01/04/2019

entre o respirar e o resistir



imagem google


respiro e resisto neste respirar que me cansa – às vezes gostava de estrangular esta minha respiração. matá-la. estropiá-la. obrigá-la a falecer no mundo das pessoas – para dizer a verdade. o que gostava mesmo. era de esconder-me deste mundo bárbaro – nesta vida já não valho nada. só a morte me porá de novo no mundo das coisas com interesse – mas quero que saibam. aqueles que ousadamente tiverem a coragem de ler estas palavras. até ao fim.  que estou lúcido. esperto e desperto para as antíteses que alimento em mim – por isso é que resisto neste respirar de socorro – vivo de antíteses. são estas que me despertam da escuridão silenciosa. são estas que me equilibram o desequilíbrio imposto por um mundo sem generosidade. sem tolerância. sem respeito onde eu me recuso a acreditar que há sempre uma razão superior para as coisas acontecerem como acontecem – convictamente digo: não há nenhuma razão superior a não ser a razão que os homens inventam – também eu inventei uma para existir nesta forma absurdmente insignificante: plantei uma linha imaginária no centro do meu cérebro: de um lado a insignificância. do outro. o saber para compreender e aceitar tudo que é insignificante – [suportação encontrada] – pendurado nesta linha de loucura intermitente eu numa composição orgânica dolorosa: ora numa assimilação trémula. ora numa desassimilação débil – aguento-me. suporto-me. amarro-me aos ossos emersos na última reserva de líquido amniótico – pelas manhãs acendo-me numa energia raivosa e baloiço-me de um lado para o outro. ora no que não sei. ora no conhecimento do que não sei – quando baloiço o destino constrói-se. mistura-se e ajusta-se – a vida foi-me oferecida por dois seres maravilhosos – quando fazes parte de algo tão maravilhoso ficas para sempre com a obrigação de respirar – sempre que respiro aceito viver – respiro gratidão – coloco o pescoço a noventa graus. olho o topo. o corpo encaracola-se. sobe por si acima porque é a única forma de regressar à terra – procura – o que não vejo. sinto ou toco. não existe – se nada existe. então. quem sabe. os meus sonhos também não existem – talvez eu não sonhe. talvez seja apenas parvo. a minha biologia evolutiva degenerou – a evolução do homem é a acumulação de mudanças através de sucessivas gerações – eu não mudei nada. sonhei. elastifiquei-me no que não sou e o resultado é esta caverna inundada de sombras que nem sei se existem – e eu a baloiçar cada vez com mais força. a suster a respiração. as lágrimas. a raiva e o corpo perdido em incertezas que só existem porque teimo em fazer dos sonhos a realidade – e o mundo todo aos berros. com as línguas a tocar-me os pés. a dizer: lambe e verás como deixas de baloiçar – soubesse eu dar um mortal à retaguarda e cair de pé no mundo de quem não sonha e não lhe sente a falta – soubesse eu tanta coisa – agora. nos intervalos do soubesse. toco no que há para tocar. vejo o que me é permitido ver e sinto o que o corpo entende que é mais do que desejo e menos do que sonho – tudo o resto. é o saber de quem sabe que nada sabe – quem sabe que nada sabe não pode ser tolo ou insignificante – mas é então o quê? 



06/03/2019

luxúria das palavras


leonid pasternak


serei impuro apenas porque desejo sentir o abraço das palavras? serei impuro por querer experienciar o feminino das palavras? serei impuro por abandonar de vez o miserável receio de ser sentimental com as palavras? não sei – nos dias que escrevo há dentro de mim uma histeria desenfreada. atabalhoada e febril – corre-me pelas mãos o desejo de afagar em pecado cada palavra do vocabulário – a sirene invade o silêncio. ligo os holofotes e ilumino-as - as palavras – matreiramente sorrio. procuro dizer-lhes que estou com uma ereção factual e substancial – estou louco. perdidamente louco: preciso urgentemente de as usar. de as trazer para o meu mundo de afetos. preciso de as trazer ao mundo dos leitores – william shakespeare dizia que “enquanto houver um louco. um poeta e um amante haverá sonho. amor e fantasia – e enquanto houver sonho. amor e fantasia. haverá esperança – a esperança também é feita de palavras – quando escrevo sinto-me o melhor amante do mundo. sinto-me eu – e ninguém é melhor do que um eu perdidamente enamorado – as mãos procuram o papel enquanto os vocábulos continuam a emergir em fantasias selvagens: gemem. contorcem-se. esfregam-se. roçam-se. afagam-se. as veias endurecem e ao ouvido o prazer supremo: és único. não há outro como tu – e entre elas corre agora um mel pegajoso que anuncia. a todo o momento. o orgasmo – o papel está pronto – enfeitiçado pela luz sedutora das palavras e pela generosidade de um corpo ávido de sucesso. derreto-me em sedentas perversões reprodutivas: multiplicai-vos e enchei a terra de palavras – finalmente uma relação de simbiose: elas excitam-me e eu levo-as à loucura da leitura – não quero mais o passado. as palavras rascas e indiferentes nunca mais serão pronunciadas – quem nunca me compreendeu não merece o verdadeiro êxtase de uma leitura – o melhor do mundo são as palavras – o que seria de nós sem amo-te. sem paixão. sem abraço. sem beijo. sem quero-te. sem desejo-te. preciso de ti. tu és tudo o que necessito para ser feliz. para existir. para me fazer eterno. ejacular e fecundar – as palavras são tudo para mim – resta-me aproveitar cada dia desta paixão certa e sedutora – estou completamente apaixonado e assim espero que continue. porque se me perguntarem se podia viver sem elas - “poder podia. mas não era a mesma coisa”



27/02/2019

num lago batido a vento norte


pintura - inês dourado



onde param os meus amigos de infância? se alguém souber do seu paradeiro. por favor. não entre em contacto comigo. não me mande SMS. cartas. telegramas ou recadinhos em pedacinhos de papel. não os quero encontrar e também não os quero de volta ao meu mundo – não é por mal. acreditem que não. creio apenas que não resistiriam ao desencontro do meu crescimento – o tempo passou. envelheci. o catraio também envelheceu. as feições mudaram. as ideias solidificaram-se. os ossos enfraqueceram. a alma enrijou e descobri que só o silêncio e o isolamento me protegem dos desencantos – agora. agora que o corpo estagnou. vivo numa toxicidade só minha: solitária e silenciosa – tornei-me egoísta. foquei-me na contemplação. no agora. retirei das paredes todas as fotos da infância e juventude. abafei as recordações num saco plástico e atirei ao mar – o sal corrói tudo. destrói todas as provas – solidifiquei a indiferença e rendi-me aos espaços vazios – dentro destas paredes só existe o que sou capaz de imaginar. e quando não penso. e as paredes se tornam gigantescas. fico sem saber o que fazer ao corpo. é aí que escrevo. escrevo tudo o que sinto e fico com a sensação de que nada sei do que sinto – é esta insatisfação persistente. cruel e impiedosa que me revolve o corpo. e o que estava longe está agora aqui: o primeiro dia de escola. o carrinho de rolamentos. o autocarro para monte d`arcos. a hora de comungar. de amar. de guiar a 4L ou das mãos a cheirar às anilinas. às máquinas e às pessoas vestidas com batas autênticas. o tempo não mudou esta sensação de sentir. está tudo igual – há coisas que permanecem em nós para sempre. é como se dentro do corpo houvesse uma gaveta mágica onde guardamos o que sentimos e sabemos o que sentimos: este sentir não tem tempo. nem vento. nem chuva. nem andorinhas. nem folhas caducas. nuvens para lá e para cá. sinos. azevinho ou gaivotas a planar sobre um lago batido a vento norte. o que era continua a ser. e o que sentia continuo a sentir – sempre achei que sabia tudo. mas agora dei conta que não sei nada – sou afinal quem? se fosse sábio. se fosse um homem igual aos outros. se não tivesse medo do que não sei. se não tivesse medo da minha ignorância. não gastava mais tempo a escrever o que sinto. não. saía de mim e vivia. vivia sem medo de não saber o que não sei – saia das mãos. encerrava-as no correr da morte. transformava-me numa gaivota e voava por esses céus desconhecidos. voava e vivia. porque para viver basta abandonar o que se pensa e quando deixas de pensar deixas de ter corpo e um homem sem corpo é um homem livre – escrevo a liberdade que sempre desejei – é nesta solidão-silenciosa. tranquila. plácida que recuperei o caminho para me reencontrar na minha desarrumação. numa afetividade serena. meiga. sentida. desprendida. despreocupada e de uma compaixão imensa. sem culpas passadas. sem dedo acusador. rancor. revolta ou rebeldia – vivo num reencontro permanente. é a minha dança com as sombras ou os lobos. o meu passado à volta de uma fogueira onde todos os que já foram meninos surgem para recontar a minha história – é neste reencontro de histórias que adormeço como criança e acordo com a esperança de que ainda vou a tempo de me aceitar no destino – agora. agora preciso de todos os dias que me restam para fazer de mim o que realmente sou – cumprir os desígnios do pensamento. aceitar a comoção. o desassossego dos reencontros. inventar perdões. assumir culpas e relembrar insistentemente que o que se sente é a única verdade que o corpo aceita – já não sou capaz de vender a alma ao diabo. o que ficou para trás ficou e não quero que volte – entreguei-me em definitivo ao isolamento cerebral. estar só evita estar mal-acompanhado – a vida é um desafio constante onde a desilusão está garantida. depois. ainda lhe juntamos a ingratidão. a injustiça. o azar e os desígnios de deus. é como se fosse um circo. e nós ali sentados. sem saber a quem dirigir as palmas. se ao domador pelo estalar do chicote se à fera que o tenta morder – não quero ninguém do passado perto de mim. não quero ninguém que me volte a ocupar o corpo. não quero mais aborrecimentos – envelheci. degradei-me. perdi a inocência. a fé e a vontade de mudar o mundo – envelhecemos todos. todos os meninos envelheceram – não há remédio contra o envelhecimento – quando se perde a fé todo o corpo deixa de acreditar. os ouvidos deixam de ouvir. a boca cala-se e mantemos os olhos fechados mesmo quando estamos acordados – estou mais morto do que vivo – tenho a certeza que um dia. depois da minha morte. cada palavra escrita encontrará um sentido para existir – o que escrevo será para sempre o meu reflexo num lago batido a vento norte: ondulo… ondulo… ondulo



20/02/2019

a dignidade do erro - 2






“e quando o corpo arder por minha ordem. e ao pó voltar. e ao vento marchar. e ao mar cheirar. tudo ficará divino e novamente às ordens de um deus que me queira recriar”



15/02/2019

a dignidade do erro


pintura - kurt 2018

1.

deixemo-nos de eufemismos. a morte é o fim da consciência em definitivo – por isso. quando invoco a ressurreição. o retorno ao mundo num novo corpo. para uma nova oportunidade. estou a troçar. a gargalhar. porque só “gargalha de uma cicatriz quem nunca foi ferido” – realmente. eu nunca morri por inteiro. às vezes morre uma mão. o cérebro. os olhos. a vontade de correr. de viver. e até morrem as reservas de estupidez que me mantêm lúcido no intervalo dos carateres – dentro dos carateres existe apenas vida. a minha vida. o que amei. o que aprendi. o que construí. o que perdi e me magoa com saudade e todas as desilusões que nos matam mais do que a própria morte – e é por isso que escrevo. só a escrita me ressuscita desta morte faseada – estar morto é não ser coisa nenhuma e também não existir em lado nenhum – eu existo. primeiro aqui enquanto respiro. e depois. em vocês que me leem – sei que estou vivo. mesmo que às vezes cheire a defunto

 

2.

gosto de desvalorizar a morte. acicatá-la. gosto de espetar-lhe uma metáfora hiperbolizada. robusta. enérgica e feroz. de forma a abrir fendas na semântica: o corpo que sustento dentro desta minha cabeça respira e resiste mesmo sabendo que o cheiro a defunto persiste – nenhum corpo deveria ter direito a uma cabeça que desiste do mundo – e pergunto: se tivesse nascido em montmatre… e fosse um pintor de rua. será que os meus olhos faleciam antes da cabeça? e se fosse malabarista no cirque du soleil... será que os meus braços faleciam antes da cabeça? e se fosse uma folha perdida na floresta negra alemã… será que o vento me levaria até ao mar? nunca saberei ao certo – nada em mim tenho como certo. nada em mim é de tal forma meu que jamais colocaria em causa que não pudesse ser de outra pessoa. nada em mim sou eu em definitivo e tudo em mim me faz querer ser outra coisa qualquer que não sei o que. outra coisa que não sendo minha eu acreditasse que com sorte poderia ter sido. nem que fosse apenas por uma hora. ou um segundo que demorasse a passar. um segundo que fosse uma vida e essa vida só pudesse ser minha – é esta antítese que me faz baloiçar entre um corpo falecido e uma respiração moribunda que teima em prolongar as dúvidas num pensamento agonizante – é assim que me mantenho vivo – no entanto. não me custa admitir que devo ser insuportável. nenhum corpo quer alguém como eu. ingrato. aborrecido e mal-agradecido

 

3.

a simbiose continua. e eu dentro desta troca de favores: o corpo respira para que a cabeça continue a pensar e a cabeça pensa para que o corpo não pare de respirar – isto deveria ser suficiente para viverem a vida tal e qual como lhes é oferecida – afinal é assim para todos – eu não posso ser exceção por mais que me sinta a cheirar a defunto – tudo na vida acontece num instante. tudo é celeridade. esta ideia errada de que a nossa passagem terrena é demorada é a maior trapaça que nos enfiaram pelo corpo. acabei de nascer ontem e o amanhã já não sei se vai acontecer – para acelerar ainda mais esta viagem vamos morrendo aos poucos. às vezes o corpo respira e a cabeça já é defunta há dez anos – houve uma época em que acreditava que morreria todo de uma vez. de velhice. de mão dada com a minha companheira. amarrado à saudade. às memórias e a pedir a um deus qualquer que me desse outra vida. que me deixasse voltar à juventude. às correrias. ao amor fácil. aos carros velozes e aos amigos loucos e bonitos – fazia tudo diferente. bem. não digo tudo. mas muita coisa seria diferente – o que fazia igualzinho era conquistar a mesma mulher. no mesmo sítio. à mesma hora e com o mesmo beijo – amo-a daqui até ao infinito – mas enganei-me. poucos são aqueles que morrem de uma vez só – a fé já me abandonou. envelheci nuns dias e apodreci em outros. e agora. nada do que resta em mim. enquanto humano que respira. tem força para mudar esta vida que me manipulou. aldrabou e iludiu – todos os dias morro um bocadinho – o tempo não flui num só sentido. o tempo flui de fora para dentro do corpo e atafulha-nos de anseios que não podemos alcançar e depois. há um dia. de raiva. deitamos todo o acreditar para fora e perdemo-nos. e já não há caminho de regresso – partimos. fragmentamo-nos em pedaços de nada e sumimos para sempre na escuridão do mundo – só inteiros somos visíveis. só inteiros valemos alguma coisa – estou perdido. não me encontro em lado nenhum e o que me faz sentir vivo é o barulho que faço a respirar – estou entre as mãos que escrevem e o falecimento de tudo o que me trouxe até aos dias de hoje. perdi-me das memórias. perdi-me da chave das portas que fechei. das orações que não rezei. e pior. das palavras que escrevi e me construíram como se fosse uma fábrica de coisas inúteis: de facas que nada cortaram. agulhas que nada coseram. água que nada lavou e pernas que não andaram. um baú cheio de relíquias de vidro. frágeis. inúteis e sem valor – nada do que deixo como tesouro. as palavras que escrevi. mudarão o que quer que seja do mundo que era meu.  digo “era” porque já me considero falecido para a criação – o que criei está criado – ingratidão sempre houve e também sempre houve homens bons que morrem muito tempo antes de morrer a respiração – morto sou muito mais feliz – quando um homem falece o mundo deixa de punir e começa a perdoar – era bom homem. não teve muita sorte na vida mas tinha bom coração… e péu péu. péu péu e péu péu – fossem todos como ele e este mundo seria bem melhor… e péu péu. péu péu e péu péu – coitado. tanto sacrifício para isto. morreu sem glória… e péu péu. péu péu e péu péu – esta vida são dois dias. tanta maldade no mundo para todos acabarem assim… e péu péu. péu péu e péu péu – que se lixe a lamechice.  tudo o que fui. bom ou mau. está dentro de mim e inevitavelmente arderá comigo no dia da cremação – e quando o corpo arder por minha ordem. e ao pó voltar. e ao vento marchar. e ao mar cheirar. tudo ficará divino e novamente às ordens de um deus que me queira recriar – se este deus existir. e se a minha imagem se fizer novamente à sua imagem. então peço-lhe: que não me roube a memória. nem me alteres a morada de minha casa. pois esse é o único caminho que guardo no pó – “do pó viestes. ao pó voltarás (Gn 3,19)”. do coração te fizeste. e ao coração voltarás  

 

4.

e assim se cumprirá a profecia de um livro que me pesou tanto como a vida: finalmente serei corpo sem respirar e sem fé – as palavras não ardem – é nas palavras que continuarei a respirar. continuarei ofegante. mas agora sem mágoa. sem correrias. sem o silêncio nostálgico. cheio de barulhos. a magoar. nascido no lado escuro da lua – bem. confesso que não tenho a certeza onde nasceu. talvez tenha sido parido nos anéis de júpiter. ou quem sabe. enviado numa cegonha por um deus extraterrestre. ou então. dentro de uma pia de água benta para me proteger dos demónios do escuro – mas já que estamos em tempo de confissões. aqui vai mais uma. tenho medo do escuro da morte. sempre tive medo do escuro. no escuro perco-me de mim com mais facilidade e o silêncio amedronta-se. aterroriza-se. fica ainda mais negro do que o próprio negro do escuro. e os fantasmas. só para me irritar. vestem-se de branco. trepam as paredes e empecilham-me as recordações – estúpidos. abutres. quando lhes cheira a morte não nos largam – há anos que os sinto a poisar sobre mim – só nas palavras sou eu. e mesmo que a respiração vos pareça terminal. sou eu a resistir – a minha realidade viverá na dignidade do pó 




13/02/2019

a dignidade do erro - 3



fábio magalhães


nada em mim tenho como certo. nada em mim é de tal forma meu que jamais colocaria em causa que não pudesse ser de outra pessoa. nada em mim sou eu em definitivo e tudo em mim me faz querer ser outra coisa qualquer que não sei o que. outra coisa que não sendo minha eu acreditasse que com sorte poderia ter sido. nem que fosse apenas por uma hora. ou um segundo que demorasse a passar. um segundo que fosse uma vida e essa vida só pudesse ser minha

 

in a dignidade do erro

 

25/01/2019

a tenda II


ricardo paula



e a tenda enche-se de gente emocionada. olhos no ar. e os corpos rodopiam num desafio constante à gravidade – elas voam de baloiço em baloiço. sem rede. e um sorriso. e outro. e entre as pernas afogueadas insinua-se o calor de um humano escuro como breu – o amor ao circo permite tudo – e o chicote estala enquanto os leões rosnam em cio comprado numa loja de bugigangas orientais – as leoas retocam os lábios. prometendo-lhes afagos e segredos que os tornam reis numa selva de manjericão – e o mágico faz desaparecer tudo quanto seja amor. e da cartola sai mais uma ereção para o público gritar em delírio: sexo. sexo. sexo – as palmas já não bastam – é o vício – é o jogo das cadeiras a circular e corre o leão. segue-se o elefante. atrás. o jacaré. depois o hipopótamo e a formiga sem lugar para se sentar – é o circo da vida – e o que é fogo que não arde é agora uma labareda – a estrada da noite é longa e o desatino torna-se alegria dentro de uma caixa de viagra – o circo sempre em movimento. de cidade em cidade. de alma em alma. de controle em controle ninguém quer parar a ilusão – brevemente numa casa de ejaculações perto de si 



22/01/2019

deambulações noturnas XXXVI


pintura - picasso



se fosse um escritor com chancela. as passadeiras do chão nunca se teriam enrodilhado – uma metáfora vazia para não dizer nada – e também a quem interessa o que digo?


20/01/2019

um domingo de 2019


pintura - jean-michel folon



engrenagens e relojoaria


a escrita é como uma oficina de reparações de relógios – é assim. quando no interior do espaço intracraniano os devaneios entram em delírio. amarro neles. todos. e atiro-os para o papel – o alívio é instantâneo. o transtorno neurológico volta ao sossego e o artista retoma a forma humanizada – uma casa mágica. onde o papel é a relojoaria e o escriba o relojoeiro [o contrário também] – o relojoeiro. é o homem dos restauros geralmente complicados. pressupostamente sábio. amigo de atena. solitário. olhos curtos e precisos. amarrado a tudo quanto seja silencioso e a ferramentas minúsculas – tudo ao seu redor é pequenino: parafusinhos. alicatezinhos. rodinhas. cordinhas. pincinhas. um folinho para soprar poeirinhas e uma série de lupinhas para aumentar mil vezes a imperfeição – sou então relógio e relojoeiro ao mesmo tempo. quer isto dizer. dou corda e gasto-a – muitas vezes não se trata de nada grave. troca-se a pilha. duas abanadelas e tudo volta à hora certa – e digo para mim mesmo: está como novo sr. sampaio. tens aqui uma máquina para a vida – hoje já não se fazem coisas destas – um sorriso que dobra a esquina da rua e sigo para o mundo com a convicção de que as palavras são pontuais. rigorosas. extremosas e bonitas. tudo a bater certo com greenwich – gosto de pontualidade. um homem nunca deve chegar atrasado a nada. muito menos nas palavras que falam sobre ele – não tolero aqueles sujeitinhos que se esquecem de ver as horas. e depois. com cara de pau. têm a lata de dizer que não é por mal. é feitio. são assim – não acredito em homens sem relógio – mas por vezes acontece o inesperado. volto à relojoaria e. mal cruzo os olhos com o relojoeiro. percebo logo que a coisa é grave – a máquina encostada ao ouvido. ar sombrio. carregado de preocupação. mexendo para lá e para cá. como se estivesse a tentar reanimá-la de uma paragem cardíaca – mais uma abanadela. revira e volta a revirar com o semblante em agonia acelerada. os batimentos estão por um fio – o terror estampado na face do relojoeiro – nem necessita falar. percebo que a situação é grave. irreversível. com os olhos na lupinha diz-me: vamos ver o que se pode fazer sr. sampaio. mas pelos sintomas não lhe descortino grande futuro – isto está mesmo muito mau – deixe ficar para ver o que posso fazer. passe daqui a três ou quatro dias e já lhe poderei adiantar alguma coisa – esperemos que tudo corra bem – saio da relojoaria com a certeza de que o perdi para sempre – não haverá mais tic tac – esta crónica chegou ao fim. morta

[e assim foi preenchido cada dia da minha semana. crónicas sem rede. escrever e postar no mesmo dia – foi um teste árduo e complicado – confesso que gosto muito mais de deixar as palavras a alourarem em lume brando. ficam mais condimentadas e as papilas gustativas excitam-se com mais facilidade – bem sei que cada leitor sentirá um sabor diferente. mas creiam. tudo foi ao lume cuidadosamente e sempre a pensar em vocês – tenham uma boa semana]



19/01/2019

um sábado de 2019



pintura - victor brauner


o mundo numa cabeça de fósforo

 

terra. florestas. desertos. cidades e casas rodeadas de penúria – há igrejas. sanatórios. casebres e albergues que não passam de casas de putas – há sangue. vespas. sanguessugas e ceifeiras vestidas de preto a rebolar em campos que já foram de trigo – há raiva. vómito. dor e comboios que só param no inferno onde tudo não passa de agonia – e há dentro de mim uma vontade enorme de meter a terra num foguetão e mandar tudo para um caralho que foda todas as estrelas do céu – e tudo na vida não passa de uma prosa presa a uma cabeça de fósforo que arde como ardem as desordens dentro do subconsciente – se tivesse um pouco de sorte neste azar de quem já nada pode alterar nas palavras que escreveu. e se o meu corpo em vez de se decompor em estrume se transformasse em abraços quentes. quem sabe. a primavera acontecia mesmo em tempo de inverno. numa ambição que vai da terra até ao céu. e lá do alto. o que vejo é saudade a cair dos bolsos. como se fossem gaivotas e soubessem que a vida voa sempre em direção às janelas abertas



18/01/2019

uma sexta-feira de 2019



escultura - ron muek


imperativo categórico


com a idade fui-me aproximando da teoria moral de kant. as regras morais são agora. mais do que nunca. imperativos categóricos – incluí nestas regras morais a mentira – confesso que. ultimamente. não consigo suportar gente mentirosa – na maior parte das vezes tudo começa com um sorriso impostor. não satisfeitos iniciam o carregamento da burra com elogios descabidos. mentirosos. burlões – na parte final. como o discurso não é sustentado pela verdade. tudo termina numa mão cheia de desculpas esfarrapadas – se respeitassem a doutrina de kant saberiam que agir com moralidade significa agir de acordo com o dever. mesmo que as consequências não sejam favoráveis – e nem era preciso muito para fazer cumprir esta doutrina: 1º. não rir sem propósito quando nos encontramos com alguém que não apreciamos. não é obrigatório receber ninguém com um sorriso de orelha a orelha – 2º. não elogiar sem uma qualidade ou virtude objetiva. o elogio é sempre uma resposta excecional para um comportamento extraordinário – 3º. por último. não se despeçam com festas e mordomias excessivas emolduradas em promessas que todos sabem que não se vão cumprir. basta um até sempre e ficavam livres do constrangimento de uma desculpa pindérica – a mentira só existe para enganar. para magoar. atraiçoar. iludir ou mesmo burlar – quem mente não tem ética e age sempre com base em algum interesse – a mentira foi inventada para ferir infindavelmente por não ter reparação – quando perdes um[a] amigo[a] por uma ilusão mentirosa é fácil reparar o estrago. basta procurar uma outra razão para te iludires e o que está para trás logo esquece – quando és burlado chamas uns quantos impropérios ao burlão e interrogas-te como foste capaz de cair naquela palermice. aprendes com o erro. deitas tudo para trás das costas e juras que não voltarás a cair noutra esparrela – quando és atraiçoado a dor ao princípio pode ser cruel. mas aos poucos. percebes que a cura depende apenas de ti e partes ao encontro de um novo sentido para a vida – a mentira é diferente. quando te mentem é para sempre. não consegues perdoar porque nunca a conseguiste compreender e interrogas-te o que fizeste para a merecer – na maior parte das vezes nada fizeste para além de falares com frontalidade. com verdade. e às vezes. sim. também com crueldade – detesto a mentira. detesto sorrisos mentirosos e ainda mais as mentiras trajadas com pele de cordeiro – vivemos tempos novos. as mentiras e as aldrabices são feitas com um simples batimento de uma tecla do teclado – os perigos ainda estão em fase de enumeração e catalogação. mas. já é certo. que há gente contaminada. mais ou menos perigosa. alimentando dentro de si novas estirpes de psicose. onde a mentira deixou de pertencer exclusivamente ao roto. trajou-se de um chique delirante e passou a uma verdade absoluta lunática – nem o mentiroso sabe que está a mentir. contaminado pelo vírus da excentricidade passou a ver o mundo todo de pernas para o ar. o único que está de pé é ele. perdeu o completo contacto com a realidade – são tempos difíceis. onde cada um quer exibir nele o melhor dos outros: o melhor marido. o melhor ego. o melhor sorriso. o melhor passado. o melhor pensamento. o melhor amigo. o melhor par de sapatos. o melhor filho. e tudo o que pode ser feito com um simples bater de uma tecla. e o que não consegue ter a teclar é porque entendeu ser o melhor para a tia. para o cão. para o gato. para o padre ou para o sacristão – estou farto de gente mentirosa. de gananciosos. de burlões – é altura de começar a “agir apenas segundo uma regra pela qual possas ao mesmo tempo querer que se torne uma lei universal” – não contem com a minha boca fechada. continuarei a falar como sempre. com a minha verdade. custasse ela o que custasse



17/01/2019

uma quinta-feira de 2019



pintura - dyanne



o autocarro só passa uma vez à nossa porta

 

depois de uma determinada idade perder o que quer que seja é um aborrecimento e. no meu entender. deve sempre merecer a nossa melhor atenção e reflexão. se essa perda se tratar de pessoas que prezamos – podemos perder a carteira por descuido. o cartão de crédito por tontice. o carro gamado por um meliante sem escrúpulos ou a pantufa devorada pela boca do nosso fiel amigo – todas estas coisas se podem recuperar ou em último recurso redimensionar para baixo os danos da perda – é hábito dizer que só a morte não tem solução. e é verdade – mas há uma coisa que já não dá mais para perder. falo de amigos ou mesmo apenas de pessoas que estimávamos e que. com as suas diferenças. nos ajudavam a manter a nossa saúde mental e principalmente. iluminavam emocionalmente a nossa passagem terrena – o que seria de nós sem amigos – mas já todos perdemos um amigo. creio que são poucos aqueles que nunca tiveram uma desilusão com alguém que estimavam – eu não sou diferente. já perdi amigos e confesso-vos que não foi nada fácil – mas são estas perdas que nos fazem valorizar aquelas que resistem ao tempo. com diferenças. com brigas e com a nossa constante adaptação ao tempo que gastamos à inevitabilidade do envelhecimento – como diz o ditado popular os amigos veem-se no hospital e na cadeia – por mais teorias. juras. abraços. boas palavras e sorrisos de orelha a orelha só saberemos o valor de uma amizade depois de testada – é nos momentos menos bons que ficamos a saber quem realmente está connosco e dá o corpo às balas – e não raramente temos surpresas. os que pensávamos estarem connosco são os primeiros a abandonar o barco. e quando olhamos para o lado somos surpreendidos com a presença de alguém que não imaginávamos ser possível estar ao nosso lado a segurar as pontas – o que acontece é que as amizades mais antigas. fruto dos anos. acabam por cair numa rotina ilusória – isto é. fruto de um conhecimento adquirido ao longo do tempo acabamos por nos desviar daquilo que somos para agradar exclusivamente aos nossos amigos – os amigos fazem o mesmo e tudo parece perfeito até que um dia a faísca acontece. a combustão lenta mina a tolerância e a lealdade. os laços desfazem-se e quando ninguém espera dá-se a explosão – lá se foram dezenas de anos desfeitos em segundos – no passado raramente demonstrava interesse por conquistar novas amizades. achava sempre que já tinha amigos suficientes – com o tempo passei a dar mais oportunidades às amizades recentes. surgem numa fase da vida em que estamos mais sábios e mais competentes para ver além do papel embrulho – geralmente. estas novas amizades. acontecem já como fruto de uma comunhão de interesses. se gostamos de futebol fazemos esse novo amigo num jogo de casados e solteiros. se gostamos de pesca fazemos o amigo a vender o seu espólio na lota e por aí adiante – são momentos fantásticos. o mundo parece-nos perfeito e estamos-lhe gratos pela sua imprevisibilidade – com milhões de hipóteses para o desencontro e contra todas as estatísticas a equação deu erro e o encontro aconteceu quando menos esperávamos – e dizemos os dois: olha a sorte que tivemos. quem havia de dizer que nos haveríamos de conhecer neste lugar – e é assim mesmo. quem haveria de dizer. ninguém. mas aconteceu e estamos todos muito felizes por habitar o planeta terra – olhamos em frente e passamos a acreditar no destino: estava escrito nas estrelas. ainda bem que assim foi. estamos agradecidos por fazerem parte da nossa vida – finalmente podemos arrasar com a teoria de que é necessário andarmos todos na escola para construir um relacionamento de amigo verdadeiro baseado no respeito mútuo. na verdade. na cumplicidade e na lealdade – mas com a idade. e apesar de toda a sapiência adquirida ao longo da vida. perder uma amizade levanta outros problemas: a vida começa a escassear e pode cair por terra aquela velha máxima de que o tempo coloca tudo no seu lugar – pode muito bem não colocar já coisa nenhuma e não coloca só por falta de tempo. não coloca também por falta de vontade ou paciência. já não há força e muito menos a ingenuidade e perseverança da juventude – o corpo está cansado e a mente já não tem flexibilidade ou disposição para grandes reflexões sobre o que está certo ou errado. o que pode ser desculpado e o que não tem desculpa – as atenuantes para o erro. ou para o perdão cristão. já não são levados em conta. não porque não haja atenuantes ou por não querermos perdoar e desejarmos até um mal maior em forma de pena compensatória. não. o problema não é esse. é bem mais simples do que se possa imaginar – em boa verdade. há apenas o desejo de uma nova vida. um recomeço. os limites para a tolerância alteram-se e já não há pachorra para aceitar mais do mesmo. oferecer a outra face está definitivamente fora de hipótese e que se lixe o caminho para o céu – que se dane o paraíso. o preço da entrada é demasiado alto – dobramos a curva da tolerância. deixamos de a ver. e não fazemos conta de voltar para trás para a recuperar – já não dá. estamos esgotados e sem forças para compreender os outros – chegou a hora de nos compreenderem. e principalmente. de nos aceitarmos exatamente como somos – já não dá para fazer fretes – recordo aqui uma frase de clarice lispector que no meu entender resume bem a perigosidade de conceder… “Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro.” – já entrei naquele estágio da vida em que pago para não ter aborrecimentos e. sobretudo. não ter que aturar cromos – nem tudo na idade é mau. nestas coisas de gerenciar relações a idade é um posto e quando deixamos para trás qualquer coisa já não há volta a dar – se no passado era um problema que nos tirava o sono. ficávamos tristes. os dias confundiam-se com a noite. a comida não passava. os cigarros acumulavam-se na boca e a vontade de dar dois murros no culpado era substituída por um murro numa porta e os dedos é que pagavam com um inchaço durante oito dias – ficávamos para morrer. e não havia forma de acabar com a depressão. azedávamos. sentíamo-nos injustiçados. protestávamos com o mundo e connosco e só o tempo nos lavava a alma – agora. maduro. mas ainda sem estar a cair de podre. percebo que a vida é assim mesmo. todos diferentes por dentro e todos iguais por fora. é feita de perdas e ganhos. de alegrias e dissabores. de gratidão e ingratidão e de opções que não podemos nem devemos questionar – cada um sabe o que é melhor para si – as amizades podem ser conquistadas. mas nunca compradas – estes são apenas contratempos que nos obrigam a reajustar a nossa entrega aos que queremos e gostamos de ter por perto – fecha-se uma porta. abre-se outra. redireciona-se o tempo para mais de mil coisas que ainda temos por fazer. a vida pode ser inventada todos os dias. há tanta coisa nova nos espera – por mais que nos custe. estou certo. que o melhor para todos é a arquivação das comoções. boas e más na pasta dos diversos – já não compensa a trabalheira de refazer uma relação de amizade ou apenas de cordialidade – assim faço. sempre que uma pretensa amizade me aborrece. não há papas na língua. bato a porta e sigo em frente que o santo tem pressa – confesso. nem quero saber se tenho muita ou pouca razão. sei que tenho a suficiente para não me aborrecer ou maltratar-me – o importante mesmo sou eu e aqueles que caminham comigo – o autocarro só passa uma única vez na vida. se o perdes já não há volta a dar – podes mudar de local e apanhar outro. mas já não leva o mesmo destino nem os mesmos passageiros – uma coisa eu sei. tudo o que fazemos tem um preço na vida – eu pago o meu preço. a diferença em relação ao que fui em tempos idos é que agora prefiro sorrir para o futuro em vez de ficar preso ao passado

 


16/01/2019

uma quarta-feira de 2019



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escrevo porque voo

 

escrevo. escrevo como se as palavras fossem um avião. como se eu fosse um avião sentado numa cadeira que voa como os aviões. como se tudo em mim não fosse mais do que uma massa de ar que sustenta todos os aviões do mundo. que são parentes das gaivotas que voam como voam os aviões – gosto de voar com as palavras. voo em volta das recordações. em volta das cadeiras. das fotos. dos amigos e dos que não o são. dos dias soalheiros e das noites geladas. da solidão e das histórias que quero contar e mais umas quantas coisas que estão no ar e que não sei se são aviões ou ilusões. ou magia. ou coisas que tenho dentro da cabeça e que não são capazes de se ligar à terra – e as mãos a escrever noutro mundo onde vivo desde que nasci.  para que as palavras se formem como se formaram as crianças do meu passado. nas ruas. atrás das bolas. dos amigos. e das caricas que com “triclas” correm as beiras dos passeios num furor de alegria – éramos dezenas. éramos tantos como são hoje as palavras que escrevo. tantos como os piões. como abraços e juras de que assim seria para sempre – e os aviões a rasgar os céus como se pudessem pousar no nosso campo de futebol. bonitos. a carregar sonhos de um lado para o outro. em bicos de pés. e a criançada de braços abertos subia ao céu e ali ficava até a noite chegar – escrevo. escrevo porque quem escreve sonha e sonhar é voar. não importa o que és desde que saibas sonhar e tenhas um par de asas para voar. uma história para contar ou até um abraço para dar – estendo-me pela memória de braços abertos. a fingir que sou um avião e quando não sou avião sou gaivota – [como se as gaivotas voassem com braços] e grito pelo cosmo que não é mais do que o meu espaço encefálico carregado de neurónios que querem voar – só o chão da terra corre ao contrário dos aviões. a fugir para trás. com lamentos de nunca ter aprendido a voar – há um universo das coisas que não voam. não sonham e não medram – tenho pavor deste universo. das suas correntes e das palavras que ofendem por nada saberem sobre o que voa – quando não estou a querer voar não escrevo. levanto os pés na cadeira. meto os joelhos debaixo do queixo e encutinho-me ao redor dos braços. fecho os olhos e adormeço amarrado a um pesadelo que me leve para o fundo do mar – e morro afogado nos meus sonhos – e mesmo nas mais sombrias profundezas do mar eu sonho. sonho sempre que voo



15/01/2019

uma terça-feira de 2019



jean paul laurens


o sínodo do cadáver

 

sei que um dia tudo o que escrevo neste equilíbrio desequilibrado tombará para dentro do meu peito – sei também que chegará o dia em que a balança pesará tudo quanto escrevi. o que ficou nas entrelinhas e até o que pensei escrever e nunca escrevi – será o tempo da justiça terrena – os homens. todos. os que me ocuparam o corpo e os que passaram a meu lado. reunir-se-ão no sínodo do cadáver para interpretar o papel de deus – assim será e eu nada poderei fazer. esta é a sua génese – o passado nunca desaparece nem será esquecido às mãos dos puros – sei que não será um julgamento justo. mas quem se importará? – eles sabem quem eu sou. mas não sabem como cresci. sabem o que escrevi. mas não sabem o peso de cada palavra. sabem o que fiz. mas não sabem a razão porque o fiz – o perdão à mão do morto – quem julga define-se – haverá sempre tantas sentenças quantos homens sobre a terra – o mundo permanece sempre belo para quem ainda vive – sei o que sou. o que não sou. e o que gostaria de ser e. que. por obra do diabo. ou coisa que o valha. não fui capaz de ser – levarão então toda a minha palavra do início ao fim. da forca à guilhotina. do credo ao ato de contrição. e o ponteiro da balança oscilará de um lado para o outro procurando os contrapesos para a ressurreição: uma palavra bonita ali. um gesto acolá. uma esmola àquele. um sorriso. um abracinho. e umas quantas futilidades que não servem para nada – querem-me enterrar sem pecado – e a balança sem saber para que lado cair – todo o mundo vai querer equilibrar o desequilíbrio de uma vida que não lhes pertenceu. foi minha. só minha. e de minha escolha e responsabilidade – finalmente o fogo do crematório fará a sua justiça salomónica. sem venda. sem espada. e sem balança: o corpo ao pó voltará – só eu conheço o caminho percorrido. só eu serei capaz de me castigar. mais ninguém – os sapatos estão no armário para quem se quiser fazer ao caminho – sigam felizes neste dia de marte. neste dia em que o deus da guerra reclama o seu tributo. entre cinzas e combates perdidos

 


14/01/2019

uma segunda-feira de 2019



marianna gartner


  

sessenta velas e outras galáxias

 

três da manhã e eu às voltas com o mundo – o mundo é mais do que carrego nesta tristeza que me consome – o mundo é redondo. azul. com mar. sol e sal e ainda outras galáxias que desconheço – é infinitamente grande para que alguém como eu o queira ferir com este corpo perdido num solstício de inverno – aqui estou à procura das palavras. as horas batem dentro de mim e o sol escondido atrás de uma lâmpada de sessenta velas – estou triste por dentro. por fora preparo-me para me entregar a quem realmente me merece. carrego o alforge com o que me sobrou do fim-de-semana e espero que o sol se ponha sobre mim para que a semana possa acontecer: um par de olhos meigos. uma manada rasa de gente feliz. um abraço apertadinho. uma conversa por acabar na madrugada. um copo de cerveja gelada. uma seta perdida lançada por um cupido estúpido. uma boca parva que nunca se cansa de dizer o que lhe vai na alma e um sorriso capaz de enganar uma multidão – aqui estou. os olhos alinhados com o destino. à espera do melhor e do pior. com uma mão a estrangular o que já não aguenta e a outra a dizer: sampaio ri-te pelo menos mais uma vez. afinal ninguém melhor do que tu sabe que o mundo é redondo. azul. com mar. sol e sal e ainda outras galáxias que desconheces – és um ignorante tolo. acorda porque já é quase dia e os espertalhões nunca dormem – bom dia. boa semana



08/01/2019

última proclamação divina – o fim da virtude



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num momento de fraqueza da minha fé resolvi recriar o meu mundo espiritual com uma nova ordem celestial

deus. após rezar o angelus com o papa e os fiéis presentes na praça são pedro. dirigiu-se a todos os seus súbditos desejando-lhes um feliz ano novo – de seguida. em tom informal. reuniu com os seus representantes na terra para lhes transmitir a resolução do seu último concílio

-- dada a impossibilidade absoluta de continuar a prestar o meu trabalho espiritual no planeta terra: promover a espiritualidade.  a plinitude e a justiça divina. quero informar-vos que me retirarei definitivamente da vida dos humanos – saio sem mágoas e com a certeza de que tudo o que estava ao meu alcance foi feito – até deus tem limites que não pode transcender – claro que ninguém sabe isso melhor do que eu: o homem é um ser profundamente complexo. fui eu que o criei com razão. com emoção e com espírito – toda esta complexidade tinha como objetivo o seu desenvolvimento sustentado numa espiritualidade esclarecida e na busca permanente da verdadeira felicidade: com misericórdia e limpidez interior – ao longo de todos estes milénios não houve um único dia em que não tenha seguido a evolução interior e exterior do homem. acreditem que nunca foi fácil. mas eu sabia que não seria – a ambição humana nunca me facilitou a vida – no entanto. sempre acreditei na vitória do bem sobre o lado escuro do homem e também sempre acreditei que o erro ou o pecado seria sempre a verdadeira motivação para a sua renovação – aprender com os seus próprios erros e perceber a necessidade de se recriar diariamente com novos desafios para uma religiosidade assente na bondade. tolerância. proteção aos mais vulneráveis. e resiliência perante as complexidades do mundo contemporâneo – infelizmente nada disso aconteceu. o homem multiplicou por mil as razões para pecar: mais egoísmos. mais ódio. inveja. ciúme. mágoa e tristeza. a estrutura familiar colapsou. as novas tecnologias corromperam o tempo. as igrejas esvaziaram-se de fé. o consumismo selvagem promoveu o egocentrismo e multiplicou as desigualdades entre ricos e pobres. a fome espalhou-se sem controlo. as guerras intensificaram-se. as alterações climáticas ameaçam o apocalipse e outras tantas malignidades que recaem quase sempre sobre os mais fracos e debilitados: crianças e idosos – o homem dos nossos dias. para além da pobreza material. está contaminado pela pobreza espiritual – em suma. habitamos um mundo caótico e em degradação acelerada onde a minha omnipresença é constantemente colocada em causa – confesso-vos com humildade que a desordem também já se alojou em mim. a sustentável leveza do meu ser foi gravemente contaminada e infelizmente não vislumbro solução capaz de reverter esta desordem agoniante – criei uma máquina sobre a qual perdi o controlo – estou no fim.  exausto. desiludido. mas com a consciência tranquila. tudo fiz em prol deste planeta e dos seus seres vivos – chegou a hora de dar descanso ao corpo. é hora de entregar definitivamente o destino da terra nas mãos dos seus colonizadores – deliberei então que os humanos. sem exceção. ficarão livres do pecado como fator decisório para entrar no paraíso – assim. informo que a partir das vinte e quatro horas do dia de hoje o pecado será definitivamente despenalizado – é com amargura que vos comunico que me retirarei definitivamente para o céu e comigo levarei todos os anjos. santos. arcanjos e querubins. reconhecendo com humildade a vitória do pecado sobre a virtude – e agora que a nova palavra de deus parta por esse mundo fora a anunciar a boa nova: nasceu um mundo novo. o mundo sem pecado – sejam felizes e deixem voar os pecados da mesma forma que voam as gaivotas

 

nota final - a ausência de pecado não implica ausência de valores éticos e morais – vivam com consciência e iluminem a vossa existência com atos de tolerância


31/12/2018

que se foda 2018. esperança para 2019



                                                                      imagem google


que se foda o 2018. que se foda o 2017 que o gerou. alimentou. pariu. e o atirou para mim no último dia de dezembro – estou extenuado deste 2018. eu e todos aqueles que comigo dividiram cada um destes trezentos e sessenta e cinco dias – finalmente 2019 à vista – e agora como será este novo ano? não sei e nem quero sequer pensar em prognósticos – prognósticos só mesmo no fim do ano – no último ano escrevia. na minha boa fé e bem-aventurança. que nada poderia ser pior do que o ano em término – enganei-me completamente – nunca imaginei que fosse possível assomar um ano tão horribilis. nunca mesmo. nem nos meus piores pesadelos poderia prever que 2018 descambasse para níveis tão miseráveis – foi o ano em que confirmei todas as minhas fragilidades e compreendi como a dor pode ser egoísta. uma chave mesquinha que abre todas as portas do inferno – descobri toda a solidão: entre os outros. a diferença. a sem rosto. a que exclui. a que pede fim para tudo. para a saudade. para o perdão e para a redenção – em 2018 percebi que perder os pais é uma fatalidade que nunca será superada [ainda não sou capaz de escrever sobre a partida da minha mãe] – percebi também que a vida vale tanto quanto pesa o nosso sucesso. quando tudo corre bem queremos viver duzentos anos. se corre menos bem podemos partir no dia seguinte sem deixar falta nenhuma – em 2018 tornei-me mais humano. mudei meu jeito de ser. de sofrer e de amar também. talvez isto seja apenas envelhecer – em 2018 só permaneci sem saber se a dor é punição ou purificação – por isso os meus votos para o meu 2019 são feitos em silêncio absoluto. tudo que vier por bem aceitarei com humildade. e o que vier por mal terá o meu renovado haka de guerra: cerrarei com mais força os dentes e bradarei como bradam os neozelandeses. farei caretas horrendas. tão horrendas que. se as visse ao espelho. talvez me assustassem a mim mesmo. baterei com os pés no chão. com as mãos nos cotovelos e esbugalharei os olhos. arquearei as pernas. encherei os pulmões de ar e tornar-me-ei gigante para o medo. para o erro. para a adversidade. para a solidão. para a saudade e usarei todas as artimanhas para enfrentar o que resta da maldição de 2018 – em 2019 por cada passo em frente a memória dos meus antepassados em estandarte. por cada centímetro conquistado a honra glorificada. e por cada gota de sangue perdida o sorriso dos meus filhos a dizer que tudo valeu a pena por eles – a meu lado a companheira de sempre. de mão dada. a sorrir. com olhos iluminados de bondade.  bonitos. caridosos. confiantes e contra tudo. a dizer: yes. we can e tudo o amor supera – hoje sei que a minha força nasce dentro dela – neste novo ano nenhum adamastor me roubará o encanto de a ver envelhecer a meu lado. sei que inventarei um novo sorriso para a fazer feliz – em 2019 quero que a minha família se reagrupe em cada clã. que encontre a sua própria identidade sem nunca esquecer que os nossos pais serão sempre a nossa estrela polar – os meus irmãos são tudo o que me resta. em cada um deles vejo um fragmento de mim e o reflexo dos nossos pais – não os quero perder. mais do que nunca. preciso deles por perto. preciso mesmo muito – prometo que 2019 será o ano dos reencontros – um beijo especial para as sobrinhas que vi crescer em casa dos meus pais: sandra e bárbara. que 2019 vos cubra com o melhor que há no mundo. terão sempre um lugar privilegiado no meu coração – e agora a lurdes. a lurdes é do tamanho do mundo – tudo o que se queira de 2019 para a lurdes será sempre pouco para tanta bondade – sabem os meus avós. depois os meus pais. de seguida eu. que me viu nascer. os meus irmãos. as minhas sobrinhas e agora os meus netos – meu deus – ensinaste-nos tanto e destes-nos tudo. chegou a tua hora. a hora do descanso. agora seremos nós a servir-te – esta é a tua casa e a tua família. estarás ao nosso lado até que deus te sorria – e para terminar. já que a missiva vai longa. espero também que 2019 ajude os meus filhos e suas companheiras a concretizar com ainda mais sucesso os seus projetos de vida. que lhes ilumine o engenho para o trabalho. a arte para o diálogo e a sabedoria para amar as coisas simples – que se continuem a amar. a respeitar e renovem todos os dias os votos de afetividade – e nunca se cansem de alegrar o coração das suas amadas. elas serão sempre o vosso porto de abrigo – nada no mundo irradia mais encanto do que uma mulher feliz – o segredo da longevidade dos casamentos está no diálogo. nunca no silêncio – uma palavra especial para o meu filho pedro. amo-o daqui até à lua – este ano espero que a vida e o destino o ajudem a reencontrar o sorriso. é hora de deixar de fumar e acabar o que começaste no primeiro dia de escola – eu e a tua mãe temos todo o tempo do mundo. esperamos por ti – em 2019 quero que os meus netos continuem a viver a sua infância com muita alegria e que nunca lhes falte o abraço dos pais para se tornarem adultos estimados e bonitos – que “deus” proteja toda a sua família – para os meus amigos quero tudo que há de melhor no mundo. merecem o melhor. a vossa companhia ajudou-me a superar este ano de merda – sem vocês teria sido insuportável – o mundo seria deserto sem os valores da amizade

.

seria injusto não referir o que 2018 trouxe de bom:

•      o meu filho do meio trouxe-me uma nova nora – adoro todas as minhas noras. cada uma diferente. cada uma igual – a bela será sempre recebida na nossa família com afeto. gratidão e  de braços abertos – eu e a sua mãe estamos-lhe eternamente gratos por encontrar no nosso filho as qualidades que fazem dele alguém muito especial para nós

•      reencontrei-me com os meus primos da juventude. toni. zé e filipe – foi um jantar e tanto – histórias bonitas relembradas. abraço apertados. laços de sangue  reafirmados – percebemos que jamais nos perdoaríamos se voltássemos a cair na ratoeira do tempo e do trabalho – 2019 será o ano do reagrupar

•      revi o meu tio zeca. irmão do meu pai – foi o meu tio da juventude. um homem bom. tranquilo. sereno como um anjo na terra – amo este meu tio. é tudo o que me resta do meu pai na terra – ele e o meu pai são a verdadeira herança da nossa família 

•      recuperei uma amizade perdida. uma daquelas ausências que ninguém gosta de carregar dentro de si – acredito que finalmente é possível um novo começo. de um jeito diferente – espero que um dia este meu amigo me leia com bondade – estou pronto para me explicar

•      confirmei que as pessoas boas nunca nos abandonam – um abraço especial de um amigo especial: MM

•      já são presença recorrente ao longo dos anos… sempre ali – um abraço afetuoso para carvalho araújo e paulo duarte

 

feliz ano 2019 para todos

e…

adeus 2018. que te fodas bem fodido



07/12/2018

deambulações noturnas XXXV


 ivan kulikov



de quem partiu ressuscita sempre que a minha palavra nasce – por isso. escrevo – escrevo a própria saudade