05/04/2016
o grito
04/04/2016
autofágico
escrevo – quem diria que um dia passaria os
meus dias a reescrever o passado – aprendi a escrever há tanto tempo – ainda me
lembro bem da minha professora primária - dona felismina. era tão bonita - e de
um diploma que trouxe para casa - dezassete valores. aprovado – devidamente
assinado e autenticado com selo branco escolar – um orgulho de diploma. ainda o
guardo – em casa tudo continuou como dantes. os diplomas só tinham valor quando
traziam títulos –
- - gostava tanto que
fosses dentista - dizia a minha mãe
mas
eu queria ser bombeiro. o risco. a vaidade com que enfeitavam as fardas de
medalhas. as sirenes. os carros vermelhos. as escadas suspensas. a vozear presa
enquanto a esperança se aguentava pendurada às mangueiras aflitas – eram homens
bonitos e transportavam com eles uma inesgotável e merecida reverência – eram os
soldados dos afetos – o tempo passou – agora sei que. apesar do diploma. nunca
aprendi verdadeiramente a escrever. uma mágoa insanável – nunca cheguei a bombeiro – mas daqui não me
resta dor. não se perdeu um grande soldado da paz – estou em guerra comigo
desde que nasci – fiquei-me pela arte de juntar letras para me dar a entender.
com esforço. resumindo: sou um escritor autofágico. minúsculo – alimento-me de
tudo o que é meu para escrever – prolongado assim a morte
01/04/2016
1º abril
bem sei que este é o teu dia favorito. não é!?
mas sabes: este não é o meu dia. e para ser o teu teria que ter a tua mentira como verdade
nunca
tive
27/03/2016
ego
22/03/2016
vocábulos dubitativos
21/03/2016
o poeta
o
poeta é um ser estranho – encavalita-se no sujeito
poético para dizer que não disse o que disse – a culpa. sentimento de mal-estar
humano. faz balançar a escrita do seu criador entre a verdade. a meia verdade.
e a fingida catapulta – o arremesso da alma ao leitor é o desafio – e o sujeito
oculto em gargalhada fina – pobre poeta. inimputável para o mal. venerado para
o bem – um estranho ser: o poeta
18/03/2016
março: a sombra da saudade
março – nunca sei o que fazer com
este mês – março é o mês da primavera. dos dias a crescer para o imenso. do
entendimento entre a noite e o dia. do vento franzino preso a um papagaio de
papel. das crianças enganchadas a raios de sol delicados – março é memória.
ternura. e esperança – é verde. flor. pólen. andorinha. é braço tatuado de um
amor interminável – no mês de março sou pai. sou filho. sou saudade. sou
arrependimento. sou perdão. sou quase nada. sou quase tudo – sou pai orgulhoso
e filho saudoso – sem março não teria aprendido a verdadeira dimensão da
saudade – se não houvesse o mês de março. talvez o meu pai não tivesse partido
pelo estreito silêncio dos hospitais – mas março chega logo depois do inverno.
e no inverno os corpos perdem-se no escuro das noites e na mudez – no teu
inverno as bocas calaram-se na dor – a tua. e a minha – podia ter conversado.
podia ter dado as mãos. podia ter colocado o ouvido no teu peito. e guardado
para sempre o batimento que te levou – podia ter-te ajeitado o cabelo para o
melhor lado. feito ternura. trocado todas as minhas lágrimas por uma única tua.
uma que trouxesse um pouco de mim. uma memória dentro da tua memória – podia
vestir-te a calça bege vincada. o casaco azul-marinho de trespasse. juntar ao
peito um lenço cor do céu. ajoelhar-me. e pedir-te perdão por ter sido
demasiado jovem – tu sempre gostaste de gente jovem – podia erguer-te
novamente. endireitar-te para um mundo onde nunca te vi curvado – mas março é
março – e tudo o que posso agora fazer é recordar-te no sorriso e na bondade –
sei que o céu continua em festa – meu pai – o mês de março nunca me
compreenderá – quando envelhecemos aprendemos tantas coisas sobre o nosso pai –
hoje é dia do pai – faz hoje dezoito anos que te escondeste para sempre debaixo
da terra – era dia do pai – hoje. continua a ser dia do pai
17 de março de 1998 – o silêncio oval dos domingos
sempre
me senti só aos domingos. nunca entendi muito bem a metamorfose do corpo nesse
sétimo dia – no passado. em minha casa. este dia era dedicado ao senhor
– hoje já não há senhores em
minha casa. o último a bater com a porta foi o meu pai
não
gosto do domingo. mas gosto do silêncio dos domingos. gosto da sensação do não
barulho. do não movimento. dos cortinados parados. das cadeiras arrumadas em
círculo a apertar de lamentos baixinhos a mesa oval – a mesa era redonda. mas
como éramos muitos o meu pai mandou fazer um aumento que permitia sentar toda a
família à sua volta – a mesa ficava oval mas para mim era redonda. um redondo
perfeito –
– desde que o meu pai partiu nunca mais
conseguimos tirar o aumento ao centro da mesa
a
mesa oval está cada vez mais imperfeita. deve ser da sua geometria. excêntrica
– sempre achei que a forma oval nasceu porque alguém não sabia fazer redondos –
os redondos são perfeitos. o sol é redondo. a terra é redonda. a lua também. os
olhos são redondos. tudo o que é redondo é perfeito. não tem princípio nem fim.
o meu pai também não – o meu pai era perfeito e a mesa oval só era perfeita com
ele à mesa – com o meu pai todas as formas geométricas se transformavam em
redondos mais-que-perfeitos
o meu pai era um homem
redondo. sem uma única aresta. a vida deslizava por ele como se o corpo se
inclinasse para o centro do universo
mas
a mesa ali estava. inerte. quase morta. perdida no silêncio de todos os
domingos – enfeita-a com vida um napperon de linho bordado à mão pela minha
mãe. adornada por um centro de mesa em louça fina. também oval. com uma tampa perfurada
para segurar flores. que a minha mãe substituiu por plástico – duram para
sempre – quem me dera que pudéssemos fazer o mesmo com as pessoas
09/03/2016
quem gira sem rumo nunca chega ao céu III
3.
não sei
– não sei muito bem para que um deus haveria de criar esta coisa redonda que
gira como giram os carrosséis – não se faz ninguém feliz com coisas que giram
sempre na mesma direção – se queria ter um povoado feito de gente feliz criava
um céu sem girar. nem precisava de ser um grande céu. bastava que fosse igual
ao que me ensinaram nos livros da catequese – anjinhos com asas. cascatas de
água translúcidas. pombas brancas. e um sol que se desfazia num amarelo
silêncio que era ao mesmo tempo paz – tudo perfeito – a harmonia exemplar entre
a natureza e o homem – diabo. nem vê-lo
– “portanto. submetam-se a
deus – resistam ao diabo. e ele fugirá de vocês”
mas não. deus criou uma
coisa redonda que gira como os carrosséis. criou este mundo que é tudo para uns
e nada para outros – obstinado. sim – doentio. talvez – cavalos. girafas.
zebras. cestos que rodam sem parar. bicicletas. triciclos e outras coisas que
servem para dar cor e animação a um mundo que não sabe girar sem ser em torno
de si – o homem não sabe viver sem animação – e a voz no microfone a falar para
o mundo inteiro. e o mundo surdo pelo cansaço de nada ouvir quando está em
diversão – nada. sempre o nada – o mundo foi desde sempre um divertimento –
para deus é com toda a certeza
– mais uma volta. uma nova
corrida. uma nova viagem – e a vida toda feita a girar
deus concebeu este carrossel
e é dele a voz nos altifalantes – diz que está em todo lado – mentiroso – mas
vou continuar com o meu lado criativo. adoro este lado. faz-me bem. distorce a
realidade sem me distorcer nada por dentro – lá vem o nada ao de cima novamente
– certo dia. deus. há muito muito tempo. estava deprimido. depreciado. desfeito
em tristezas. mergulhado em pastilhas de suporte de vida – prozac celestial era
a terapia contra a infelicidade no céu – o momento não era fácil. o desespero
roubava-lhe lucidez – a depressão era um castigo que o atormentava nos seus
silêncios eternos – profundamente triste. esgotado numa dor contínua que lhe
atrasava os braços nos compromissos etéreos. ao mesmo tempo que a consciência
sensível ia perdendo a salubridade – para pôr fim a esta agonia que anunciava
uma morte impossível de acontecer. deus não morre. tomou a seguinte decisão:
fazer a terra – é o que eu congemino neste pequeníssimo cérebro – ninguém com o
perfeito juízo fazia uma terra com gente como eu – deus não estava bem – falo
por mim que sou um pateta e tudo o que penso não serve para nada – mais uma vez
o nada
– os meus pais. distraídos.
compraram um bilhete – naquele tempo os métodos anticoncecionais não eram
fiáveis – era do tempo do termómetro
apanhei a última cegonha com
destino à minha rua – nunca me senti indesejado. bem pelo contrário. foi a
vontade de deus. como diz a minha mãe – eram tempos difíceis para as cegonhas e
para as famílias – muitas lágrimas escorreram pelos olhos da minha mãe
– e agora como vai ser para
criar este menino. como vai ser meu deus. tu sabes que já não sou nova – era
assim a apoquentação da minha mãe
duvido que deus soubesse de
alguma coisa. mas se algo lhe tivesse assobiado aos ouvidos. tenho a firme
convicção que não lhe passava pela cabeça o tamanho da encomenda que lhe
chegava em aborrecimentos – e lá vou eu no carrossel. num cesto que gira sem destino
– gira para esquerda e para a direita e nenhuma mão capaz de dar rumo ao cesto
– nem a mão de deus – enquanto as zebras e os cavalos nobres. num galope
celestial. certo. com direção. com altivez. elegância. de olhos postos no
destino. percorrem tempo num acerto que nunca fui capaz de reproduzir – e o
cesto a rodar sem parar. e eu perdido em voltas sem saber – “deus ao menino e
ao borracho põe a mão por baixo” – nunca fui menino. nunca fui borracho. cresci
no dia em que nasci. cresci para fora do corpo e nunca fui capaz de segurar os
olhos dentro do tempo certo – há um tempo certo para se fazer o que está certo
– nasci preso às asas de uma
gaivota rumo a um vento que nunca me entendeu
os carrosséis não rodopiam
da mesma forma para todos – a postura dos cavaleiros também conta para dar brio
ao carrossel – eu lá vou todo desengonçado a girar para um lado e para o outro.
sem saber se vou para norte. ou para sul – que importa se o banco só gira para
os lados – os lados não têm norte ou sul – enquanto giro. os altifalantes
vomitam alegria. só as zebras e os cavalos se mantem aprumados com o rumo do
carrossel. tudo o resto vai para onde calha – vai para cima e para baixo. para
um lado ou para o outro. é um cesto alucinado – ir sem rumo também é destino –
tudo roda sobre mim – quem roda unicamente sobre si nunca saberá encontrar
realmente o caminho que lhe falta percorrer – o deus que me impingiram em
criança não fazia isto. deus não é injusto. não é xenófobo. e a minha rua é
igual a tantas outras – ele tem obrigação de saber que não fui eu que escolhi
aquela cegonha tresloucada. e muito menos escolhi o deus a quem rezar – no
primeiro dia deus criou o dia e a noite e os carrosséis
-- “e lá procurarão o
senhor. o seu deus. e o acharão. se o procurarem de todo o seu coração e de
toda a sua alma”
se te procurei foi por ordem
da minha mãe. e também foi por sua ordem que frequentei a tua casa. apesar de
nunca te ter visto por lá – fiz o que me mandaram e se te aborreci foi sem
querer – deus não pode ser assim tão injusto. já não falo por mim que estou
habituado. desde pequeno. ao seu silêncio. mas por aqueles que nunca se
cansaram de acreditar nas orações que lhe consagram diariamente – deus não pode
continuar a esconder-se no silêncio – deus se existisse não era injusto. ou
então não está em todo lado como faz acreditar
-- deus está cansado –
imagino eu. cansado também. do seu cansaço
acredito que deus não é o
responsável pela pasta da equidade no céu. tem um capataz a quem delegou todo a
justiça terrena – concebo-o sisudo. de bigode farfalhudo. voz grossa. e a face
marcada de escaramuças – o feitor coloca-se à porta do céu. e quando chega o
pecador é com ele as primeiras falas – olha para o aspeto do pobre infeliz. e
sem mais nenhum trato. dá-lhe um pontapé no rabo e diz-lhe sorrindo:
-- senta aí. alguém te virá
buscar – e psiu! pouco barulho que o senhor teu deus está a descansar
e assim estou. sentado e
ainda não entrei no céu – tratado como um verdadeiro nada – espero que alguém
me mande para algum lado. um lado sem lado. um lado que por ser redondo abrace
todos os pretensos lados. renovando a fé dos indecisos com um novo lado mais
justo. o lado que me faça aceitar o dever de gratidão por fazer parte deste
mundo – o jogo de deus
– i love this game
apesar de não saber
escrever. e esta missiva estar um pouco confusa. sei que um dia deus responderá
a todas as minhas dúvidas – contrapondo: “abençoado são os teus olhos. porque
veem; e os teus ouvidos. porque ouvem. pois. mesmo sem tê-lo visto. tu o amas;
e ainda que não estejas podendo contemplar seu corpo neste momento. ”crês em
sua pessoa e exultas com indescritível e glorioso júbilo” – qualquer idade
necessita de ter um deus de verdade – na minha idade só preciso de um deus para
me retirar para a barca – tenho de levar a moeda certa na boca – preciso de
acreditar num ser superior – preciso de um deus – preciso que os meus filhos
possam continuar a crescer como homens de bem. e que sejam capazes de o
encontrar onde eu ceguei – preciso que sejam sempre fortes e corajosos em seu
caráter. afáveis com as demais pessoas. bondosos. amantes da paz – preciso que
valorizem o trabalho. a justiça. a nobreza das ações acreditando sempre. que um
dia. serão capazes de ouvir da sua boca que valeu a pena acreditar num deus que
já foi o meu – preciso de um deus para lhe entregar as minhas preces. os meus
medos. os meus receios – preciso de um deus para lhe pedir proteção divina para
os meus filhos. para a minha maria joão – só assim poderei partir para a minha
última viagem – preciso de um deus que me deixe comtemplar pela última vez o
que mais amo neste mundo. e seguidamente. reencontrar definitivamente o meu pai
terreno – o meu pai terreno – tenho tantas saudades dele e quero tanto
abraçá-lo – para sempre – preciso de um deus para sair definitivamente deste
corpo. apanhar a cegonha de volta ao nada acreditando que deus tomará o meu
lugar na proteção dos meus – preciso de um deus para todos aqueles que estimo e
amo – para mim já é tarde. apesar de ter passado a vida a tentar-lhe agradar –
para mim basta que me receba pessoalmente na porta de onde quer que viva e me
diga: foste um palerma. um tolo. se nunca te apareci foi por tua culpa – és um
ingrato – mas sossega que não sou rancoroso e os teus filhos. ao contrário de ti.
saberão escolher a estrada certa – mas descansa. fica em paz. estou de olho
neles e tudo farei para lhes mostrar o caminho da luz – sei que só partindo em
paz comigo serei capaz de me sentar à direita de deus e ao lado do meu pai
– e disse-lhe jesus: em
verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso
aqui estou eu meu deus.
novamente. como quando te visitava na catequese. completamente livre de
preconceito. quase ingénuo – desta vez para te dizer que o que aprendi na tua
casa não me serviu de grande coisa. a não ser. o fato de me teres dado um
padrão moral capaz de decidir com objetividade o que está certo ou errado –
coisa de pouca monta neste novo tempo das tecnologias que andam num ar
invisível – os ensinamentos da moral deixaram de ter exclusividade nos homens
de deus – mas adiante. se efetivamente existires. e se me vieres realmente
receber à porta da tua casa. lembra-te de que os meus filhos existem porque um
dia eu acreditei verdadeiramente em ti. na virtude da alma. da família. no amor
verdadeiro. no certo a vencer o errado. no bem a se sobrepor ao mal. e na luz a
iluminar as trevas – por mais insignificante e minúscula que encontres a minha
alma recorda que ela é ainda preenchida pelo que sobra das tuas palavras – um
homem de bem nesta idade necessita de acreditar num deus de bem – num deus que
seja capaz de dar alento a quem vive a meu lado há mais de trinta anos – uma
cama partilhada jamais aceita o silêncio das ausências eternas – que seja
também eles capaz de guardar os filhos até ao dia que encontrem a mesma saudade
que hoje tenho pelo meu pai – hoje vou rezar um pai nosso – um homem na minha
idade precisa de rezar mesmo que não acredite em nada
– pai nosso que estais no
céu
um homem da minha idade só
precisa de um deus que lhe permita partir em paz – eu sempre quis morrer em paz
e na companhia dos meus filhos e da minha amada
07/03/2016
transumância
deslacei
que a inteireza é tecida de inverdades
o amor contracena com o desamor
e até o afeto
murcha
lamenta o tempo
é a hora da transumância humana
sobejam ainda:
os últimos frutos selvagens da primavera
29/02/2016
arrematado ao melhor preço
pobre
homem – também tu foste picado pelo mosquito dos encómios inteligíveis e
involuntários – pobre tonto – tanta idade gasta à procura de uma coluna jónica
capaz de te apartar de todas as almas errantes do mundo. e logo fui picado pelo
pior bicho do mundo – arrematado ao melhor preço – sou agora um homem-besta até
que as minhas orelhas de burro sejam transplantadas para outro impuro – que
seja rápido e sem dor. enquanto a alma se torce em programa que não é de purificação
– loucos. os deuses que me fizeram – soubesse eu calar – soubesse eu cegar –
soubesse eu ensurdecer – nem raios. nem coriscos. só santa bárbara para dar ao
meu nome uma trovoada – tivesse eu um raio a cair-me das mãos e iluminaria o
purgatório com um aviso: é para lá que vão todos os caçadores de almas – mesmo
que os vossos olhos só enxerguem papel. creiam que. em filigrana. vai anexado
um sorriso sofrido – meu e apenas para mim – mas assim sei que respiro. e cada
vez mais desperto para o mundo dos mortais
01/01/2016
é janeiro
ora cá
estou no primeiro dia do ano. seria um dia igual a tantos outros não fosse a
minha vontade de vos dizer tudo o que sinto – quero-vos bem e sei que não é por
ser o primeiro dia de janeiro –
quero-vos bem porque em minha casa há silêncio-paz e sempre que o silêncio me
encontra eu desbulho da memória um amigo a quem desejo o melhor do mundo – é
janeiro. é ano novo. é um dia de encontros com os meus fantasmas. é um dia do
caraças e eu sem arte para vos abraçar com palavras como queria – se eu fosse
poeta dir-vos-ia que janeiro tem mais encanto com vocês
poeta eu?
o
poeta sobrevive nas vísceras de um cérebro permanentemente insatisfeito – sofre
na busca das palavras que nunca saberá escrever – por mais palavras escritas.
por mais palavras pensadas. por mais que deixe o corpo arder no inferno. nunca
será capaz de ditar às mãos o sofrimento de não as saber escrever – não há
caminho feliz para quem gosta de escrever o que vê
sejam todos muito felizes neste
novo ano e não se esqueçam de me levar nos vossos sorrisos
29/12/2015
adeus ano velho
também eu
gosto do silêncio. e este ano tive tão pouco – se fosse possível renascer de
forma diferente neste novo ano – nascia em silêncio. e juro que nem com a
palmada no rabo choraria – respirava silêncio e pedia para me embrulharem num
livro de poesia – depois. sim. caía nos braços da minha mãe e ali ficaria para
sempre – em silêncio – feliz ano 2016 para todos os meus amigos – prometo-vos
que nunca deixarei de “perseguir as luzes das estrelas até ao fim da minha
vida” – sejam felizes. e obrigado por fazerem parte da minha vida
13/10/2015
professor marcelo
gostava de ser como o professor marcelo.
marcelo rebelo de sousa – dizem os amigos. e os inimigos também. que o homem é
inteligentíssimo. um reconhecido génio lusitano. feito comendador da ordem
militar de santiago da espada e da grã-cruz da ordem do infante dom henrique – estamos
perante um homem de uma lucidez rara. de um raciocínio veloz. pouco habitual no
nosso meio académico e político – sempre ouvi dizer que homem inteligente é aquele
que se conhece a si mesmo – pois bem. o professor não só possui este dom. como também
conhece a fundo os meandros da politiquice nacional – sempre que aparece na
televisão. o professor parece um gaiato. com uma energia de fazer inveja a
qualquer catraio – não há um único sinal de cansaço no seu programa de domingo.
do primeiro ao último minuto o professor marcelo é um autêntico “showman” – o
professor é formidável. e ainda alardeia perante os seus admiradores. que precisa
apenas de duas horas de sono por noite para se manter em plena forma física e
intelectual – à hora de almoço é vê-lo a dar uns mergulhos na praia de carcavelos.
com chuva ou sol. seja inverno ou verão. lá vai o homem. como se fosse feito do
mar – é ele que dá força àquela velha teoria de que todos descendemos de um
marinheiro – uma fura nas ondas. duas braçadas a favor da corrente. e lá sai o
sr. professor da água. purgado de todas as maleitas do envelhecimento precoce –
manuel de oliveira morreu novo. um dia. quando fizermos as contas. entenderemos.
veremos que soma dá o toque de finados – para completar esta panóplia de bênçãos.
dizem os íntimos que o professor catedrático dita duas cartas ao mesmo tempo. sem
nunca se confundir. mantendo sempre a postura do corpo. o brilho do raciocínio.
a fala eloquente e a emoção gestual –marido. pai. professor universitário.
político e. por fim. comentador político na TV - a hora de marcelo rebelo de
sousa. programa semanal de sua responsabilidade – estamos perante um verdadeiro
sobredotado lusitano – gosto de o comparar a um automóvel topo de gama – um
ferrari de versão esmerada. vermelho. cupê de duas portas. motor 3.6 litros V8
de 400cv de potência. acelera de 0–100 km/h em 4.3 segundos – uma loucura de
carro. só para gajos com unhas. o motor de oito cilindros leva-o ao fim do
mundo – uma bomba atómica com quatro rodas. mas nem todos podem ser ferraris. alguns
não passam de comerciais de segunda mão. desgastados pelo tempo. sem a mesma
potência nem o mesmo brilho. e assim percebo que a minha inteligência é apenas isso.
um motor cansado. que nunca chegará a essas rotações – junta da colaça rachada.
vielas gastas. escova limpa vidros a nada limpar. retrovisor embaciado com tudo
o que ficou para trás. e o “démarre” afogado num cheiro a gasolina que deixa
antever uma explosão da “voiture” a qualquer momento – eis o que é. fumo negro
em escape que já não filtra o bom do que é mau. e a caixa das velocidades presa
a uma marcha-atrás que não me deixa fazer nenhuma estrada em frente – ao
volante. uma condução de raiva. o limite de velocidade nunca se aplicará ao meu
cérebro – resignado. acolho-me sem medo. abraço o que posso fazer com gratidão
aos deuses da fortuna. e olho o amanhã com esperança limitada para o corpo que
me calhou em sorte – estou demasiado gasto para qualquer conserto. já não há
peças de substituição – sou assim. o que não tem remédio. remediado está – estou
a ficar um caco – as noites começam a ficar cada vez mais pequenas para pensar.
resta-me a escrita e pouco mais – escrevo então. enfim. é noite. e sendo assim.
tenho que aproveitar todas as ideias que andam por aqui em fervura – bem sei
que são tipo géiseres. o repuxo agora só surge de tempos em tempos. e tudo leva
a crer que vai piorar – sou o que o destino me reservou. e nada mais me pode
ser exigido
nota - esta crónica tem mais
de dois anos. e por esse motivo. não faz nenhuma alusão ao candidato
presidencial marcelo rebelo de sousa
09/10/2015
aclasto
06/10/2015
quem gira sem rumo nunca chega ao céu II
2.
hoje
confesso que não há domingo. não há missa. não há
roupa nova e muito menos carne assada. sou quase vegetariano e descobri no
palavrão uma forma de manter o corpo em alerta contra as injustiças – reforço a
pergunta: para que serve um deus na minha idade? para que quero um deus se já
não tenho roupa nova. nem carne assada. nem domingo. nem aqueles sapatos
apertados que por serem de couro só os podia calçar no dia do senhor – volto a
perguntar. para que serve um deus na minha idade? ele existe? algum dia
existiu? se existe que milagre ainda pode realizar num descrente que anseia pela
evaporação crematória – envelhecer é um aborrecimento. um enorme aborrecimento –
quanto mais velho mais dúvidas – sou mesmo um tonto. tanto saber desperdiçado
em boémias inúteis de palavras divinas – reflexões sem fim – já não acredito na
existência deste [meu] deus. um deus sem voz. sem retratos. sem aparições. sem
comprovativo de morada. sem NIF. sem nada a não ser pinturas em capelas sistinas
- - nos dias de hoje. se deus existisse. já um
qualquer paparazzo lhe tinha arrancado uma selfie – tenho a certeza
mas
vou aparentar que aceito a sua existência como certa – hoje estou virado para
este lado criativo. este lado fingido. o lado da indiferença. do faz de conta
de que tudo é divino. e quem sabe. se estiver enganado. a mão de deus talvez mexa
comigo – faço então uso de todos os ensinamentos cristãos. da catequese
assimilada. dar a outra face. do ressuscitar de lázaro. do enxugar os pés da
maria madalena a jesus. das moedas de judas. do ósculo fraternal a fazer
emergir a paz de cristo no coração do homem. do meu também – sou por momentos
um homem renovado na sua fé – estou assim. meio criança. meio adulto – e agora
a saudação da paz do senhor
-- deus que é deus não agrada a todos – recorro a
uma máxima da história para comprovar esta teoria: não se pode agradar a gregos
e troianos simultaneamente
deus
optou por não me agradar a mim – digo eu. conspurcado de pecados – vamos lá
então – imagino-o no seu gabinete rodeado de pilhas de documentos importantes. pessoais.
valiosos. altamente confidenciais – tudo “top secret” – tratados por centenas
de assessores de uma idoneidade inquestionável – estes assessores foram escolhidos
por meio de concurso celestial rigorosíssimo. e com a sua mão direita juraram
sobre a bíblia sagrada defender o catolicismo contra todas as investidas do
demónio – recuperar os crentes perdidos. renovando-lhes a esperança num mundo
eterno – deus é justiça – são estes servos leais que ajudam diariamente deus a criar
um mundo mais justo –
-- tudo dirigido sobre o mais rigoroso olhar de
deus e debaixo de um rígido sigilo – o sigilo é a alma do negócio
acomodado
no seu cadeirão. de óculos na ponta do nariz. despacha relatórios de alta
prioridade e confidencialidade. sem um único sorriso – os problemas do mundo
não lhe dão sossego – já não é aquele deus que me impingiram na catequese. com
ar feliz e sempre rodeado de criancinhas a pularem de alegria e segurança – nem
aquele que me protegia nas noites escuras. e debaixo dos cobertores lhe pedia
proteção contra as sombras demoníacas que cobriam as paredes do meu quarto – não.
infelizmente esse deus já não existe – o mundo tornou-se enorme para um deus
que não fala para ninguém – deus já não consegue chegar a todo o lado – o mundo
cresceu imenso – eu também
-- gosto deste meu lado de criatividade cínico mesmo
que não sirva para nada – sei que não sou nada
deus
também é cínico comigo – todo este cinismo apenas para conter a fuga de crentes
para o mundo do nada – o nada está cada vez maior. incontrolável – nada temo.
nada creio. nada me fará falta depois de morto. nada serei de olhos fechados – o
nada é sempre nada – e lá estou eu novamente no fundo do nada que é como quem
diz no fundo do lixo – o lixo fica sempre por baixo. fica no silêncio das
casas. dos cantos das salas angulares. dos quartos de hóspedes. dos tapetes
persas. dos quadros surrealistas. dos passepartout com retratos a preto e
branco. das gavetas de pau santo. das ruas empedradas. dos cantos da alma onde
os precipícios se tornam eternos – o meu nada é uma espécie de suicídio
assistido – vamos morrendo tão devagar que acabamos por ver partir tudo o que
nos é querido – quando damos conta estamos sem nada. sem nada capaz de nos
fazer morrer de uma só vez – e tudo isto num silêncio lacrimal que por não se
ouvir ninguém sabe que existe – existimos num nada e dentro do nada sangramos
pregados a uma cruz que não sendo a de jesus. é outra que nos implora fé em
alguém que nunca abraçou como um homem – fica então um deus assim como um
presidente da república. cheio de etiqueta. nunca sai do seu palácio e não faz coisa
nenhuma – não faz nada – como o nosso presidente – coisas da democracia que no
reino do céu deve ter outro nome qualquer. já que não me parece que haja
eleições para o ofício de deus – ouço dizer que deus está no céu desde que um
dia se lembrou de criar este pedaço de terra redondo. com mar. sol. sal e
pecados – culpa da pobre eva. coitada
-- raios te partam eva. toda esta chatice por um
orgasmo com o adão – espero que tenha valido a pena
perdoem-me.
mulheres. por este desabafo ingrato e injusto. mas estou cada vez mais certo de
que se não fosse homem seria mulher. e assim jamais seria nada – não acredito
na ressurreição e também não acredito na encarnação – sei que estou vivo porque
entendo o nada. sei escrever nada. dizer nada. desenhar o nada. sei até fazer
um funeral ao nada. mas não tenho quem o leve aos ombros. e sozinho já não sou
capaz – “com o suor do teu rosto comerás o teu nada. até que voltes ao nada.
pois do nada foste formado; porque tu és nada e ao nada da terra retornarás” – que
me perdoem todos aqueles que me abraçam com amor pois não é por falta da sua
presença que eu sou descrente – sou o que sou porque ao nada nunca se pode
acrescentar nada. a não ser matar a memória de um deus que verdadeiramente
nunca existiu a não ser na minha igreja – um dia. cada vez mais próximo. serás
definitivamente um grande mentiroso - sei
2ª parte de 3
25/09/2015
retalhos – número de série 25092015s(r)ego26
31/08/2015
ciclo das pedras
rolam pedras
rolam sem parar
rolam sem ninguém
as veja
rolam agitadas.
donas de montanhas
mas rolam
rolam
todos os dias
rolam
rolam inchadas
rolam papéis
rolam livros
rolam prosas
rolam rimas
rolam até
palavrões
mas rolam
rolam. rolam
todos os dias
rolam
rolam paridas
rolam inveja
rolam cobiça
rolam piadas
rolam
maldades
mas rolam
rolam. rolam
todos os dias
rolam
rolam quadradas
rolam cegas
rolam porque o
outro rola
rolam por rolar as
pedras
rolam arrogantes
rolam uma
rolam duas
rolam três
rolam de três em
três
rolam cem
rolam mil e três
rolam de quando em
vez
mas rolam
rolam. rolam
todos os dias
rolam
rolam do rolar das
donas
de tanto rolar
apagaram as
montanhas
as nuvens
as árvores
os lagos
os rios
os peixes
a terra
mas rolam
rolam. rolam
todos os dias
rolam
mataram os olhos
os ouvidos
as mãos
a boca
o nariz
o coração
como pedra rola
devagar
mais devagar
mas ainda rola
rola
só sabe rolar
cada vez mais só
no seu rolar
sem sol
sem paixão
rola como palavra
inútil
um dia
deixa de ser pedra
deixa de rolar
deixa de viver
restará apenas pó
23/08/2015
quem gira sem rumo nunca chega ao céu I
1.
hoje penso em deus
– confesso-me – cada vez tenho mais dificuldade em pensar no criador – já lá
vai o tempo em que todas as noites. sem esquecimento. lhe devotava um pai nosso
– o tempo passou. muito tempo. tanto que já poucas memórias me restam desse
miúdo devoto – estou a entrar numa nova etapa existencial: olho-me pela vida e
faço o balanço entre o deve e o haver – necessito urgentemente de encontrar um
novo silêncio. olhar para trás sem medo. compreender os chamamentos recentes do
corpo envelhecido. os apelos atuais da alma em questões de fé – o que mudou no
rapazinho imortalizado pela fé para um adulto descrente na eternidade dos céus?
chegou a hora de pesar e contabilizar os meus acertos. e os meus erros – a vida
é uma corrida feita em tempo supersónico onde a meta é sempre alcançada – a
questão é saber de que forma a vamos encontrar – aqui estou perante mim
-- estou certo de que necessitarei de um grande
contrapeso para equilibrar os pratos da balança
a
interrogação que coloco nos dias de hoje não é tanto sobre acreditar ou não
nesse deus do passado. ou nessa eternidade prometida – com os meus cinquenta
anos feitos a dúvida coloca-se de forma diferente – para que serve um deus na
minha idade? – na minha juventude. quando ia à missa do carmo. igreja que
servia os paroquianos da minha freguesia. ouvia o padre carlos dizer: deus está
em todo o lado. deus recompensa a justiça e a fidelidade de cada um. deus é
justo. quem serve a deus de verdade nele descansa
-- ora eu nunca descansei. culpa minha? talvez não
o tenha servido com a fé de um verdadeiro crente
dizia
aquilo com tal convicção que não havia alminha que não acreditasse na palavra do
eclesiástico – este padre era quase tão importante como os santos parados nas
paredes. parados. mas vigilantes. nunca tiravam os olhos dos seus paroquianos. e
ai daquele que ousasse pronunciar o nome de deus em vão – o sr. padre carlos
também não arredava os olhos dos seus fiéis – a igreja repleta. de silêncio
também. e aquelas almas todas inclinadas para o lado de deus: oremos senhor. ámen – todos de joelhos
– um gesto ao de leve da mão do sr. padre e todos os crentes de pé. um exército
de fé incondicional pronto a marchar contra as injustiças satânicas sob o comandado
da omnipresença do senhor – ele estava ali. e está em todo o lado
-- oremos ao senhor pelos jovens da nossa diocese
que sentem o chamamento de jesus
já
não me lembro desse chamamento – o tempo apaga quase tudo. o caminho é agora assente
em recordações a avulso. e a perceção da justiça feita na perspetiva de uma alma
pecadora recauchutada – não tenho medo do que significa morrer em pecado – a equidade
já não é exclusiva do meu deus – agora também eu decido o que está mais certo.
e decido não pelos olhos do senhor. mas pelos meus. alimentados pelo mundo que
consumi – somos tempo. e este muda tudo. principalmente o discernimento entre o
certo. e o errado – a justiça é feita à medida da vida que escolhemos – pavlov
chamou à correlação entre o estímulo incondicionado e a resposta incondicionada
de reflexo condicionado – as crianças reproduzem o comportamento que observam. o
medo também pode ser aprendido – com a idade destruí a teoria e hoje nenhuma
sineta me faz salivar – não tenho medo de julgar contra a vontade de deus
-- o acólito toca a campainha e dá-se o início da
oração eucarística e a consagração do pão e do vinho em corpo e sangue de jesus
cristo.
quem
na minha meninice teria a ousadia de dizer que deus não era justo – ninguém.
nem alma viva. todos temiam a eternidade do inferno – ninguém ousava altear a
voz contra o meu deus. o deus de toda a minha rua. de todo o meu bairro. de
todo o meu país – até a ideologia do estado novo tinha deus como chefe-mor –
salazar mandou publicar: deus. pátria e família. por esta ordem de importância
– ai de quem não acatasse a doutrina. a P.I.D.E. tratava-lhe da religião – e
assim se cumpria a palavra de deus e do ditador – também eu sou agora um
ditador. e a ordem das coisas alterada pela vontade da minha falta de fé em
deus e na pátria. só me resta a família – éramos todos crentes. e o céu a nossa
eternidade – não era fácil questionar ou duvidar uma fé que nascia com a
primeira golfada de ar
-- a hora foi pequenina e graças a deus é
perfeitinho. com a graça do senhor
tudo
era obra do senhor – assim nasci aos olhos de quem me queria bem: perfeitinho –
ai. se me pudessem ver por dentro – mas lá fui andando e vivendo com os olhos cravados
na fé. queria acreditar no meu deus. no deus que sacrificou o seu único filho
para que todos aqueles que nele acreditassem não perecessem. mas tivessem a
vida eterna – a minha vida encurta-se a cada dia. a idade não perdoa – questionar
era pecar e as portas do inferno abertas para uma perpetuidade a arder em
chamas demoníacas – mas toda a criança cresce e com o crescimento do corpo
cresce também as incertezas da fé – com a idade a religião fica cada vez mais
complexa. mais complicada de entender e explicar – deus não quer saber das
nossas incertezas. não dá cavaco a ninguém – tudo o que permanece em mim é o seu
silêncio. como sempre – habituámo-nos – mas sempre acabei por encontrar uma
justificação para a sua mudez – imaginava-o com falta de tempo. ocupado. atarefado.
a correr de um lado para o outro. uma mão aqui. uma criança salva. outra mão
acolá. uma cura milagrosa. e o mar aberto mais uma vez para engolir todos os
males do mundo. enquanto os mandamentos da lei de deus são agora gravados no
céu. onde todos os homens são justos – o mundo perfeito – um sinal nas alturas
divinas a indicar o caminho merecido aos seus seguidores – o homem em plena harmonia
terrena – deus era todo poderoso e o mundo dos homens era justo – a fé estava
por todo lado – na parede do meu quarto um terço enorme. em madeira. protegia-me
de todos os males das trevas. enquanto na mesinha de cabeceira um terço de
nossa senhora de fátima. benzido com água sagrada. guardava-me do medo do
escuro – tantas vezes adormeci amarrado à fé da senhora de fátima – a noite é
sempre tão escura para os inocentes – não havia aposento em minha casa que não
ostentasse um sinal de fé. uma cruz. um azulejo com um dos mandamentos de deus.
um santo contra o mau olhado. e na sala de jantar uma tela enorme com a última
ceia do senhor com judas em destaque – sempre existiram judas no meu mundo – era
aqui que dávamos graças ao senhor por nunca nos ter faltado o pão – o milagre
da multiplicação num lar de crentes agradecidos – vivíamos em estado de graça: fé.
amor. saúde. trabalho. uma mesa feita de fartura. e tudo isto obra de um deus
maior. dono de todas as vontades na terra – pecar era proibitivo para tanta
gentileza divina – se me saía da boca uma palavra mais atrevida logo a minha
mãe me dizia: isso é pecado. nosso senhor não gosta dessa linguagem
-- sábado vais-te confessar para domingo receberes
o senhor sem pecado
ir
ao confesso para libertar o espírito. a alma do pecado. do erro. da desonra. ou
da ignomínia da pior imperfeição do mundo – um palavrão dava direito à passagem
pelo purgatório. e acrescentava:
-- uma alma deve estar sempre limpa. nunca sabemos
quando se cumpre a vontade de deus de nos chamar para o seu reino –
domingo
lá recebia eu o senhor. o padre carlos no topo da igreja. ar seríssimo. tudo ali
era sério. e os crentes todos alinhados. limpos. na roupa também. confessados.
sem um único palavrão. caminhavam passo a passo. solenemente. os olhos no altar
em jeito de misericórdia. e a boca entreaberta em benignidade pronta a receber
o senhor purificador
-- o corpo de cristo: ámen
e
lá vinha eu de cabeça baixa. expurgado de todos os males do mundo. limpo por
dentro e por fora – finalmente puro. renascido para o mundo dos justos e do
perdão – ajoelhava-me e ali ficava dois ou três minutos até que o ritual de
purificação tivesse o tempo suficiente para não ser olhado de soslaio pelos
meus parceiros de fé – nestas coisas da religião tudo tem o seu tempo – cristalino
e lavado de todas as impurezas olhava agora o padre carlos olhos nos olhos –
sentia-me gigantesco e grato com a divindade no corpo. tanta fé e a alma a
inchar de orgulho. com o senhor cada vez mais apertado dentro de mim –
sentia-me diferente. um estado de paz e alegria silenciosa que nunca saberei explicar
– muito menos escrever – finalmente os santos ganhavam vida. olhos largos. sorrisos
abertos. apontavam-me o dedo enquanto os lábios pronunciavam em uníssono: és um
bom menino – afinal os santos não eram apenas figuras de barro – estava em
harmonia com a vontade de deus
-- ide em paz e que o senhor vos acompanhe
neste
dia do senhor todo o cristão veste a sua melhor farpela para entrar na casa de
deus – eu não era diferente – ali estava todo ajanotado. o orgulho da minha
mãe. camisa engomada. sapato polido e um casaco a cobrir todas as imperfeições
do corpo. enquanto o cabelo caía para o lado de deus em perfeita geometria com
a orelha. metade coberta e outra metade pronta a ouvir a pergunta sacramental
da matriarca ao chegar a casa: de que cor era a batina do sr. padre – a minha
mãe tinha que confirmar a minha lealdade aos mandamentos do senhor – ela sabia
que satanás era mestre em desviar os menos devotos do caminho da virtude – os
seus cuidados nunca eram demais para um filho que se quer como exemplo – é
domingo e deus disse: ao sétimo dia descansarás. para que descanse o teu boi e
o teu jumento – não tardava nada estava em casa a almoçar uma belíssima carne
assada enquanto o meu pai descansava fazendo a vontade ao senhor – só a minha
mãe não respeitava a palavra do senhor. era ela que cozinhava – as donas de
casa nessa época tinham uma bula pontifícia para poderem alimentar a família de
pão e amor aos domingos
1ª
parte de 3
13/08/2015
deambulações noturnas - IX
na busca
pela felicidade. nunca encontro refúgio nos meus pensamentos – estes oprimem-me
pela imensidão de informação indecifrável – a mente escarnece sem piedade. como
se pensar fosse uma condenação – meu pensamento. despido de sumptuosidade.
oscila entre o que fiz. e o que gostaria de ter feito – no passado. encontro
sempre algo de errado. e assim. tento corrigir o que ainda planeio fazer –
nasce então mais uma dúvida – a felicidade distancia-se. é mais próxima das
certezas. uma magnificência que o meu pensamento ainda não alcança – tenho
agora a esperança de que a morte. em seu silêncio absoluto. me conceda a
felicidade eterna. e sim. finalmente. o pensamento render-se-á ao silêncio das
pulsações – e assim. alguém dirá por mim: deixou de pensar. deixou de existir

