já não posso renegar a verdade – aqui estou. solitário.
isolado. retirado do mundo. entregue a uma luxúria de imagens. inundadas de sorrisos
raros – as fotos chegam numa cadência de urgência. enquanto os likes.
atarefados e eufóricos. alinham-se pela ordem de chegada nas notificações.
anunciando. em vermelho. a sua presença– estamos todos por cá – são fotos
incríveis. com mensagens ainda mais incríveis. numa alegria estonteante. quase
a fazer mal. a doer. como droga alucinogénia. paranoica. cega – e todos os
presentes confusos. assustados. apavorados por não saberem até onde poderá
chegar esta felicidade – nunca nenhum artista tinha pintado sorrisos assim.
nunca. nem mesmo o de mona lisa – e tudo isto em redes de vai e vem incessante.
em partilhas feitas ao segundo. numa velocidade louca. estonteante – e os
sorrisos. sempre em crescimento. satisfeitos. animados. trazendo prosperidade
ao futuro – quanto maior o sorriso. maior a ilusão da felicidade – as fotos não
mentem. e eu acredito nelas. mesmo estando só. retirado do mundo e dos afetos
de proximidade – e todos reagimos. sem pensar. num impulso idiota. mas de sinceridade
inquestionável. assinalamos a receção dos sorrisos com uma nova linguagem global.
invariável. imutável e incorruptível: os smiles – símbolos que representam vida.
amizade. amor. proximidade. alegria. dor. paixão. harmonia. acolhimento.
revolta. ira. a rir pouco. a rir muito. a visionar campos de infinitos beijos. de
abraços. de carinhos. e as mãos estendidas. buscando um toque real. enquanto o
corpo se arrepia num tremor extrassensorial – somos amigos – o telemóvel vibra.
chama por mim. e o som transforma-se numa tocata sem fuga possível – atendo:
quem fala? a máquina multifunções não tem o número memorizado – afinal. é um
amigo do tempo em que os chamamentos vinham da campainha da porta. dois toques
sorrateiros. não fosse a mãe entrar em histeria e proibi-lo de vir à rua. e
logo respondia pelo vão das escadas: -- já desço – e eu. sentado na soleira da
porta. a queimar a demora. enquanto o tempo passava num vagar de meter medo – hoje.
como distinguir um amigo do peito de um amigo tecnológico? digo então. para
facilitar: é um amigo mesmo amigo. verdadeiro – que coisa mais louca. um amigo
deveria ser sempre amigo. e nunca necessitar de um pronome demonstrativo para validar
a amizade – agora temos os amigos de facebook. de instagram. de twitter. de youtube
– todos presos numa trama intelectual. ligados a uma rede que não nos deixa ficar
sozinhos – entretidos com a nossa própria companhia. descobrindo-nos.
apreciando-nos. corrigindo em silêncio
os nossos barulhos interiores – o tempo já não mete medo – ligo-me a mil
amigos. a outros que me perguntam se os conheço. e ainda a outros que talvez devesse
conhecer. e isto tudo numa irracionalidade que. por ser constante. acaba por se
tornar racional – e os amigos que não são mesmo amigos partilham as mesmas
cores. seguem a mesma moda. leem os mesmos livros. praticam os mesmos hobbies. e
pensam igual. e a religião não interessa. e o sexo? indefinido. ou só mulher. ou
só homem. ou as duas coisas. e este é casado ou está numa relação em euforia.
ou agonia – gente igual. gémea mesmo. comprovada por uma máquina que só sabe falar
verdade: a estatística facebookiana – diferente mesmo. só sou do amigo mesmo
amigo – tudo o que é cérebro é agora alimentado por fios que não vemos. que nos
levam e trazem a lugares que nunca imaginávamos chegar – agora estou em Ibiza.
de copo na mão. uma palhinha a sair de um cocktail fluorescente. e atravesso o
planeta em fibra ótica. cheguei ao japão. e o peixe. cortado fininho por uma
faca de samurai. enquanto os pauzinhos levam à boca um pedaço de imaginação – atrás
de mim. uma gueixa sussurra luxúria. anunciando o começo da noite – e a feed
notícias do mundo a girar num ecrã plano. e um canguru. perseguido por um
aborígene. ou será o aborígene que persegue o canguru? todos nós perseguimos
alguma coisa. e muitas mais coisas nos persegue sem que saibamos – tudo isto a
correr numa notícia de última hora. triste. muito triste. faz hoje anos que
pavarotti nos deixou. o avião do cristiano ronaldo sofreu um acidente. e um
marido atirou ácido à ex-mulher. enquanto a sogra era atropelada por um camião
desgovernado na via de cintura interna – estou amargurado. tonto. quase sou atropelado
por uma última notícia. não fosse um convite promíscuo para saltar numa cama surreal
– e aí estou. perdido nos lençóis. feliz como nunca. ao lado de um par de
pernas que nunca imaginei. parecem-me as da sara tavares. e pela primeira vez sou
infiel. e o corpo suspira por mais que apenas pernas. quero mais. afinal para
que serve a tecnologia? estou esgotado. esta mulher não é para mim – e a minha
vida. recordada há um ano. vejo as minhas memórias. e uma lágrima mistura-se à gratidão
de estar vivo – e tudo nas mãos é velocidade estonteante. e quase nada tenho
para fazer. a imaginação já não é minha. pertence a um grupo de fabricantes de
emoções. produção industrial. em série. e em constante atualização. e tudo me
assenta na perfeição. como se me conhecessem por inteiro. como alfaiates. com o
giz a riscar as sobras. a tesoura ajustando tudo ao corpo. enquanto o alinhavo
marca com uma certeza absoluta os contornos do corpo – bebo então para
esquecer. preciso de um copo para afogar esta angústia que. verdadeiramente.
não sei de onde veio – mando vir uma sangria. mais uns quantos amigos virtuais.
e os copos ao centro. numa amizade que não é de amigo amigo: à tua saúde.
enquanto a francesinha fumega num molho cor de pêssego. como fumega a síria. e os
mortos espalhados pelas ruínas. dilacerados por bombas num mundo cada vez mais
terrorista – no facebook também – a alegria do estômago termina em agonia.
enjoa e afoga-se de vez no mediterrâneo com gritos que são súplicas de
refugiados que. de polegar no ar. não acenam. não. clamam ao mundo tecnológico
que transforme os likes em botes salva-vidas – estou arrasado – também quero um
like para mim. um enorme. com um dedo gigante apontado para um salva-vidas que
me resgate do egocentrismo dos meus próprios likes – que ingratidão – e mais um
toque. o telemóvel vibra. e eu recuo. assustado. em pânico. descontrolado. não
posso fazer esperar um amigo. e o braço a correr com a voz para o ouvido:
desculpa. estava a trinchar uma francesinha com uns amigos virtuais – e paro a
vida para atender a urgência daquela invocação digital – todos os toques são
importantes – de seguida. mais um toque. adio o amor para a noite seguinte. outro
toque e fecho o livro. mais um e digo que já não vale a pena sonhar. tudo
acontece ao segundo. e o futuro já não interessa. o que interessa é o feed de
notícias – fecho tudo. eu também. o mundo todo. deixo ficar ao meu lado a
desilusão em que a vida se tornou. não a minha vida que por ser minha não tem
interesse para ser notícia. mas a de um smile que chora. chora como uma criança
– todos os smiles têm rosto de crianças. e eu desfeito em sofrimento saio
disparado. em wireless. à caça do pokémon que feriu o smile das lágrimas – isto
tudo sem abdicarmos de nenhum tempo porque deixamos de sentir este tempo
eletrónico. gastámo-lo como se fosse inesgotável. como se pudéssemos somar horas
aos dias. e por cada ano gasto. um mês extra. como num jogo de flippers. e por
cada centena de likes um dia de bónus – estamos parados e andamos sem dar conta
num tempo que deixamos de contar como tempo – mas conta – interrompemos o tempo
verdadeiro. caçamos o like. e seguimos vidas que nunca serão a nossa vida – e
aí vamos. por uma estrada que leva a todos os lugares. e nunca chega a lado
nenhum – olhamos o universo num retângulo que dá luz. saturado de sinais
sonoros. música. e histórias feias e bonitas. verdadeiras ou falsas. de amor ou
de sangue. e tudo isto apenas com um tremor do braço. um click do dedo – mais um
toque a pedir voz. atendemos e logo nos dizem: manda mensagem. é mais fácil – o
mundo cada vez mais mudo. os dedos já não querem olhos. já conhecem as letras
no escuro. tudo cego no mundo real – que
sofrimento – e os homens cerebrais do outro lado dos fios que não se veem a
dizerem que estás inibido de viver por vinte e quatro horas – eles fazem lei.
julgam e ditam a pena – culpado – tudo isto porque mostraste as pernas da
marylin monroe. o mamilo com piercing da janet jackson. duas lésbicas num amor proibido.
um profeta parecido com allah. um poema de escárnio. e um nu renascentista com
um carimbo a censurar o belo – e a noite chega. tão igual a todas as outras
noites. o corpo. prisioneiro de vibrações que agora se tornaram choques
elétricos. e o feed de notícias sem dormir caminha por ti com sinais sonoros de
conveniência desumana – os olhos. encostados ao sono. num estado de alerta
geral fazem o possível por descansar – são os novos guerreiros da tecnologia.
enquanto um olho dorme. o outro vigia o feed notícias – já nada te pesa no
corpo. o passado está morto. e às tuas costas já não carregas mais amigos mesmo
amigos. carregas um mundo que não é teu. suportando uma dor genética que nunca
te pertenceu – estou só. devastado de tudo. de gente que não conheço. de mim
também – sou agora um corpo tecnológico num mundo que só me aceita a rir. a
falar com frases curtas. ou com pensamentos empacotados em caixilhos dourados de
gente ilustre que não merecia este destino – e os sonhos cortados como se a
vida fosse apenas estes clicks com o polegar para cima – força amigo. tu vais
conseguir. não desistas amigo. a vida um dia compensa-te. adoro-te. és lindo.
beijinhos. gosto muito de ti – isto tudo rematado com um smile. um polegar na
direção do paraíso. e o inferno é tropeçar numa verdade perdida no meio de
tanta mentira – tudo o que digo é um like. e o que não digo também. e o que
faço leva um like com um sorriso cada vez maior – um dia. irritado. recuso-me a
por mais likes e digo: estou morto. morri. desapareci. cansei. enforcado com um
cordão de likes – é então que milhões de likes emocionais explodem para um
último adeus. o feed de notícias chora.
os dedos apontam para a terra. e os smiles das lágrimas esbarrotam-se em
manifestações de dor e pranto – carpideiras em histeria dolorosa – os amigos
que não são amigos vestem os avatares de preto. e milhares de emoções soltam
lágrimas que nada molham – estamos interligados a números de computação cruéis –
somos então um IP entre janelas que nunca se fecham e promovem uma contabilidade
que sobrevive a uma bateria sempre em carga – como tudo isto pode ser efémero –
basta um power a menos na bateria. e a morte digital pode chegar a qualquer momento
– é então que o pânico acontece. falta o carregador. o isqueiro do carro
avariado. e até a eletricidade fugiu. parece impossível. o corpo treme.
convulsões. vómitos. e uma ira que pode magoar de verdade. enquanto a realidade
está em fuga por causa de uma ressaca que ameaça matar – são os novos
toxicodependentes. viciados na carga. na luz do ecrã. – estamos todos loucos – aqui estou a jogar
com a vida. às vezes em ironia. outras. a tentar ser esperto. e lá chega mais
um like sabichão – e passam carros e bicicletas com gente que já não pedala. e
tudo sem margem de erro ou esquecimento. comandado por apitos que nos avisam:
hoje o teu amigo mesmo amigo faz anos – tudo é feito à hora certa – tal como os
comboios. os autocarros. o metro. as bicicletas. os táxis. a uber. tudo na hora
certa – e os velhos com a solidão às costas. e os doentes em ambulâncias que já
não gritam dor. e o povo incapaz de se reconhecer. não pela voz. nem pelos
olhos. nem pelo jeito de ser. nem sequer
por um abraço. nem por nada. espera sentado a chegada de um destino que não
controla – ninguém tira os olhos do ecrã – por mais noite que seja. há sempre
um ex-humano parado num apeadeiro. à espera de uma foto. de uma notícia. da
morte de um amigo íntimo do mundo das imagens. de um smile. de um sorriso
empacotado – e o like a cair. esvaindo-se como urina na sargeta. logo depois. um
escarro. um cão de perna alçada espera também pela sua vez. e o like coberto de
um ácido que corrói o cérebro – as fotos sem flexibilidade. tiradas por um
braço metálico. estendido para o fim do universo. sacam um último sorriso. e de
repente. em total demência. um suicídio coletivo numa gargalhada fotográfica – o
mundo. afinal. é todo feliz – infeliz. só eu existo – só eu sei que estou
triste. triste de morte. com uma faca encostada à jugular. e o coração a dizer:
és o único que não tem vida – não me rio. não sorrio. e não digo que hoje o dia
está lindo – não tenho trompete a tocar silêncio porque verdadeiramente não
estou morto. estou apenas nada num mundo de merda – e assim termino esta
crónica. num sorriso de verdade que. por ter mais de duas linhas. jamais terá
direito a um like feliz
16/10/2016
smile – a solidão dos interligados
13/10/2016
fotografia: a luz que guarda o tempo
fotografia
amadora tornou-se a minha última paixão – cada pessoa é um infinito de
movimentos. de expressões. de representações. de comunicações que procuro captar e dar-lhe a eternidade de uma
máquina fotográfica – iluminar o universo sensível – só a fotografia pode guardar
um mundo inteiro. ou apenas um olhar – amo a fotografia de proximidade. de afetos. de entrega. de gestos
subtis. onde a cumplicidade do clique inesperado se transforma num instante
eterno – a simbiose perfeita: a entrega do fotógrafo e de quem se deixa fotografar
– fazer fotografia é também um ato de amor. obriga-nos a sentir e compreender cada
momento de partilha. cada raio de
luz. cada sombra. cada sorriso. cada movimento de confiança – é isso que faço aos
amigos que me deixam fotografar. guardo-lhes os sorrisos. os gestos. os olhos do
corpo que os tornam únicos – só os fotógrafos imortalizam momentos
inesquecíveis – um fotógrafo é para sempre.
depois do clique. somos inapagáveis – sei que. para estes nossos amigos das
fotos. eu. fotógrafo entusiasta e amador. ficarei eternamente presente em cada
fotografia – um dia inesquecível
texto dedicado à minha
“colega” e amiga fotógrafa – andreia aluai
05/10/2016
domingo absoluto
tela - karen woods
domingo – aprendi que tudo o que sou se
resume à palavra escrita. ao modo como entalho cada pensamento na perpetuidade
de uma folha em branco –
– penso:
hoje.
domingo. dia de chuva para o corpo. aguaceiros fracos. o vento a puxar norte e o
apito do comboio a ressoar pelas traseiras da casa –
– sempre me angustiei com a chuva anunciada
pelo apitar dos comboios
em
casa dos meus pais. nos dias em que se ouvia o apito do comboio. logo intuíamos
que a chuva já pairava pelo canteiro do vizinho – aplicava então o ditado
popular: quando vires as barbas do teu vizinho a arder. põe as tuas de molho – a
chuva estava ao dobrar da esquina – da minha casa à casa dos comboios havia cerca
de três quilómetros em linha reta. percurso feito pela criançada em menos de
dez minutos em passo ligeiro – mas a distância torna-se irrelevante quando o
que chega vem tocado a vento – e tudo o vento arrasta de um comboio revoltado que
apita em forma de grito: chuva. chuva. pouca terra. tristeza. pouca terra. chuva.
chuva. tristeza. chuva e uma nostalgia de morte que molda o som agudo do apito –
o vento a deslizar pelas frinchas das janelas zune nos ouvidos como tortura. e
eu a correr para o terraço. e os olhos a esbarrarem nos montes cobertos de um
negro feio – o silêncio era maior que as
montanhas – só se ouvia o vento a pregar com as árvores. enquanto a passarada
fugia em debandada para sul – nas janelas da vizinhança as roupas coradas sacudiam-se
inquietas ao que restava do sol. enquanto as donas de casa as recolhiam em
aflição – a chuva quando chegava à minha cidade. era para durar –
– não é por acaso que se diz
que braga é o penico do céu
lançava
os meus olhos incomodados para norte e lá estavam as nuvens de cara fechada.
escuras de ruindade. a marchar num galope de combate. em formação guerreira. rasgando
vales e serras. profetizavam angústia. agonia. amargura – havia um silêncio
nostálgico puxado a um vento esguio. cheio de maus presságios – havia também uma
tormenta anunciada dentro de mim
– a chuva açoita ferozmente a
verdade de cada corpo: lava-lhe a carne. humedece-lhe a alma
os
domingos sempre foram assim. incertos. tristes. silenciosos. feitos de nuvens magoadas
a murmurar nostalgia numa calmaria amarga – mas com chuva. os domingos
tornavam-se desumanos. malvados. perversos. tão cruéis como o apocalipse prometido
– finalmente os anjos de joão justificam o livro sagrado do cristianismo –
– nestes dias dominicais nunca
sou de grande imaginação. tudo está parado – eu também
no
corredor da minha casa. a passadeira estende-se asseada até à porta da rua. mas
também por ali o barulho habitual dos dias da semana esvaneceu – não quero
sair. o corpo não quer sair. só quero expurgar da carne esta sombra de morte anunciada
– este silêncio é imenso. uma aflição. um sufoco mudo – tomara que nenhum romeiro
errante surja para desarrumar as cadeiras e me roube o silêncio dos cortinados –
dizem que o domingo é o dia da família – para mim todos os dias são da família
menos o domingo –
– tudo dentro dos domingos é
silêncio. é nostalgia. é aborrecimento. é a antecâmara de um velório – é um tempo
contado que fere a cada segundo
domingo
é dor que dói sem saber onde e porquê – a tristeza invade-me numa sensação de
morte antecipada dos sentimentos. e tudo que era para ser escrito é vago.
vazio. as mãos. esvaziadas da força interior. deixam-se cair até ao fundo do corpo
na procura da salvação – aos domingos preciso de sentir o sangue correr nas
veias para saber que existo – olho-me então pela janela. imagino uma chuva diferente.
subindo ao céu. numa correria feita água-moço. inocente. talvez adolescente.
suave como todas as faces acabadas de nascer. sem segredo. sem mancha. sem engano.
numa dança pura. branca. efémera. nada mais do que o regresso ao começo do meu
universo – um universo físico pois já não acredito no universo que me pede
rezas – o meu céu é a terra que imagino. o inferno ergue-se sempre que viro as
costas à janela – é domingo de chuva. chuva que fere. que não purifica. que me
humedece a alma e me faz virar as costas ao mundo – é o domingo de um
homem-chuva
– os dedos. ansiosos por escrever. escamam
a pele no atrito das palavras que não saem – talvez queira aquilo que não tenho
o
cansaço quebra o corpo. é assim que a morte se insinua? e o cinzento preenche
cada esquina do quarto onde os ângulos são cada vez mais aguçados. e a
geometria das palavras teima em não aparecer – o candeeiro não ilumina coisa
nenhuma. nem dentro nem fora do corpo. a única luz que me alcança é a que escapa
às cortinas de uma janela virada a sul – mas tudo está a norte. a igreja. com
os seus sinos. clama por gente de fé [cada vez há menos crentes]. o jardim onde
as crianças brincam com um futuro que não enxergo [cada vez há menos crianças].
as romarias que atiram fogo contra o céu numa tentativa de acordar o santo
padroeiro [cada vez há menos romeiros]. os namorados que de beijo em beijo
adiam para amanhã o que devia ser hoje [cada vez há menos amor]. aos domingos
tudo que vejo é a norte do corpo. a sul. apenas o que nunca vi
– e aqui estou hoje. a escrever como
se fosse criança. – mas não sou. e os domingos também já não são desse tempo
resta-me.
em boa memória. o acordar aos domingos em casa dos meus pais. o cheiro a assado
no forno ocupando o ar do quarto. e a certeza de uma comida melhorada por ser
dia do senhor. enquanto a minha mãe corria a casa em afazeres que nunca compreendi
– talvez sentisse também a nostalgia dos domingos. e o trabalho da casa fosse
apenas uma maneira de a superar – acordava. bocejava. virava o corpo para o
lado da janela. a luz bocejava [também] pelos intervalos da persiana enquanto a
vida acontecia noutras partes da casa – no ouvido ainda sonolento. uma cadeira
arrastada. uma janela a abrir. um tapete sacudido. um lamento em voz rezingona.
uma corrente de ar que não magoava o corpo. enrodilhado nos cobertores. e os
braços a espreguiçar felicidade – olhos abertos. e a roupa do domingo sentada
na cadeira em frente à cama. em espera. em alegria. aprumada. com os sapatos
alinhados pelas biqueiras. e as meias de lã a dar pelo joelho. sem remendos.
emparelhadas pelos calcanhares – tanto a roupa como eu sabíamos que este era o
único dia em que saiamos de casa orgulhosos: a roupa comigo e eu com o brio do
corpo e da mente – e ali estava eu. a vestir-me da frescura. de tudo o que era
novo. lavado. passado. engomado. e os sapatos engraxados reluzindo um negro-brilho
que serenava a pressa da infância – e a minha mãe em aflição gritava-me:
-- olha as horas. a missa não espera
por ti – não vais voltar a chegar atrasado. é uma vergonha – a igreja do carmo
estava a cento e cinquenta metros
corria
para a missa das onze e trinta e regressava para o almoço amparado por uma
proteção divina que. mesmo invisível. eu sentia – eram horas de sentar à mesa.
a aparadeira de barro trazia o aroma da melhor carne assada do universo – éramos
cinco numa sala só nossa – e a mesa vestida de um branco encantador. dizia que
a minha casa não era pequena – éramos cinco. numa “casa absoluta” – e ali
estávamos todos numa graça que também era do senhor. rodeados de palavras por
todos os lados. erguidos dentro de um instante que durou a minha vida inteira –
ainda vivo dentro dessas paredes. numa mesa que não mudou. na cadeira à direita
do meu pai. depois da minha mãe. e de costas para uma natureza morta comprada a
um artista-adornado[r] de almas – naquela mesa só eu era pequeno. os pratos
enormes. brancos. de uma porcelana grossa. com uma risca azul que era céu. os
copos gigantescos equilibravam-se num único pé. delicados. esguios. bonitos. a
honrar o dia – nunca compreendi aquele equilíbrio-harmonia de cada copo no seu
lugar. e a forma delicada como o meu pai o levava à boca. pousando-o de seguida
com uma delicadeza de cristal. enquanto os lábios se tocavam numa caricia
gustativa. logo escondida por um guardanapo do mesmo branco absoluto da toalha –
à semana eram copos rasos. grossos. feios. feitos para partir. para durar um
instante rápido – naquele tempo não havia coca cola. nem sumos. nem outras
mixórdias feitas de corantes. só água num jarro de barro com o bico fanado. com
a mesma risca azul do céu – os talheres. ajustados ao tamanho certo à direita
do corpo. prometiam levar à boca a certeza de que nunca mais deixaríamos de ser
cinco. cinco numa casa “absoluta” – o guardanapo pendurado no pescoço cobria-me
o corpo. embrulhava-me num branco igual ao da toalha. enquanto as nódoas desertavam
para o chão. com medo de irritar a minha mãe. que não se cansava de repetir:
--tem cuidado com a roupa. não te
sujes. olha que não tens outra para sair – não me faças passar vergonha
e
ali estava eu à mesa sem ainda perceber a importância do número cinco. de um
cinco inteiro e não de um quatro mais um – não sabia nada de contas. e só muito
tempo depois é que percebi que quatro mais um nunca é igual a cinco – foi
naquela sala só nossa. absoluta. que aprendi a contar – os pés para trás e para
a frente distraíam-me das conversas dos meus irmãos. enquanto o meu pai sorria
– o meu pai sorria sempre. mesmo quando o assunto era sério – ali estava ele. absoluto.
do tamanho da nossa sala. à cabeceira da mesa. vestido também numa roupa de
domingo. de família. num corpo bonito. orgulhoso. por dentro e por fora. e o sorriso
a envolvê-lo num domingo inteiro. as mãos brilhavam. e a comida chegava à boca
numa elegância merecida. embelezada por um bigode finíssimo. traçado a lâmina
de barbeiro. que riscava a nossa sala de uma ponta à outra. e os olhos. os
olhos meu deus. bonitos. bons. nasciam-lhe na alma e iluminavam um caminho que
nunca soube encontrar
– é domingo. todos os dias são agora
para mim domingo – mas já não há assado no forno
mas
cá estou agora. a pensar. como os domingos se mantêm chuvosos. agora sem comboios.
sem o apito a anunciar chuva. a prever mau tempo – mas a chuva cai todos os
dias e o vento já não atravessa as frinchas. atravessa o corpo numa saudade que
me rompe a memória. e os cinco já não são cinco. somos quatro e o domingo pesa ainda
mais. sem generosidade. sem carne assada. e os cães noutra sala dizem-me que
ainda sou mais do que um simples domingo e que tenho de cuidar de mim.
entender-me com o tempo que me resta – e o que era soma é agora qualquer coisa
que não sei explicar. impossível de calcular – e a saudade amarrada aos anos
que passaram por mim. e eu sem saber se o que vem além disto é mais do que um
balançar de pés numa cadeira que me prendia a uma sala só nossa. e as nódoas já
não caem no chão. colam-se ao corpo. como lapas agarradas a um mar que nunca tocou
uma sala como a nossa. absoluta – e o domingo a rasgar-me em imagens que julgava
esquecidas. o copo cada vez mais pequeno. e os lábios à procura de um pedaço de
tempo que sacie esta sede pelo domingo que me viu nascer – o domingo aperta-me o
corpo por um braço que me esgana – sufoco. sufoco. sufoco – é domingo. chove.
fora da minha janela – dentro também
03/10/2016
loucos desejos
que. em horas despidas e sonhos cruéis
sois monstros multiplicados por mil
silêncios parados de encontro ao nada
dormem ruas ladeadas de luzes insólitas
calçadas de sonhos perdidos e idiotas
onde o peregrino teima em caminhar
onde percorrem braços inertes de sofrimento
partilham um coração que bate poesia
desagua dor em dedos revoltosos
pois sois mágoa parada num trilho de escrita
onde morrem as mãos vazias de saber
se olhares... se sentires… se escutares…
talvez um dia… quem sabe hoje até…
30/09/2016
o epitáfio da memória - IV [fim]
IV.
sou então este. este que se apresenta
agora sem memória. morto – de corpo e alma – definitivamente morto – olhai-me.
olhai-me com esses olhos enormes e precisos – amigos – gente que gosta.
olhai-me – os amigos sempre tiveram olhos enormes. precisos. bonitos. e sempre
viram certezas que eu nunca vi – sempre gostei de me ver nos vossos olhos –
amigo é um nome que é mais do que uma coisa. é mais do que aquilo que sou. amigo
ilumina. encandeia num finíssimo fio de luz. é vidro de murano. frágil e
sofredor nas palavras trocadas em noites de silêncio – amigos são sorrisos que
duram uma vida. são flores. girassóis que ocupam campos de sentimento que
aprendi a cultivar – quando existe um amigo há sempre uma razão para morrer
envergonhado – nunca quis que um amigo se envergonhasse – amigo é um rosto que
nos cobre o corpo num absolutismo consentido. desejado. infantil – somos então
mais altos do que as torres das igrejas. e os pássaros. que nascem nas árvores.
como os de ruy belo. segredam bem-aventurança em alvoradas de abraços – sou
lágrima. que mais poderia ser? talvez um sorriso numa face amiga – sou revolta.
sou um raio de uma coisa que pode ser tempestade. ou agonia. ou luz. ou um dia
feliz no dobrar dos sinos. ferro-velho vendido a troco de nada – nada mais
tenho para vos entregar para além destas palavras escassas. e que me matam de
raiva por serem tão pouco – todos mereciam mais. todos – amigos que [me] gostam
– a vida tirou-me uns quantos. o envelhecimento os restantes – estou morto num
corpo inteiro. num nome inteiro. numa vida que morreu um pouco por cada
primavera – nasci em abril. lágrimas mil – não adianta. morro sem nome. morro
dentro de um sonho que não para de gritar erro – agora sou este que aqui
resiste neste cheiro a incenso. a flores. a água benta. a orações. e ao último
pai perdido no céu – não estou em lado nenhum para além deste corpo inquieto –
rodeia-me satanás num silêncio que incendeia o terror absoluto. e me leva de
arrasto com o que me sobra da memória – a vida não passa de um sudário
invisível – rezem. rezem e acendam uma vela do meu tamanho que não é mais do
que um palmo do que fui – rezem. rezem e falem da minha vida reduzida a um
sopro de som – rezem. rezem e falem dos meus feitos que não passaram de
defeitos – rezem. rezem e agridam a minha escrita que nunca foi de artista –
rezem. rezem pelas minhas lágrimas porque foi nestas que me afoguei – rezem
sobre estes ouvidos mortos pois jamais vos escutarei – estou morto. finalmente
– preciso agora de empurrar a bala para dentro do silêncio e abafar o eco do
disparo – careço de um descanso arrependido. há dentro de mim um corpo que jaz
morto de tudo – o fim da vida é o fim da memória – a morte sou eu. ausente de
mim numa sala vazia. estou só. insignificante neste corpo vestido de mim.
sobram-me as mãos dobradas sobre um peito sem sentimento. por cima de um
coração que nunca foi verso. e um girassol coberto de terror anuncia que a vida
é apenas um dia mal contado – e o som das palavras é agora cada vez mais baixo.
inaudível. com vergonha do defunto. enquanto os gritos de arrependimento se
escondem por baixo dos sapatos que me pisaram – mesmo morto estremeço – rezem
enquanto o fogo queimar o que me resta da pele – a pele é tudo o que sou. por
dentro. o vazio – a morte é um vento brando que nos leva sorrateiramente para
um sono interminável – finalmente a noite desaparece para sempre nos meus olhos
– deixarei então de ser peso. de ser matéria. de ser rasto. de ser um traço na
minha rua – que me perdoem os que gostam de mim. mas não quero mais memória –
um corpo sem memória é um corpo quente. livre da dor. um corpo voltado a sul –
o meu destino é uma coisa do mundo que vai morrer sem passar de boca em boca –
escutem. escutem com atenção e apregoem a cada criança que queira nascer: quem
não sabe ao que vem nunca compreenderá porque parte – assim estou. estendido
nesta urna feita de tempo. morto. silenciosamente morto. e a língua sem saber
dizer nada sobre esta partida que se alimentou de sonhos – finalmente consumido
pela ambição de um ideal que me recusou a eternidade – as lágrimas também podem
sorrir
29/09/2016
28/09/2016
a lápide da amizade
quando
perdemos um amigo que nunca foi amigo a dor
transforma-se num poema sem delicadeza. é lâmina. é borracha que nada apaga –
quando perdemos um amigo que jamais será inimigo o sofrimento é um poema
necrófago. é putrefação. é uma morte que não é morte porque eu e ele
continuamos vivos – quando perdemos um amigo de uma rua que ainda é a nossa rua.
a raiva é a boca de um lobo. é flecha trespassando a vida por inteiro. é o fim
da ilusão – quando perdemos um amigo o caminho para a frente é sempre solidão
.
perdoa-me
corpo porque estas palavras são de uma alma que nunca quis ser punhal
.
para
um amigo que já não é amigo não há mais palavras garrote. a dor combate-se com
dor. o sangue é para verter até à última gota – nem mais uma palavra fácil.
justificativa. pacifista. indulta. ou cúmplice de meias verdades – sou agora a
favor da pena de morte para as palavras que não dizem a verdade por inteiro –
se não há meias vidas também não pode haver meias palavras – tudo o que vos
escrevo é sufoco. raiva. contrição. e o corpo a resistir ao exorcismo enquanto
o diabo exige sepultura definitiva. fogo. cremação – só o cheiro a carne
queimada confirma que a morte existe – só perdemos um amigo para sempre quando
perdemos o nosso corpo também para sempre – a dor já não é poema: é lápide
24/09/2016
a metáfora que se fez hipérbole
conheci um escriba que comprou uma metáfora para a transformar numa hipérbole. tão pequenina. tão microscópica. que um dia. enquanto escrevia. percebeu que todas as folhas estavam em branco – sentado. olhou para si e pensou: sou a minha própria figura de estilo – levantou-se. dirigiu-se à casa de banho. lavou a boca com dentine. olhou para o espelho. passou os dedos pelo cabelo espesso. e sorriu para a imagem que o reflexo da sua vaidade lhe oferecia. abanou as ideias com um movimento brusco da moldura do seu orgulho polido. e largou um sorriso maior tão grandioso quanto a entrada triunfal do arco da porta nova de braga – por fim. arrotou uma hipálage que há muito se enroscara no escroto – soltou uma gargalhada e. como num ponto final hiperbólico. partiu feliz em busca da próxima metáfora
22/09/2016
quando o silêncio se faz outono
19/09/2016
o 11º mandamento
pior do que apenas ter um rim. um pulmão. uma perna ou um braço é viver sem cabeça – sem cabeça não há
passado. perde-se a vergonha. esquece-se a razão. troca-se o essencial pelo acessório – aconteceu a moisés enquanto guiava o
povo hebreu pelo deserto do sinai.
alguns fieis desesperaram com a demora da viagem e perderam a cabeça – estas
pobres criaturas. tomadas pelo
desânimo. deixaram de acreditar no seu deus e nos valores que os levaram à caminhada
– revoltados forjaram num instante um novo deus. mais belo. mais
valioso por ser de ouro. e
principalmente. mais tangível – este novo deus falava. dizia tudo o que o povo ansiava de ouvir – agora sim. o povo podia finalmente ser feliz. porque com este deus todos
os meios justificavam os fins – a festa começou: música. dançarinas. ilusionistas e malabaristas. animais selvagens e seus domadores
iluminaram a noite – mas moisés.
fiel aos princípios. bateu com o
punho na terra. ergueu as tábuas da lei e. com voz grave. advertiu os foliões:
“vem teu inimigo humilhado? guarda-te dele como do diabo” – deus não dorme. continuou moisés. estas são leis universais. para qualquer deus. de qualquer
religião. para qualquer homem. seja nrgro. vermelho. verde ou azul
…
milhares de anos depois
…
lamentavelmente. havia uma lacuna.
nem deus também sabe tudo. digo eu.
que gosto de imaginar um deus tão humano quanto os homens – um conselho de
sábios. oriundos de todas as regiões da terra. reuniu-se e. em uníssono.
concluíram que era necessário um aditamento à tábua das leis divinas – assim
nasceu o 11º mandamento – não SUBORNARÁS
termino com mais um provérbio:
"o destino não é uma questão de sorte. é uma questão de escolha:
não é algo a se esperar. e sim a conquistar"
16/09/2016
deambulações noturnas - X
neste
lugar da noite sou muito mais do que um lego – desmonto-me e volto a montar-me
– e as peças. sem acerto. gritam-me em acenos diabólicos: -- eu sou daqui.
aquela é dali. e tu... não és de lado nenhum
14/09/2016
11/09/2016
o epitáfio da memória III
foto - sampaio rego
III.
na maior parte
dos dias não sou nada. noutros. sou eu. que nada sou também – mas há dias em
que me sinto herói. assim como aqueles super-heróis americanos que voam. que
andam pelas paredes. que se transformam em rochas e deitam fogo pelas mãos.
sempre com uma única motivação: a de proteger os mais débeis – nesses dias. sou
então fenomenal. sou herói por inteiro. ainda que tenha pés de barro – sou
feliz – a razão dessa felicidade é simples. os meus superpoderes anularam
[temporariamente] umas quantas forças do mal que me infernizam a memória – são
vitórias curtas. inofensivas e tantas vezes inconsequentes. servindo apenas
para ganhar uns míseros instantes de bem-estar no corpo – mas são estas janelas
no tempo que me permitem debruçar-me no parapeito e olhar o mundo de uma forma
mais tranquila. com mais tolerância. mais sossego. mais ternura. sem amargura.
sem desumanidade. sem culpabilidade. sem desassossego. aceitando a sua forma de
girar. de rodopiar. de encaixar as pessoas. de criar amigos. de os estimar. e
de me levar ao cimo da minha montanha. olhar o futuro com misericórdia. perdoar
o passado. reajustar o corpo com o que me resta da alma sã. meter as mãos aos
bolsos. escutar o coração. e devolver aos olhos a coragem de caminhar. de não
desistir. de acreditar. de desafiar o destino mais uma vez – e ali fico.
estático. à procura de um lugar no céu que nunca conheci. sem nunca perceber se
o seu azul anuncia tempestade ou bonança – isto tudo numa resignação tranquila.
de aceitação do mundo que me foi oferecido. e de uma absolvição sincera.
merecida e desejada mesmo que condicionada pelo tamanho do horizonte da minha
janela – sempre acreditei que o [meu] mundo é tendencialmente bom – mas às
vezes a minha memória atraiçoa-me e não me autoriza ver o seu lado melhor – é o
seu lado mais sombrio. mais adulterado. mais egoísta. portando-se como os
antigos corsários: terrífica. de tapa-olho. de perna de pau. e espada em riste
rouba-me sem piedade a alegria de viver. deixando-me ficar o revés como sinal
de aviso: não estás a sonhar – cruel – mas a realidade é que a memória não é
mais do que o armazenamento das nossas vidas através de histórias ou
experiências vividas – em boa verdade é tudo aquilo que eu quis que fosse –
libertar-me do passado indesejado é apagar a memória. mas também é apagar uma
parte da minha essência como homem que cresceu numa soma de todas as
experiências – sou assim feito tanto de acertos como de enganos – mas mesmo
assim há tanto que gostava de apagar – nem sei se são assim tão más. mas cresci
e. quando crescemos. mudamos tanto que. inexplicavelmente. queremos apagar
ainda mais – cresci tanto que há rostos que apenas reconheço nos sonhos.
surgindo-me então os corpos afeiçoados com os sorrisos do dia em que deixei de
os lembrar – quando crescemos a saudade cresce connosco. e aquele até amanhã
perdido na despedida do amigo torna-se agora uma necessidade – é urgente rever
os amigos de calções. da bola. da carica. do jogo do polícia e ladrão – é
absolutamente essencial. para o meu sossego. saber que estão vivos e que afinal
o tempo não os mudou por dentro – é o lado bom da memória antes que o tempo a
corrompa – recordo então os que já partiram e peço-lhes perdão por erros que só
a juventude é capaz de perdoar e lamentar – a morte é a saudade vestida de luto
– cresci para partes do corpo que rejeito. mas também cresci para outras que
aceito com humildade – cresci para um futuro que já não é só meu. cresci tanto
que já sento ao colo os netos. um avô renasce como pai duas vezes – cresci para
os meus filhos. estão enormes. homens bons. dignos. a saberem coisas do mundo
que eu na idade deles. nem sonhava conhecer. a prometerem o resgate da
felicidade em definitivo para a nossa família. com honra. com nobreza – cresci
para a minha mãe que do cimo dos seus noventa e dois anos não se cansa de me
dizer para ter cuidado com os invernos: -- toma a vacina para a gripe meu
filho. tem cuidado contigo. já não és nenhuma criança – mas cuidado para quê
minha mãe se o único mal que temo é este que me permite sobreviver no vosso
meio sem acerto com a minha consciência – fernando pessoa diz que “a memória é
a consciência inserida no tempo” – que verdade tão cruel. há verdades que doem
como o fogo de camões – não gosto de algumas memórias e faço de tudo para as
apagar – infelizmente. quase sempre. temporariamente – não é fácil – há
momentos gravados a cinzel na alma. eternos. inapagáveis – como dizia
cervantes: “ah, memória, inimiga mortal do meu repouso!” – são estes momentos
que nos fazem sofrer – ainda estou a ouvir a minha mãe a dizer: -- um dia vais
puxar pelas orelhas – quando um homem quer safar o passado a ruína está sempre
para breve – nunca me passou pela cabeça. bem… talvez não seja bem verdade que
um dia iria querer dar um apagão à memória. desativá-la. eliminá-la. destruí-la
– há recordações que se comportam como a peste negra – a única diferença é a
lentidão com que nos leva à morte – nunca imaginei que ao longo do tempo esta
adquirisse um tal poder de persuasão capaz de ordenar a destruição do seu
próprio corpo – rouba-lhe o sorriso. a vontade de viver. a autoestima. a fala.
a vontade de amar e de ser amado – dá-nos a solidão e com esta chega a coragem
para esquecer o amor de quem nos quer bem – quando damos conta já não temos
nada de nós. gelamos e daí a fragmentar a alma é apenas a ocasião – não é
possível lutar contra a vontade de algo que não sei como dominar. alterar.
reformular. ou até ajoelhar. pedir perdão e prometer-lhe um novo par de olhos.
de ouvidos. de gestos. de sorrisos. tudo para construir uma outra dimensão
humana – confesso que não sei o que fazer. tudo o que tinha para fazer já fiz –
não podemos entregar a nossa memória a ninguém para retificar o que quer que
seja – não foi feita de um dia para o outro. é feita de tempo. do que ouvi. do
que vi. do que senti em cada momento. e que por ser apenas minha só eu serei
capaz de compreender as suas opções – sou um par de olhos e ouvidos – agora.
enquanto vos escrevo. sei apenas que os olhos se apagaram e os ouvidos são
zumbidos incessantes que me impedem de descansar – só a memória. em momentos
raros de lucidez. ainda é capaz de distinguir o bem do mal. o certo do errado.
a luz da escuridão – talvez esteja louco e a memória me esteja a trair.
fazendo-me esquecer a razão principal da minha chegada a este mundo. levando-me
a ver outra forma do meu corpo. outras vozes. outros gestos. outros sorrisos –
agora todo eu sou estranho. e tudo o que imaginava ser meu em definitivo
afinal. não é – estou cada vez mais só porque não me reconheço. e também já não
tenho a certeza de que esta memória seja realmente só minha – compreender-me neste todo é cada vez mais difícil
– há um ruído bem lá no fundo. um cansaço que apela à autodestruição – já não
sei se vivi muito ou pouco. há dias em que só quero voltar para casa. e
noutros. continuo a magoar-me nesta luta que não me leva para lado nenhum –
estou com uma vontade enorme de voltar para sul – sei que nasci a sul e depois
caminhei para norte – é a sul que as andorinhas fazem os ninhos e os rios se
entregam ao mar em definitivo – é no sul que os meninos jogam à bola numa rua
igual à que me viu nascer – é no sul que descobrimos o saber de toda a humanidade.
que encontramos tudo o que perdemos violentamente: o meu pai. a sua paz. a sua
serenidade e finalmente. a seu lado. a verdadeira aceitação do que realmente
sou – com a idade percebi que sou tanto do meu pai – é no sul que podemos
definitivamente dizer à memória que já não nos faz mais falta – eliminamos de
vez o que nos magoa porque a sul não existe desonra. nem o erro. nem o pecado –
a sul existimos exatamente como viemos ao mundo – a memória é pertença de um
corpo com uma vontade intrínseca para conquistar a paz – neste mundo. esta
memória que me consome diariamente. o corpo existe só para a carregar. é um
alforge que a suporta em sorrisos angelicais. em gesticulações graciosas. em
fonemas musicais descarregados em boca gentil: --sim. está tudo bem. obrigado –
mas a memória nega – dentro dela cabe o corpo. e dentro do corpo a dor que.
invisível. ainda assim pode ser descrita: uma lâmina abstrata. de contornos
indefinidos. sem linhas retas. de arestas vivas. curvas e contracurvas que
nunca deixam uma cicatriz reconhecível. nenhum corte se repete. nenhuma marca
se torna assinatura do sofrimento – com esta lâmina invisível. cada ferida
assume a forma única da dor que a originou. irreconhecível. impossível de
imitar. inconfundível na sua ausência de cicatrização. um golpe que pertence
apenas a quem o sente. uma dor exclusiva da memória – é uma dor silenciosa que
nos mata em duodécimos para ganhar ao tempo mais humilhação – dor e mais dor –
a angústia desta dor não pode ser explicada – sente-se e magoa. só – não há
dores iguais. não há cortes iguais na forma. mas todos magoam do mesmo modo –
pode parecer. mas não há – por isso peço aos meus amigos que não tentem dar
forma a esta dor. não a criem à sua semelhança. não a desenhem. não a preencham
com as dores da vossa vida – não seria justo e eu não gosto de amigos injustos.
perco-os na memória. e confesso que depois já não sou capaz de os procurar –
esfumam-se para sempre – os verdadeiros amigos. os afetuosos. não se zangam
pelas dores que não são suas. respeitam-nas – um dia recordarão a minha
existência num silêncio-entendimento. de aceitação-paz. de
amizade-incondicional. de verdade. de saudade. de compreensão – cada
metamorfose da memória projeta no corpo uma dor diferente – bem sei que as
dores se tornam públicas quando oferecidas em palavras. também sei que todas
estão sujeitas a um julgamento. a um exame. um estudo até. crítica também. mas
não se esqueçam nunca da compreensão. da amizade. da tolerância. mesmo da sua
aprovação por compaixão e mais importante. da legitimidade das minhas escolhas
– bem sei que nem sempre as escolhi. muitas tocaram-me em sorte – a dor é
pertença apenas de um corpo com a sua memória. e apenas essa memória será capaz
de a julgar e compreender as suas motivações – a memória é uma armadilha
dolorosa que. depois de escolher a sua vítima. prolonga-lhe o sofrimento numa
espiral suicida – são dores que ficam para sempre. nos dias melhores adormecem
atordoadas. anestesiadas. mas na maior parte das vezes. camuflamo-las com
sorrisos. com festas surpresas. com brindes. e com amigos que estimamos o
suficiente para não lhes transmitir uma dor que não lhes pertence – para sofrer
já basta um corpo – acumulamos dor. acumulamos sofrimento. acumulamos falta de
compreensão. acumulamos indiferença e o mundo parece querer convencer-nos de
que seríamos melhores de qualquer outra forma – como se eu não quisesse ser
outra coisa – às vezes queria mesmo ser o resto do mundo. menos ser o que sou –
a dor é um vulcão que. de tempos a tempos. precisa de vomitar lava para que o
corpo aguente mais um dia. para se reinventar. reformular. reajustar e aceitar
uma nova realidade por tempo limitado – mas nem sempre é possível. já não há
força. a honra perdeu-se para sempre – o tempo é um embuste: na juventude somos
feitos de idiotices. no entanto. juramos a pés juntos que tudo é perfeito –
envelhecemos e tudo o que era certeza é agora dúvida. erro. remorso.
arrependimento e o perdão perdido entre o castigo violento e um julgamento com
direito a pena de morte – e o nosso dedo apontado a tudo. e o dedo dos outros
apontado ao nosso coração. e a sentença consumada com a cabeça na guilhotina –
dor. arrependimento. dor. arrependimento. dor e mais arrependimento – e esta
repetição a ecoar sofrimento. sem cessar. sem piedade – nietzsche dizia que “é
possível viver quase sem lembranças e viver feliz, como demonstra o animal, mas
é impossível viver sem esquecer” – eu não consigo esquecer – com o tempo a
memória rouba-nos a boca. as lágrimas. os olhos incham. esbugalham. deformam-se.
rouba a cor. rouba a realidade. e a morte surge por um afogamento que dura
tantos anos como quantos levo a pensar – o filme da vida passa-nos diariamente
numa agonia de quem sabe que tudo pode acabar de um momento para o outro – o
erro e a dor atribuídos a um passado de fé: é a vontade de um deus – perdi a
morada deste deus. não sei onde mora – um caminho errado mais cedo ou mais
tarde paralisa as pernas ao peregrino – morrer sufocado pelas memórias é
desumano – os amigos mereciam de mim muito mais do que esta despedida – que me
perdoem os poucos que comigo caminharam
– estimá-los deveria ter sido a minha última honra
03/09/2016
post mortem
hoje. a velha amizade ficou
suspensa
mas a culpa não é tua
acredita
é apenas a vida a rolar
seguindo uma nova aventura
sinto que já não tenho nada para
te dar
e tudo ainda para relembrar…
sei. no entanto. que não será
fácil
aceitares as minhas razões
isso estará para lá do teu
entendimento
tu que vias com os meus olhos
e sempre ouvias o meu sofrer
no silêncio. acertavas a
aprovação
hoje. estás atónito
talvez até tenhas a tua razão
talvez esteja a ser louco
talvez me arrependa
talvez mereça ser réu
talvez encontres um erro em
mim
talvez não me possas perdoar
precisas de uma razão
envelheceste! dirás tu
rejuvenesci! direi eu
dirás então:
é assim!
eu direi apenas:
assim é!
dirás que fomos passado
eu falarei do que não
passamos
lembrarás as borgas
eu falarei das ressacas
dirás porquê?
eu direi porque não!
dirás que eu sou outro
eu direi que sou eu
apenas acrescentarei:
não mais serei
nem aquele
nem outro
serei apenas eu
e dos novos caminhos
jamais receberei
risos aos sonhadores
hoje. ao fim da noite
sonhador. cairei na cama
sozinho?
nunca mais…
entrelaçar-me-ei nos lençóis frios
e com a alma de um poeta
qualquer
adormecerei a dizer:
sou quem sou
sorrindo. lembro
sorrindo. recordo
“o sonho comanda a vida”
30/08/2016
26/08/2016
o epitáfio da memória II
II.
só a memória pode decidir no presente o destino a dar ao seu corpo – só esta tem algo a perder – tudo pertence à memória. e é esta que sentencia. é esta que tem a espada de dâmocles. é esta que tem o saber da humanidade com todos os seus desgostos em contrapeso – a questão é simples: continuar ou não a absorver a vida para perseverar a forma do corpo que. apesar de deformado pela corrosão do tempo. será sempre o fiel depositário de todo o conhecimento – manter o corpo é manter a memória – sustentada por um transtorno dissociativo de personalidade. desperta os sentidos quase sempre aflitos. disfarçando-os de uma alegria silenciosa. pacífica. pacata. pueril. aliando gestos artísticos estonteantes criando a ilusão de um corpo gigantesco – imponente como nenhum outro. ali vem ele. num volume de alma enorme. inconfundível. distinto. único. reconhecido por uma multidão de quase ninguém – podem chamar-nos pelo nome. podem até dizer que nos conhecem bem. de abraço. de paixão também. mas ninguém poderá atrever-se a dizer que conhece o que temos de mais autêntico. mais verdadeiro. mais nosso: a memória – essa é só nossa – ninguém por mais íntimo. por mais profunda que seja a sua ligação poderá atrever-se a contrariar esta afirmação – talvez possam dizer que conhecem algumas características suas mais particulares. algumas manias. fetiches. taras. jeitos. um pouco daquela forma de andar. de não dizer toda a verdade. de encontrar a sua justiça com palavras que se repetem de oratória em oratória. de experimentar a partilha de noitadas. de ressacar de um whisky rasco misturado num hálito a SG gigante. de trocar palavras de camaradagem. de abraço por um golo de camisola vermelha. ou por um campeonato ganho pelo glorioso – isto e mais meia dúzia de manigâncias é o que os mais chegados podem garantir como conhecimento privilegiado – pseudo-amigos que nunca passarão de meras sombras – para estes pseudo-amigos pouco mais há para um [re]conhecimento – que mais se poderá querer saber de um humano? para estes amigáveis controversos. com este saber. neste enquadramento. a equação é simples: são amigos de coração – os amigos do coração não necessitam de ter mais nada – passo a ter então direito a um diminutivo: o zézinho. pedrinho. joãozinho. e tudo isto é como uma medalha ao peito. um galardão. um reconhecimento. um herói de guerra fraterna. com direito a um nome gravado no passeio dos amigos para sempre – raio de tempo vivido em troca de nada. raio de discípulo idiota. raio de caminhada inglória. um rasto de tempo dissolvido – bronco. estúpido. asno. e só agora é que aprendeste a contar pelos dedos os poucos amigos que trouxeste ao coração. as exceções têm um cantinho especial dentro de mim com gratidão e memória eterna – os meus amigos de coração jamais partilharão as minhas amarguras num relato como este – os mais atentos talvez lhe possam adicionar umas inflexões da voz. um revirar dos olhos. um torcer de nariz. do formato da boca nas saudações da praxe. e a autenticação do tamanho de um corpo que nem sempre condiz com o da alma – para os meus amigos sempre quis muito mais e sempre estive disposto a dar-lhes muito mais – dava-lhes a minha única riqueza: a memória – mas não. que interesse há numa memória que fala de si como se estivesse apaixonado por cada palavra. por cada suspiro. por cada olhar a pedir uma resposta para um corpo a mostrar tantas dúvidas – nunca tive certeza de nada – é a incerteza que nos empurra para o desconhecido – sempre corri atrás dele – falava-se de futebol. das mulheres dos outros. da velocidade com que os outros passavam com os seus automóveis de luxo. da sua riqueza. das ilhas do onassis. dos seus iates. e da nossa memória nem uma palavra. nada. nada de nada – um absoluto deserto de afeição – restava-me rir e fazer figura de tolo – a memória. essa coisa que é só nossa. imaterial. abstrata em tanta mesquinhez. autêntica para nós. subjetiva quando partilhada. louca quando tantas vezes o que lhe era exigido era ponderação. ou um pouco de racionalidade – e o que recebes: inquietação absurda com quase sempre dor a posteriori – como se tudo isto fizesse parte do contrato que assinaste para ser humano – veste-se de luto. de dor. de farrapos. e de agonia assiduamente como se fosse um hábito. um vício sem cura. como se carregasse uma doença terminal – mas não carrega – quando pensas que é o fim o ciclo recomeça – haverá pior castigo do que este? – é esta memória que retira a coerência à vida. a certeza. a planificação. os sonhos. a bondade das ações. a glorificação. a perseverança. a capacidade de lutar. a nobreza dos atos. a certeza de que fizemos o melhor pelos outros e por nós enquanto corpo com memória – nunca sabes quando um elo se quebra e uma parte de nós desiste – chega o momento em que nada do que fizeste é uma certeza – mas a minha memória é só minha e é com ela que me tenho que entender – o que é nosso. é nosso – nada podemos fazer a não ser aceitar o que por lá cresceu – não lhe quero mal por isso. também não me adiantava de muito – aceito-a. aceito-a porque me tornou quem sou – estou agora numa paz cuja duração desconheço. nem sei muito bem o nome que terá. sei que de espírito não é porque este continua turvo. sinto-o cada vez mais escurecido. mais irrequieto. mais tumultuoso. mais impetuoso. com menos mel – talvez esteja a passar o olho do furacão. ou quem sabe a cumprir um ritual qualquer que o corpo ainda desconhece a finalidade – há tanta coisa que ainda desconheço – um passo a sorrir traz sempre três passos para a vala – inevitável – os sorrisos são quase sempre para enganar a plateia no teatro do nada – para a memória não há subterfúgios. nem algazarras. nem silêncios capazes de a enganar. nada mesmo – às vezes o silêncio asfixia – refugio-me num catraio que ainda me habita. na sua ingenuidade intacta e nas suas palermices incompreendidas. e na maior parte das vezes. dissolvo-me em nada – mesmo assim. e por mais que queira. não consigo mudar nada da memória – tenho como destino final aquilo que vive dentro da minha memória
[continua] – para a III parte
21/08/2016
o epitáfio da memória I
I.
o dia das
lágrimas – com vida certa ou incerta. verdadeira ou falsa. bela ou grotesca.
rica ou miserável. trágica ou iluminada. excêntrica ou vulgar. aqui estou
perante este tempo néscio de compromisso com a memória: um comprometimento de
honra com o meu corpo por inteiro – o contrato – sou eu. com a minha face. as
minhas mãos arrestadas a impressões digitais únicas. banhado por um sangue
enlaçado num DNA que nunca se reconheceu como entidade singular – tudo isto
oferecido num jeito de caminhar tortuoso. sinuoso. confuso. como quem ameaça
tropeçar a cada passo. a cada fôlego arrancado à vida – os olhos. de um
castanho morno. arregalam-se como faróis furiosos em noites de tempestade.
procuram ansiosamente um destino que se esquiva – o futuro. em movimento acelerado.
persegue sem misericórdia um corpo que nunca aceitou o repouso – nunca fui nada
sem movimento. sem vertigem. sem ação incessante. como se o corpo estivesse
sempre em descompasso com o pensamento – o próximo lugar era sempre o único
refúgio possível para domar o ímpeto de tocar o fim do mundo – ilusório – só a
fala se arrastava num vagar ansioso para uma boca que sempre almejou o silêncio
– nunca me dei bem a falar. confesso que às vezes nem no silêncio de mim mesmo
– e é tudo isto que faz de mim um ser com memória. único. singular. excecional
para o bem e para o que há de pior – por fim. e para que não houvesse
enganos. deram-me um nome sem nenhum
tipo de atenção. e um último nome que diz mais do meu corpo do que todos os
particulares descritos – sou então o único dono e responsável da minha palavra.
da minha honra. da minha vergonha. das minhas opções e das minhas falhas – sou
assim um guardião da memória. que se alimenta da autenticidade. umas vezes pelo
contrato assinado. outras pela convicção de que o valor de uma vida não se mede
em tempo. mas sim pelo que deixamos no tempo – o futuro e o passado não existem no agora. é apenas uma medida de evolução que neste momento não se aplica a mim
– claro que há exceções dentro do meu próprio corpo. exceções essas que se
amarram à memória. e determinam que a evolução da razão nem sempre se sobrepõe
à virtude – os princípios que amarram a virtude a escolhas inevitáveis são
sempre movidos por um ímpeto silencioso. que no meu caso. pouco crente no
sobrenatural. foi marcado no primeiro sim à vida pela tômbola da sorte – todos
temos uma tômbola invisível que gira sem nos consultar sobre a aposta –
baralha. dá cartas. escolhe o trunfo e diz: vais a jogo – e vamos pois.
acabamos de respirar. e quem respira aceita as regras do jogo – estamos a viver
e a ganhar memória. o que é o mesmo que dizer: estamos humanos – nada acontece
de um dia para o outro – pelo meio as leis da sociedade induzem-nos a sua ética
e moralismo. nunca tendo em conta a dor. o sofrimento. a falta de vontade de
viver. a extinção da motivação. o eclipse da fé – leis pensadas e elaboradas
para um mundo ideal. por homens tão imperfeitos quanto eu – mas a razão de uma
vida existir divide-se em mais de mil razões concentradas num só ato
irrepetível – sou tantas coisas que jamais poderia reduzir a existência a uma
única razão para viver. ou para morrer – o fim da vida é uma decisão tecida no
tempo. e o tempo é feito de memória. e toda a memória repousa sobre alicerces
de desespero e assombro – vivemos a felicidade de forma tão intermitente e rara
que. quando necessitamos de recordá-la. ela resume-se a poucos instantes. que
quase sempre nos obriga a recorrer à descendência. à companheira que é a luz da
minha vida. à família no seu compromisso de afetos. aos raros amigos que
conseguimos preservar. e a dois ou três caninos que nunca deixaram de me
receber com a cauda a abanar – tudo isto garantido por um batimento cardíaco.
ora sobe. ora desce. ora acelera. ora esmorece. ora sussurra que já nada
justifica o sacrifício de o escutá-lo – o batimento do único músculo que no
passado escondia o amor. o coração – já não há amor no coração. não há remorso.
nem arrependimento. e também não há nenhuma medida universal para uma dor que
ruge: basta. chegou a hora do silêncio absoluto. da paz – chegou a hora de
fazer descansar a memória



