já não há forma de me reencontrar na noite – perdi-me
por completo. de um lado eu. do outro também eu - e os dois eus cada vez mais cúmplices
- se um diz mata. o outro não ousa dizer não mates. se um diz basta. o outro responde
que o basta tarda. se um diz coragem. o outro grita muita. se um não diz nada.
o outro encolhe-se no nada - afinal o silêncio é a antecâmara da morte - nos
meus eus. há apenas uns quantos pássaros a chilrear numa alegoria que
desconheço. sobrevivo nos intervalos do que me resta da janela - talvez o sol
nasça apenas para quem o canta em esperança - eu continuo preso às minhas
lâmpadas de baixo consumo. numa fé moribunda. incapaz de emitir qualquer som que
desperte a manhã com um sorriso – falta-me um abraço e um segredo ao ouvido que
convença a noite a não ser eterna
24/05/2017
a antecâmara da noite
18/05/2017
deambulações noturnas XVI
15/05/2017
vânia – afinal. deus mora nos nossos quintais
com coragem
aqui estou em palavras para enobrecer a tua amizade – chegou o momento de te
dizer o quanto foram e são importantes as tuas palavras-estímulo ao longo desta
minha aventura prosista – ser prosista nunca é fácil –– retribuo então esse teu
carinho com o talento que me sobra nestas mãos que te querem bem. sei que não será muito. serão apenas umas quantas palavras. algumas velhas. gastas. puídas. outras sem nexo que. de tão
desajustadas do corpo. caem dos bolsos –
dobrei uma em forma de triângulo.
um triângulo perfeito. com os
ângulos todos iguais. e coloquei-a
no bolso da frente do casaco a imitar um lenço de seda – um homem quer-se
arranjado quando está prestes a oferecer o seu bem mais precioso: a palavra – gosto de palavras. sempre gostei. servem para coisas inacreditáveis. e quando bem usadas.
podem fazer de nós pessoas fantásticas.
às vezes até imortais – quando escrevemos ficamos guardados no tempo para
sempre – com as palavras posso fazer quase tudo. escrever o nome de quem gosto.
matar as saudades. escrever cartas
de amizade. escrever poemas de amor
ou de raiva. e outras que por serem
tão complexas só os poetas as entendem.
posso também dizer que o mundo é mais bonito contigo. e dizer com toda a impiedade que uma palavra pode comportar: gosto de ti – gosto de ti assim. gosto de ti como te descubro nos meus
olhos. como quando me chegas em
silêncio. ou como te escuto no
interior da tua poesia. e também
gosto de ti na forma como me olhas naquela foto em que te colocas de lado para
o mundo – ainda bem que existes – sabes que gosto de escrever. e quando começo a escrever não paro. fico com a sensação de que nunca digo
o suficiente. insegurança creio eu. ou então falta de jeito. sei que não tenho muito. às vezes nem percebo porque escrevo. fico sempre com tanto medo de não compreender
verdadeiramente o valor de cada palavra.
quando erramos ao escrever. é para sempre.
as palavras não se trocam. nem as
podemos pedir de volta. depois de
escritas pertencem para sempre à vida – como também são para a vida todas
aquelas mensagens que trocamos na calada da noite. tu envias um olá. eu
respondo com um bonequinho a sorrir.
tu envias uma palavra. eu devolvo a
tua com mais duas minhas. e assim. começa o encantamento poético. e as palavras a escreverem-se como se
tivessem uma força desconhecida.
como se os deuses do olimpo nos tomassem conta das mãos e nos dissessem: escrevam. sejam feliz – e assim ficamos a dar brilho às estrelas enquanto a
noite. calmamente. se despe para dar lugar à realidade – gosto de
saber que estás por aí nesse teu quintal – escrevo-te porque não sei falar. porque não confio nas palavras que me
saem da boca. saem-me sempre muito
depressa. impercebíveis. e tão confusas que se acabam por perder
no mundo-solidão – pouco sei desse mundo-solidão. gosto mais do nosso. o
das palavras escritas que partilhamos com gosto. numa arte que nos abraça e que poucos entendem – quem escreve
cresce todos os dias dentro de si – nós fizemos crescer uma amizade – mas para
que serve isto tudo que estou a dizer se não for capaz de escrever uma palavra
nova para te oferecer – não serve para nada – escreverei então alguma coisa que
te traga em braços por esse distante mundo oceânico. onde tu. desse lado. ficaste presa. e eu. deste lado. em castigo – arrumo as montanhas para
um lado e sento-te ao pé de um campo de magnólias. estamos na primavera.
corre por nós um perfume dourado-sol.
suave. suave-inocência – seguro as águas dos rios. detenho as nuvens. silencio
todos os pássaros no ar. e arrumo o
vento morno dentro de um poema que compus para pessoas especiais – há agora um silêncio
celestial à espera de escutar a tua poesia – arranjas o cabelo. as poetisas querem-se bonitas. ajeitas o corpo que eu conheço. sacodes as mãos do tempo pérfido. e por último. dás uma olhadinha no espelho da vida. é lá que nasce toda a poesia do mundo. a tua também – e ali fico a ouvir-te até que o tempo se esgote e
os poemas se transformem em ficção – voltas então para o teu quintal. e eu fico a colher magnólias em campos
de palavras – afinal. “deus mora nos nossos quintais”
para
a vânia lopez – um comentário faz muitas vezes a diferença – obrigado por cada dia em que me ajudaste a escrever
e a enfrentar os meus medos
10/05/2017
águas de papel
09/05/2017
o corpo não morre todo à mesma hora
1. o
homem
um dia percebemos
que o corpo já não é portador de uma consciência una. íntegra e lúcida – divina
ou não. esta consciência. ao longo do tempo. foi obrigada a reordenar-se em
fações temporais. numa existência quase sempre mutilada. imperfeita e fraturada
– consciência é sinónimo de homem. da sua intimidade. de honra. de bondade. de
vergonha. da sua inteligência. da perceção do que fez. do que ainda pode fazer.
e da capacidade de criar novos estímulos para se reconstruir do erro – por último. e com base no que escreverei mais adiante. a
consciência permite pensar a morte – decido vê-la como a última fatalidade ou “libertação
total”. como escreve mário quintana – esta
verdade sobre a consciência altera todos os nossos relógios biológicos. o que
era importante. já não é – o que era para amar. fica para esquecer – o que era
coragem. transfigurou-se em covardia – e o que era para eterno. é agora para um
dia destes – chegou o momento de aplicar as rotinas de sobrevivência. tentar
equilibrar o que se desequilibrou – na sua intimidade – inviolável
por tão profunda –
constrói-se o homem. aquele que levamos ao mundo das sensações. em doses controladas.
prescritas por um ego que se alimenta do próprio saber. numa realidade
partilhada que se fragmenta entre o que se sente. e o que se autoriza a mostrar
– entre a dor. e o lugar exato onde consentimos que ela seja vista – entre a fé
corrompida. e a versão tolerável da nossa queda – assim chegamos a
um corpo mergulhado num infinito de soluções. tantas quantos pensamentos. e o
cérebro. sempre a trabalhar. para lhe dar uma razão para a sua existência – a
vida é uma partida de poker onde quem tem a melhor mão nem sempre leva a
vitória – neste baralho da vida ninguém fica de fora – e aqui estou eu. com as
cartas que escolhi. num jogo partilhado com o meu pequeno mundo. sem bluff.
numa única mão. sem rei. sem duque. sem nada que me convença de que ainda devo
continuar a procurar a sorte – azar. digo eu. tiveste até muita sorte. dizem
outros. indiferença. para outros tantos – todos certos. todos errados. e todos
acreditam guardar em si todo o conhecimento do universo. juram saber exatamente
o que cada corpo sente. e outros juram que não sentem porque não querem sentir
– e há ainda os que dizem que só se sente porque se quer sentir – tudo certo.
tudo errado. e tudo viciado em consciências interpessoais incompletas – o que é
para um homem não é para mais nenhum. cada homem é único no seu nome. como
escreve mia couto: “cada homem é uma raça” – dentro do corpo. num
emaranhado de contradições. existimos nós. em balanços intermináveis. em juízos
castigadores. em punições exemplares. em remorsos eternos. em arrependimentos
cortantes. em aflição que desespera. e a inteligência emocional a reparar os
excessos com ética para que a consciência moral resista por mais um dia
2. a
morte
o corpo morre
aos bocados. em agonia. num falecimento silencioso. num desmembramento
selvagem. é a morte em doses que nos mata por estágios da alma: hoje perdemos
um sorriso. amanhã um abraço. depois um amigo. e mais outro. e ainda outro. até
que se perde o céu. as nuvens. o destino. as gaivotas param de voar. e tudo
caminha lentamente para um estado terminal consentido. num silêncio tão
profundo que. paradoxalmente. assassina o ruído da consciência afetiva –
aceita-se a resignação. aceita-se o fim – abrimos a janela. mas já não há
brisa. apenas uma acalmia necrófaga. os abutres normalizados transmitem uma
dimensão reduzida ao tempo – a morte paira no ar – aprendemos a escapar ao medo.
e aos poucos. sem que o corpo tenha compreendido. resignamo-nos à
inevitabilidade do desfecho: a morte como libertação do pensamento – afinal nem
tudo foi assim tão mau – a escuridão engole o sol. a determinação. a coragem. a
lucidez. o discernimento deixa de resistir à nostalgia – o sol também se apaga
quando o corpo desiste – chega um cansaço de estátua. e ali ficamos parados.
hirtos. gelados. como se a morte quisesse provar que estar morto é imobilidade.
é silêncio. é uma espiral de renúncia assombrada pelo fim de um ciclo – e.
segundo a segundo. esvai-se mais um trago da vida em aflição – no meio de
quatro paredes. o corpo aceita finalmente o seu fim numa humanidade serena –
deixo de falar e o silêncio toma o lugar de companhia. tudo acontece sem voz.
tudo se desenrola em pensamento. às vezes num maquiavelismo revoltoso. em grito
desesperado. raivoso. impiedoso. assassino. e tudo o que resta de mim pelo
chão. a rastejar. a contar os cantos das paredes. enquanto os pulmões ardem em
dióxido de carbono – respiro fundo – as súplicas são agora deslumbramentos que
se atrapalham no cérebro em busca de uma porta de emergência – não há portas de
emergência. foram-se fechando sem que o racional desse conta – nada pode sair
de dentro para fora. ninguém pode saber que se está a desistir – e morre uma
perna. e o corpo afunda-se na cadeira que já não é acessório. mas urgência. uma
necessidade para iludir gente sã – contraio-me. encolho-me. embrulho-me numa posição
fetal. a cabeça nos joelhos e as mãos num emaranhado de coisas. coisas que o
corpo estendeu ao mundo. e que eu não sei devolver em palavras – aperto-me.
cerro os olhos. rasgo-me por dentro e nem uma gota de sangue. estou seco.
mumificado e sem forças para chamar por um nome que me acuda – penso: que isto
acabe de uma vez – e os que apareciam passam a aparecer menos. e aos poucos
acabam por falecer primeiro do que eu – finalmente só – sentar-me é tudo o que
me resta. sentado. sou enorme. sentado ninguém percebe que me estou a desfazer.
sentado não toco no chão. sentado tenho as mãos ao nível do coração. será este
o último a render-se à consciência – só as cobras rastejam pela imundice do
chão – e o corpo vai-se perdendo numa aceitação cristã – perde a vista porque
não há nada para recordar. perde os braços porque não quer ter saudade dos
abraços. perde a fala porque não quer que ninguém o ouça. perde os gestos para
que ninguém saiba que ainda não morreu por inteiro. e o que era simpatia
reconhecida. torna-se agora um fardo para enganar aqueles que nos querem ver no
passado – o coração ora arranca. ora começa a trazer aquilo que não quer que
seja verdade – sente-se medo. e pergunto-me se será deste modo que o corpo
desaparece todo à mesma hora – o coração continua a bater. e o sangue bombeado
soletra em agonia: tens que aguentar – a consciência ainda luta – e uma lágrima
pendurada no canto do olho brilha. carregada de saudade. de um dia de natal. de
um aniversário. de um abraço. de um amigo. da família. meu deus. sempre a
família – deus. se realmente existires perdoa-me – e sufoco as recordações. as
molduras. incendeio todas as fotos coloridas. apago a cor. e o rasto também –
sobrevive apenas o preto e branco – morre mais um pouco de resistência. e
depois de coragem. e a esperança já foi toda. e já só resta a vergonha. e a
maior parte do mundo sem entender nada sobre falecimentos – ninguém morre de
uma só vez – e o punhal em cima da mesa rasga em cortes limpos as cartas de
recomendação. uma a uma. e a vida resumida a uma única miséria: já acreditei.
já existi – enquanto o corpo não morre todo à mesma hora. o passado insiste em
assombrar o presente – o que resta do futuro arrasta-se entre abutres
26/04/2017
revolução da magnólia
guardei a vontade de escrever junto ao cravo
e procurei em mim por outra revolução que tornasse diferente – como não tenho
regaço. nem sou santo. nem me dou com santos. das mãos não me brotou nada que
me fizesse sair para a rua com uma magnólia ao peito – uma revolução de
magnólia faz nascer homens para um futuro brilhante – visto o pijama – na
cadeira. as calças vincadas. a camisa branca engomada. o casaco preto. as meias
pretas e as cuecas dobradas em quatro - em frente. um crucifixo recorda-me que
não há revoluções sem fé – rezo – peço perdão - espirro por um resfriado que
ainda nem apanhei – sento-me de costas para os símbolos da imortalidade e peço
uma nova vida noutra existência – desta estou esgotado – não quero levar nada
daqui além do meu computador. apenas as memórias más para não voltar a cair nos
mesmos erros – tudo o resto pode ser diferente... tudo. menos isso. quero a
mesma companheira
24/04/2017
noite de lua cheia
19/04/2017
pela noite dentro
o que vos
posso dizer de mim nesta madrugada – a folha. exausta de estar em branco –
arranco com as teclas – interrogo-me se haverá um momento certo para desistir
de um sonho – passei a noite inteira a batalhar nesta equação sem solução –
então comecei a escrever e. a cada palavra escrita. um livro emergia da memória
– “morgadinha dos canaviais”. “uma família inglesa”. “as pupilas do senhor
reitor”. foram os primeiros clássicos a emergir na memória – tinha doze anos –
apaixonei-me por júlio dinis e devorei todos os seus livros – eram histórias
incrivelmente bem escritas – cresci amarrado a elas – nos seus livros. mais do
que a nobreza das palavras. havia a nobreza das ações – não havia leitura que
não me trouxesse lágrimas aos olhos. e os lenços encharcados de um sentimento
que já não me habita: a esperança – o triunfo do bem sobre o mal. da lealdade
sobre a falsidade. da nobreza sobre as trevas – meu deus – como foi possível
ser tão feliz dentro de um livro – era uma criança adulta. os sonhos ocupavam
todo o meu corpo – olhava o futuro. com a certeza de que não iria deixar um
único sonho para trás – o tempo passou e cá estou eu. perdido em mais uma
noite. empacotando sonhos que deixei apodrecer – escrevo nestas noites que já
pertencem mais aos meus leitores do que a mim. já não tenho nada além de
memórias – muito do que sou devo a júlio dinis. mas enganou-me numa coisa
apenas: nem sempre o certo triunfa sobre o errado – que se lixe. continuo a
gostar dele na mesma
17/04/2017
dezassete de abril. primeiro minuto de uma segunda feira de páscoa
meia-noite.
primeiro minuto de uma segunda-feira de páscoa. primeiro dia da ressurreição de
cristo – dezassete de abril. meu aniversário –– o domingo abriu com foguetes. à
meia-noite. os clarões no céu iluminaram a entrada para o reino de deus – na
terra o povo trata do cabrito para festejar condignamente o encontro de cristo
com seu pai – atascado em especiarias e sem qualquer hipótese de ressurreição.
o carneiro entrega-se ao sacrifício. afinal. há festa rija entre os humanos –
agora só falta a visita do senhor para que as casas se purifiquem de pecado por
mais um ano – em cima da banca da cozinha o jornal abre-se à leitura. silvio
berlusconi não está com papas na língua:
por favor não matem os carneirinhos. pede o cavalheiro acariciando um exemplar
nos seus braços – por baixo. uma outra notícia contra-ataca: produtores de
carneirada insurgem-se contra o ex-primeiro ministro italiano: -- ganha juízo.
rapaz. quando andavas com miúdas menores. não tinhas olhos para carneiros – mas
o berlusconi não quer saber e ataca: os carneiros têm sentimentos – não sei se
também se referia a mim. eu também sou carneiro. também tenho sentimentos. nasci
em abril. a 17 de abril. o ano não interessa. mas acredito que esse ano não deu
boa casta. saiu carneirada meia louca. aquela que não desiste de acreditar em
histórias de merda: contínuo à
espera de um sinal de que cristo realmente chegou ao céu – sou aquele tipo de
carneirada com poucos miolos e excesso de fé – embrulhado numa saca de plástico
reciclável. a rosca do pão de ló feita com ovos caseiros. não endurece. o pão
de ló é como a vida. se não for fofinho não presta – eu estou duro. por isso sei
que um pão de ló duro não presta – estou tão duro que já não me consigo
ajoelhar para nada – mas este ano é diferente. cristo ressuscitou mesmo. nem
falo pelo que me resta de fé. falo pela quantidade de foguetes que estalaram no
céu – fico contente quando há festa no céu. o meu pai está por lá. onde há
festa ele está presente – deve andar às voltas de deus a dizer-lhe umas
verdades – ele gostava muito de mim. era um bom pai. não acredito que consiga
calar-se diante de certas injustiças – um dia vamo-nos sentar sem pressa a
falar de como a vida pode ser bonita quando se tem um coração bom – eu tento
ter. mas a vida. ás vezes. complica-me as artérias e fico com a ideia de que vão
rebentar. sistema nervoso – este ano vai ser mesmo diferente. cristo ergueu-se
do marasmo da morte e caminhou para o céu – o que me faz impressão é caminhar
descalço. a minha mãe sempre me disse para não andar assim. senão adoecia – mas
esta malta importante não lhe acontece nada – quem tem amigos não morre na
cadeia – não deve ter sido fácil levantar-se depois de ter sido dado morto para
o mundo – falo por mim. às vezes estou morto e não sei como me levantar. depois
lá me chega um amigo e diz: vamos tomar um café – quando é para tomar café.
ninguém me segura. falo e falo sem parar. falo com as mãos e com o corpo –
sempre gostei dos meus amigos. creio que é por ser carneiro de signo – às vezes
gostava de ter outro signo qualquer. um que me deixasse ser exatamente quem sou
– o carneiro não mente porque teme a mentira – ser carneiro é ser sempre mais.
é estar onde nunca queremos estar. é viver o futuro duas vezes. é ser escravo
da palavra até morrer. é ser fiel a quem amamos. é chorar sem que ninguém
consiga entender uma única lágrima – a dor dos carneiros é feita por nós e para
nós – mas que se lixe a carneirada – uma multidão de fãs aguarda em ansiedade
que se cumpra realmente a profecia – eu também – estou fora de mim há mais de
cinquenta páscoas. à espera que cristo chegue ao reino de deus – olho para o
céu. oriento-me pelas estrelas. da maior para a menor e tento descortinar uma
ligação científica: juntando a
estrela A com a C e acrescentado a que está ao lado da cassiopeia. a 358zkx. retira-se
a lua que é muito romântica. acrescento-lhe vénus. uma pitada de amor dá sempre
jeito. e para terminar boto-lhe marte em guerra e o resultado é…zero – todos os
anos é zero o resultado da páscoa com cristo redentor – dezassete de abril.
segunda-feira de páscoa e a multidão regressa à normalidade – arruma-se os
temperos. as cadeiras voltam a recuperar o centro da mesa e o silêncio volta à
tristeza habitual – sento-me em frente aos restos do pão de ló e percebo que o
açúcar um dia vai dar cabo de mim – tenho medo da balança. tenho medo da idade.
tenho medo de me perder daquilo que ainda me mantêm inteiro – meia noite. um
beijo da minha companheira de sempre. de seguida um abraço e umas quantas
lágrimas a pedir perdão. encostamo-nos um ao outro e ali ficamos presos a um
olhar que nos faz amar e compreender. envergonhados. afinal sabemos tudo um do
outro. é ali que eu ressuscito diariamente para a vida – depois um filho
mostra-me que valeu a pena ter nascido: -- parabéns meu pai. e mais outro ao
telefone. e eu a sofrer uma dor de gratidão que magoa mais que uma má notícia.
um amigo do porto a chegar primeiro que muitos outros. uma amiga que não se
cansa de continuar a fazer-me bem. sempre a escrever sobre o que não sou. e
mais outro e por fim aqui fiquei neste silêncio das teclas a contar os anos da
forma que me lembro – há tantos anos que nem sei que existiram. que maldade. e os
amigos. tantos já sem nome. crueldade da memória. e os que partiram e que nunca
ressuscitaram. e outros que por não terem ainda morrido gostava de os ver
ressuscitados em mim – não podemos envelhecer encostados a nenhuma faca –
cristo não ressuscitou. mas eu vou continuar a ressuscitar todos os dias –
ninguém merece aniversariar quando não está bem
- obrigado a todos aqueles que
se cruzam com amizade neste dia sempre especial e complicado
13/04/2017
se um dia todas as noites
se um
dia todas as noites se tornassem dia. talvez eu me cansasse de escrever como
escrevo. com esta letra escura. negra. feita de desassossego. pendurada numa
luz que se escoa entre palavras moribundas – aqui estou eu numa noite que não é
dia. num dia que nunca deixará de ser noite. e tudo a balançar entre o
divino e o pecado – já não sei rezar à noite. talvez tenha perdido a oração ou
talvez a vida. todos os momentos são agora um precipício – esta noite sou o que
sempre fui. sou saudade que carrego de uma rua que me chama de volta – um dia
voltarei ao mundo revestido de dias sem noites. com luz que nunca se apaga. com
uma lua que nunca dorme. com uma cama que nunca sufoca – um dia serei
louco. farei de cada letra um farol para náufragos do papel à deriva em noites
de negrume – um dia serei eu própria luz. e as noites nunca mais serão longe. o
amor será próximo. e o corpo um pequeno universo – noite escura. negra de
carvão. negra de almas pecadoras. negra como se não fosse uma cor de deus. e eu
um infiel condenado – este negro da noite sufoca-me de solidão. sei que um dia
perderei o que ainda me resta desta pequena luz – se um dia todas as noites se tornassem
dia. eu não aguentaria
deixo-te um beijo
olho
para ti. amor
e
sinto o nunca:
nunca
poderia viver sem ti
talvez
era uma vez:
era
uma vez uma princesa
de
cabelos dourados
e
na menina dos teus olhos
leio
um desejo:
a
loucura de me amar
se
fosse poeta
talvez
te escrevesse:
uma
canção
mas
não sou
sou
apenas o teu amor:
ainda
louco por te tocar
crescemos
tanto os dois
eu
envelheci
mas
tu…
tu…ficaste
mais bonita
eu.
talvez mais homem
tu…mais
brilhante
eu.
mais cego com o teu brilho
crescemos
tanto. amor
e
tu continuas tão bonita
sempre
me sobraram os abraços
um
dia vou conseguir
trazer-te
toda para dentro de mim
e
dizer-te baixinho
que
te amo mais hoje do que ontem
deixo-te
um beijo
08/04/2017
coisa de sombras
e aqui
me permitiu deus existir. nestas sombras que nunca sei se me pertencem - e por
aqui ele passou antes de mim. para me servir este pedaço de terra que é apenas
uma coisa - sou uma coisa numa realidade inventada por ele - sou coisa morta
num chão de outono - sou uma coisa. demente porque já me defino pelo nome: sou
coisa. uma coisa feita de sombras num amor tão profundo que. no fundo desta
coisa. não se vê uma única estrela - fizeram-me assim - este deus que me largou
aqui partiu sem uma palavra - e eu. perdido nesta linguagem indecifrável.
escrevo esta loucura de ser coisa - as coisas não sonham
31/03/2017
tortura
e
aqui vai um sorriso. não pensem que é de felicidade.
não. não é. e também não é por nenhuma aproximação luxuriosa ao meu espaço
facebookiano vinda de um daqueles amigos íntimos que não conheço – então
perguntem em voz alta: porque estás feliz? a resposta é simples. vou almoçar e
estou determinado a dar continuidade aos dois quilos perdidos em duas semanas –
vou então. e sempre num ato de contrição. engolir comedidamente um prato de
sopa sem batata. e um iogurte de aroma da agros – acabei de ludibriar a fome
com a arte de um grande aldravão – de seguida remato com duas bolachas de água
e sal. um queijinho fresco e muita água para fazer brilhar os rins – nos
confins da casa. escondida atrás da porta da casa de banho. está a terrível
balança decimal. sem escrúpulos. afia a faca com vontade de me cortar às
postas: come. come. e depois anda dizer que estás inchado da retenção de
líquidos - não quero desculpas. se não emagreces... então estás a ingerir mais
do que gastas – presta atenção às calorias. rapaz. senão lá se vai a disciplina
– é que eu não alinho naquela máxima de que gordura é formosura. gordura é só
teimosia do corpo contra a minha vontade
24/03/2017
o enforcado do facebook
lamento. acreditem que lamento mesmo. bem que gostava de
usar este face para outro fim que não fosse este. o de vos entregar este nada
em que me tornei – tal como os extremistas religiosos. também eu adotei um novo
nome para o facebook – bem sei que hoje é véspera de fim de semana. sei também que
amanhã será outro dia diferente de hoje. estarei então a olhar para coisas humanas
em estado eminente de ejaculação múltipla de amigos – direi: estou morto. morto
com a alegria dos outros. e eu. enterrado em tristeza. corro o facebook em
desespero e sinto a vida a partir. e a loucura envolta em água turva. tão turva
que os peixes não nadam. caminham de pé por dentro de mim. e as guelras. feitas
de naturezas mortas. maçãs podres. podres de sentimento. com sorrisos que
cantam o cântico da praxe: hino à alegria de beethoven – e eu viajo para a
morte arrastado por esta corrente de gente que não morre de solidão – só eu
vivo esta ironia. numa mão. uma rosa. na outra. um movimento louco de me atirar
para o fim do mundo. à procura de gente como eu – não encontro paz. vazio. tudo
vazio – e os olhos. a correr para uma morte que não escolhi. queria tanto encontrar
amigos como eu – estou cada vez mais só. só nesta forma de estar. e a prosa que
escrevo é carne da minha carne. contaminada pela lepra – não sei rir neste meu
face. não sei colocar frases de incentivo. não sei mandar beijinhos. não sei escancarar
a boca do amor para tantos amigos que não conheço. o meu rigor é uma muralha
que resiste – arrasto-me para esta borda do corpo. e juro que se um dia me
suicidar será para dentro do meu corpo. morrerei eu e os meus peixes. e
enterrarei os meus restos mortais no vale das utopias – estou morto por um punhado de likes. mas
ainda resisto ao lado escuro do facebook – resisto eu e o meu cão. neste mundo
de sombras mortas tentamos entender-nos: dou-lhe um biscoito e recebo em troca
um like de sorrisos de verdade – e então canto. canto poesia que não é minha. e
a morte premeditada ligada a um fio terra enrolado ao pescoço – o enforcado do tarot
sou eu – não sou nada neste meu facebook. não sei dar likes com o dedo polegar
para cima. porque estou de cabeça para baixo – não sou feliz. não – sou
verdadeiro na minha solidão
22/03/2017
lobo antunes em braga – livraria centésima página - I.II e III
I.
na hora da conclusão do trabalho nunca pode faltar martelo
e prego – o mestre afasta-se da obra. fecha um olho. inclina a cabeça para um
lado. mira. repete o gesto para o lado oposto. mira de novo. arregala os olhos.
finca os pés. aponta o prego. ajusta os dedos em pressão. atira o braço para
trás. ganha balanço e espaço e… zás. duas marteladas certeiras e a consciência
em paz: venha daí um terramoto que daqui nada abala – sou livro. agora e para
sempre – acredito que o antónio lobo antunes. nos retoques finais dos seus
livros. também sinta necessidade de pregar sempre mais um prego – se o antónio
fosse engraxador. daria aquele remate final de lustro: aquele movimento de arvorar
o pano tingido de graxa. ora vai para um lado. ora vai para o outro. ora mais
depressa. ora mais devagar. para aniquilar o bacilo anti brilho. e agora. um
movimento circular. e o pano a enrodilhar-se num círculo cada vez mais estreito.
tudo de volta ao começo. as mãos a puxá-lo para um lado e para o outro. nos
intervalos deste vai e vem. um lance de
génio: o pano sobe em diagonal. como se fosse uma montanha-russa e de seguida
uma queda abrupta. em força. e o barulho do pano a estalar no couro. trás.
trás. trás – nos olhos. um prazer que nunca percebi de onde vinha. se do
movimento enérgico do braço ou do barulho do pano a estatelar-se no brilho do
sapato – o que seria do brilho do sapato sem aquele estalar do couro – e no
final. quando os pés se aproximavam do chão. os olhos afundavam-se nos sapatos.
lindos. como se voltassem a ser novos. quase jurava que me via no seu reflexo –
mas o antónio diz que é um carpinteiro e. sendo assim. só pode mesmo cravar uns
pregos para garantir que a sua obra ficará para a eternidade – no caso do sr.
antónio. que é um escritor enorme. do tamanho de uma biblioteca. creio que lhe baste
um pequeníssimo prego. uma taxinha finíssima. quase invisível. para garantir. mais
uma vez. que a sua obra perdurará para sempre – este homem é especial. ele não
escreve. ele entrega-nos as palavras ao ouvido. como se falasse apenas para nós
– o eco das palavras a percorrer o ouvido. com uma delicadeza fascinante. e o
corpo arrepiado com tanta amabilidade. mel. graciosidade e por dentro uma
sensação de conforto. de aconchego. a fazer bem. a dar luz a umas quantas
incoerências – e repete. e repete. e repete. e o ouvido sempre à procura de
mais delicadeza. de mais conforto. de mais tranquilidade. com uma atenção que desconhecia
para as palavras escritas. e a repetição no ouvido sem parar. a embalar o corpo
para uma paz que me aperta com carinho – para cada um dos seus textos um milhão
de perguntas por lhe fazer: como se lembrou de escrever essa coisa? o sr.
antónio diz que foi por dinheiro. a pedido de um jornal. e que até nem lhe
tinha grande amor – bendito jornal – eu amo as suas crónicas. fazem-me bem.
distraem-me. fico assim um pouco como a sua tia velhota que. quando lhe
perguntavam porque não tinha TV. lhe respondia: quando fecho os olhos vejo
tanta coisa – poi eu estou igual. quando fecho o seu livro de crónicas. também
passo a ver tanta coisa – mas quando caio em mim novamente. sou invadido por
uma realidade danada – levo um soco no ego. caio para o lado. atordoado. e à
cabeça. o raio de uma pergunta: não sei como ainda tenho coragem de escrever
II.
dezembro de 2012 – chove copiosamente na minha cidade. braga.
mais propriamente na sua sala de visitas. avenida central – estou agora na
livraria centésima página. e tenho a honra de vos anunciar. que o antónio lobo
antunes é muito mais bonito ao vivo do que nas contracapas dos seus livros – entrou
na livraria como um pistoleiro no saloon. passo firme. acelerado. ritmado. sem
desviar os olhos do infindável destino: uma cadeira e uma mesa modesta decorada
com uma garrafa de água – visita a minha cidade para uma
sessão de autógrafos a propósito do seu novo romance: “não é meia-noite quem
quer” – o silêncio foi-se arrumando pela sala ao ritmo das cadeiras que se
ocupavam – os seus admiradores miravam-no de soslaio. como se receassem encarar
de frente o seu ídolo. talvez temessem que. a qualquer momento. ele perguntasse:
-- está a olhar para onde. amigo? toca a andar. desocupe-me o espaço – sempre
foi público o seu mau feitio. coisa de nascença. sorrisos. só quando estritamente
necessário. já nessa altura a sua mãe reclamava: -- só tens interesse pelas raparigas
e pela escrita. ao que respondia: -- existe algo mais importante? por isso não
é de estranhar o seu afastamento seletivo do resto do mundo. nunca foi muito
dado a intimidades com os leitores. e a fama de aterrorizar entrevistadores não
ajudava – sentado. inquieto. ajeitou o corpo. fletiu as pernas. lançou o olhar
para o nada e ausentou-se do mundo à sua volta. assim como quem diz: usem o meu
corpo. mas não abusem da minha paciência – estou convencido de que. para lobo antunes.
a sala naquele momento estava vazia. presentes. apenas ele e os livros interrompidos
nas prateleiras – e ali ficou sentado. a remoer os ossos. de um lado para outro.
como se tivesse bichos carpinteiros. enquanto as mãos trabalhadas descansavam sobre
a mesa. sabiam que. a qualquer instante. teriam de dar início a mais uma
palestra – o sr. antónio fala muito com as mãos – o momento era particular para
mim. pela primeira vez tinha o autor em carne e osso diante de mim. nos livros
já o sentira por perto muitas vezes. agora era diferente. agora podia senti-lo
num único aroma – o momento não era fácil para mim. sentia-me nervoso. agitado.
impaciente por ver o tempo passar sem que se desse início à cerimónia – não
havia alternativa. tinha que aguentar firme. afinal. era um dia único. um dia especial para os seus admiradores. até os
livros interrompidos nas prateleiras me pareciam engalanados de atenções.
bonitos. com as capas a reluzir. tudo edições raras e de autores consagrados. em
destaque a nossa maior obra poética. os lusíadas. ao seu lado a sophia de mello
breyner andresen. como era bonita esta mulher. só a sua escrita supera os seus
encantos. e logo de seguida o meu adorado júlio dinis. quantas vezes chorei nos
seus livros. marcou-me a vida para sempre. ao seu lado o eça. sempre empoleirado
no crime do padre amaro. que loucura de história. o júlio não podia ter melhor companhia.
seguem-se os poemas do eugénio. de uma sensibilidade ímpar. como se pode dizer
tanto com tão poucas palavras. e mais o camilo com aquele bigode inconfundível.
e o saramago empoleirado no nobel. meu deus que loucura. que honra. olha! mais
um que um dia vai dar que falar. o josé luís peixoto. gosto deste homem. já
brilha. e tantos. tantos outros. aos magotes – dos estrangeiros não falo.
afinal estamos na pátria de camões e não é todos os dias que uma pequena
livraria recebe em sua casa um galardoado com o “nobel latino” – o cenário era nobre.
gracioso. não podia ser melhor. o maior escritor português vivo rodeado de
livros por todos os lados – escondi-me na segunda fila tentando passar a ideia
de que estava por ali apenas pelo mau tempo. chovia. passava à porta e pensei: “aí
está um local agradável para me abrigar da intempérie. voilá” – nunca gostei de estar na primeira fila – certo dia.
contaram-me uma história curiosa sobre a entrada em cena dos atores: dizem que quando
sobem ao palco tentam perceber que tipo de público está na sua presença. dão
dois passos em frente. dobram-se em vénia. e colocam os olhos na primeira fila.
conforme levantam o corpo. em movimento lento. olham
para as últimas três ou quatro filas. o que sobra. no meio. é a plateia comum – aqui está o dia perfeito para confirmar a teoria.
espero bem que não me tenham enganado e que o sr. antónio me considere parte
desse povo. sentei-me na segunda fila – a sessão
abriu com a intervenção do responsável pela editora. recheada de amabilidades
perfeitamente dispensáveis – mas o protocolo é para cumprir. felizmente. logo perceberam
que o melhor era entregar a palavra ao convidado – começou a roçar o corpo na
cadeira de um lado para o outro. enquanto as palavras saíam a custo. um gaguejo
tranquilo para ali e logo outro para acolá. depois. um silêncio que parecia uma
eternidade. e tudo num vagar de assustar. e lá chegava outra palavra. outra
ideia. e os fãs a baloiçar na entrega. e mais uma palavra. e mais um silêncio e
as dúvidas a crescer na plateia: será que o homem quer mesmo falar para estes tontos?
e o emudecimento a ganhar distância. as palavras cada vez mais espaçadas – o
silêncio crescia atabalhoadamente. abafado apenas pelo barulho da chuva no
exterior. chove a cântaros na minha cidade – só as palavras não chovem – por
momentos fiquei convencido de que o autor iria sair como entrou: a galope e aos
tiros para o ar. os pistoleiros são assim – mas não me importei. e disse para
mim mesmo: se não falar com a boca. fico-lhe com os gestos. com os olhos. com
os tiques. com a cor das mãos. da pele. afinal. não é todos os dias que se tem antónio
lobo antunes na cidade – mas aos poucos as palavras começaram a cair-lhe da
boca. como se descobrissem que estava na hora de tomar a plateia – e eu ali. estarrecido
de medo. babado. doido para não perder uma única sílaba. com a cabeça dobrada
para a frente. todos queriam ser os primeiros a agarrar as palavras. e os olhos
esbugalhados de tanta excitação e por dentro uma sensação de orgasmo. quente.
com o coração a bater num tic-tac frenético. um contentamento estranho. louco.
maravilhado. e a pergunta: porque não fiquei na primeira fila? e ali estava eu
com o meu corpo estátua. completamente paralisado. perdido entre a imortalidade
dos deuses e a gratidão eterna por existir aquele momento – só os olhos lhe seguiam
as mãos. tudo o resto é paralisia. e não se irritam os deuses – enquanto a
chuva amainava. as palavras caíam-lhe da boca em enxurrada. afinal. havia uma
razão para o mau tempo na minha cidade – finalmente. tínhamos lobo antunes ali.
o corpo atirou-se definitivamente para cima da mesa. estava agora ainda mais
perto de mim e eu sem receio de o olhar naqueles olhos translúcidos. livres. bonitos.
amenos. feitos de um silêncio-solidão-doce – só quem fala conhece o verdadeiro valor
da palavra – os lábios. sem descanso. falavam agora desconcertadamente. contorcendo-se
de prazer. numa cadência harmoniosa. com paixão. com gosto. com ternura. com
entrega. gratos ao momento – a vida é feita de momentos. alguns ficam guardados
para sempre. outros. nunca se fazem palavra – e não se cala. a voz em inflexões
subtis alerta: ouçam bem. esta parte é importante. e os afetos. finalmente. ali.
ali à minha frente. a tocarem-me por dentro. e pela primeira vez senti um
sofrimento que dói. mas não é dor. é um desconforto feliz. uma vontade de
chorar por não lhe poder dizer: eu já senti isso. eu já passei por isso. eu já
fui assim. eu já quis escrever isso. afinal também é um de nós – e eu. que pensava
que era extraterrestre – finalmente. senti um silêncio bom. pacato. sereno. a
plateia em ar de graça entregou-se ao autor sem medo – havia uma espécie de
bonança. a tempestade perdeu toda a sua força e os sorrisos do autor estavam
sem dono. eu guardei um só para mim – este homem é imenso e eu ali de braços cruzados. a olhar para
tudo que é dele. com um ar sério-doce. sério-aceitação. sério-bondade.
sério-fraternal. amigo. camarada. sério-triste também. até o casaco estava triste. pingado. amarrotado.
talvez da vida. não sei. que mais poderia fazer pingar um casaco tão especial. não
creio que lhe faltassem outros casacos. acredito. sim. que todos os casacos.
quando lhe caem nos ombros. ficam pingados. possivelmente. pelo peso das
palavras que carrega consigo
[tenho o sentimento de que neste texto ainda falta mais um prego. enorme.
capaz de segurar o prosista]
III.
lobo antunes diz apenas o que é estritamente
necessário. com classe. com ritmo. com as palavras a encaixarem umas nas outras
como legos. e tudo com aprumo. com vida. com ruas conhecidas. com “merceariazinhas.
lojecas. cabeleireiros pequenos. uma constelação de restaurantezitos.
sapateiros. costureiras. capelistas onde não habitam pessoas ricas” – fala do
presente. do passado. fala de si como é hoje. e também como foi na juventude. dos
dias em que ia para o hóquei no benfica. e os cigarros às escondidas intercalavam-se
com poemas rascos [diz ele]. e o leitor enlouquecido por esta escrita generosa –
só queria ficar-lhe com o casaco. deve guardar nos bolsos mil e muitas palavras
– sou um péssimo prosista. ele é genial – sou um mau contador de histórias.
queria ser melhor. muito melhor. queria saber escrever tudo exatamente como
sinto – o sr. antónio. está sempre tão
triste. sempre a dizer que é feito de silêncio. e que é necessário encher os
livros de sossego. com aquela “fininha melancolia do jorge barbosa”. como se
chamasse a nostalgia para dentro da leitura – a tristeza dele ao escrever. é a
nossa alegria ao ler – fico ali a sentir os ossos a doer. com as palavras
enroladas no corpo. a chamar pelo passado. e os vizinhos dele tão iguais aos
meus. as ruas com as mesmas casas. o mesmo abatimento nostálgico. e o cigarro
dele a lembrar-me do meu. escondido. aceso no bolso das calças. enquanto o meu
pai me dava uma reprimenda por fumar– só não tinha o benfica ao pé de casa. nem
ia para o hóquei em patins como o antónio. mas tinha uns patins que o meu pai me trouxe da
itália – nunca fui um grande amante de rodinhas nos pés. iam depressa demais para
o meu equilíbrio. e para que serve ter rodinhas nos pés se nenhum dos meus
amigos as tinha – jogar à bola nos passeios da rua era a solução. aí sim. todos
estávamos ao mesmo nível. as ponteiras dos sapatos esfoladas dos chutos que
começavam pela manhã e só acabavam à noitinha. com a minha mãe a prometer-me
uma carga de porrada pelos estragos nos sapatos de domingo – depois. aquele ar
no sobrolho carregado. o corpo inclinado para a frente. a dar ideia de que. a
qualquer momento. se levanta e parte da mesma forma que chegou. com ar de
pistoleiro. em silêncio e triste. como as noites que não me deixam encontrar o
descanso – a mão estendida a fumegar alcatrão pelas pontas dos dedos. raio de
vício sr. antónio. e a outra apegada ao pensamento braceja em todas as direções.
e a boca ali parada. nem respirava. como se não soubesse onde escondera as
palavras. e eu atrás da mão por todo lado à espera de uma magia – o sr. antónio
é mágico – há frases que só ele sabe compor. mas finge que não sabe – primeiro silêncio.
depois parece que vai falar. as palavras nos lábios. a saltitar como pipocas. mas
não. engole-as novamente – e eu ali a dar conta de tudo. as palavras a regressar
ao estômago. e mais uma volta. sente-se na face todo o processo de fabricação.
e os olhos a olhar em direção ao nada. não existe nada no chão. e silêncio.
mais uma volta na cadeira. para dentro de si. o corpo mais pequeno. as palavras
a dar voltas. e eu ali. à espera de ser baleado por uma rajada de palavras. não
matam. mas avivam a cor dos olhos. os meus parecem faróis – e o sr. antónio
ali. como se a vida fosse unicamente a sua presença. e eu morto de medo – quem
é que não tem medo de um homem que escreve com um olho aberto. a tomar conta de
quem o escuta. e o outro. meio fechado. a olhar para dentro de si. como se
houvesse um túnel para outro mundo. o dos dinossauros – talvez seja mesmo isso.
ele é um dinossauro da literatura. todas as palavras são fabricadas sem prazo.
são eternas. “einstein na sua teoria defendia que a noção de tempo não podia
ser reduzida ao tempo cronometrado. visível nos relógios. e que a ciência exata
e o racionalismo não eram as melhores ferramentas para compreender a realidade”.
exatamente o que sinto ao ler os seus livros. perco a noção de tempo. e a minha racionalidade fica comprometida – e
mais uma volta à cadeira. e a sala parece pequena com aquele homem imenso. o
corpo ocupa tudo o que quero ver. só ele e as suas palavras existem. tudo o
resto é vácuo – apetece-me chorar – e mais uma palavra. e mais um livro lido na
juventude. eu não li. que vergonha. e outro. e também não li. e o sr. antónio a
olhar para a cadeira vazia a meu lado. e eu a pensar: ainda bem que não me
sentei ali – que seria de mim se estivesse ali sentado? logo eu que não sei
nada de literatura – silêncio. e lá vem os camaradas de guerra. “bonitos que se
fartavam”. com aqueles quicos nas cabeças. a valentia. os sorrisos. “os
cigarros enrolados”. homens para toda a vida moldados numa áfrica quente. com cheiro
a terra queimada. cheiro a vida. como se houvesse uma fogueira onde se queimavam
vidas. e a G3 a disparar balas que mataram a juventude para sempre – as balas
não sabem os nomes dos camaradas de armas. mas ele sabe. ele lembra-se de todos
– o nosso lobo antunes nunca erra. sabe tudo da arte de escrever – escreve-as seguidinhas. direitinhas.
bonitinhas. a dizerem tudo. e tudo como se fosse na minha rua. às vezes. até dentro
de mim – confesso que. às vezes. até se me arrepia a pele. fico com a sensação
de que nasceu com as palavras viveram dentro dele – não deve ser fácil para as
palavras viver dentro de um homem que lhes conhece todos os segredos – as
palavras não me têm respeito nenhum. sabem que não as conheço como um
verdadeiro escritor. e que nunca serei capaz de as usar como o sr. antónio –
sou muito franzininho. cedo percebi que os meus ossos não suportariam o peso
das palavras difíceis – as costas não foram talhadas. na mocidade. para grandes
cargas. e qualquer sinónimo mais puxado deixa-me esbaforido – já não cresço
mais. exceto o cabelo e as unhas – o cabelo comprido não me fica bem. quando
cresce mais um bocado. revira-se nas pontas. desequilibra-se. e cai sobre a
testa e tapa-me o olho direito – tenho impressão de que este meu olho é o único
que conhece as palavras – com o cabelo grande deixo de escrever. talvez
descenda de sansão e. ao contrário dele. a minha força dependa de ter o cabelo
cortado à escovinha – já das unhas é diferente. não gosto de as ver grandes
porque na minha juventude. o lúcio. que por sinal também usava cabelo comprido.
nunca cortava a unha do dedo mindinho e. de quando em vez. metia o dedito na
orelha. num gesto rápido. circular e certeiro. removia sempre uma palavra
difícil – envelhecer é terrível. que o diga o sr. antónio que. com o seu mau
feitio. despacha os gerúndios mais rápido do que a padeira de aljubarrota
despachava os castelhanos - foi uma
tarde memorável. ouvi-lo é um doce – quando damos conta do tempo. já não chove
na minha cidade. e também já não há lobo antunes
deambulações noturnas XV
e
pronto. passei a noite toda a
remexer nas memórias – mas o mais cruel é que nada do que encontrei pôde ser
alterado – não percebo para que guardo tanta tralha – vou ter que me limpar.
custe o que custar – mas confesso que não sei por onde começar
21/03/2017
espelhos
úlceras
estrábicas separam
palavras
lentes
de aumento
arremessam
os amigos
palavras
pequenas
juram-se
nos outros
ao
espelho
onde
a luz se segura
em
cristais
uns
e outros
decifram
o reflexo do mal
o
espelho. forjado pela imagem
gira
tudo o que lhe surge
meus
amigos leem de pé
os
outros
de
pernas para o ar
20/03/2017
dia do pai - 2017
em memória.
guardo o meu primeiro desejo como adolescente - ser pai – ser pai. na altura.
não compreendia bem de onde viera esse desejo - passei muito tempo sem entender
e. confesso. sem lhe atribuir grande importância - fui pai muito novo e. assim.
pensei ter colocado um ponto final nesse assunto - hoje. depois de mais um dia meu.
e do meu pai. a memória voltou e. em forma de prenda. trouxe-me de novo esse
sentimento iluminado e a sua resposta - muitas vezes. precisamos envelhecer
para alcançar a sabedoria natural do mundo - os meus filhos são a única razão
da minha vida. não houve um único dia em que não fosse grato à sua mãe pela sua
existência - são a minha maior afirmação na vida e a única que me enche de orgulho
- são homens fantásticos. bons. leais. honrados. homens de família. determinados
a enaltecer a justiça nos comportamentos - tenho a certeza de que também serão
bons pais – tê-los reunidos neste dia lembrou-me. mais uma vez. que ser pai é
para sempre – foi um momento de grande alegria e gratidão ao destino – já não
sou um homem de muita fé. mas se realmente existir esse deus em que um dia
acreditei. e se estiver enganado. que me perdoe. mas não se esqueça de os
proteger
13/03/2017
medo
se as
mãos não me tremessem. talvez o medo nunca soubesse que existo – e. quem sabe.
as palavras nasceriam mais íntegras aos olhos de quem as lê
12/03/2017
2 - há um dia em que despertamos e dizemos:
II.
e aqui estou.
completamente desacompanhado neste lençol do qual me recuso a desprender-me.
entrevado em razões que não consigo explicar – enrodilho-me. eu e o lençol numa
cumplicidade platónica. amante. doce. num silêncio que não é mais do que o
mundo sem humanos. sem erro. sem punição. sem preconceito. e principalmente. sem
competição – eu destapo a alma. ele tapa-me o corpo. eu praguejo. ele dá-me
serenidade. eu desisto. ele insiste na vida. eu esqueço-me de mim. ele
lembra-me que a farsa só é contrariável quando permanecemos nos olhos do mundo
– felizmente ainda sei que só este meu corpo magoado dá existência ao lençol –
acabou o gigantismo. não mais crescerei. matei a hormona. estrangulei-a.
decapitei-a da ambição. fiz acontecer a morte a um corpo ainda a viver.
finalmente – agora estou em desesperança. num silêncio resignado. humilde.
submisso. pesaroso. em forma de perdão à expectativa – com o tempo dissipará
todas as lembranças. a fé toma a dimensão da realidade e a aceitação da desventura
será apenas um lamento baixinho: esperávamos mais – nesse dia restará apenas o
nome. somente um nome singelo. sem imagem. sem boca. sem gestos. sem confiança.
será só uma lápide – será no desconhecido que encontrarão a totalidade de mim –
revolvo-me mais uma vez e peço compaixão. suplico uma horinha rápida. estou
prenho de morte. prometo ao desconhecido que não volto a reencarnar. aceito o
inferno como última morada – contorço-me. eu e o lençol. agonizamo-nos.
amarguramo-nos. torturamo-nos. enquanto o lamento. em desespero. pede à boca
para gritar perdão em voz que se faça ouvir pelo mundo – as mãos furibundas
enrodilham o cérebro com o que resta de apego à vontade de viver. sufocando-lhe
o desvario para a eutanásia – viro-me para um lado. depois para outro. e mais
outro. e o amanhecer. sem acerto. e reviro-me outra vez e nada dá certo. o
lençol cada vez mais amarrotado – afinal tudo estava errado. a saliva a cair-me
pelo canto da boca encharca o travesseiro de um pegajoso arrependimento – tudo
tão real. tudo tão perfeito na imperfeição – era capaz de jurar que estou a
sonhar. mas não estou. sei que as mãos tremem. os pés destilam ira num lençol
gelado de morte. o branco já não é branco. nem cor. enquanto os buracos das
persianas projetam na parede as duas faces da vida: um quadriculado de luz e
sombra – eu preso atrás de uma parede inútil. que não serve nem para pendurar
um quadro do meu passado – raio de penumbra cruel – escondo-me de mim e ofereço
à miséria as mãos encaixotadas num nada que me asfixia o afeto – e a contagem
sem acerto possível. o deve e o haver paralisados de tragédia enquanto os olhos
se contorcem entre sorrisos e lágrimas – olho para o relógio e assisto a um
infindável movimento dos ponteiros. lento por não ter os segundos a correr –
relógio que não dá horas. nada anuncia do destino – espero um dia acordar e
dizer: não me enganas mais com promessas. não me enganas com nada. nem que me
ofereças um ramo de flores com o perfume de um poema de herberto – “eu sou
uma vida com furibunda melancolia, com furibunda conceção” – para a frente
já quase nada. tudo lento. para trás. tudo feito numa amálgama de coisas que
mais parece um abraço de apertos – e por aqui fico em partes do tempo que não
compreendo e não sei explicar – se pudesse explicar-me. seria apenas mais um de
vocês
















