02/12/2017

eu e: a estante dos livros à esquerda


pintura - fabriano rocha



4.    eu e a estante dos livros à esquerda

à minha esquerda. uma estante com dezenas de livros que ainda não li – sempre quis acreditar que a minha velhice seria feita de paz. silêncio. memória. afetos e leitura pacata. construída lentamente com o meu pé-de-meia de livros – livro a livro desocuparia a estante da memória. da paixão. do conhecimento. da gratidão. e o espasmo final consagrado a um dever consumado – finalmente o corpo mirrado de todas as sensações – no quarto ao lado. no vazio da mesinha cabeceira já pouco resta de mim. um perfume dior despojado de fragrâncias. restos de um lápis de grafite com os dentes cravados na sua extremidade. uns óculos com dioptrias ultrapassadas. um creme de corpo sephora de pouco mais de quatro euros. uma aliança preservada por um amor que dói. sem saber exatamente onde dói. e um envelope lacrado e escrito com os seguintes dizeres no exterior: para o dia seguinte – ao centro da mesinha. em diâmetro exato. uma lâmpada protegida por um abajur sombrio em completa harmonia com os deuses da escrita. faz a guarda de honra ao livro que encerrará em si o meu último sopro de vida – ali estou eu preso numa página interrompida. agarrado a um eufemismo idiota que nos tenta impingir a ideia de que os livros são eternos e perduram para além da morte – o livro só é eterno enquanto o leitor vive o – na página interrompida. eu morri – para a eternidade apenas um símbolo de que um dia existiu vida no interior daquelas resmas impressas: um marcador de livro a dizer “keep calm” – claro que estou calmo. estou morto e todos os mortos são calmos. por mais agitação que tenha tido a sua vida – o único que poderá estar nervoso. se estiver vivo.  é o autor do livro que. sem o seu leitor. acabará também por desaparecer – nem todos os autores são imortais. mas todos os leitores o são – só o livro insiste em negar uma morte decretada oficialmente pelo silêncio no seu interior – os dedos não mais voltaram a acariciar o papel – hoje morremos todos. eu. o autor. e o leitor comum – nunca vivi sem livros. a minha primeira recordação com os livros chega-me dos almanaques da disney – aos dez anos apaixonei-me pelos cinco de enid mary blyton – os cinco na torre do farol foi a minha primeira leitura e aquela que me amarrou aos livros para sempre – aos doze anos fiz-me homem com os clássicos da literatura portuguesa: júlio dinis. eça de queiroz. e camilo castelo branco. tornaram-se os meus favoritos – mas foram com os romances do júlio dinis que descubri a bondade. a dignidade. a honra. a ética. a esperança. e o verdadeiro amor – morgadinha dos canaviais. uma família inglesa. e as pupilas do senhor reitor marcaram-me para a vida – júlio dinis moldou o meu crescimento e tornou-se no meu guia literário – o romantismo “ é a arte do sonho e fantasia” – eu cresci num sonho e perdi-me em fantasias – aos dezasseis acrescentei aos livros os amigos que ainda hoje guardo no coração – o bando da praça do comércio – éramos muitos. todos bonitos. todos diferentes. e de todos tenho saudades – em especial do joca. luís vieira. e mais recentemente o sérvio. acredito que partiram para um outro mundo mais perfeito e estão neste momento os três felizes – sempre amei os meus amigos. mesmo quando a vida nos tramou com o crescimento – crescemos todos tanto. e tanto ficou por dizer – nunca deveríamos ter crescido – éramos muito mais divertidos a jogar à bola e à carica – infelizmente não é assim a vida e para morrer em paz é obrigatório crescer – todos crescemos – os meus amigos cresceram mais do que as montanhas. ficaram enormes. gigantes de bondade. alguns com cabelos brancos. mais curvados. com o céu pelas costas. a fazer peso. com as nuvens por baixo dos joelhos. e os braços abertos como se pudessem voar a qualquer momento – sempre soube que os meus amigos um dia iriam voar. os anjos voam. os duendes também voam. e as gaivotas também – os meus amigos são seres sensíveis. delicados. frágeis como o cristal de murano. rodeados de água e marés. com histórias que fazem encantar a memória – tenho saudades dos meus amigos – tudo o que me resta são recordações e é nestas que resisto à inglória velhice – ninguém quer magoar ou perder o que ama – sei que. na vida. o que gostamos de verdade traz medo e insegurança – tenho medo de os perder apenas na saudade – os amigos são deuses que vivem na terra – honro este medo bom – mesmo com medo hoje apetece-me falar de dois amigos muito especiais – confesso-vos que estou aterrorizado. sinto-me gelado por dentro. uma parte de mim desmorona-se para as palavras. e a outra a serrar o que me resta das mãos – tenho medo – tenho medo que um dia não gostem de ver os seus nomes ligados a uma escrita meia tonta – bem sei que a minha escrita é também uma escrita de afetos. amiga. com paixão. com saudade. com um abraço que quase sufoca de tanto sentimento – mas confesso que estou com receio – que me perdoem se um dia não gostarem desta minha partilha. estarei pronto para receber um puxão de orelhas. estarei pronto para pagar a minha ousadia carinhosa – mas não resisto. tenho que vos falar deles. tenho que falar com eles. tenho que os trazer para o meu pé. olhá-los novamente. de mais perto. segredar-lhe como tudo foi especial. como é bom saber que existiram. existiram na esperança. na camaradagem. na fraternidade. na viagem e no silêncio do mundo – sempre os guardei dentro de mim – hoje quero-os comigo neste bocadinho de palavras que são só minhas. quero que me acompanhem como se fosse mais uma das nossas deambulações juvenis. quero-os outra vez inconscientes. malandros. gaiatos. quero-os bonitos como nunca – mas também quero trazê-los para o meu universo crescido e apresentá-los aos meus leitores como os melhores dos melhores. mostrá-los ao “desconhecido espaço global de redes de computadores”. com honra. com estima. com porfia. com admiração. e com gratidão – vou trazer até vós dois amigos muito especiais. amigos do peito que marcaram a minha vida de forma muito particular: *o tiago e o zé antunes – sem eles. envelhecer seria muito mais difícil – a terra existe para que os deuses possam descansar – zé e tiago. espero que um dia encontrem aqui o descanso merecido

*[um dia escreverei sobre um terceiro amigo também muito especial – encerrarei então em definitivo o meu trio de companheiros de uma vida]



29/11/2017

eu e: as fotos à direita


pintura google



3.    eu e as fotos à direita

sento-me em mim. a hora é do corvo. profunda.  desmonto os olhos do presente e percorro os quadros pendurados na parede à minha direita – as fotos confirmam que existo – afinal. não sou um produto de uma qualquer máquina do tempo – sei que existo aqui e neste momento porque estamos todos nas fotos – os que amo não se cansam de me olhar. ou talvez seja apenas a ilusão de um instante preservado no tempo – mas para que não haja dúvidas com as fotos. o melhor será citar decartes: “penso, logo existo” – e ali estou eu em mais uma velharia fotográfica: cara sisuda. cabelo escuro-jovem. calça bege. blusão de bombazine castanho. mãos nos bolsos e uns óculos enormes contra o sol do mundo – os olhos sempre foram a minha vulnerabilidade – os índios americanos não gostavam de tirar fotos porque acreditavam que estas lhes roubam a alma – não sou índio. mas acredito nessa crença – não sei se foram as fotos. mas alguém me roubou a alma. alguém me esvaziou por dentro – apostava o pescoço em como perdi a alma pelos olhos. não há um único dia em que não me doam – enquanto tive alma nunca deixei que o futuro me assustasse – não tinha medo de nada. o corpo estava sempre aprumado. perpendicular à ambição. num ar sério. como se transportasse em si um mistério. os olhos encovados. escuros. as mãos escondidas para que ninguém soubesse o que pensavam. e as pernas sempre em posição de correr – sempre com um grande aprumo diante da avidez. não era vaidade. era segurança nas mãos – olho. olho com o que me resta da vontade de olhar. olho com saudade. olho com nostalgia. olho com raiva. olho com uma vontade furiosa de eliminar o futuro estatelado numa parede pastel – as primeiras fotos são de um cinzento-ingénuo. aberto à coloração. imaginativo. num confiante forte-opaco. a contrastar com a moldura faia-clara – ao lado. numa moldura mais escura. sobressai o cinzento-dúvida. com a tonalidade a puxar para a solidão. para o retiro. mergulhado em pessimismo e numa vontade única de fazer apenas o que estava certo – há cinzentos que nos enganam para a vida toda – ainda não tinha percebido que para sobreviver é necessário aceitar o erro. ultrapassá-lo. moldá-lo até se tornar invisível. ajustá-lo às necessidades da maioria. programá-lo para o sorriso enganoso e fazer de conta de que aceitamos aquela velha máxima: errar é humano – nunca foi bom a fazer de conta – para mim. o erro. nunca foi humano. com o erro uma parte da minha confiança morria de amargura – nunca fui capaz de recuperar destes erros – nunca aceitei o erro e isso trouxe-me um erro ainda maior: a busca de uma perfeição imaginária – nas últimas fotos. encontrei-me num cinza-triste. corroído. pouco afetivo. zangado. e onde o prumo dá indícios de estar preso por um fio – ninguém aguenta tanto cinza-triste estampado numa parede bege-pastel – *“a felicidade não é um ideal da razão. mas da imaginação”

*imannuel kant


21/11/2017

eu e: a escrivaninha e a janela da frente



pintura - maluda



         1.    a escrivaninha;

2.    a janela da frente;

3.    as fotos à direita;

4.    a estante dos livros à esquerda;

5.    o tiaguinho;

6.    o zé do gerês;

7.    a oferenda aos meus dois amigos;

8.    as mulheres do meu cunhado;

9.    a minha circunferência;

10.    a vida




1.   eu e a escrivaninha


sei que estou a desaparecer – um dia destes serei invisível. ausente. sem voz e sem uma única palavra que identifique o que fui. estarei retirado dos afetos. dos sorrisos. dos sonhos e das desilusões. serei sombra. memória e silêncio misericordioso – mas neste momento de assentimento. enquanto continuo a completar a existência da vida. observo em conciliação o que me resta da morada criada: desarrumo o que sempre esteve fora de ordem. procuro o que nunca encontrei. perco-me a ler papelinhos quadrados sem qualquer relevância temporal – em tempo real subsiste o espectro dos papelinhos quadrados gizados a pó no tampo granítico da escrivaninha – o testemunho de que. pelo menos num dia. tudo tem a sua importância. por mais insignificante que fosse o seu conteúdo – abandono e esquecimento. é o que me sobra desta desorganização validada pelo meu DNA – é daqui que vos escrevo num computador inimigo do perfume a papel – é daqui que. com as palavras. me escondo do mundo das luzes – é daqui que me entrego em vocábulos de alforria – é daqui que me absolvo de pecados que ninguém compreende – é daqui que me faço gigante como anão. quando escolho nunca usar maiúsculas – é daqui que emancipo as palavras. preparando-as para o mundo da crítica – é daqui que me estarreço de medo pela vossa leitura – é daqui que me entrego num abraço metafórico maior do que “as dez mil coisas*” – eu não sei se sou mais do que dez mil coisas. sei apenas que sou uma coisa que se magoa. que chora. que tem cada vez mais medo de um dia não saber o que fazer com o que escreve

*metáfora chinesa que chamam ao mundo “as dez mil coisas” – in: este ofício de poeta - jorge luís borges

 

 


2.   eu e a janela em frente

 

em memória. uma janela com um punhado de quase nada permite-me agarrar uma nesga de um mundo onde escolhi não existir – não nos podemos impor ao mundo. até a multidiversidade negativa contribui para a evolução da espécie – entre a persiana e a meditação. um pedaço de céu vazio de tudo quanto me tentaram ensinar à força – o céu já não é destino final para quem sempre tentou fazer o que era certo – agora. o céu é apenas o teto do que penso – mas está tudo bem. não há ressentimento. estão todos indultados. o culpado sou eu. nunca deveria ter ousado questionar o que o mundo certifica de forma instintiva – a janela é agora a minha única oferta para os que ainda se sentem tentados em me reencontrar – quando não estou na janela estou a escrever para vocês – vocês são a minha única esperança para que o que me resta do mundo faça sentido – todos os meus sonhos são maiores do que eu. carrego-os como fernando pessoa os carregou– também eu *“tenho em mim todos os sonhos do mundo” – saibam eles. todos os dias. que me faço existir mesmo que em frente à minha janela não exista nenhuma tabacaria – em boa verdade vos digo: a minha janela dá para nada. não sei como vos descrever esse nada. pois. para isso. teria que saber o que vale a palavra de um homem perante uma janela que não dá para nada – não me tenho em boa conta. estou desiludido. triste e sem vontade de sonhar – nenhum homem sonha o que desconhece – escrevo. escrevo como se a janela estivesse prenha de uma tabacaria – não está. tudo o que tenho entre mim e a janela é o que os olhos veem. e o que veem é nada – sem tabacaria morre também o sonho – a morte será para sempre um sonho inacabado – perdoem-me. sei que perdi todos os sonhos – nenhum homem pode viver sem sonhos – estou morto dentro de um sonho que insiste em não morrer – não quero saber o que há para lá dos sonhos. porque tudo quanto sonho está morto. doente de um mal que não é mal nenhum. é apenas a vida a acontecer no seu melhor e seu pior – da minha janela não vejo nenhuma tabacaria. nem gaivotas. nem gente como eu. nem sonhos a chegar ou a partir. da minha janela vejo-me a olhar o que não há porque dentro de mim não há nada para além do sonho de um dia escrever qualquer coisa que não seja nada – a todos os outros sonhos peço que me esqueçam. tornaram-se nada e não há nada que possa engrandecer um corpo que desistiu de sonhar

*fernando pessoa 



07/11/2017

perder-me para me encontrar



bem howe


não olheis vós para o que faço. mas sim para o que rabisco – o que enxergais em mim é uma ilusão para me libertar do que escrevo – com a chegada da noite amarro-me aos sonhos e vagueio pelas madrugadas tal qual um cigarro se incinera: brasa instável. cor impulsiva. metodicamente vagaroso a retrair-se para o fim da combustão – e assim. em contagem decrescente. dissolvo-me em cada pedaço de fumo que sobe ao céu – perco-me. perco-me na noite pelo que penso e também me perco quando me recuso a pensar – perco-me. perco-me na noite em sonhos e também me perco quando me recuso a divagar – perco-me. perco-me na noite dentro de mim e também me perco quando não estou em mim – um homem perdido só está bem onde não pode estar – a insustentável leveza do meu ser vacilou. quebrou. faleceu com o corpo ainda a reclamar mais vida – e o fumo proibido a chegar à casa dos deuses como chegam os balões das romarias. perdidos. sem rumo. num vento incerto. sem tino – e a enormidade do que sou a deixar de o ser numa terra em apartheid – segreguei-me – devagar devagarinho elevo-me rumo às bem-aventuranças. como se fosse o último fumo. como se fosse vento. como se fosse catraio e me quisesse perder num paraíso iluminado por uma luz esquecida no fundo da gaveta – por isso te digo: perde-te com um laço. aperta-o à volta do inferno e faz-te memória – perde-te de raiva e cospe para o chão que nunca te deu de comer – perde-te de coragem e prende a ponta da corda à barbatana de um tubarão. deixa-te arrastar ao fundo das palavras – absolve-te num parêntesis e não deixes que um ponto de interrogação te faça voltar a [re]acreditar –  morre pois já não tens mais tempo para te [re]perder –  perde-te antes que te falte a vontade de escrever



03/11/2017

deambulações noturnas XXII



pintura - robin eley


flagício: com a noite mato-me de mil maneiras. e a todas sobrevivo. e em sobressalto acordo

 

31/10/2017

tempo


                                                                       imagem google


sacudi a noite

pela primeira janela da manhã

restos de sonhos suspensos

no pretérito

 

as orvalhadas já se

fazem sentir

e as noites

outrora lúdicas e quentes

são agora

fatigosas e frias


30/10/2017

exilibris baco


imagem - Google



…com o frio o corpo procura agasalho – abrimos a lareira. abrimos exilibris baco. abrimos a alma. e por fim. convidamos o corpo ao aconchego – tomamos o primeiro aroma. a medo – embrenhamo-nos com o rótulo. perdemo-nos nas subtilezas – vertemos o primeiro trago e somos resgatados da insensibilidade – procuramos uma adjetivação. não encontramos – o momento é de degustação silenciosa – a felicidade procura-se – e ali ficamos a pedir que a lenha não acabe. sim. a lenha – o exilibris baco é para sempre

17/10/2017

depois do outono


pintura - jackson pollack


a chuva apronta a faina sobre a terra

escala ao sol

em cada raio solar

uma gotícula. uma refrega

 

às nuvens:

o inverno adestra o rigor

 


11/10/2017

correspondência violada - 03



imagem google


e tudo tão longe. tão afastado destas folhas de papel - não há tristeza nas palavras que gastamos a falar um com o outro - e depois. tudo é dentro do corpo. tudo é feito de abraços e cada palavra veste a alma com uma cruz bordada de primavera - e somos assim. falamos ao ouvido para enganar a distância - somos feitos de vento. gaivotas com uma caneta na mão

 

resposta a um comentaria da vânia ao meu texto – sinto.abril 



04/10/2017

ouço no escuro


pintura - ron muek


noites em que o escuro é feito unicamente de sons – ouço o coração. ouço o corpo a definhar. ouço vozes que trazem saudade e outras que não consigo esquecer – ouço o medo. ouço os pés no soalho gasto e gargalhadas de pânico também – ouço ouço o terror. ouço as pernas presas ao destino e os pulmões imploram um último cigarro – ouço as mãos a pedir papel. ouço o negrume do tinteiro e os dedos a bater palavras sem sentido – ouço – ouço a brisa. ouço o tempo que faz na rua e também ouço o tempo que vive dentro de mim – ouço aflição. ouço as montanhas a parir um rato e ouço o sino a bater quartos como se fossem horas de partir – ouço – ouço os cantos à casa. ouço o corpo a virar de lado para lado e ouço o que não mereço ouvir – ouço o outono. ouço os sorrisos das corujas e ouço pássaros que não sabem que existo – ouço – ouço as marés. ouço as gaivotas no mar e também ouço gaivotas que não sabem voar – ouço saudade. ouço fantasmas que não conheço e outros que ajudei a criar – ouço – ouço a viagem. ouço um futuro que não pisarei e ouço sapatos que não são meus – ouço o mundo com estes ouvidos que me nasceram no peito e que se abrem como cravos pregados a uma cruz que não profetiza remissão – fui condenado a ouvir os meus próprios ouvidos – aqui estou. com o que me resta da audição a suplicar aos deuses que me façam humano e me tapem os ouvidos com a cera de ícaro – prometo que não voltarei a voar na direção do sol 


03/10/2017

in II - carne. lembra-te que és mortal


calvin



 a escrita não muda o homem. 
apenas ensina-o a ver-se tal e qual como é 


in: “carne. lembra-te que és mortal II” – 18 de setembro de 2012

18/09/2017

o homem só cresce em silêncio



francisco sousa

tenho a certeza de que é sábado. os raios de sol. hoje. parecem-me diferentes dos que me abordaram há oito dias – há nestes raios de sol um calor desigual. menos envolvente. menos sedutor. mais divergente. egoísta. em total contramão com o ideal de todos diferentes. todos iguais – este sol acordou num formato de apatia discriminatória. mais seletivo. só aquece o que quer. elitista. sem equidade. sem passar cartão. diria. indiferente – sinto o corpo a tremer. a pele pálida. enquanto os ossos engastalhados seguram. em dificuldade. as mãos a pedir um novo desafio – a vontade de escrever está cada vez mais intrincada. o sol. hoje. não aquece – os pés cansados fogem do corpo a sete léguas. enquanto este. em esforço. não para de os incomodar – já compreendi que não adianta fugir do que o destino emparelhou – sinto o corpo diferente. assim como se me fosse desconhecido. estranho. sem nome próprio – se fosse uns sapatos diria que eram novos. novos em folha. a estrear no mundo dos caminhantes. nas primeiras passadas. vaidosos por ostentar uns calcantes a inaugurar caminho – acontecem os primeiros obstáculos: duas bolhas nos calcanhares. vermelhas como um pôr-do-sol escaldante. zangadas. obrigam o corpo a caminhar inclinando para o lado do desespero – o primeiro sinal de que não há caminhos sem compromisso – tudo que é novo tem que ser aprovado pelo corpo. primeiro desconfia. rejeita. depois tolera. suporta. adapta-se – ou obriga o molde a adaptar-se a ele – sei apenas que esta calor. de abrasamento excessivo. talvez exista para me lembrar que não há dois dias iguais – vivo este sábado como se fosse o primeiro da minha vida. com medo – é sábado. o sol apanha-me de frente. forte. a expulsar as sombras para norte. enquanto o passado. incrédulo. não sabe como fugir da luz – coloco-me de lado. de perfil não existo. metade do corpo recebe luz. a outra metade é mistério – excesso de luz faz mal à saúde – envaidecemo-nos. encandeamo-nos. cegamos com os olhos abertos – tudo que é em demasia acaba por fazer mal – não sei muito bem decifrar este calor. um calor-fogo que não se explica. talvez transpiração. talvez aflição. talvez uma premonição que ultimamente não consigo expulsar dos meus delírios – estou no meu velório. e não sei como dizer ao cangalheiro que me leve com urgência para o crematório – as obséquias deixam qualquer morto à beira de um ataque de nervos – já não há paciência para tanta pieguice sentimental – em boa verdade. o que se aproveita de estar morto é o silêncio – mas preocupa-me não ver ninguém a chorar – devo ter tido uma vida de merda – não deixo saudades a ninguém – mas estou a ser ridículo. enquanto estive vivo. nunca me preocupei com estas coisas do choro. e agora. só porque estou morto. sinto a falta – razão tinha a minha mãe quando dizia que a velhice é ingrata – se tivesse feito um pé-de-meia de amigos de peito. talvez hoje houvesse lágrimas suficientes – não fiz. agora nada feito – o que não tem remédio. remediado está – nunca fui capaz de fazer amigos de conveniência – não quis viver em mentira para morrer em verdade – talvez devesse deixado ordens para contratarem carpideiras. não umas quaisquer. umas com provas dadas em velórios difíceis – evitar vergonhas à família é fundamental – talvez seja melhor assim – sempre gostei do silêncio. o homem só cresce verdadeiramente em silêncio – mas depois de morto já nada cresce – que se dane. afinal estou morto – o melhor mesmo é continuar neste choro interior. este choro que é só meu. mereço-o. mesmo que ninguém o ouça – as pessoas entram todas esfíngicas pelo velório adentro. com ar de quem sofre – aproximam-se do defunto. baixam os olhos. fazem o sinal da cruz. e pernas para que te quero – mas não consigo encontrar explicação para tanto receio – o morto nunca tratou ninguém mal em vida. não seria no velório que pediria satisfações – mesmo que me apeteça não posso chorar – não é depois de morto que vou dar esse prazer a quem nunca me conheceu – um homem não deve chorar em frente a desconhecidos. nem que esteja com as tripas na mão – é sábado. está sol – talvez este calor me tenha afetado a moleirinha – talvez não esteja a bater certo – aos sábados costumo estar sempre mais morto do que vivo – para todos os efeitos ainda não estou morto. estou a escrever. e nenhum morto escreve – escrever só mesmo os moribundos 


12/09/2017

reencontro



salvador dali


não era sem tempo – há muito que me perdi no vosso tempo. um que vocês inventaram para me fazer perder algo que jamais recuperarei – hoje. estou de volta ao meu próprio tempo. estou só. melhor. estou comigo – é bom estar comigo novamente



14/08/2017

silhueta do tempo



r.b. kitaj


o tempo sorveu um corpo

a concupiscência

que albergou a sensualidade

é agora uma figura geométrica

 

o varão

outrora prazer

rendeu-se

ao futuro 




06/08/2017

no meu peito já não cabem gaivotas* 3



adelino ângelo 

 

3. a morte terapêutica

 

nesta terceira parte a minha dissertação incide objetivamente nos benefícios da aplicação da morte terapêutica em mentes em avançado estado de instabilidade emocional – recorremos então a algumas boas práticas já comprovadas na morte assistida e transpomo-las para fórmula terapêutica – o que realmente torna interessante a aplicação desta morte é a possibilidade de fazer falecer apenas o que nos magoa – começamos por sedar a nossa existência. aliviamos a dor. aprisionamos o passado. silenciámo-lo. bloqueamos a memória de longo prazo e introduzimos na memória recente doses de elevada esperança – obviamente que como em qualquer tratamento é necessário ter sempre em atenção as dosagens. foram muitos anos de sofrimento e o corpo pode reagir negativamente ao excesso de esperança – a solução é a prescrição de doses de baixo teor de felicidade. administradas sob uma apertada vigilância – evitar recaídas é fundamental – ao passado é-lhe finalmente oferecido uma morte controlada. boa. honrada e sem dor – é essencial definir com precisão o que deve verdadeiramente sucumbir. não se pode fazer falecer o coração. nem os pulmões. nem o cérebro. nem o que resta da vontade de viver – estas áreas são vitais para a sobrevivência emocional. não é uma morte onde para falecer baste um pouco de coragem e uma bala no tambor. não. não é – esta morte. consiste em eliminar. silenciar ou simplesmente enclausurar. por um período de tempo estabelecido. uma determinada área do corpo. um membro ou apenas um insignificante sentimento – tomar a decisão de eliminar o que quer que seja num corpo diminuído não é tarefa simples para o seu executor – não é fácil castigar um corpo quando o que resta de motivação é praticamente nada – o momento é de aflição para o carrasco – quando o corpo está doente a dor torna-se numa força incontrolável. os sentimentos desaparecem e a automutilação toma posse do centro de comando cerebral – o pensamento está refém do desespero – selecionamos então um alvo específico no corpo que acreditamos estar possuído de um mal sem solução. desligamo-lo do suporte de vida libertando-o da teimosia de viver em agonia – aos poucos a memória de longo prazo começa a desprender-se das rotinas. abandonando o corpo numa marcha de silêncio e paz – o silêncio. agora fúnebre. acompanha a saída das reminiscências numa viagem de aceitação. de perdão. sem castigo. sem remorso. sem medo que no dia seguinte o passado ressuscite num dedo apontado à covardia – entramos então em modo de segurança extrema. sobreviver é a palavra de ordem – personalizamos o nosso próprio plano de recuperação e com a ajuda da esperança aplicamos finalmente o tratamento final da morte terapêutica – cortamos a mão que escreve. substituímos uma perna de carne e osso por uma de pau. sacrificamos a ambição. matamos um pouco da ternura. escondemos a paixão e doseamos ao máximo o caudal da amargura. ameaçamos o sorriso com uma faca de dois gumes e reforçamos os cuidados ao corpo caso este insista em reviver esperanças já condenadas – aproxima-se o momento das decisões. é fundamental eliminar o acessório e assim. permitir que a vontade de viver se projete num novo espaço temporal – einstein dizia que “o tempo não é aquilo que parece. Não corre em uma única direção, e o futuro existe simultaneamente com o passado” – se o tempo não corre numa única direção não há motivo para nos acorrentarmos ao passado – para grandes males. grandes remédios. a solução passa por aplicar a estratégia de terra queimada. exterminar tudo que possa ser útil ao inimigo – um género de contrafogos que mais não é do que uma “contra-morte” – se o que arde não volta a arder também o que morre não volta a morrer – ficamos mais doentes quando olhamos mais para o passado do que para o caminho que ainda temos a percorrer – a angústia apenas consegue sobreviver se mantiver acorrentado a si o desânimo. a ansiedade e o medo – sobreviver é uma luta diária. um inferno. uma descarga elétrica contínua que nos amarra em cada dia do ano. não há férias. não há aniversários. não há natal. não há desculpa para nada. o que existe é apenas os dias marcados a negro no calendário – um corpo depressivo não vive. sobrevive – o oposto da depressão não é a felicidade. é a vontade de querer viver. a força. a determinação. a procura da liberdade – nenhum homem é livre quando a dor lhe confisca todos os pensamentos – ninguém pode desvalorizar o silêncio de um homem tomado pela dor. o seu sofrimento é a sua impressão digital – este penar não se torna infernal apenas porque desacertadamente. ou não. optamos pelo caminho errado. recusamos ajuda médica ou dizemos não aos ansiolíticos – a dor nasce escondida no corpo. primeiro rasteja. depois começa a gatinhar. de seguida aprende a caminhar. em bicos de pés. com a graciosidade de uma bailarina. e o corpo gargalha com a subtileza com que vai amargando. o que era em bicos de pés transforma-se agora em passos delicados. abrindo caminho por uma estrada desconhecida. lentamente. tão lentamente que o corpo se vai alterando. adaptando. moldando. até que chega um dia. sem que tenha dado conta. cada passo é um compasso entre caminhar ou parar – a dor já não engana. multiplicou-se em amargura. em angústia. em revolta. em intolerância. arrestando o corpo num desequilíbrio irracional. doentio. falso. e por fim. como todos os impostores. promete-lhe um precipício libertador – o que cresceu como uma anormalidade dolorosa é agora uma normalidade consentida. aceite e autorizada a viver numa vergonha silenciosa – a dor já não é estranha. é íntima. próxima. carne da sua carne. como se o tivesse acompanhado desde o útero de sua mãe – a manifestação externa do sofrimento só se torna audível ao fim de muitos e muitos anos de conflitualidade interpessoal – se por um lado todo o corpo dói. por outro. estas dores são a razão da sua teimosia em continuar com a vida – tudo que ocorre no nosso mundo solitário é feito de sofrimento. de interrogações. de dúvidas e de uma cabeça que não sabe descansar para tornar mais fácil o que quase sempre parece impossível – tudo acontece simultaneamente e à mesma hora. o cérebro ora implode. ora explode e uma e outra parte combatem-se sem entendimento. sem tréguas – o descanso não existe para quem faz do seu dia a dia um combate com as interrogações – acreditar que tudo tem uma razão para acontecer é resistir. encontrar essa razão é a causa de todos os problemas – infelizmente nem tudo tem uma razão. nem tudo pode ser explicado – claro que ainda haveria sempre o recurso a um charro terapêutico. umas quantas passas distribuídas pelos períodos mais críticos do dia como forma de aliviar as dores ou estimular o funcionamento dos órgãos sensoriais para novas formas de luta – mas não. esta maleita dolorosa está muito para além do charro. da pastilha ou de um sono mal aparelhado por uns quantos fantasmas erráticos – não. não é assim.  esta dor cresce com o pensamento e alimenta-se do sofrimento – todo o homem nasce com o entendimento natural de valores negativos e positivos e uns e outros lutam entre si em busca de uma pacificação natural entre o bem e o mal. o certo e o errado – infelizmente nem sempre esta biossíntese é adaptável às exigentes e naturais formas de vida que nos rodeiam – um dia. o corpo diz: basta. já não há razão que me faça ver outras razões. chegou a hora – usamos então todo o mal armazenado para um último momento e assim devolver definitivamente a liberdade ao corpo – o que dói na pele ou na carne é diferente do que dói no coração – há estradas que nunca nos levarão para lado nenhum – volto a repetir a frase do mia couto. acrescentando-lhe um novo ponto final: “cada homem é uma raça” que respira para caminhar e sempre que caminha aumenta a estrada para mais perto do seu fim – a estrada não se escolhe. nasce connosco – cada homem tem a sua estrada para a morte

 

- a quarta parte do texto será dedicada à morte dolosa ou fraudulenta

- *título extraído do livro de nuno camarneiro – no meu peito não cabem pássaros



31/07/2017

deambulações noturnas XXI



rene magritte


maior amigo é o silêncio da noite – digo-lhe o que não diria a mais ninguém. e ele ouve-me como só os verdadeiros amigos sabem fazer



24/07/2017

amo-te porque existes dentro de mim



foto - sampaio rego


apenas uma pequena nota sobre a celebração dos meus trinta e três anos de casado – o casamento é um compromisso de amor entre duas pessoas que juram cuidar uma da outra até que a morte os separe – tudo o que sobra deriva desta única premissa: o amor – mas para os homens é muito mais do que um compromisso [quase sempre] selado aos olhos de deus. é essencialmente a libertação em definitivo da volubilidade jovem. da imaturidade. do egoísmo. da impetuosidade e da irresponsabilidade – essa libertação trouxe-me a segurança das noites que. com o seu efeito lento e repetitivo. me ensinaram a crescer numa cumplicidade graciosa – nunca mais parei de crescer. tu também – prometi amar-te um dia de cada vez. assim fiz – ao fim do dia. depois de o sol se esconder. os lençóis abriram-se sempre em seda. os chinelos descansam aos pares à entrada dos sonhos partilhados – nunca tivemos medo do tempo. envelhecemos a saber sempre tanto um do outro – fecho os olhos. dou-te a mão e levo-te ao dia em que tudo começou e recapitulo o meu sim: sim. aceito esta mulher na alegria e na tristeza. na saúde e na doença. em todos os dias da nossa vida – nunca mais aquela igreja viu uma noiva tão bonita – acasalamos os olhos na eternidade. depois. ansiosos. unimos as mãos e trocamos um beijo que é todo feito de gratidão e entregamo-nos um ao outro sem medo de nenhuma palavra – os nossos filhos são a nossa graça e testemunhas de que os dias voaram – o amor ensinou-nos a viver numa cumplicidade feita também de aceitação – não me canso de te pedir perdão mesmo que tantas vezes as minhas palavras fiquem por dizer – são mais de doze mil noites – amo-te porque existes dentro de mim



12/07/2017

deambulações noturnas XX



foto - sampaio rego


frequentemente o pensamento veste-se de mendigo – arrogante. o ego. fixa-se apenas nos botões de ouro em camisa de seda – engano tremendo – tantas vezes. por baixo dos farrapos. esconde-se a alma de um poeta privado de papel para cobrir a sua escrita em noites de aprumo literário


03/07/2017

no meu peito já não cabem gaivotas* 1 - 2



adelino ângelo


1.    a morte física ou da personalidade


a morte física de um corpo – declara-se o óbito quando é devidamente comprovada a inexistência de sinais vitais no corpo humano. isto é. a total falência dos seus órgãos e a ausência completa de atividade cerebral – o médico-legista declara o término da vida. apontando as possíveis causas do óbito e permitindo deste modo o desaparecimento do corpo para sempre do mundo sensível

 

2.    a morte emocional


aponto o meu foco para uma morte menos dolorosa. menos repentina. uma morte que vai acontecendo aos poucos. quase sempre em passo de tartaruga. tão lenta que o sistema de alerta cerebral acaba ludibriado pelo seu vagar: a morte emocional – esta. sem que na maior parte das vezes a ciência saiba explicar. acontece quando as defesas do corpo. num conluio terrorista. consentem no descarnamento da sua rede de neurónios. expondo assim a sua intimidade a uma censura coletiva. insensível e muitas vezes injusta – dá-se então o curto-circuito. o cérebro atrofia. o corpo estremece de medo. de seguida estremece de um frio que é mais do que gelo. é um imobilismo aterrador perante o desconhecido – o corpo humano revela na sua plenitude a sua fragilidade – só há uma forma de se proteger. imolar-se na indiferença. esquivar-se ao raciocínio e esconder-se no abismo dos silêncios que carrega – e ali fica. parado. quase sem respirar para enganar as chispas que agora lhe escorrem dos olhos em forma de apatia letal – se hoje o mundo ruir este corpo já não lhe pertence – tudo que lhe sobrevive resiste num cosmos desocupado de emoção – do passado só reconhece o barulho. sempre impertinente. como se o mundo andasse numa fona irracional. noite e dia. sem descanso. arrastado por um pêndulo ritmado pela indiferença. a marcar os dias num desinteresse total pela quietação – e o que ainda sobrevive à derrocada sentimental é agora tratado com doses maciças de um químico afetivo. fertilizado no útero de uma mulher mais pura do que o céu – resistir é agora a única mensagem emitida por si e apenas para si – mas a sua vontade já não chega – o corpo por dentro contorce-se numa desordem incontrolável. uma tempestade impossível de acalmar. enquanto por fora. a ressaca é um turbilhão de imagens que já não quer compreender – tudo o que compreende o lhe fere a alma – não se quer compreender os livros. a religião. a família. o amor. a compaixão. a vida. os amigos. a razão pela qual se nasce ou pela qual se demora tanto tempo a morrer fisicamente – no caos da morte emocional já não é possível acontecer uma nova ordem. um novo recomeço. um novo ciclo de vida imaginado. traçado ou idealizado – corpo e mente degradam-se numa responsabilidade repartida. uma guerra sem vencedor em que cada uma das partes responsabiliza a outra pela falência emocional – cai por terra a regra da sobrevivência do mais adaptado – o corpo perde o medo da dor enquanto o cérebro perde a vontade de chorar. e assim. se esvaia de forma definitiva as frugais probabilidades de um regresso à lucidez – enquanto a memória se apaga seletivamente o silêncio vai-se alastrando ao corpo todo – o mundo já não é mensagem – já nada traz movimento. as mãos recusam brigar enquanto os pés se recusam caminhar – apaga-se as origens para não a envergonhar. apaga-se o amigo para não o magoar. apaga-se a felicidade para não trazer saudade. apaga-se a ambição para evitar o erro. apaga-se o futuro porque só o presente existe. apaga-se a fé porque deus é um mito. e por fim. apaga-se a luz para que ninguém nos veja no escuro – louvar a vida é uma provocação ao destino que pode terminar a qualquer momento tragicamente. basta que o mal vença o bem uma única vez – o mundo é um vício que nos pode matar de uma overdose – levanto os olhos abatidos e transformo o vinho em água. desmultiplico o pão. elimino a confiança e digo-lhe apontando para o céu: quem me seguir entrará no reino do inferno e viverá na dor para toda a eternidade – o silêncio pinga agora uma única pergunta: porque eu? – não há resposta – e todos os mortos emocionais perguntam o mesmo e a resposta é desespero: salve-se quem puder porque cada cabeça terá a sua sentença – fecham-se as portas por fora. correm-se as janelas para a escuridão e entrega-se o corpo à tortura até que a coragem se sobreponha à mágoa – é obrigatório expiar o erro – sofre corpo. sofre corpo porque só a dor torna o homem superior – um corpo doente acredita em tudo – mas para que interessa tudo isto se o corpo está a morrer de apatia – não interessa. não importa. não vale a pena – o corpo que morre emocionalmente ignora os estímulos humanistas. os valores morais. a justiça. a liberdade. a fraternidade. a solidariedade. o amor pelo próximo. mas acima de tudo o amor por si próprio – este corpo. desfalecido e esgotado. é forçado a refugiar-se em zonas escuras. proibidas. suicidas. onde prolifera a autocomiseração – uma viagem ao centro de uma dor inesgotável. indomável. selvática. impiedosa. acabando por se perder numa espiral de tragédias. de desastres e de fatalidades que raramente permitem a sua reutilização para uma nova vida – com a morte emocional perde-se tudo. até a dignidade – este mundo mata pela mentira. promete a todos o que só pode conceder a alguns – termino com uma frase do mia couto: “quem vive num labirinto, tem fome de caminhos”

 

- a terceira parte do texto será dedicada à morte terapêutica

- *título extraído do livro de nuno camarneiro – no meu peito não cabem pássaros