30/03/2018

silêncio


pintura - gpttfried helnwein 



quando o silêncio me segreda

as memórias do passado vozeiam

bradam. esperneiam

e eu. sem forças. e até porque preciso

espero pelos demónios

sem lagrimas

ouço o passado sem certeza no futuro

silêncio…

justifico as minhas razões

e amo...

[me]. [te]. [vos]

volta a confusão...

a paz espreita…

volta o silêncio

volta a dor

volta a loucura

 

há dias em que o silêncio mata



27/03/2018

deambulações noturnas XXVII



inês dourado



por mais escura que encontre a noite. por mais sofrimento que me traga.  por mais que me invente para não ser o que fui.  há uma coisa que a maldita noite [sei] nunca me traz: asas – ou se nasce com elas. ou não se nasce – escrevo


24/03/2018

beijos brancos


gilberto de abreu



...de nuvem em nuvem
caminham mil beijos vestidos de branco

- para ti -

quando chegarem não te assustes
disse-lhes para te vestirem dos pés à cabeça
um deles. o mais especial. dir-te-á ao ouvido:

   - gosto muito de ti -



23/03/2018

clarice lispector - a hora da estrela



clarice lispector



"Sim, minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem das grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite."


22/03/2018

palavra do poeta



o poeta - roger-de-la-fresnaye



tenho dias que sem saber escrever

encontro um sonho para contar

dias em que nada sou sem a utopia

daqueles que me impelem a escrever

são os mestres. os poetas

donos da proficiência de domar letras

e interrogo-me

como seria se apenas eu escrevesse?

seriam letras sozinhas. chorosas

moribundas do desgosto

despidas de emoção

da pureza das ideias

letras privadas do contraste das cores -

e o amarelo. seria verde?

não sei. sei que

o florir dos campos

seria searas

ceifadas em campos vazios de saber

onde os pássaros voariam

apenas baixinho

e o poeta?

poderá ele morrer

sozinho entre palavras que nunca atracaram?

palavras azedas. onde o pólen

nunca voará

palavra que é palavra

veste-se para ser ouvida

acarinhada. açoitada

maltratada. amada

riscada. desenhada

ou apenas um aceno

no coração de quem precisa

palavra honrada será sempre de todos

desde que traga com ela

o orgulho de camões

a nós. contadores de histórias

compete-nos somente

mantê-las virtuosas e belas




19/03/2018

o dia dos meus filhos



foto - arquivo familiar


hoje é o dia dos meus filhos e também é o dia do pai deles. vejam só. também é o meu dia – sempre desejei este dia. sempre quis ter um dia partilhado com os meus filhos – não se pode ser pai sem ter filhos – sei que crescer pode ser muito doloroso e às vezes pergunto-me: que mais poderia fazer para ajudar os meus filhos a crescer [mais] felizes – não sei. não sei mesmo – sei que um pai sempre achará que nunca fez tudo o que estava ao seu alcance. nada nunca parece suficiente quando se trata dos nossos filhos e da sua felicidade – mas que me perdoem os meus filhos por cada erro em que não deveria ter falhado – quero que saibam que tudo o que fiz foi por amor. o mesmo amor que me juntou à sua mãe – com a nossa história de amor vieram vocês – e foi tudo tão planeado. tão sonhado. tão infinitamente bom saber que vinham perpetuar a nossa existência – vocês serão sempre a única razão para existirmos – mas é todo este amor impossível de escrever que me leva sempre a mais uma questão: será que um pai tem perdão quando erra por amor? não sei. também não quero perdão. pelo vosso bem-estar eu posso com o mundo todo às costas – acreditem. vocês nunca nos pesaram – por isso. neste dia que é nosso. o que vos peço. humildemente. não é o vosso perdão. peço-vos apenas a vossa compreensão. tudo que fiz foi escolher o que me pareceu ser o melhor para vocês – sei que errei em milhentas coisas. errei por excesso. errei por defeito. errei porque vocês são demasiadamente preciosos para vos ter a meu lado tristes e infelizes. errei porque sempre quis ser pai e pai. perdi-me na minha tentativa de perfeição – mas um pai para envelhecer em paz só precisa mesmo da vossa compreensão – tudo fiz para que vocês fossem pessoas felizes e independentes – hoje já pouco ou nada depende de mim. vocês cresceram para lá das minhas mãos. estão enormes. são homens bons. como o avô. são dignos. são justos. são educados e. mais do que preparados para serem cidadãos honrados. estão prontos para serem pais – nunca se esqueçam de serem pais com os vossos filhos – vocês são todos fantásticos. são todos diferentes. mas todos nossos. serão sempre nossos – para este nosso dia existir em pleno. bastava que o vosso avô descesse do céu para nos abraçar – tenho a certeza que isso não será possível. mas é possível recordá-lo e dizer que o melhor capítulo da nossa história começou com ele – ele era especial – mas se de alguma forma nos estiver a ler. já que os desígnios de deus são insondáveis. quero que saiba que sentimos imensa saudade. muita mesmo. e também quero que saiba que nos faz muita falta e hoje o dia também é seu – um dia voltaremos a abraçar-nos. tenho a certeza – obrigado aos meus filhos por me imortalizarem com este dia – não desperdicem nem um segundo da vossa vida. sejam verdadeiros e confiem no triunfo da verdade sobre a mentira. tenho a certeza de que a vida vos há de recompensar –  não deixem nada por fazer – procurem os sonhos e acreditem. sempre – um homem sem sonhos é apenas a sombra do que poderia ser – feliz dia para nós todos


18/03/2018

matrioska das mágoas



                                                                        frida-khalo


mantenho-me acordado e enrodilhado em mim. recuso-me a dormir. fixo o relógio e hipnotizo-me com o bater do coração – não tarda nada nasce o dia – mergulho na imaginação. e revolvo-me mais uma vez à procura do que nunca encontrei. atiro o corpo de um lado para o outro e mantenho-me esperto. só o cansaço me dobrará – sussurro para ter a certeza de que estou acordado. não quero ser sonho. tenho medo dos sonhos. sobretudo dos felizes – às vezes. acordar é perder tudo. mas mesmo assim. preciso de dormir e esperar qualquer coisa boa – o vento corre veloz pelas frinchas e as portas replicam-no em mais barulho. estremecem imitando gente a sair. só a sair. porque não ouço ninguém a caminhar em minha direção. faço silêncio dentro do meu silêncio. escuto o pavor em mim e no vento. arrepio-me. e a pele que me cobre lamenta-se de tudo. é um tudo que desconheço e que me ocupa o quarto todo – fico inquieto e. como não sei rezar. protesto contra o divino. se soubesse talvez o fizesse. mas não sei. estou por minha conta. sempre estive por minha conta. nasci e cresci por conta do que sou e tornei-me senhor de todas as noites – cansado. resisto. agarrando-me ao luar intermitente que trespassa os intervalos da persiana. resgato-me da escuridão. a luz do luar é tudo o que me resta para sobreviver. e logo hoje que é lua minguante – estou esgotado e desapareço de mim a cada noite que passa. não gosto do que guardo no corpo. pesa chumbo. pesa morte e pesa dor – volto-me. volto-me sem parar. reinvento soluções para o que não as tem – distendo-me num espasmo espontâneo. os tendões estalam e o corpo altera-se entre o medo e a resignação. se o coração encravar que se lixe – a noite é cada vez mais desumana – o corpo amarga. remorde-se vezes sem conta e a alma que sente. cada vez mais acordada. faz justiça pelas próprias mãos: mata uma mágoa – mas logo encontra outra ainda maior. tal como a matrioska russa. as mágoas nascem umas dentro das outras e. quando uma desaparece. há sempre outra maior a chamar-nos pelo nome – respondemos presente. um homem não se acobarda. morre de pé como as árvores e também que importa mais dor ou menos dor – nem sempre se grita com a estropiação – e mais uma volta na cama e as voltas do corpo são as voltas da vida. de dia e de noite tudo igual. tudo incerto. tudo a magoar e a balança tombada para o lado que não entendo – o passado não é piedoso. o que guarda nunca se alterará – quero dormir. fecho os olhos. mas não consigo fechar a memória. rebolo-me de um lado para o outro e não me encontro em nenhum dos lados. estou só. completamente só e sem uma única palavra para me confortar – a memória consumida à medida do meu desespero. respiro a antecâmara da morte. sufoco. o coração aperta e os pulmões recuam. barricam-se na escuridão. e o ouvido já não quer socorro. quer silêncio e uma mão para não morrer sozinho de tudo – estendo a passadeira negra para o mal que me tocou. abro a porta do inferno e passa o impossível. logo atrás. a descrença e a injustiça entram de mãos dadas – por fim. vestida de negro. a renúncia. e comigo. o fim do mundo – e o travesseiro vazio implora por uma cabeça que não pense. porque não há dor maior do que uma cama sem sono



14/03/2018

mulher – [minha]



foto - arquivo familiar


sempre que encosto a cabeça perco-me em ti – é então que deixo de ser e me torno teu


13/03/2018

o ofício da palavra


pintura - jean-michel folon



a escrita:
são encontros de palavras
ordenam-se por interesses
comunicacionais

melieiro. o escrevente
exorna com:
traço
aprumo e labor

uma panóplia de
enxertos requintados
esteticismo em apelo
ao regresso das artes

acaba a coluna em:
galanteios ao leitor
um apelo à paixão
imortal



11/03/2018

a noite e os pássaros de ruy belo



gustavo rosa


é noite. vagueio. vagueio por ruas que aos poucos se fizeram minhas – vagueio porque é noite escura e sei que depois de uma noite escura nasce a luz. e com a luz renasce a esperança. e sempre que há esperança os “pássaros de ruy belo voltam a nascer nas pontas das árvores” – é noite. é março. e é inverno em todo o mundo. em mim também. as noites estão cada vez mais escuras e eu sem saber o que fazer com tamanha imensidão de negro – é noite. vagueio porque o corpo continua a mendigar fé. continua a suplicar luz. e esta só chega quando as manhãs brilham com o canto dos pássaros – com a escuridão. não se veem as árvores. e sem árvores não há pássaros. e sem pássaros “as árvores não cantam” e nem a primavera se cumpre – o que faz um homem sem primavera? não sei. sei que “amo as árvores principalmente as que dão pássaros” – pergunto. o que é feito das minhas árvores e dos meus pássaros? calaram-se como se me cala o coração – dizei-me vós senhor. que sois o dono de todas as coisas do mundo. dizei-me por que razão me levaram as árvores. dizei-me uma palavra e sei que serei salvo – agora. senhor. em que mundo cantam os meus pássaros? em que mundo senhor? – se na noite o silêncio me cura. a luz que me entregas faz-me morrer como morrem os dias de inverno: frios. escuros. sozinhos e sem um único pássaro – deixa-me poisar na noite como se fosse um pássaro e quando te encheres de mim deixa-me cair nos teus braços. pois tu sabes. tal “como pássaros. poisam as folhas na terra quando o outono desce veladamente sobre os campos” – vagueio triste. desgostoso e amargurado. vagueio comigo. sozinho. com o passado num relógio a bater o seu termo. e a vida escorrer-se devagarinho. segundo a segundo. olho-me para matar saudade e não me encontro. já não me lembro de mim. tenho saudades de ouvir os meus pássaros. acordar com o doce sabor da primavera mesmo que os campos se cubram de medo e geada – não quero morrer distante de quem fui. não me posso esquecer das minhas gaivotas e de todas as árvores que dão pássaros. não posso. ainda necessito de saber “quem é que lá os pendura nos ramos? e de quem é a mão. a inúmera mão?” – e o corpo parado em março como se fosse outono já a anunciar inverno. e nem um único pássaro a nascer neste mês de morte e primavera – as árvores sem pássaros é silêncio que mata – só este meu abandono me ocupa com coisas que não servem para nada – imobilizo-me para ouvir aquilo que não digo. o coração bate. ouço-o. ouço-o para ter a certeza de que existo. e ele bate para se fazer sentir no mundo – não existe mais nada entre nós a não ser o bater estardalhado do coração e o silêncio do corpo. e o mundo despido de tudo o que é meu – “gostaria de dizer que os pássaros emanam das árvores” tal como eu emano do nome com que me batizaram – faço de conta de que não estou onde estou. sorrio secretamente. trinco os lábios enquanto o corpo se mutila num futuro que começou no dia anterior. e encolho-me até que o corpo volte à posição fetal. escondo-me dentro de mim porque fora já não existe nada – até os pássaros de ruy belo partiram. foram ter com o poeta – perdoai-me senhor. perdoai-me se não encontrei no corpo os desígnios da tua palavra. perdoai-me por não nascerem pássaros nas minhas árvores. mas sabes. não sou poeta e só os poetas são capazes de domar as árvores. só os poetas sabem falar com os pássaros. e só “os pássaros fazem cantar as árvores”. eu não sou nada. não tenho árvores que dão pássaros. não tenho nada senão o que sobra de mim. e isso já não é nada – “eu [apenas] amo as árvores. principalmente as que dão pássaros”

 

este texto faz referência a algumas passagens sobre pássaros e árvores do poeta ruy belo. devidamente identificadas ao longo do texto



02/03/2018

por quem dobram os meus sinos



imagem - google


leio a biografia de ernest hemingway e assisto à sua dor numa contemplação silenciosa e serena – interrogo-me. como seria eu se tivesse nascido em mil novecentos e sessenta e um? e se tivesse nascido na américa? e se trocasse a minha coca cola zero por álcool e nele me afundasse? e se a guerra infindável da minha escrita se fizesse um dobrar de sinos por mim? não sei o que seria. acreditem. nem sei bem o que é que me leva a escrever este texto maluco. afinidades. creio – hoje. com o hemingway por perto. estou convencido de que se fosse possível cavar um buraco a partir da minha terra ele daria na américa. chegado lá. só teria que comprar uma arma para matar as palavras todas. não as que escrevo. porque essas já nascem mortas. as que me habitam a cabeça e que me enganam com esperança – estamos em dois mil e dezoito. março. às portas da primavera e do inferno. e eu num ato de contrição: por minha culpa. máxima culpa vos escrevo. não o que trago na cabeça. mas o que me falta nas mãos – sossego. afinal. nunca saí de onde estou. sou desta terra de portas abertas e que tudo vê tudo por um canudo. finjo-me morto e entrego-me ao pensamento até que uma voz me resgate de volta para o barulho do mundo – morrer não é uma chatice. mas um desígnio que compramos e nos permite nascer. só não nos dizem o dia em que partimos. apenas nos iludem com tempo. como se o tempo fosse uma equação simples de calcular. não é. nem sempre viver cem anos é melhor do que cinquenta – viver é conduzir numa autoestrada em hora de ponta a duzentos quilómetros por hora. fazer dois piões. entrar por uma galgueira. andar em duas rodas. evitar trinta e três acidentes enquanto falamos ao telemóvel e sorrimos para o retrovisor com desdém porque o que fica para trás já não nos serve para nada – ninguém quer saber o que fizeste. só o presente constrói futuro – quando damos conta chegamos ao destino meia hora mais cedo com a sensação de que o mundo está todo atrasado – estamos no nosso velório. e já ninguém nos espera. louvado seja o senhor

 


28/02/2018

deambulações noturnas XXV



pintura - fábio magalhães 



neste quarto onde deixei de me admirar já pouco ou nada é meu. talvez alguns livros por ler e muita vida por aprender – mas sei que será este quarto que não me viu nascer. que um dia me verá morrer


14/02/2018

vai. mas será que vais?



pintura - salvado dali


não desistas corpo notívago. vai atrás do que é teu. vai. corre muito. corre como correm clarões em noites de tempestade – vai. vai por esse mundo imaginário e inventa-te em marte. por lá. tenho a certeza de que há lugar para ti ainda que te tomem por extraterrestre – não te zangues. verás que um dia serás mais do que a tua imaginação. mais do que intuição. mais do que aquilo que escreves nas entrelinhas. serás das ruas com gente a correr de um lado para o outro. dos carros a apitar movimento. dos maus a fugir dos bons. das sirenes a zumbir cuidados. e dos tolos. meu deus. cada vez mais tolos a fugir dos que ainda não são tolos – o mundo esticado ao centímetro quadrado. o corpo esticado ao centímetro quadrado. a alma esticada ao centímetro quadrado. a fé esticada ao centímetro quadrado e a incerteza parada em cada centímetro. e o quadrado enfeitado de malmequeres brancos desenha uma janela que grita: há mais mundo para além do teu medo – sou tanto. tanto para dar e tanto por fazer – mas vai. vai por esse mundo fora. corre. corre muito porque marte é longe e o teu coração já não é novo. vai. vai que a fé já foi à tua frente e a vida está pela hora da morte. dobra-te na tua cruz e ora ao teu deus que por ser teu é o deus de todos os deuses. vai. vai em sinal da cruz porque só na janela há esperança. a morte é negrura. às vezes solução. mas sempre solidão – um dia. os néons deixarão de piscar possibilidades que não te cabem nos olhos. os bons nunca mais fugirão dos maus. as ruas correrão atrás das pessoas e os tolos distribuirão malmequeres pelos não tolos – ó meu deus. porque será que quando vou nunca saio de onde estou? talvez o mundo seja maior do que uma viagem a marte. talvez não consiga voar no espaço como voam as gaivotas no mar. talvez seja quase do tamanho do nada. e tudo que é nada nunca deixará de ser nada. talvez os pés sejam minúsculos e lentos a caminhar. as mãos atrofiadas. o corpo mirrado. corcunda. feio. tão feio que ninguém me quer olhar. nem deus – talvez seja tudo. ou apenas só eu – mas vai. parte com coragem. faz-te ao tempo interstelar. inventa ventos meteóricos. queima a rosa dos ventos e rasga todos os azimutes convergentes com a desgraça. abre a janela ao espaço sideral e grita o teu nome. grita como um selvagem. grita como se o grito fosse a tua história de vida. grita como canta a cigarra em noite de cio. grita como geme a corda saudosa na guitarra do fadista – vai. vai e despe a raiva para trás das costas e atira-te ao espaço em silêncio e luta. luta por ti e por aqueles que te deram vida e se morreres. morre de sorriso na boca porque o que não tem remédio remediado está – afinal és apenas um mortal numa galáxia empanturrada de desejos – vai. vai vertical pela noite. vai. rasteja pelo dia. mas vai. vai para onde te possas encontrar



21/01/2018

eu e: a vida


pintor - miguel ângelo




10.    eu e a vida

viver é consumir o tempo da vida. nada mais


eu e: a minha circunferência


pintura - gaetano cresseri



9.    eu e a minha circunferência

quase tudo por dizer e eu perdido entre um quarto quase quadrado e o instante nove – perdido ou não. será neste quarto quase quadrado que continuarei a procurar a essência das coisas em mim – busco o autoconhecimento e procuro em todas as coisas o que elas realmente são – reflito com cuidado. aceito-me com incertezas e afirmo-me como um ser que é como é porque a verdade não me deixa ser outra coisa para além do que sou – penso. sou único e indivisível mesmo quando a minha consciência se divide entre a verdade das coisas em mim e a verdade das coisas fora de mim – sou uma existência metafísica e procuro explicações em toda a humanidade e. com lucidez. brio e bondade. talvez aprenda a compreender a minha verdade mesmo que não seja absoluta – é com esta carência estrutural que me busco incansavelmente porque tudo o que sou está dentro de mim; procuro-me para além do que sinto. procuro-me porque tudo o que sinto não sei se é verdade – e assim digo. como ser racional: sempre acreditei que para que a verdade fosse realmente verdade bastasse sentir. já que tudo o que sinto parte de dentro de mim e eu não posso ser mentira – mas não. não chega. o que sinto nunca chega para que a [minha] verdade se torne suprema. logo. inalterável no tempo e em mim porque todo o tempo é absoluto e uniforme – juro que não quero ser mais nada do que sinto. tudo que procuro em mim é a verdade em todas as coisas assente no padrão da minha universalidade – procuro. procuro a verdade em tudo que sinto porque a quero como a única verdade dentro de mim e fora de mim mas confesso. temo não a encontrar. a vida nem sempre tem método e coerência. se tivesse. não sentiria o que sinto – sei que é na partilha do que sinto que a minha verdade colide com a verdade do que os outros sentem. mas não posso calar. não posso ignorar o apelo da minha verdade para se tornar universal. só com esta verdade serei eu dentro ou fora de mim – às vezes excluo-me. recuso-me a fazer parte das iniquidades. cego-me. escondo-me em mim com tudo que sinto e desapareço sem tempo para voltar. mas em momentos mais nobres. atiro-me para o coração do mundo e faço justiça com as palavras. magoo-me e sangro a raiva de tudo que não quero sentir – nunca sei se o que sinto é a verdade eterna ou apenas a verdade no momento – talvez não exista a verdade absoluta como também não existe meia verdade. talvez tudo não passe de um embuste do criador para me convencer de que só como ser divino atingirei a plenitude da vida e é obra dele tudo o que sinto e também o que não quero sentir – seria apenas uma criatura de deus. um ser vivente criado a partir do pó da terra e do barro. missionário da fé e da sua glória. destino apalavrado no dia em que os meus pais. por via do batismo. me fizeram seu servo e vassalo de todos os seus humores – terei então em todas as coisas deus. tudo o que sinto. dentro e fora de mim. é unicamente o que ele quer que eu sinta e mais nada poderei sentir ou deixar de sentir sem a sua permissão – estou impregnado com a fé de deus. nascido para a virtude. adverso ao erro. em busca do aperfeiçoamento. do meu e dos outros. amante de todas as criações do mundo. da água. da terra. do ar. do fogo e o inferno é o que sinto sem saber o porquê de deus me entregar em vida às labaredas de satanás – e sem dar conta. em busca da minha verdade absoluta. reapareci como homem de deus. eu que estava zangado com o criador desde a morte de meu pai – onde estavas nesse dia? nunca me deste uma palavra. pregaste-me uma cruz na memória – nunca fiz nada na vida para te desiludir. procurei-te na verdade porque me ensinaste que só na verdade um homem encontra o caminho da luz – qual luz? qual caminho? a única coisa que me trouxeste fui a dúvida e a minha desumanização. renunciei-te para sobreviver – envelheci. tornei-me mais do meu mundo e menos do teu. abandonei a imortalidade e estou-me nas tintas para o paraíso. habituei-me ao inferno. iluminei-me na dor. na misericórdia. e todo o mal será perdoado com sete palmos de terra – todo o homem é ingénuo e pateta porque todo o homem com ou sem deus é pateta em algum momento da vida – não sei se sou muito ou pouco pateta sei apenas que neste momento me sinto enganado. purificaram-me com água benta estragada. não tinha a bênção de deus nem o seu caminho. continuo à procura de uma verdade que não encontro em lado nenhum. nem em deus – raio de teimosia. bem sei que errar é humano. mas só os idiotas é que persistem no erro. não se pode alterar o que nasce no corpo por ordem do sagrado – só com a morte saberei realmente com que verdade vivi a vida. talvez a tenha vivido em erro. mas ainda não morri. ainda me procuro. ainda procuro a verdade suprema porque já não tenho mais nada para procurar para além de saber o que realmente sou e porque sou – sei que um dia a minha verdade será feita apenas do que fui porque o futuro já nada alterará – nesse momento nenhuma idiotice fará mais sentido. a verdade será aquela que cada um quiser lembrar. eu estarei morto. serei apenas um ser humano frio e parado no destino – enquanto for lembrado serei sempre uma verdade em vós e em cada um de vós. estarei vivo – com a minha morte morrerá para sempre a minha verdade. a que vive dentro de mim – e assim me procuro em desespero. procuro o que está certo. mais nada do que certo. porque tudo que está certo nunca poderá ser mentira e um homem certo é um homem de verdade e essa verdade em si será também verdade nos outros – não há duas verdades quando há apenas um homem em si e fora de si – só a verdade será capaz de responder com conhecimento. mas não interessa. sou o que sou quando o que sinto deveria ser outra coisa qualquer – afinal aonde fica a verdade? sou o que sou pelo o que sinto. pelo que não sinto ou quando enfrento o que sou. por sentir que sou outra coisa – sou afinal o quê? não sei. palavra de honra que não sei e talvez por isso me procuro em tudo que sinto fora e dentro de mim e tudo que sinto me faz sentir o que não quero sentir – às vezes acredito que a verdade suprema só existe no que escrevo pois escrevo apenas o que sinto. mas também aqui tenho dúvidas. quando leio de frente para trás já não sinto nada do que senti e fico sem saber se a verdade está no que escrevo ou no que leio – a verdade absoluta é uma ilusão e a sua procura o primeiro sintoma de uma maldição divina ou interestelar. sou apenas um instante pequeno na dúvida do universo – a vida acontece porque ocorre uma explosão. uma dúzia de átomos colidem uns com os outros e o tempo fez o resto. o homem aparece – sou o desacerto dessa explosão. os elementos químicos baralharam-se na explosão e aqui estou à procura da verdade na essência das coisas. as que estão dentro de mim e também as que estão fora de mim – sou uma verdade dentro de uma outra verdade do mundo. um tropeção na sua perfeição – estou arrasado e com medo. sei que o meu tempo não é infinito porque a morte acontece no corpo e quando um corpo morre leva consigo toda a verdade – não sei se sou único dentro de mim. talvez sejamos dois. três ou quem sabe mais. mas se o corpo os aceita e se todos procuram o mesmo. então tudo que sai de mim só pode ser verdade – sou então o quê? e em que percentagem? e onde encontrarei um juiz para decidir o que há de bom e de mau. o que fiz bem e o que fiz errado. o que amei e o que não amei. o que sinto de verdade e o que sinto que não é verdade. porque seja lá o que for. uma coisa sei. eu sinto – não sei se o que sinto me faz totalmente verdadeiro porque não sei se é totalmente verdade. o que posso garantir é que sinto o meu corpo no mundo e a cabeça prisioneira do que sinto – e se não encontrar salomão serão os que não compreendem o que sinto que me julgarão? por mais sábio que seja o mundo nunca me saberá julgar pois sou uma milésima parte desse universo que corresponde a um homem e um homem não vale por todo o mundo. mas tem um mundo dentro de si – também não quero ser julgado pelos que me aceitam pois apenas conhecem de mim o que compreendem e eu sou muito mais – procuro-me cada vez com menos argumentos para dizer que não encontro a verdade do que sinto. o mundo afinal é mais do que uma verdade. é muito mais do que sinto – talvez o problema seja meu. talvez eu não saiba compreender o mundo para além do que sinto. não importa. já não importa o que o mundo faz comigo. o que importa mesmo é o que faço com o que o mundo me faz – faço muito pouco. só faço o que sinto e neste momento já não sinto quase nada – sei que penso e volto a pensar mas quando saio para fora do meu quarto o mundo que pensei não existe e quando me encontro descubro que também não existo porque nada do que pensei existe e no quarto quase quadrado todas as dúvidas sobre a existência acabam mortas na incerteza do que sinto – sou a minha verdade e a verdade do mundo e nunca poderei ser outra coisa. e a ela terei que me habituar porque o meu quarto é uma ilha cercada do mundo onde vivo – sinto que quando escrevo esqueço o mundo. encho-me de silêncio. entrego-me ao mistério e parto desferrado para dentro de mim numa interminável agonia. rasgo-me e aguilhoo-me por não saber escrever o que sinto – quando escrevo procuro-me unicamente no que sinto porque a verdade não existe em mais lado nenhum a não ser no que se sente – mato-me de tempo e persistência – mas quando paro de escrever reapareço e tudo o que sinto deixa de ter valor porque o mundo não sente um homem. o homem é que sente o mundo – é janeiro. e sempre que o janeiro existe sou lembrança e todas as coisas deixam de ser coisas e todas as gaivotas se apagam no castanho triste dos olhos – mas quando paro de escrever sou outra vez dezembro porque é no dezembro que sinto o que não sinto em mais mês nenhum – em dezembro aqueles que amo estão-me pregados às mãos e não sinto mais nada que não seja o sentir do que sentem por mim – mas aqui. neste quarto feito de mim. rodeado de paredes que por serem feitas de silêncio aprenderam a ouvir-me em tudo que sinto e não sei escrever – neste quarto quase quadrado vivo uma quadratura em circunferência apertada com tudo o que sinto e me faz ser o que sou: sou a minha família. sou os meus amigos. sou os meus leitores e sou todas as páginas que escrevi – tudo o resto para vos falar o que sinto não sei se é verdade ou permanece vivo – aquilo que não amei e não escrevi não sei se existe  



04/01/2018

eu e: as mulheres do meu cunhado


foto de autor


1.   eu e as mulheres do meu cunhado

 

atrás de mim. em guarda. dois A4 emoldurados numa geometria escangalhada –  o lápis do meu cunhado amantizou-me com dois protótipos de mulheres surreais. estranhas nas formas. indefinidas na beleza – consigo apreender que uma está nua e outra vestida. uma está de costas numa janela escancarada enquanto a outra se encontra rodeada de livros – em simetria apenas um olho negro. e o cabelo ondulado – pouca coisa para duas mulheres que ocupam totalmente a minha parede norte – só ainda não compreendi porque raio é que o meu cunhado lhes pintou um olho de negro. provavelmente para me alertar de que o destino dos meus olhos pode ser o mesmo se não tiver cuidado com a escrita – pensando melhor. talvez seja uma mensagem codificada: desde o dia que levaste a minha irmã que tenho dois murros para te dar – ao certo mesmo confesso que não sei. sei que são coisas do meu cunhado que nem sempre bate certo da cabeça – os artistas são assim.  têm devaneios que ninguém percebe. exótico nos traços e na comunicação estética – o meu cunhado é um grande artista com um bonito coração. sei que as suas mãos nunca seriam capazes de magoar o que quer que fosse – mas atenção. não deixa de ser um cunhado excêntrico nos equilíbrios artísticos. principalmente na comunicação das formas e na sua estética – não é fácil tocar bem vários instrumentos: arquitetura. belas-artes. desenho. escultura. tudo isto num longo caminho de confrontos diários com a estética. beleza e realidade – ultimamente resolveu acrescentar às mãos a palavra escrita e confesso que já me surpreendeu – só tenho pena de que sinta a acentuação como uma extravagância das letras – mas esqueçamos os acentos. coisa menor em comparação com a sua maior imperfeição. maior do que uma volta ao mundo em cento e oitenta dias. a teimosia e a surdez – não escuta nada e teima como ninguém – às vezes a herança de família é um fardo pesado – sei do que falo. não é fácil. mas com o tempo habituámo-nos – mas uma mão não lava a outra e em boa verdade vos digo que se fosse um artista ajuizado nunca me entregaria à guarda dessas duas gajas caóticas – confesso que não me encaixo na mensagem estética destes desenhos – a estética é o estudo que determina o caráter da beleza. a harmonia das formas e o seu colorido. nestas gajas estranhas não há. só o negro sobressai no branco do papel – as mulheres do meu cunhado estão enclausuradas numa esquadria isóscele. desequilibrada nas formas por dentro e por fora – são protegidas a vidro antirreflexo. duro. quase inquebrável. como se fossem importantes. e eu. simples mortal. sem nenhuma arte que me engrandeça. sempre que as olho desconchavo-me. percorro-lhes as feições e não encontro ponta de harmonia. confusão é tudo que enfrento – confesso que fico sem saber se a confusão nasce nos quadros. ou se vive no escritório – neste escritório quase tudo é confusão e transtorno. quase tudo é incómodo. quase tudo é sinónimo de desgraça. quase tudo já foi resgatado ao mundo do além – tudo que por aqui sobrevive está na estante com livros à minha esquerda. pela frente continua a janela para o desconhecido e pela direita as fotos que em desespero me amarram a uma esperança que. mais não é. um fio de luz quase imaginário – se o meu cunhado tivesse desenhado a sua irmã. o escritório tornar-se-ia num espaço iluminado. o caos passaria a arte contemporânea. a desorganização. ordem. a janela absorveria toda a arte do mundo. e o negro rendar-se-ia ao branco – para desenhar a sua irmã o meu cunhado não necessitaria de arte. bastava-lhe papel vegetal. um lápis de crayon fino. um par de olhos delicados. uma mão ágil e um pulso firme para decalcar o belo para um papel virgem de tudo – não tinha que inventar a cor dos olhos. bastava-lhe pintar o céu no seu interior. ou a cor do amor. mesmo daquele que é feito com o corpo. com gemidos e no fim aquele abraço que magoa porque sabemos que não é possível dormir nele para sempre – a sua irmã é bela. é harmonia. é chama para sempre. como para sempre são os pássaros que se erguem no nosso olhar quando descobrimos o amor de uma vida – tudo que vive no céu é eterno como eterno fico eu quando adormeço no seu olhar – mas o meu escritório sempre esteve aberto ao mundo e o mundo do meu cunhado ocupou-me uma parede com duas mulheres sem nome. sem passado e sem futuro para além de continuarem a encher uma das paredes da minha vida – que posso eu fazer com duas mulheres que me perseguem silenciosamente? se estivessem de frente era bem pior. com aquele cabelo ondulado. parado. com curvas e contracurvas. em conflito com as sombras. as sombras da luz que me alumia e as sombras do passado que não me largam – estas mulheres. desenhadas pelo meu cunhado numa noite fodida. nunca tiveram uma única palavra que se ouvisse. são mudas para mim e para o mundo. não têm paixão. nem calor. nem ardor. nem tesão. nem nunca se enrodilharam para um único orgasmo colossal – se o meu cunhado estivesse bem. não tivesse tido um bloqueio de arte nessa noite fodida. teria substituído aqueles cabelos tresloucados pelo cabelo da sua irmã: dourado-ouro. comprido. estendido de luz. de bondade. de tolerância. de paz. de companheirismo. de um beijo que arrasta os lábios para mel e ali ficamos a ver-nos olhos nos olhos. e as horas passam a anos que não sabemos nem queremos contar – ao lado da irmã do meu cunhado eu sou um príncipe encantado e tudo porque me entreguei a um beijo sem tempo – um beijo talhado para meu destino final – gosto de a amar. gosto de a ter dentro de mim – se não tivesse tanto dela dentro de mim não saberia que as estrelas só brilham por amor e que as mãos só abraçam o que lhes cabe dentro da sua palma – se eu não a tivesse tanto dentro de mim. nunca saberia que se pode morrer de uma saudade prematura. uma dor anunciada. inevitável – eu amo uma mulher que não me cabe dentro da palma da mão – também um dia o meu cunhado vai saber que o amor quando é grande não cabe dentro da palma de uma mão – nunca nenhum artista se deu por satisfeito ao tentar recriar o amor como obra de arte. fosse ele música. pintura. escultura ou palavra – o amor é maior do que qualquer obra seja de arte ou não – a tua irmã é assim. maior do que a palavra. maior do que a minha palma da mão. maior do que a minha vida – só temos uma vida. mas uma vida absoluta só permite ter um único grande amor – eu tive o meu – mas o meu cunhado numa noite fodida desenhou a tristeza. coisa só possível pelos grandes artistas – já não basta a que carrego de nascença e ainda me trouxe para casa duas mulheres ilegítimas. feias e tristes – que raio de ideia cunhado. estavas com medo que eu  atravancasse o mundo com uma escrita maluca e as senhoras seriam a distração – enganaste-te. não sou do mundo. sou só da tua irmã – um dia. quando apanhar o meu cunhado de bem com o mundo. vou pedir-lhe para dar cor aos quadros. colorir as senhoras com um lápis verde-primaveril com laivos de azul criança – há cores que nos seguem como sombras – mas o meu cunhado é um artista ainda em segredo como em segredo está a arte que lhe vem dos antepassados – um artista em que o dom provém dos seus antecessores pode juntar as cores como bem entender. até pode misturar ao azul e verde um toque de lilás-compaixão que tudo terminará sempre num branco branco. inocente e puro como as flores que colhe quando amassa o barro com virtude – um artista só existe enquanto for capaz de sonhar – quero para ele muitos sonhos. sorrisos. quero muitos lápis. uma palete de cores deles. barro e papel de todos as gramagens e aparos mergulhados em tinta aqui e na china. e também na américa e também em angola que foi onde o teu pai e o meu sogro deu tropa – quero que essa arte nascida no teu criador cresça agora nas mãos do teu filho para que um dia ele te possa escrever melhor do que eu – quero que as bocas falem por todo o mundo do que fazes e do que ainda vais fazer. quero que acredites nos sonhos com os olhos abertos e que cresçam em bem-aventurança como os pássaros crescem nos olhos quando estão pintados com a cor do céu – quero que lhes digas por ti e por mim que as famílias só existem porque nenhuma obra de arte é mais bonita de que o amor com que a amamos – eu amo a minha e a tua família. a nossa família. amo também os meus amigos porque sem amigos não somos nada. amo os animais. as flores e as palavras e só não me amo a mim porque o que me resta de amor já só chega para preencher os olhos da tua irmã – nada me separará dela. nem a doença. nem o erro. nem a desilusão. nem a vontade de uma maldição que me ata a uma corda que é descanso – e aqui estou eu preso a uma secretária que me levará com as palavras ao fim  – só o que escrevo é eterno – digo apenas o que posso em cada instante de mim


[desejo-te um bom ano]


desenhos assinados em 2000 - 18 anos de companhia


31/12/2017

faleceu 2017. salve 2018


imagem - google


faz hoje um ano que publiquei a minha crónica de despedida do ano 2017 – habituei-me a fazê-lo anualmente num género de balanço emocional – no ano passado a escrita foi marcada pela raiva. estava desiludido. zangado com o destino e sentia o mundo às costas – sempre gostei de metáforas hiperbolizadas – hoje. percebo que não era a pior de todas as raivas. mas apenas a sensação-confirmada de que deus. seja a identidade que for. não vê tudo ou está desatento – este ano. o dito deus. continua ausente. não me liga nenhuma. não me ama como seria pressuposto amar e também não está em todos os lugares como também seria pressuposto estar – na crónica de 2017 lembro-me de me conter nas palavras mais duras. dissimulei-as. mascarei-as com etiqueta. embebedei-as com as bebidas alcoólicas que me ofereceram pela festa do santo natal e de seguida. matei-as como se matam os perus. depois. depois foi só temperá-las com um punhado absurdo de sal em pedra. levá-las ao calor da vida e finalmente empratá-las como se fosse um chefe agraciado com estrelas michelin – foi a forma que encontrei de proteger os meus familiares. amigos e leitores do meu “año horrible” – foi um ano muito mau e como dizem os nossos nuestros hermanos: no creo en brujas. pero que las hay. las hay – passou um ano e as bruxas não me largaram o corpo. são sempre leais a quem amarga e geme. instalaram-se de malas e bagagens e não vejo forma de as despejar – por tudo isto a raiva não desapareceu. não diminuiu e creio até que se intensificou – confesso-vos que me encontro perdido com as palavras. não sei o que fazer para que esta crónica-balanço. uma versão mais esperançosa da anterior. ofereça uma diferença positiva no seu conteúdo – a minha vida está sistematizada pela adversidade. um género de existência em série. padronizada numa luta constante. com picos emocionais sofridos. incontroláveis e intensificados por uma dúvida existencial – salva-me o pé-de-meia emocional. amealhado nos anos dourados. permite-me agora ter um fluxo de energia mental suficiente. sem precisar de recorrer a químicos – tudo o que consumo para me aguentar são palavras. analgésicas potentes que. depois de escritas. aliviam as mágoas aumentando os intervalos das recaídas – mas voltando ao novo ano. o que vos posso garantir [mesmo] que vai mudar é a hora de inverno com a chegada da primavera – não se riam. por favor. nem sempre sabemos ou vemos o óbvio – também vos posso afiançar que em abril. se lá chegar. irei ficar mais velho um ano. certificando de vez a qualidade das minhas dores das costas – tudo o resto que possa dizer em relação às minhas expectativas aviso-vos que pode muito bem ser parte de uma maquiavélica maquinação do professor cuecas com um novo conto do vigário. desta vez numa história de banda desenhada – infelizmente também não mudarei o rating da fé. está no lixo e não creio que suba qualquer nível em 2018. tal e qual como o meu país o meu problema é estrutural. gasto mais tempo a pensar do que a produzir – olho para o 2018 apenas como o calendário olha para mim: tens os dias contados. acabas de consumir mais um dia da tua existência. estás cada vez mais perto de tombar para a eternidade – que sorte – do 2017 quero apenas recordar o casamento do meu filho. fui muito feliz nesse dia. oficializei a nora. sei que não era necessário porque ela já estava no coração. nunca lho disse porque não sei expressar o que sinto por palavras faladas. todos sabem que não me dou bem com a oralidade. mas a minha intuição diz-me que ela já sabia e que o meu filho também o sabia porque os filhos quando se fazem adultos sabem tudo dos pais – antigamente era eu que sabia tudo deles. tudo mudou. envelheci por dentro e por fora. mas amo-os incondicionalmente – com a idade aprendemos a amar apenas com o coração. não precisámos de ver. tocar ou ouvir. amamos porque sabemos que estão em nós. para além de todos os dogmas. eles são a única razão para o mundo existir e brilhar – o ano de 2017 foi o ano das noras. o meu filho mais novo apresentou-me a mais que provável futura companheira. bonita. simpática. independente. comunicativa e determinada. como eu gosto. espero que se saibam guardar-se no coração com lealdade. sem ela. a vida não presta – por último. o meu filho do meio anunciou um novo relacionamento. e finalmente. reencontrou a determinação para terminar o seu curso superior – como sempre. estarei inteiramente a seu lado. aguardo por esse dia desde que à escola. já dobramos tantos cabos das tormentas. não há dia nenhum que não torça por ele e. já agora. que deixe de fumar. não por mim. mas pela sua saúde – só quando os filhos atingem os seus objetivos. nós sentimos que atingimos os nossos – e é desta forma que aguardo o falecimento de 2017 agradecendo-lhe unicamente não ter levado ninguém que morasse no meu peito – tenho como certo que os amigos continuarão a usufruir do meu batimento afetivo em 2018 – no que diz respeito à família tudo continua firme e rijo. a minha mãe de noventa e três anos dá o exemplo prometendo estar por cá para 2019. a lurdes. minha segunda mãe. quase nos oitenta anos continua a teimar. o que vai ser de nós sem ela. devo tanto a esta mulher – da família da minha mulher faço figas para que o meu sogro continue a lutar por todas as recordações. orgulho-me de fazer parte dessa vida guardada e quero continuar vivo no seu olhar até 2019 – por fim. o que não muda há trinta e quatro anos é a companhia da minha mulher. sempre avançámos juntos e destemidos sobre os novos anos – assim será hoje. não há forma de os anos nos cansarem – brindaremos mais uma vez como crianças. trocaremos um beijo que nunca é igual e renovaremos os nossos votos de que estaremos unidos até que a eternidade nos separe – amo-a mais por cada ano que passa – é ela que inventa o sol que me ajuda a sorrir – obrigado também a todos aqueles que gastam o seu tempo a ler as minhas divagações. vocês são fantásticos. sem o vosso companheirismo nada disto faria sentido – espero-vos em 2018 – grato como sempre – feliz ano novo