05/04/2016

o grito


 
voz - maria joão
  
 

dizem por aí
que se diz muito em poucas palavras
às vezes acredito
penso que sou poeta
iludo-me
e quero acreditar
que sou fenomenal
único
e mesmo sem falar
basta-me um gesto
para ser um génio do amor
translúcido
penso eu.
então digo-me:
é verdade
não escrevas
não fales
sorri apenas
alguém acreditará que és especial.

 

mas depois
já nu
de tanto meditar
escolho um mundo:
redondo
azul
com mares
com alma. sol e sal
cheio de gente como eu
aqueles que são poetas só às vezes
esfrego os olhos
e vejo
lá no fundo
onde a luz é escassa
e as sombras são vida
o choro
esse…
que nunca se ouve
é aí onde os poetas de verdade se tornam homens
onde nascem as dores
as desilusões
as emoções
as perdas
as saudades
as pessoas perdidas
os tempos passados
ou mesmo um grande esforço
para se ser aquilo que nunca se será
e aí…
sinto a falta das palavras.

 

revejo os sons
do que poderiam ser palavras faladas
mas afinal são vaidades
de apenas terem tempo
para o ego

 

descubro então
que afinal
os poetas nada dizem
eles
dizem que dizem
porque escrevem
mas não transpiram
não ofegam
não sorriem
não tocam
não negam
não gemem
não olham
são papel…

 

mas eu
homem deste mundo
redondo
azul
com mares
com alma. sol e sal
cheio de gente como eu
esgotado para todos estes poetas
digo-lhes:
digam-me na cara
nos olhos
nesta alma que chora
nesta vida que também é vossa
digam-me
apenas mais que uma palavra
mesmo que seja
gosto de ti

 

mas não
não…
desculpem
não chega
eu quero mais
quero que falem
de vocês
de mim
do vizinho
do irmão
do vosso amigo
do meu amigo
do mundo
do vosso mundo
quero-vos sentados
quero-vos ao meu lado
quero esse vosso olhar
mesmo feio
ou bonito
não interessa
só quero que não escrevam
quero que falem
não se calem
falem
sejam poetas de verdade


 

04/04/2016

autofágico


foto - sampaio rego

escrevo – quem diria que um dia passaria os meus dias a reescrever o passado – aprendi a escrever há tanto tempo – ainda me lembro bem da minha professora primária - dona felismina. era tão bonita - e de um diploma que trouxe para casa - dezassete valores. aprovado – devidamente assinado e autenticado com selo branco escolar – um orgulho de diploma. ainda o guardo – em casa tudo continuou como dantes. os diplomas só tinham valor quando traziam títulos –

- - gostava tanto que fosses dentista - dizia a minha mãe

mas eu queria ser bombeiro. o risco. a vaidade com que enfeitavam as fardas de medalhas. as sirenes. os carros vermelhos. as escadas suspensas. a vozear presa enquanto a esperança se aguentava pendurada às mangueiras aflitas – eram homens bonitos e transportavam com eles uma inesgotável e merecida reverência – eram os soldados dos afetos – o tempo passou – agora sei que. apesar do diploma. nunca aprendi verdadeiramente a escrever. uma mágoa insanável  – nunca cheguei a bombeiro – mas daqui não me resta dor. não se perdeu um grande soldado da paz – estou em guerra comigo desde que nasci – fiquei-me pela arte de juntar letras para me dar a entender. com esforço. resumindo: sou um escritor autofágico. minúsculo – alimento-me de tudo o que é meu para escrever – prolongado assim a morte 



01/04/2016

1º abril


foto - sampaio rego

bem sei que este é o teu dia favorito. não é!?

mas sabes: este não é o meu dia. e para ser o teu teria que ter a tua mentira como verdade

nunca tive

 
 

27/03/2016

ego


foto - sampaio rego
 
 

perdi a sombra
 
e agora?
estarei só?
ou apenas perdi a luz?
na busca da alegoria
voltarei a viver na caverna

se a sombra voltar.
então…
serei outra vez eu.
alma racional.
onde os olhos
a preto e branco
nunca serão
privados da verdade



22/03/2016

vocábulos dubitativos


foto - sampaio rego
 
 

sempre que rabisco
crio retábulos
esculpidos na arte nobre de dizer

aos que contabescem
deixo uma diaporese

[nasce o silêncio em formato de
interrogação]

onde acaba o homem
e morre o escritor

 

21/03/2016

o poeta


foto - sampaio rego

    

o poeta é um ser estranho – encavalita-se no sujeito poético para dizer que não disse o que disse – a culpa. sentimento de mal-estar humano. faz balançar a escrita do seu criador entre a verdade. a meia verdade. e a fingida catapulta – o arremesso da alma ao leitor é o desafio – e o sujeito oculto em gargalhada fina – pobre poeta. inimputável para o mal. venerado para o bem – um estranho ser: o poeta 


18/03/2016

março: a sombra da saudade



foto - sampaio rego
 

 

março – nunca sei o que fazer com este mês – março é o mês da primavera. dos dias a crescer para o imenso. do entendimento entre a noite e o dia. do vento franzino preso a um papagaio de papel. das crianças enganchadas a raios de sol delicados – março é memória. ternura. e esperança – é verde. flor. pólen. andorinha. é braço tatuado de um amor interminável – no mês de março sou pai. sou filho. sou saudade. sou arrependimento. sou perdão. sou quase nada. sou quase tudo – sou pai orgulhoso e filho saudoso – sem março não teria aprendido a verdadeira dimensão da saudade – se não houvesse o mês de março. talvez o meu pai não tivesse partido pelo estreito silêncio dos hospitais – mas março chega logo depois do inverno. e no inverno os corpos perdem-se no escuro das noites e na mudez – no teu inverno as bocas calaram-se na dor – a tua. e a minha – podia ter conversado. podia ter dado as mãos. podia ter colocado o ouvido no teu peito. e guardado para sempre o batimento que te levou – podia ter-te ajeitado o cabelo para o melhor lado. feito ternura. trocado todas as minhas lágrimas por uma única tua. uma que trouxesse um pouco de mim. uma memória dentro da tua memória – podia vestir-te a calça bege vincada. o casaco azul-marinho de trespasse. juntar ao peito um lenço cor do céu. ajoelhar-me. e pedir-te perdão por ter sido demasiado jovem – tu sempre gostaste de gente jovem – podia erguer-te novamente. endireitar-te para um mundo onde nunca te vi curvado – mas março é março – e tudo o que posso agora fazer é recordar-te no sorriso e na bondade – sei que o céu continua em festa – meu pai – o mês de março nunca me compreenderá – quando envelhecemos aprendemos tantas coisas sobre o nosso pai – hoje é dia do pai – faz hoje dezoito anos que te escondeste para sempre debaixo da terra – era dia do pai – hoje. continua a ser dia do pai

 

17 de março de 1998 – o silêncio oval dos domingos


 
foto -  arquivo familiar
 

sempre me senti só aos domingos. nunca entendi muito bem a metamorfose do corpo nesse sétimo dia – no passado. em minha casa. este dia era dedicado ao senhor

     – hoje já não há senhores em minha casa. o último a bater com a porta foi o meu pai

não gosto do domingo. mas gosto do silêncio dos domingos. gosto da sensação do não barulho. do não movimento. dos cortinados parados. das cadeiras arrumadas em círculo a apertar de lamentos baixinhos a mesa oval – a mesa era redonda. mas como éramos muitos o meu pai mandou fazer um aumento que permitia sentar toda a família à sua volta – a mesa ficava oval mas para mim era redonda. um redondo perfeito –

     – desde que o meu pai partiu nunca mais conseguimos tirar o aumento ao centro da mesa

a mesa oval está cada vez mais imperfeita. deve ser da sua geometria. excêntrica – sempre achei que a forma oval nasceu porque alguém não sabia fazer redondos – os redondos são perfeitos. o sol é redondo. a terra é redonda. a lua também. os olhos são redondos. tudo o que é redondo é perfeito. não tem princípio nem fim. o meu pai também não – o meu pai era perfeito e a mesa oval só era perfeita com ele à mesa – com o meu pai todas as formas geométricas se transformavam em redondos mais-que-perfeitos  

o meu pai era um homem redondo. sem uma única aresta. a vida deslizava por ele como se o corpo se inclinasse para o centro do universo  

mas a mesa ali estava. inerte. quase morta. perdida no silêncio de todos os domingos – enfeita-a com vida um napperon de linho bordado à mão pela minha mãe. adornada por um centro de mesa em louça fina. também oval. com uma tampa perfurada para segurar flores. que a minha mãe substituiu por plástico – duram para sempre – quem me dera que pudéssemos fazer o mesmo com as pessoas 



09/03/2016

quem gira sem rumo nunca chega ao céu III



foto - sampaio rego

3.

não sei – não sei muito bem para que um deus haveria de criar esta coisa redonda que gira como giram os carrosséis – não se faz ninguém feliz com coisas que giram sempre na mesma direção – se queria ter um povoado feito de gente feliz criava um céu sem girar. nem precisava de ser um grande céu. bastava que fosse igual ao que me ensinaram nos livros da catequese – anjinhos com asas. cascatas de água translúcidas. pombas brancas. e um sol que se desfazia num amarelo silêncio que era ao mesmo tempo paz – tudo perfeito – a harmonia exemplar entre a natureza e o homem – diabo. nem vê-lo

– “portanto. submetam-se a deus – resistam ao diabo. e ele fugirá de vocês”

mas não. deus criou uma coisa redonda que gira como os carrosséis. criou este mundo que é tudo para uns e nada para outros – obstinado. sim – doentio. talvez – cavalos. girafas. zebras. cestos que rodam sem parar. bicicletas. triciclos e outras coisas que servem para dar cor e animação a um mundo que não sabe girar sem ser em torno de si – o homem não sabe viver sem animação – e a voz no microfone a falar para o mundo inteiro. e o mundo surdo pelo cansaço de nada ouvir quando está em diversão – nada. sempre o nada – o mundo foi desde sempre um divertimento – para deus é com toda a certeza

– mais uma volta. uma nova corrida. uma nova viagem – e a vida toda feita a girar

deus concebeu este carrossel e é dele a voz nos altifalantes – diz que está em todo lado – mentiroso – mas vou continuar com o meu lado criativo. adoro este lado. faz-me bem. distorce a realidade sem me distorcer nada por dentro – lá vem o nada ao de cima novamente – certo dia. deus. há muito muito tempo. estava deprimido. depreciado. desfeito em tristezas. mergulhado em pastilhas de suporte de vida – prozac celestial era a terapia contra a infelicidade no céu – o momento não era fácil. o desespero roubava-lhe lucidez – a depressão era um castigo que o atormentava nos seus silêncios eternos – profundamente triste. esgotado numa dor contínua que lhe atrasava os braços nos compromissos etéreos. ao mesmo tempo que a consciência sensível ia perdendo a salubridade – para pôr fim a esta agonia que anunciava uma morte impossível de acontecer. deus não morre. tomou a seguinte decisão: fazer a terra – é o que eu congemino neste pequeníssimo cérebro – ninguém com o perfeito juízo fazia uma terra com gente como eu – deus não estava bem – falo por mim que sou um pateta e tudo o que penso não serve para nada – mais uma vez o nada

– os meus pais. distraídos. compraram um bilhete – naquele tempo os métodos anticoncecionais não eram fiáveis – era do tempo do termómetro

apanhei a última cegonha com destino à minha rua – nunca me senti indesejado. bem pelo contrário. foi a vontade de deus. como diz a minha mãe – eram tempos difíceis para as cegonhas e para as famílias – muitas lágrimas escorreram pelos olhos da minha mãe

– e agora como vai ser para criar este menino. como vai ser meu deus. tu sabes que já não sou nova – era assim a apoquentação da minha mãe

duvido que deus soubesse de alguma coisa. mas se algo lhe tivesse assobiado aos ouvidos. tenho a firme convicção que não lhe passava pela cabeça o tamanho da encomenda que lhe chegava em aborrecimentos – e lá vou eu no carrossel. num cesto que gira sem destino – gira para esquerda e para a direita e nenhuma mão capaz de dar rumo ao cesto – nem a mão de deus – enquanto as zebras e os cavalos nobres. num galope celestial. certo. com direção. com altivez. elegância. de olhos postos no destino. percorrem tempo num acerto que nunca fui capaz de reproduzir – e o cesto a rodar sem parar. e eu perdido em voltas sem saber – “deus ao menino e ao borracho põe a mão por baixo” – nunca fui menino. nunca fui borracho. cresci no dia em que nasci. cresci para fora do corpo e nunca fui capaz de segurar os olhos dentro do tempo certo – há um tempo certo para se fazer o que está certo

– nasci preso às asas de uma gaivota rumo a um vento que nunca me entendeu 

os carrosséis não rodopiam da mesma forma para todos – a postura dos cavaleiros também conta para dar brio ao carrossel – eu lá vou todo desengonçado a girar para um lado e para o outro. sem saber se vou para norte. ou para sul – que importa se o banco só gira para os lados – os lados não têm norte ou sul – enquanto giro. os altifalantes vomitam alegria. só as zebras e os cavalos se mantem aprumados com o rumo do carrossel. tudo o resto vai para onde calha – vai para cima e para baixo. para um lado ou para o outro. é um cesto alucinado – ir sem rumo também é destino – tudo roda sobre mim – quem roda unicamente sobre si nunca saberá encontrar realmente o caminho que lhe falta percorrer – o deus que me impingiram em criança não fazia isto. deus não é injusto. não é xenófobo. e a minha rua é igual a tantas outras – ele tem obrigação de saber que não fui eu que escolhi aquela cegonha tresloucada. e muito menos escolhi o deus a quem rezar – no primeiro dia deus criou o dia e a noite e os carrosséis

-- “e lá procurarão o senhor. o seu deus. e o acharão. se o procurarem de todo o seu coração e de toda a sua alma”

se te procurei foi por ordem da minha mãe. e também foi por sua ordem que frequentei a tua casa. apesar de nunca te ter visto por lá – fiz o que me mandaram e se te aborreci foi sem querer – deus não pode ser assim tão injusto. já não falo por mim que estou habituado. desde pequeno. ao seu silêncio. mas por aqueles que nunca se cansaram de acreditar nas orações que lhe consagram diariamente – deus não pode continuar a esconder-se no silêncio – deus se existisse não era injusto. ou então não está em todo lado como faz acreditar

-- deus está cansado – imagino eu. cansado também. do seu cansaço

acredito que deus não é o responsável pela pasta da equidade no céu. tem um capataz a quem delegou todo a justiça terrena – concebo-o sisudo. de bigode farfalhudo. voz grossa. e a face marcada de escaramuças – o feitor coloca-se à porta do céu. e quando chega o pecador é com ele as primeiras falas – olha para o aspeto do pobre infeliz. e sem mais nenhum trato. dá-lhe um pontapé no rabo e diz-lhe sorrindo:

-- senta aí. alguém te virá buscar – e psiu! pouco barulho que o senhor teu deus está a descansar

e assim estou. sentado e ainda não entrei no céu – tratado como um verdadeiro nada – espero que alguém me mande para algum lado. um lado sem lado. um lado que por ser redondo abrace todos os pretensos lados. renovando a fé dos indecisos com um novo lado mais justo. o lado que me faça aceitar o dever de gratidão por fazer parte deste mundo – o jogo de deus

– i love this game

apesar de não saber escrever. e esta missiva estar um pouco confusa. sei que um dia deus responderá a todas as minhas dúvidas – contrapondo: “abençoado são os teus olhos. porque veem; e os teus ouvidos. porque ouvem. pois. mesmo sem tê-lo visto. tu o amas; e ainda que não estejas podendo contemplar seu corpo neste momento. ”crês em sua pessoa e exultas com indescritível e glorioso júbilo” – qualquer idade necessita de ter um deus de verdade – na minha idade só preciso de um deus para me retirar para a barca – tenho de levar a moeda certa na boca – preciso de acreditar num ser superior – preciso de um deus – preciso que os meus filhos possam continuar a crescer como homens de bem. e que sejam capazes de o encontrar onde eu ceguei – preciso que sejam sempre fortes e corajosos em seu caráter. afáveis com as demais pessoas. bondosos. amantes da paz – preciso que valorizem o trabalho. a justiça. a nobreza das ações acreditando sempre. que um dia. serão capazes de ouvir da sua boca que valeu a pena acreditar num deus que já foi o meu – preciso de um deus para lhe entregar as minhas preces. os meus medos. os meus receios – preciso de um deus para lhe pedir proteção divina para os meus filhos. para a minha maria joão – só assim poderei partir para a minha última viagem – preciso de um deus que me deixe comtemplar pela última vez o que mais amo neste mundo. e seguidamente. reencontrar definitivamente o meu pai terreno – o meu pai terreno – tenho tantas saudades dele e quero tanto abraçá-lo – para sempre – preciso de um deus para sair definitivamente deste corpo. apanhar a cegonha de volta ao nada acreditando que deus tomará o meu lugar na proteção dos meus – preciso de um deus para todos aqueles que estimo e amo – para mim já é tarde. apesar de ter passado a vida a tentar-lhe agradar – para mim basta que me receba pessoalmente na porta de onde quer que viva e me diga: foste um palerma. um tolo. se nunca te apareci foi por tua culpa – és um ingrato – mas sossega que não sou rancoroso e os teus filhos. ao contrário de ti. saberão escolher a estrada certa – mas descansa. fica em paz. estou de olho neles e tudo farei para lhes mostrar o caminho da luz – sei que só partindo em paz comigo serei capaz de me sentar à direita de deus e ao lado do meu pai

– e disse-lhe jesus: em verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso

aqui estou eu meu deus. novamente. como quando te visitava na catequese. completamente livre de preconceito. quase ingénuo – desta vez para te dizer que o que aprendi na tua casa não me serviu de grande coisa. a não ser. o fato de me teres dado um padrão moral capaz de decidir com objetividade o que está certo ou errado – coisa de pouca monta neste novo tempo das tecnologias que andam num ar invisível – os ensinamentos da moral deixaram de ter exclusividade nos homens de deus – mas adiante. se efetivamente existires. e se me vieres realmente receber à porta da tua casa. lembra-te de que os meus filhos existem porque um dia eu acreditei verdadeiramente em ti. na virtude da alma. da família. no amor verdadeiro. no certo a vencer o errado. no bem a se sobrepor ao mal. e na luz a iluminar as trevas – por mais insignificante e minúscula que encontres a minha alma recorda que ela é ainda preenchida pelo que sobra das tuas palavras – um homem de bem nesta idade necessita de acreditar num deus de bem – num deus que seja capaz de dar alento a quem vive a meu lado há mais de trinta anos – uma cama partilhada jamais aceita o silêncio das ausências eternas – que seja também eles capaz de guardar os filhos até ao dia que encontrem a mesma saudade que hoje tenho pelo meu pai – hoje vou rezar um pai nosso – um homem na minha idade precisa de rezar mesmo que não acredite em nada

– pai nosso que estais no céu

um homem da minha idade só precisa de um deus que lhe permita partir em paz – eu sempre quis morrer em paz e na companhia dos meus filhos e da minha amada


3ª parte de 3 - fim


07/03/2016

transumância


foto - sampaio rego


deslacei

que a inteireza é tecida de inverdades

o amor contracena com o desamor

 

e até o afeto

murcha

lamenta o tempo

 

é a hora da transumância humana

sobejam ainda:

os últimos frutos selvagens da primavera 



29/02/2016

arrematado ao melhor preço


foto - sampaio rego


pobre homem – também tu foste picado pelo mosquito dos encómios inteligíveis e involuntários – pobre tonto – tanta idade gasta à procura de uma coluna jónica capaz de te apartar de todas as almas errantes do mundo. e logo fui picado pelo pior bicho do mundo – arrematado ao melhor preço – sou agora um homem-besta até que as minhas orelhas de burro sejam transplantadas para outro impuro – que seja rápido e sem dor. enquanto a alma se torce em programa que não é de purificação – loucos. os deuses que me fizeram – soubesse eu calar – soubesse eu cegar – soubesse eu ensurdecer – nem raios. nem coriscos. só santa bárbara para dar ao meu nome uma trovoada – tivesse eu um raio a cair-me das mãos e iluminaria o purgatório com um aviso: é para lá que vão todos os caçadores de almas – mesmo que os vossos olhos só enxerguem papel. creiam que. em filigrana. vai anexado um sorriso sofrido – meu e apenas para mim – mas assim sei que respiro. e cada vez mais desperto para o mundo dos mortais



01/01/2016

é janeiro



foto - sampaio rego
 

ora cá estou no primeiro dia do ano. seria um dia igual a tantos outros não fosse a minha vontade de vos dizer tudo o que sinto – quero-vos bem e sei que não é por ser o  primeiro dia de janeiro – quero-vos bem porque em minha casa há silêncio-paz e sempre que o silêncio me encontra eu desbulho da memória um amigo a quem desejo o melhor do mundo – é janeiro. é ano novo. é um dia de encontros com os meus fantasmas. é um dia do caraças e eu sem arte para vos abraçar com palavras como queria – se eu fosse poeta dir-vos-ia que janeiro tem mais encanto com vocês

poeta eu?

o poeta sobrevive nas vísceras de um cérebro permanentemente insatisfeito – sofre na busca das palavras que nunca saberá escrever – por mais palavras escritas. por mais palavras pensadas. por mais que deixe o corpo arder no inferno. nunca será capaz de ditar às mãos o sofrimento de não as saber escrever – não há caminho feliz para quem gosta de escrever o que vê

sejam todos muito felizes neste novo ano e não se esqueçam de me levar nos vossos sorrisos



29/12/2015

adeus ano velho


foto - sampaio rego
 

também eu gosto do silêncio. e este ano tive tão pouco – se fosse possível renascer de forma diferente neste novo ano – nascia em silêncio. e juro que nem com a palmada no rabo choraria – respirava silêncio e pedia para me embrulharem num livro de poesia – depois. sim. caía nos braços da minha mãe e ali ficaria para sempre – em silêncio – feliz ano 2016 para todos os meus amigos – prometo-vos que nunca deixarei de “perseguir as luzes das estrelas até ao fim da minha vida” – sejam felizes. e obrigado por fazerem parte da minha vida 


13/10/2015

professor marcelo


google - marcelo rebelo de sousa
 
 

gostava de ser como o professor marcelo. marcelo rebelo de sousa – dizem os amigos. e os inimigos também. que o homem é inteligentíssimo. um reconhecido génio lusitano. feito comendador da ordem militar de santiago da espada e da grã-cruz da ordem do infante dom henrique – estamos perante um homem de uma lucidez rara. de um raciocínio veloz. pouco habitual no nosso meio académico e político – sempre ouvi dizer que homem inteligente é aquele que se conhece a si mesmo – pois bem. o professor não só possui este dom. como também conhece a fundo os meandros da politiquice nacional – sempre que aparece na televisão. o professor parece um gaiato. com uma energia de fazer inveja a qualquer catraio – não há um único sinal de cansaço no seu programa de domingo. do primeiro ao último minuto o professor marcelo é um autêntico “showman” – o professor é formidável. e ainda alardeia perante os seus admiradores. que precisa apenas de duas horas de sono por noite para se manter em plena forma física e intelectual – à hora de almoço é vê-lo a dar uns mergulhos na praia de carcavelos. com chuva ou sol. seja inverno ou verão. lá vai o homem. como se fosse feito do mar – é ele que dá força àquela velha teoria de que todos descendemos de um marinheiro – uma fura nas ondas. duas braçadas a favor da corrente. e lá sai o sr. professor da água. purgado de todas as maleitas do envelhecimento precoce – manuel de oliveira morreu novo. um dia. quando fizermos as contas. entenderemos. veremos que soma dá o toque de finados – para completar esta panóplia de bênçãos. dizem os íntimos que o professor catedrático dita duas cartas ao mesmo tempo. sem nunca se confundir. mantendo sempre a postura do corpo. o brilho do raciocínio. a fala eloquente e a emoção gestual –marido. pai. professor universitário. político e. por fim. comentador político na TV - a hora de marcelo rebelo de sousa. programa semanal de sua responsabilidade – estamos perante um verdadeiro sobredotado lusitano – gosto de o comparar a um automóvel topo de gama – um ferrari de versão esmerada. vermelho. cupê de duas portas. motor 3.6 litros V8 de 400cv de potência. acelera de 0–100 km/h em 4.3 segundos – uma loucura de carro. só para gajos com unhas. o motor de oito cilindros leva-o ao fim do mundo – uma bomba atómica com quatro rodas. mas nem todos podem ser ferraris. alguns não passam de comerciais de segunda mão. desgastados pelo tempo. sem a mesma potência nem o mesmo brilho. e assim percebo que a minha inteligência é apenas isso. um motor cansado. que nunca chegará a essas rotações – junta da colaça rachada. vielas gastas. escova limpa vidros a nada limpar. retrovisor embaciado com tudo o que ficou para trás. e o “démarre” afogado num cheiro a gasolina que deixa antever uma explosão da “voiture” a qualquer momento – eis o que é. fumo negro em escape que já não filtra o bom do que é mau. e a caixa das velocidades presa a uma marcha-atrás que não me deixa fazer nenhuma estrada em frente – ao volante. uma condução de raiva. o limite de velocidade nunca se aplicará ao meu cérebro – resignado. acolho-me sem medo. abraço o que posso fazer com gratidão aos deuses da fortuna. e olho o amanhã com esperança limitada para o corpo que me calhou em sorte – estou demasiado gasto para qualquer conserto. já não há peças de substituição – sou assim. o que não tem remédio. remediado está – estou a ficar um caco – as noites começam a ficar cada vez mais pequenas para pensar. resta-me a escrita e pouco mais – escrevo então. enfim. é noite. e sendo assim. tenho que aproveitar todas as ideias que andam por aqui em fervura – bem sei que são tipo géiseres. o repuxo agora só surge de tempos em tempos. e tudo leva a crer que vai piorar – sou o que o destino me reservou. e nada mais me pode ser exigido

nota - esta crónica tem mais de dois anos. e por esse motivo. não faz nenhuma alusão ao candidato presidencial marcelo rebelo de sousa

 

09/10/2015

aclasto



foto - sampaio rego


atrás
dos desfrutáveis olhos
vagueiam memórias temporais
contristados
entressonham lágrimas
em:
bem-aventurança


06/10/2015

quem gira sem rumo nunca chega ao céu II



foto - sampaio rego
  

2.

hoje confesso que não há domingo. não há missa. não há roupa nova e muito menos carne assada. sou quase vegetariano e descobri no palavrão uma forma de manter o corpo em alerta contra as injustiças – reforço a pergunta: para que serve um deus na minha idade? para que quero um deus se já não tenho roupa nova. nem carne assada. nem domingo. nem aqueles sapatos apertados que por serem de couro só os podia calçar no dia do senhor – volto a perguntar. para que serve um deus na minha idade? ele existe? algum dia existiu? se existe que milagre ainda pode realizar num descrente que anseia pela evaporação crematória – envelhecer é um aborrecimento. um enorme aborrecimento – quanto mais velho mais dúvidas – sou mesmo um tonto. tanto saber desperdiçado em boémias inúteis de palavras divinas – reflexões sem fim – já não acredito na existência deste [meu] deus. um deus sem voz. sem retratos. sem aparições. sem comprovativo de morada. sem NIF. sem nada a não ser pinturas em capelas sistinas

- - nos dias de hoje. se deus existisse. já um qualquer paparazzo lhe tinha arrancado uma selfie – tenho a certeza

mas vou aparentar que aceito a sua existência como certa – hoje estou virado para este lado criativo. este lado fingido. o lado da indiferença. do faz de conta de que tudo é divino. e quem sabe. se estiver enganado. a mão de deus talvez mexa comigo – faço então uso de todos os ensinamentos cristãos. da catequese assimilada. dar a outra face. do ressuscitar de lázaro. do enxugar os pés da maria madalena a jesus. das moedas de judas. do ósculo fraternal a fazer emergir a paz de cristo no coração do homem. do meu também – sou por momentos um homem renovado na sua fé – estou assim. meio criança. meio adulto – e agora a saudação da paz do senhor

-- deus que é deus não agrada a todos – recorro a uma máxima da história para comprovar esta teoria: não se pode agradar a gregos e troianos simultaneamente

deus optou por não me agradar a mim – digo eu. conspurcado de pecados – vamos lá então – imagino-o no seu gabinete rodeado de pilhas de documentos importantes. pessoais. valiosos. altamente confidenciais – tudo “top secret” – tratados por centenas de assessores de uma idoneidade inquestionável – estes assessores foram escolhidos por meio de concurso celestial rigorosíssimo. e com a sua mão direita juraram sobre a bíblia sagrada defender o catolicismo contra todas as investidas do demónio – recuperar os crentes perdidos. renovando-lhes a esperança num mundo eterno – deus é justiça – são estes servos leais que ajudam diariamente deus a criar um mundo mais justo –

-- tudo dirigido sobre o mais rigoroso olhar de deus e debaixo de um rígido sigilo – o sigilo é a alma do negócio  

acomodado no seu cadeirão. de óculos na ponta do nariz. despacha relatórios de alta prioridade e confidencialidade. sem um único sorriso – os problemas do mundo não lhe dão sossego – já não é aquele deus que me impingiram na catequese. com ar feliz e sempre rodeado de criancinhas a pularem de alegria e segurança – nem aquele que me protegia nas noites escuras. e debaixo dos cobertores lhe pedia proteção contra as sombras demoníacas que cobriam as paredes do meu quarto – não. infelizmente esse deus já não existe – o mundo tornou-se enorme para um deus que não fala para ninguém – deus já não consegue chegar a todo o lado – o mundo cresceu imenso – eu também

-- gosto deste meu lado de criatividade cínico mesmo que não sirva para nada – sei que não sou nada

deus também é cínico comigo – todo este cinismo apenas para conter a fuga de crentes para o mundo do nada – o nada está cada vez maior. incontrolável – nada temo. nada creio. nada me fará falta depois de morto. nada serei de olhos fechados – o nada é sempre nada – e lá estou eu novamente no fundo do nada que é como quem diz no fundo do lixo – o lixo fica sempre por baixo. fica no silêncio das casas. dos cantos das salas angulares. dos quartos de hóspedes. dos tapetes persas. dos quadros surrealistas. dos passepartout com retratos a preto e branco. das gavetas de pau santo. das ruas empedradas. dos cantos da alma onde os precipícios se tornam eternos – o meu nada é uma espécie de suicídio assistido – vamos morrendo tão devagar que acabamos por ver partir tudo o que nos é querido – quando damos conta estamos sem nada. sem nada capaz de nos fazer morrer de uma só vez – e tudo isto num silêncio lacrimal que por não se ouvir ninguém sabe que existe – existimos num nada e dentro do nada sangramos pregados a uma cruz que não sendo a de jesus. é outra que nos implora fé em alguém que nunca abraçou como um homem – fica então um deus assim como um presidente da república. cheio de etiqueta. nunca sai do seu palácio e não faz coisa nenhuma – não faz nada – como o nosso presidente – coisas da democracia que no reino do céu deve ter outro nome qualquer. já que não me parece que haja eleições para o ofício de deus – ouço dizer que deus está no céu desde que um dia se lembrou de criar este pedaço de terra redondo. com mar. sol. sal e pecados – culpa da pobre eva. coitada

-- raios te partam eva. toda esta chatice por um orgasmo com o adão – espero que tenha valido a pena

perdoem-me. mulheres. por este desabafo ingrato e injusto. mas estou cada vez mais certo de que se não fosse homem seria mulher. e assim jamais seria nada – não acredito na ressurreição e também não acredito na encarnação – sei que estou vivo porque entendo o nada. sei escrever nada. dizer nada. desenhar o nada. sei até fazer um funeral ao nada. mas não tenho quem o leve aos ombros. e sozinho já não sou capaz – “com o suor do teu rosto comerás o teu nada. até que voltes ao nada. pois do nada foste formado; porque tu és nada e ao nada da terra retornarás” – que me perdoem todos aqueles que me abraçam com amor pois não é por falta da sua presença que eu sou descrente – sou o que sou porque ao nada nunca se pode acrescentar nada. a não ser matar a memória de um deus que verdadeiramente nunca existiu a não ser na minha igreja – um dia. cada vez mais próximo. serás definitivamente um grande mentiroso - sei

 

2ª parte de 3

25/09/2015

retalhos – número de série 25092015s(r)ego26



foto - sampaio rego



jamais saberei o que sou. nem quem sou - mas quando escrevo. sou realmente o que sempre quis ser – verdadeiro


31/08/2015

ciclo das pedras


foto - sampaio rego


rolam pedras

rolam sem parar

rolam sem ninguém as veja

rolam agitadas. donas de montanhas

mas rolam

rolam

todos os dias rolam

rolam inchadas

rolam papéis

rolam livros

rolam prosas

rolam rimas

rolam até palavrões

mas rolam

rolam. rolam

todos os dias rolam

rolam paridas

rolam inveja

rolam cobiça

rolam piadas

rolam maldades 

mas rolam

rolam. rolam

todos os dias rolam

rolam quadradas

rolam cegas

rolam porque o outro rola

rolam por rolar as pedras

rolam arrogantes

rolam uma

rolam duas

rolam três

rolam de três em três

rolam cem

rolam mil e três

rolam de quando em vez

 

mas rolam

rolam. rolam

todos os dias rolam

rolam do rolar das donas

de tanto rolar

apagaram as montanhas

as nuvens

as árvores

os lagos

os rios

os peixes

a terra

 

mas rolam

rolam. rolam

todos os dias rolam

mataram os olhos

os ouvidos

as mãos

a boca

o nariz

o coração

como pedra rola

devagar

mais devagar

mas ainda rola

rola

só sabe rolar

cada vez mais só

no seu rolar

sem sol

sem paixão

rola como palavra inútil

um dia

deixa de ser pedra

deixa de rolar

deixa de viver

restará apenas pó 

 
 

23/08/2015

quem gira sem rumo nunca chega ao céu I



foto - sampaio rego

1.

hoje penso em deus – confesso-me – cada vez tenho mais dificuldade em pensar no criador – já lá vai o tempo em que todas as noites. sem esquecimento. lhe devotava um pai nosso – o tempo passou. muito tempo. tanto que já poucas memórias me restam desse miúdo devoto – estou a entrar numa nova etapa existencial: olho-me pela vida e faço o balanço entre o deve e o haver – necessito urgentemente de encontrar um novo silêncio. olhar para trás sem medo. compreender os chamamentos recentes do corpo envelhecido. os apelos atuais da alma em questões de fé – o que mudou no rapazinho imortalizado pela fé para um adulto descrente na eternidade dos céus? chegou a hora de pesar e contabilizar os meus acertos. e os meus erros – a vida é uma corrida feita em tempo supersónico onde a meta é sempre alcançada – a questão é saber de que forma a vamos encontrar – aqui estou perante mim

-- estou certo de que necessitarei de um grande contrapeso para equilibrar os pratos da balança

a interrogação que coloco nos dias de hoje não é tanto sobre acreditar ou não nesse deus do passado. ou nessa eternidade prometida – com os meus cinquenta anos feitos a dúvida coloca-se de forma diferente – para que serve um deus na minha idade? – na minha juventude. quando ia à missa do carmo. igreja que servia os paroquianos da minha freguesia. ouvia o padre carlos dizer: deus está em todo o lado. deus recompensa a justiça e a fidelidade de cada um. deus é justo. quem serve a deus de verdade nele descansa

-- ora eu nunca descansei. culpa minha? talvez não o tenha servido com a fé de um verdadeiro crente  

dizia aquilo com tal convicção que não havia alminha que não acreditasse na palavra do eclesiástico – este padre era quase tão importante como os santos parados nas paredes. parados. mas vigilantes. nunca tiravam os olhos dos seus paroquianos. e ai daquele que ousasse pronunciar o nome de deus em vão – o sr. padre carlos também não arredava os olhos dos seus fiéis – a igreja repleta. de silêncio também. e aquelas almas todas inclinadas para o lado de deus: oremos senhor. ámen – todos de joelhos – um gesto ao de leve da mão do sr. padre e todos os crentes de pé. um exército de fé incondicional pronto a marchar contra as injustiças satânicas sob o comandado da omnipresença do senhor – ele estava ali. e está em todo o lado

-- oremos ao senhor pelos jovens da nossa diocese que sentem o chamamento de jesus

já não me lembro desse chamamento – o tempo apaga quase tudo. o caminho é agora assente em recordações a avulso. e a perceção da justiça feita na perspetiva de uma alma pecadora recauchutada – não tenho medo do que significa morrer em pecado – a equidade já não é exclusiva do meu deus – agora também eu decido o que está mais certo. e decido não pelos olhos do senhor. mas pelos meus. alimentados pelo mundo que consumi – somos tempo. e este muda tudo. principalmente o discernimento entre o certo. e o errado – a justiça é feita à medida da vida que escolhemos – pavlov chamou à correlação entre o estímulo incondicionado e a resposta incondicionada de reflexo condicionado – as crianças reproduzem o comportamento que observam. o medo também pode ser aprendido – com a idade destruí a teoria e hoje nenhuma sineta me faz salivar – não tenho medo de julgar contra a vontade de deus  

-- o acólito toca a campainha e dá-se o início da oração eucarística e a consagração do pão e do vinho em corpo e sangue de jesus cristo.

quem na minha meninice teria a ousadia de dizer que deus não era justo – ninguém. nem alma viva. todos temiam a eternidade do inferno – ninguém ousava altear a voz contra o meu deus. o deus de toda a minha rua. de todo o meu bairro. de todo o meu país – até a ideologia do estado novo tinha deus como chefe-mor – salazar mandou publicar: deus. pátria e família. por esta ordem de importância – ai de quem não acatasse a doutrina. a P.I.D.E. tratava-lhe da religião – e assim se cumpria a palavra de deus e do ditador – também eu sou agora um ditador. e a ordem das coisas alterada pela vontade da minha falta de fé em deus e na pátria. só me resta a família – éramos todos crentes. e o céu a nossa eternidade – não era fácil questionar ou duvidar uma fé que nascia com a primeira golfada de ar  

-- a hora foi pequenina e graças a deus é perfeitinho. com a graça do senhor

tudo era obra do senhor – assim nasci aos olhos de quem me queria bem: perfeitinho – ai. se me pudessem ver por dentro – mas lá fui andando e vivendo com os olhos cravados na fé. queria acreditar no meu deus. no deus que sacrificou o seu único filho para que todos aqueles que nele acreditassem não perecessem. mas tivessem a vida eterna – a minha vida encurta-se a cada dia. a idade não perdoa – questionar era pecar e as portas do inferno abertas para uma perpetuidade a arder em chamas demoníacas – mas toda a criança cresce e com o crescimento do corpo cresce também as incertezas da fé – com a idade a religião fica cada vez mais complexa. mais complicada de entender e explicar – deus não quer saber das nossas incertezas. não dá cavaco a ninguém – tudo o que permanece em mim é o seu silêncio. como sempre – habituámo-nos – mas sempre acabei por encontrar uma justificação para a sua mudez – imaginava-o com falta de tempo. ocupado. atarefado. a correr de um lado para o outro. uma mão aqui. uma criança salva. outra mão acolá. uma cura milagrosa. e o mar aberto mais uma vez para engolir todos os males do mundo. enquanto os mandamentos da lei de deus são agora gravados no céu. onde todos os homens são justos – o mundo perfeito – um sinal nas alturas divinas a indicar o caminho merecido aos seus seguidores – o homem em plena harmonia terrena – deus era todo poderoso e o mundo dos homens era justo – a fé estava por todo lado – na parede do meu quarto um terço enorme. em madeira. protegia-me de todos os males das trevas. enquanto na mesinha de cabeceira um terço de nossa senhora de fátima. benzido com água sagrada. guardava-me do medo do escuro – tantas vezes adormeci amarrado à fé da senhora de fátima – a noite é sempre tão escura para os inocentes – não havia aposento em minha casa que não ostentasse um sinal de fé. uma cruz. um azulejo com um dos mandamentos de deus. um santo contra o mau olhado. e na sala de jantar uma tela enorme com a última ceia do senhor com judas em destaque – sempre existiram judas no meu mundo – era aqui que dávamos graças ao senhor por nunca nos ter faltado o pão – o milagre da multiplicação num lar de crentes agradecidos – vivíamos em estado de graça: fé. amor. saúde. trabalho. uma mesa feita de fartura. e tudo isto obra de um deus maior. dono de todas as vontades na terra – pecar era proibitivo para tanta gentileza divina – se me saía da boca uma palavra mais atrevida logo a minha mãe me dizia: isso é pecado. nosso senhor não gosta dessa linguagem

-- sábado vais-te confessar para domingo receberes o senhor sem pecado

ir ao confesso para libertar o espírito. a alma do pecado. do erro. da desonra. ou da ignomínia da pior imperfeição do mundo – um palavrão dava direito à passagem pelo purgatório. e acrescentava:  

-- uma alma deve estar sempre limpa. nunca sabemos quando se cumpre a vontade de deus de nos chamar para o seu reino –

domingo lá recebia eu o senhor. o padre carlos no topo da igreja. ar seríssimo. tudo ali era sério. e os crentes todos alinhados. limpos. na roupa também. confessados. sem um único palavrão. caminhavam passo a passo. solenemente. os olhos no altar em jeito de misericórdia. e a boca entreaberta em benignidade pronta a receber o senhor purificador

-- o corpo de cristo: ámen

e lá vinha eu de cabeça baixa. expurgado de todos os males do mundo. limpo por dentro e por fora – finalmente puro. renascido para o mundo dos justos e do perdão – ajoelhava-me e ali ficava dois ou três minutos até que o ritual de purificação tivesse o tempo suficiente para não ser olhado de soslaio pelos meus parceiros de fé – nestas coisas da religião tudo tem o seu tempo – cristalino e lavado de todas as impurezas olhava agora o padre carlos olhos nos olhos – sentia-me gigantesco e grato com a divindade no corpo. tanta fé e a alma a inchar de orgulho. com o senhor cada vez mais apertado dentro de mim – sentia-me diferente. um estado de paz e alegria silenciosa que nunca saberei explicar – muito menos escrever – finalmente os santos ganhavam vida. olhos largos. sorrisos abertos. apontavam-me o dedo enquanto os lábios pronunciavam em uníssono: és um bom menino – afinal os santos não eram apenas figuras de barro – estava em harmonia com a vontade de deus

-- ide em paz e que o senhor vos acompanhe

neste dia do senhor todo o cristão veste a sua melhor farpela para entrar na casa de deus – eu não era diferente – ali estava todo ajanotado. o orgulho da minha mãe. camisa engomada. sapato polido e um casaco a cobrir todas as imperfeições do corpo. enquanto o cabelo caía para o lado de deus em perfeita geometria com a orelha. metade coberta e outra metade pronta a ouvir a pergunta sacramental da matriarca ao chegar a casa: de que cor era a batina do sr. padre – a minha mãe tinha que confirmar a minha lealdade aos mandamentos do senhor – ela sabia que satanás era mestre em desviar os menos devotos do caminho da virtude – os seus cuidados nunca eram demais para um filho que se quer como exemplo – é domingo e deus disse: ao sétimo dia descansarás. para que descanse o teu boi e o teu jumento – não tardava nada estava em casa a almoçar uma belíssima carne assada enquanto o meu pai descansava fazendo a vontade ao senhor – só a minha mãe não respeitava a palavra do senhor. era ela que cozinhava – as donas de casa nessa época tinham uma bula pontifícia para poderem alimentar a família de pão e amor aos domingos

 

1ª parte de 3


13/08/2015

deambulações noturnas - IX



foto - sampaio rego


na busca pela felicidade. nunca encontro refúgio nos meus pensamentos – estes oprimem-me pela imensidão de informação indecifrável – a mente escarnece sem piedade. como se pensar fosse uma condenação – meu pensamento. despido de sumptuosidade. oscila entre o que fiz. e o que gostaria de ter feito – no passado. encontro sempre algo de errado. e assim. tento corrigir o que ainda planeio fazer – nasce então mais uma dúvida – a felicidade distancia-se. é mais próxima das certezas. uma magnificência que o meu pensamento ainda não alcança – tenho agora a esperança de que a morte. em seu silêncio absoluto. me conceda a felicidade eterna. e sim. finalmente. o pensamento render-se-á ao silêncio das pulsações – e assim. alguém dirá por mim: deixou de pensar. deixou de existir