para coisas inacreditáveis. e quando bem usadas. podem fazer de nós pessoas fantásticas. às vezes até imortais – quando escrevemos ficamos guardados no tempo para sempre – com as palavras posso fazer quase tudo. escrever o nome de quem gosto. matar as saudades. escrever cartas de amizade. escrever poemas de amor ou de raiva. e outras que por serem tão complexas só os poetas as entendem. posso também dizer que o mundo é mais bonito contigo. e dizer com toda a impiedade que uma palavra pode comportar: gosto de ti – gosto de ti assim. gosto de ti como te descubro nos meus olhos. como quando me chegas em silêncio. ou como te escuto no interior da tua poesia. e também gosto de ti na forma como me olhas naquela foto em que te colocas de lado para o mundo – ainda bem que existes – sabes que gosto de escrever. e quando começo a escrever não paro. fico com a sensação de que nunca digo o suficiente. insegurança creio eu. ou então falta de jeito. sei que não tenho muito. às vezes nem percebo porque escrevo. fico sempre com tanto medo de não compreender verdadeiramente o valor de cada palavra. quando erramos ao escrever. é para sempre. as palavras não se trocam. nem as podemos pedir de volta. depois de escritas pertencem para sempre à vida – como também são para a vida todas aquelas mensagens que trocamos na calada da noite. tu envias um olá. eu respondo com um bonequinho a sorrir. tu envias uma palavra. eu devolvo a tua com mais duas minhas. e assim. começa o encantamento poético. e as palavras a escreverem-se como se tivessem uma força desconhecida. como se os deuses do olimpo nos tomassem conta das mãos e nos dissessem: escrevam. sejam feliz – e assim ficamos a dar brilho às estrelas enquanto a noite. calmamente.  se despe para dar lugar à realidade – gosto de saber que estás por aí nesse teu quintal – escrevo-te porque não sei falar. porque não confio nas palavras que me saem da boca. saem-me sempre muito depressa. impercebíveis. e tão confusas que se acabam por perder no mundo-solidão – pouco sei desse mundo-solidão. gosto mais do nosso. o das palavras escritas que partilhamos com gosto. numa arte que nos abraça e que poucos entendem – quem escreve cresce todos os dias dentro de si – nós fizemos crescer uma amizade – mas para que serve isto tudo que estou a dizer se não for capaz de escrever uma palavra nova para te oferecer – não serve para nada – escreverei então alguma coisa que te traga em braços por esse distante mundo oceânico. onde tu. desse lado. ficaste presa. e eu. deste lado. em castigo – arrumo as montanhas para um lado e sento-te ao pé de um campo de magnólias. estamos na primavera. corre por nós um perfume dourado-sol. suave. suave-inocência – seguro as águas dos rios. detenho as nuvens. silencio todos os pássaros no ar. e arrumo o vento morno dentro de um poema que compus para pessoas especiais – há agora um silêncio celestial à espera de escutar a tua poesia – arranjas o cabelo. as poetisas querem-se bonitas. ajeitas o corpo que eu conheço. sacodes as mãos do tempo pérfido. e por último. dás uma olhadinha no espelho da vida. é lá que nasce toda a poesia do mundo. a tua também – e ali fico a ouvir-te até que o tempo se esgote e os poemas se transformem em ficção – voltas então para o teu quintal. e eu fico a colher magnólias em campos de palavras – afinal. “deus mora nos nossos quintais”

 

para a vânia lopez – um comentário faz muitas vezes a diferençaobrigado por cada dia em que me ajudaste a escrever e a enfrentar os meus medos

 

10/05/2017

águas de papel


vânia lopez



encontraria a palavra perdida
pelas ruas que me afastam e me levam de volta
nessa oração pequena
a pressa de nosso abraço antigo
que tem muito a despir
a correr por um campo de flores selvagens.
e lá fora sentir a sombra desse abraço
como se não fosse um traço de caneta
que lhe deu vida
mas de um Deus que dorme no quintal.



poema de vânia lopez de dicado a mim - muito obrigado cara amiga


09/05/2017

o corpo não morre todo à mesma hora



pintura - emanuele descanio



1.            o homem

um dia percebemos que o corpo já não é portador de uma consciência una. íntegra e lúcida – divina ou não. esta consciência. ao longo do tempo. foi obrigada a reordenar-se em fações temporais. numa existência quase sempre mutilada. imperfeita e fraturada – consciência é sinónimo de homem. da sua intimidade. de honra. de bondade. de vergonha. da sua inteligência. da perceção do que fez. do que ainda pode fazer. e da capacidade de criar novos estímulos para se reconstruir do erro – por último. e com base no que escreverei mais adiante. a consciência permite pensar a morte – decido vê-la como a última fatalidade ou “libertação total”. como escreve mário quintana esta verdade sobre a consciência altera todos os nossos relógios biológicos. o que era importante. já não é – o que era para amar. fica para esquecer – o que era coragem. transfigurou-se em covardia – e o que era para eterno. é agora para um dia destes – chegou o momento de aplicar as rotinas de sobrevivência. tentar equilibrar o que se desequilibrou – na sua intimidade – inviolável por tão profunda – constrói-se o homem. aquele que levamos ao mundo das sensações. em doses controladas. prescritas por um ego que se alimenta do próprio saber. numa realidade partilhada que se fragmenta entre o que se sente. e o que se autoriza a mostrar – entre a dor. e o lugar exato onde consentimos que ela seja vista – entre a fé corrompida. e a versão tolerável da nossa queda – assim chegamos a um corpo mergulhado num infinito de soluções. tantas quantos pensamentos. e o cérebro. sempre a trabalhar. para lhe dar uma razão para a sua existência – a vida é uma partida de poker onde quem tem a melhor mão nem sempre leva a vitória – neste baralho da vida ninguém fica de fora – e aqui estou eu. com as cartas que escolhi. num jogo partilhado com o meu pequeno mundo. sem bluff. numa única mão. sem rei. sem duque. sem nada que me convença de que ainda devo continuar a procurar a sorte – azar. digo eu. tiveste até muita sorte. dizem outros. indiferença. para outros tantos – todos certos. todos errados. e todos acreditam guardar em si todo o conhecimento do universo. juram saber exatamente o que cada corpo sente. e outros juram que não sentem porque não querem sentir – e há ainda os que dizem que só se sente porque se quer sentir – tudo certo. tudo errado. e tudo viciado em consciências interpessoais incompletas – o que é para um homem não é para mais nenhum. cada homem é único no seu nome. como escreve mia couto: “cada homem é uma raça” – dentro do corpo. num emaranhado de contradições. existimos nós. em balanços intermináveis. em juízos castigadores. em punições exemplares. em remorsos eternos. em arrependimentos cortantes. em aflição que desespera. e a inteligência emocional a reparar os excessos com ética para que a consciência moral resista por mais um dia

 

2.            a morte

o corpo morre aos bocados. em agonia. num falecimento silencioso. num desmembramento selvagem. é a morte em doses que nos mata por estágios da alma: hoje perdemos um sorriso. amanhã um abraço. depois um amigo. e mais outro. e ainda outro. até que se perde o céu. as nuvens. o destino. as gaivotas param de voar. e tudo caminha lentamente para um estado terminal consentido. num silêncio tão profundo que. paradoxalmente. assassina o ruído da consciência afetiva – aceita-se a resignação. aceita-se o fim – abrimos a janela. mas já não há brisa. apenas uma acalmia necrófaga. os abutres normalizados transmitem uma dimensão reduzida ao tempo – a morte paira no ar – aprendemos a escapar ao medo. e aos poucos. sem que o corpo tenha compreendido. resignamo-nos à inevitabilidade do desfecho: a morte como libertação do pensamento – afinal nem tudo foi assim tão mau – a escuridão engole o sol. a determinação. a coragem. a lucidez. o discernimento deixa de resistir à nostalgia – o sol também se apaga quando o corpo desiste – chega um cansaço de estátua. e ali ficamos parados. hirtos. gelados. como se a morte quisesse provar que estar morto é imobilidade. é silêncio. é uma espiral de renúncia assombrada pelo fim de um ciclo – e. segundo a segundo. esvai-se mais um trago da vida em aflição – no meio de quatro paredes. o corpo aceita finalmente o seu fim numa humanidade serena – deixo de falar e o silêncio toma o lugar de companhia. tudo acontece sem voz. tudo se desenrola em pensamento. às vezes num maquiavelismo revoltoso. em grito desesperado. raivoso. impiedoso. assassino. e tudo o que resta de mim pelo chão. a rastejar. a contar os cantos das paredes. enquanto os pulmões ardem em dióxido de carbono – respiro fundo – as súplicas são agora deslumbramentos que se atrapalham no cérebro em busca de uma porta de emergência – não há portas de emergência. foram-se fechando sem que o racional desse conta – nada pode sair de dentro para fora. ninguém pode saber que se está a desistir – e morre uma perna. e o corpo afunda-se na cadeira que já não é acessório. mas urgência. uma necessidade para iludir gente sã – contraio-me. encolho-me. embrulho-me numa posição fetal. a cabeça nos joelhos e as mãos num emaranhado de coisas. coisas que o corpo estendeu ao mundo. e que eu não sei devolver em palavras – aperto-me. cerro os olhos. rasgo-me por dentro e nem uma gota de sangue. estou seco. mumificado e sem forças para chamar por um nome que me acuda – penso: que isto acabe de uma vez – e os que apareciam passam a aparecer menos. e aos poucos acabam por falecer primeiro do que eu – finalmente só – sentar-me é tudo o que me resta. sentado. sou enorme. sentado ninguém percebe que me estou a desfazer. sentado não toco no chão. sentado tenho as mãos ao nível do coração. será este o último a render-se à consciência – só as cobras rastejam pela imundice do chão – e o corpo vai-se perdendo numa aceitação cristã – perde a vista porque não há nada para recordar. perde os braços porque não quer ter saudade dos abraços. perde a fala porque não quer que ninguém o ouça. perde os gestos para que ninguém saiba que ainda não morreu por inteiro. e o que era simpatia reconhecida. torna-se agora um fardo para enganar aqueles que nos querem ver no passado – o coração ora arranca. ora começa a trazer aquilo que não quer que seja verdade – sente-se medo. e pergunto-me se será deste modo que o corpo desaparece todo à mesma hora – o coração continua a bater. e o sangue bombeado soletra em agonia: tens que aguentar – a consciência ainda luta – e uma lágrima pendurada no canto do olho brilha. carregada de saudade. de um dia de natal. de um aniversário. de um abraço. de um amigo. da família. meu deus. sempre a família – deus. se realmente existires perdoa-me – e sufoco as recordações. as molduras. incendeio todas as fotos coloridas. apago a cor. e o rasto também – sobrevive apenas o preto e branco – morre mais um pouco de resistência. e depois de coragem. e a esperança já foi toda. e já só resta a vergonha. e a maior parte do mundo sem entender nada sobre falecimentos – ninguém morre de uma só vez – e o punhal em cima da mesa rasga em cortes limpos as cartas de recomendação. uma a uma. e a vida resumida a uma única miséria: já acreditei. já existi – enquanto o corpo não morre todo à mesma hora. o passado insiste em assombrar o presente – o que resta do futuro arrasta-se entre abutres 

 

 

26/04/2017

revolução da magnólia



foto - google


guardei a vontade de escrever junto ao cravo e procurei em mim por outra revolução que tornasse diferente – como não tenho regaço. nem sou santo. nem me dou com santos. das mãos não me brotou nada que me fizesse sair para a rua com uma magnólia ao peito – uma revolução de magnólia faz nascer homens para um futuro brilhante – visto o pijama – na cadeira. as calças vincadas. a camisa branca engomada. o casaco preto. as meias pretas e as cuecas dobradas em quatro - em frente. um crucifixo recorda-me que não há revoluções sem fé – rezo – peço perdão - espirro por um resfriado que ainda nem apanhei – sento-me de costas para os símbolos da imortalidade e peço uma nova vida noutra existência – desta estou esgotado – não quero levar nada daqui além do meu computador. apenas as memórias más para não voltar a cair nos mesmos erros – tudo o resto pode ser diferente... tudo. menos isso. quero a mesma companheira


24/04/2017

noite de lua cheia



 foto - google


a luz apaga-se

na metamorfose
uivam os lobisomens
nas rimas. a baba
nas garras. o poema

parido e sem pele: o poeta


19/04/2017

pela noite dentro



pintura - r. g. nascimento

o que vos posso dizer de mim nesta madrugada – a folha. exausta de estar em branco – arranco com as teclas – interrogo-me se haverá um momento certo para desistir de um sonho – passei a noite inteira a batalhar nesta equação sem solução – então comecei a escrever e. a cada palavra escrita. um livro emergia da memória – “morgadinha dos canaviais”. “uma família inglesa”. “as pupilas do senhor reitor”. foram os primeiros clássicos a emergir na memória – tinha doze anos – apaixonei-me por júlio dinis e devorei todos os seus livros – eram histórias incrivelmente bem escritas – cresci amarrado a elas – nos seus livros. mais do que a nobreza das palavras. havia a nobreza das ações – não havia leitura que não me trouxesse lágrimas aos olhos. e os lenços encharcados de um sentimento que já não me habita: a esperança – o triunfo do bem sobre o mal. da lealdade sobre a falsidade. da nobreza sobre as trevas – meu deus – como foi possível ser tão feliz dentro de um livro – era uma criança adulta. os sonhos ocupavam todo o meu corpo – olhava o futuro. com a certeza de que não iria deixar um único sonho para trás – o tempo passou e cá estou eu. perdido em mais uma noite. empacotando sonhos que deixei apodrecer – escrevo nestas noites que já pertencem mais aos meus leitores do que a mim. já não tenho nada além de memórias – muito do que sou devo a júlio dinis. mas enganou-me numa coisa apenas: nem sempre o certo triunfa sobre o errado – que se lixe. continuo a gostar dele na mesma

 

17/04/2017

dezassete de abril. primeiro minuto de uma segunda feira de páscoa





meia-noite. primeiro minuto de uma segunda-feira de páscoa. primeiro dia da ressurreição de cristo – dezassete de abril. meu aniversário –– o domingo abriu com foguetes. à meia-noite. os clarões no céu iluminaram a entrada para o reino de deus – na terra o povo trata do cabrito para festejar condignamente o encontro de cristo com seu pai – atascado em especiarias e sem qualquer hipótese de ressurreição. o carneiro entrega-se ao sacrifício. afinal. há festa rija entre os humanos – agora só falta a visita do senhor para que as casas se purifiquem de pecado por mais um ano – em cima da banca da cozinha o jornal abre-se à leitura. silvio berlusconi não está com papas na língua: por favor não matem os carneirinhos. pede o cavalheiro acariciando um exemplar nos seus braços – por baixo. uma outra notícia contra-ataca: produtores de carneirada insurgem-se contra o ex-primeiro ministro italiano: -- ganha juízo. rapaz. quando andavas com miúdas menores. não tinhas olhos para carneiros – mas o berlusconi não quer saber e ataca: os carneiros têm sentimentos – não sei se também se referia a mim. eu também sou carneiro. também tenho sentimentos. nasci em abril. a 17 de abril. o ano não interessa. mas acredito que esse ano não deu boa casta. saiu carneirada meia louca. aquela que não desiste de acreditar em histórias de merda: contínuo à espera de um sinal de que cristo realmente chegou ao céu – sou aquele tipo de carneirada com poucos miolos e excesso de fé – embrulhado numa saca de plástico reciclável. a rosca do pão de ló feita com ovos caseiros. não endurece. o pão de ló é como a vida. se não for fofinho não presta – eu estou duro. por isso sei que um pão de ló duro não presta – estou tão duro que já não me consigo ajoelhar para nada – mas este ano é diferente. cristo ressuscitou mesmo. nem falo pelo que me resta de fé. falo pela quantidade de foguetes que estalaram no céu – fico contente quando há festa no céu. o meu pai está por lá. onde há festa ele está presente – deve andar às voltas de deus a dizer-lhe umas verdades – ele gostava muito de mim. era um bom pai. não acredito que consiga calar-se diante de certas injustiças – um dia vamo-nos sentar sem pressa a falar de como a vida pode ser bonita quando se tem um coração bom – eu tento ter. mas a vida. ás vezes. complica-me as artérias e fico com a ideia de que vão rebentar. sistema nervoso – este ano vai ser mesmo diferente. cristo ergueu-se do marasmo da morte e caminhou para o céu – o que me faz impressão é caminhar descalço. a minha mãe sempre me disse para não andar assim. senão adoecia – mas esta malta importante não lhe acontece nada – quem tem amigos não morre na cadeia – não deve ter sido fácil levantar-se depois de ter sido dado morto para o mundo – falo por mim. às vezes estou morto e não sei como me levantar. depois lá me chega um amigo e diz: vamos tomar um café – quando é para tomar café. ninguém me segura. falo e falo sem parar. falo com as mãos e com o corpo – sempre gostei dos meus amigos. creio que é por ser carneiro de signo – às vezes gostava de ter outro signo qualquer. um que me deixasse ser exatamente quem sou – o carneiro não mente porque teme a mentira – ser carneiro é ser sempre mais. é estar onde nunca queremos estar. é viver o futuro duas vezes. é ser escravo da palavra até morrer. é ser fiel a quem amamos. é chorar sem que ninguém consiga entender uma única lágrima – a dor dos carneiros é feita por nós e para nós – mas que se lixe a carneirada – uma multidão de fãs aguarda em ansiedade que se cumpra realmente a profecia – eu também – estou fora de mim há mais de cinquenta páscoas. à espera que cristo chegue ao reino de deus – olho para o céu. oriento-me pelas estrelas. da maior para a menor e tento descortinar uma ligação científica: juntando a estrela A com a C e acrescentado a que está ao lado da cassiopeia. a 358zkx. retira-se a lua que é muito romântica. acrescento-lhe vénus. uma pitada de amor dá sempre jeito. e para terminar boto-lhe marte em guerra e o resultado é…zero – todos os anos é zero o resultado da páscoa com cristo redentor – dezassete de abril. segunda-feira de páscoa e a multidão regressa à normalidade – arruma-se os temperos. as cadeiras voltam a recuperar o centro da mesa e o silêncio volta à tristeza habitual – sento-me em frente aos restos do pão de ló e percebo que o açúcar um dia vai dar cabo de mim – tenho medo da balança. tenho medo da idade. tenho medo de me perder daquilo que ainda me mantêm inteiro – meia noite. um beijo da minha companheira de sempre. de seguida um abraço e umas quantas lágrimas a pedir perdão. encostamo-nos um ao outro e ali ficamos presos a um olhar que nos faz amar e compreender. envergonhados. afinal sabemos tudo um do outro. é ali que eu ressuscito diariamente para a vida – depois um filho mostra-me que valeu a pena ter nascido: -- parabéns meu pai. e mais outro ao telefone. e eu a sofrer uma dor de gratidão que magoa mais que uma má notícia. um amigo do porto a chegar primeiro que muitos outros. uma amiga que não se cansa de continuar a fazer-me bem. sempre a escrever sobre o que não sou. e mais outro e por fim aqui fiquei neste silêncio das teclas a contar os anos da forma que me lembro – há tantos anos que nem sei que existiram. que maldade. e os amigos. tantos já sem nome. crueldade da memória. e os que partiram e que nunca ressuscitaram. e outros que por não terem ainda morrido gostava de os ver ressuscitados em mim – não podemos envelhecer encostados a nenhuma faca – cristo não ressuscitou. mas eu vou continuar a ressuscitar todos os dias – ninguém merece aniversariar quando não está bem


- obrigado a todos aqueles que se cruzam com amizade neste dia sempre especial e complicado 


13/04/2017

se um dia todas as noites


nick keller


se um dia todas as noites se tornassem dia. talvez eu me cansasse de escrever como escrevo. com esta letra escura. negra. feita de desassossego. pendurada numa luz que se escoa entre palavras moribundas – aqui estou eu numa noite que não é dia. num dia que nunca deixará de ser noite. e tudo a balançar entre o divino e o pecado – já não sei rezar à noite. talvez tenha perdido a oração ou talvez a vida. todos os momentos são agora um precipício – esta noite sou o que sempre fui. sou saudade que carrego de uma rua que me chama de volta – um dia voltarei ao mundo revestido de dias sem noites. com luz que nunca se apaga. com uma lua que nunca dorme. com uma cama que nunca sufoca – um dia serei louco. farei de cada letra um farol para náufragos do papel à deriva em noites de negrume – um dia serei eu própria luz. e as noites nunca mais serão longe. o amor será próximo. e o corpo um pequeno universo – noite escura. negra de carvão. negra de almas pecadoras. negra como se não fosse uma cor de deus. e eu um infiel condenado – este negro da noite sufoca-me de solidão. sei que um dia perderei o que ainda me resta desta pequena luz – se um dia todas as noites se tornassem dia. eu não aguentaria


deixo-te um beijo


pintura - emilia castellan


olho para ti. amor

e sinto o nunca:

nunca poderia viver sem ti

 

talvez era uma vez:

era uma vez uma princesa

de cabelos dourados

 

e na menina dos teus olhos

leio um desejo:

a loucura de me amar

 

se fosse poeta

talvez te escrevesse:

uma canção

 

mas não sou

sou apenas o teu amor:

ainda louco por te tocar

 

crescemos tanto os dois

eu envelheci

mas tu…

tu…ficaste mais bonita

eu. talvez mais homem

tu…mais brilhante

eu. mais cego com o teu brilho

crescemos tanto. amor

e tu continuas tão bonita

 

sempre me sobraram os abraços

um dia vou conseguir

trazer-te toda para dentro de mim

e dizer-te baixinho

que te amo mais hoje do que ontem

 

deixo-te um beijo