16/10/2016

smile – a solidão dos interligados



smile


não posso renegar a verdade – aqui estou. solitário. isolado. retirado do mundo. entregue a uma luxúria de imagens. inundadas de sorrisos raros – as fotos chegam numa cadência de urgência. enquanto os likes. atarefados e eufóricos. alinham-se pela ordem de chegada nas notificações. anunciando. em vermelho. a sua presença– estamos todos por cá – são fotos incríveis. com mensagens ainda mais incríveis. numa alegria estonteante. quase a fazer mal. a doer. como droga alucinogénia. paranoica. cega – e todos os presentes confusos. assustados. apavorados por não saberem até onde poderá chegar esta felicidade – nunca nenhum artista tinha pintado sorrisos assim. nunca. nem mesmo o de mona lisa – e tudo isto em redes de vai e vem incessante. em partilhas feitas ao segundo. numa velocidade louca. estonteante – e os sorrisos. sempre em crescimento. satisfeitos. animados. trazendo prosperidade ao futuro – quanto maior o sorriso. maior a ilusão da felicidade – as fotos não mentem. e eu acredito nelas. mesmo estando só. retirado do mundo e dos afetos de proximidade – e todos reagimos. sem pensar. num impulso idiota. mas de sinceridade inquestionável. assinalamos a receção dos sorrisos com uma nova linguagem global. invariável. imutável e incorruptível: os smiles – símbolos que representam vida. amizade. amor. proximidade. alegria. dor. paixão. harmonia. acolhimento. revolta. ira. a rir pouco. a rir muito. a visionar campos de infinitos beijos. de abraços. de carinhos. e as mãos estendidas. buscando um toque real. enquanto o corpo se arrepia num tremor extrassensorial – somos amigos – o telemóvel vibra. chama por mim. e o som transforma-se numa tocata sem fuga possível – atendo: quem fala? a máquina multifunções não tem o número memorizado – afinal. é um amigo do tempo em que os chamamentos vinham da campainha da porta. dois toques sorrateiros. não fosse a mãe entrar em histeria e proibi-lo de vir à rua. e logo respondia pelo vão das escadas: -- já desço – e eu. sentado na soleira da porta. a queimar a demora. enquanto o tempo passava num vagar de meter medo – hoje. como distinguir um amigo do peito de um amigo tecnológico? digo então. para facilitar: é um amigo mesmo amigo. verdadeiro – que coisa mais louca. um amigo deveria ser sempre amigo. e nunca necessitar de um pronome demonstrativo para validar a amizade – agora temos os amigos de facebook. de instagram. de twitter. de youtube – todos presos numa trama intelectual. ligados a uma rede que não nos deixa ficar sozinhos – entretidos com a nossa própria companhia. descobrindo-nos. apreciando-nos.  corrigindo em silêncio os nossos barulhos interiores – o tempo já não mete medo – ligo-me a mil amigos. a outros que me perguntam se os conheço. e ainda a outros que talvez devesse conhecer. e isto tudo numa irracionalidade que. por ser constante. acaba por se tornar racional – e os amigos que não são mesmo amigos partilham as mesmas cores. seguem a mesma moda. leem os mesmos livros. praticam os mesmos hobbies. e pensam igual. e a religião não interessa. e o sexo? indefinido. ou só mulher. ou só homem. ou as duas coisas. e este é casado ou está numa relação em euforia. ou agonia – gente igual. gémea mesmo. comprovada por uma máquina que só sabe falar verdade: a estatística facebookiana – diferente mesmo. só sou do amigo mesmo amigo – tudo o que é cérebro é agora alimentado por fios que não vemos. que nos levam e trazem a lugares que nunca imaginávamos chegar – agora estou em Ibiza. de copo na mão. uma palhinha a sair de um cocktail fluorescente. e atravesso o planeta em fibra ótica. cheguei ao japão. e o peixe. cortado fininho por uma faca de samurai. enquanto os pauzinhos levam à boca um pedaço de imaginação – atrás de mim. uma gueixa sussurra luxúria. anunciando o começo da noite – e a feed notícias do mundo a girar num ecrã plano. e um canguru. perseguido por um aborígene. ou será o aborígene que persegue o canguru? todos nós perseguimos alguma coisa. e muitas mais coisas nos persegue sem que saibamos – tudo isto a correr numa notícia de última hora. triste. muito triste. faz hoje anos que pavarotti nos deixou. o avião do cristiano ronaldo sofreu um acidente. e um marido atirou ácido à ex-mulher. enquanto a sogra era atropelada por um camião desgovernado na via de cintura interna – estou amargurado. tonto. quase sou atropelado por uma última notícia. não fosse um convite promíscuo para saltar numa cama surreal – e aí estou. perdido nos lençóis. feliz como nunca. ao lado de um par de pernas que nunca imaginei. parecem-me as da sara tavares. e pela primeira vez sou infiel. e o corpo suspira por mais que apenas pernas. quero mais. afinal para que serve a tecnologia? estou esgotado. esta mulher não é para mim – e a minha vida. recordada há um ano. vejo as minhas memórias. e uma lágrima mistura-se à gratidão de estar vivo – e tudo nas mãos é velocidade estonteante. e quase nada tenho para fazer. a imaginação já não é minha. pertence a um grupo de fabricantes de emoções. produção industrial. em série. e em constante atualização. e tudo me assenta na perfeição. como se me conhecessem por inteiro. como alfaiates. com o giz a riscar as sobras. a tesoura ajustando tudo ao corpo. enquanto o alinhavo marca com uma certeza absoluta os contornos do corpo – bebo então para esquecer. preciso de um copo para afogar esta angústia que. verdadeiramente. não sei de onde veio – mando vir uma sangria. mais uns quantos amigos virtuais. e os copos ao centro. numa amizade que não é de amigo amigo: à tua saúde. enquanto a francesinha fumega num molho cor de pêssego. como fumega a síria. e os mortos espalhados pelas ruínas. dilacerados por bombas num mundo cada vez mais terrorista – no facebook também – a alegria do estômago termina em agonia. enjoa e afoga-se de vez no mediterrâneo com gritos que são súplicas de refugiados que. de polegar no ar. não acenam. não. clamam ao mundo tecnológico que transforme os likes em botes salva-vidas – estou arrasado – também quero um like para mim. um enorme. com um dedo gigante apontado para um salva-vidas que me resgate do egocentrismo dos meus próprios likes – que ingratidão – e mais um toque. o telemóvel vibra. e eu recuo. assustado. em pânico. descontrolado. não posso fazer esperar um amigo. e o braço a correr com a voz para o ouvido: desculpa. estava a trinchar uma francesinha com uns amigos virtuais – e paro a vida para atender a urgência daquela invocação digital – todos os toques são importantes – de seguida. mais um toque. adio o amor para a noite seguinte. outro toque e fecho o livro. mais um e digo que já não vale a pena sonhar. tudo acontece ao segundo. e o futuro já não interessa. o que interessa é o feed de notícias – fecho tudo. eu também. o mundo todo. deixo ficar ao meu lado a desilusão em que a vida se tornou. não a minha vida que por ser minha não tem interesse para ser notícia. mas a de um smile que chora. chora como uma criança – todos os smiles têm rosto de crianças. e eu desfeito em sofrimento saio disparado. em wireless. à caça do pokémon que feriu o smile das lágrimas – isto tudo sem abdicarmos de nenhum tempo porque deixamos de sentir este tempo eletrónico. gastámo-lo como se fosse inesgotável. como se pudéssemos somar horas aos dias. e por cada ano gasto. um mês extra. como num jogo de flippers. e por cada centena de likes um dia de bónus – estamos parados e andamos sem dar conta num tempo que deixamos de contar como tempo – mas conta – interrompemos o tempo verdadeiro. caçamos o like. e seguimos vidas que nunca serão a nossa vida – e aí vamos. por uma estrada que leva a todos os lugares. e nunca chega a lado nenhum – olhamos o universo num retângulo que dá luz. saturado de sinais sonoros. música. e histórias feias e bonitas. verdadeiras ou falsas. de amor ou de sangue. e tudo isto apenas com um tremor do braço. um click do dedo – mais um toque a pedir voz. atendemos e logo nos dizem: manda mensagem. é mais fácil – o mundo cada vez mais mudo. os dedos já não querem olhos. já conhecem as letras no escuro.  tudo cego no mundo real – que sofrimento – e os homens cerebrais do outro lado dos fios que não se veem a dizerem que estás inibido de viver por vinte e quatro horas – eles fazem lei. julgam e ditam a pena – culpado – tudo isto porque mostraste as pernas da marylin monroe. o mamilo com piercing da janet jackson. duas lésbicas num amor proibido. um profeta parecido com allah. um poema de escárnio. e um nu renascentista com um carimbo a censurar o belo – e a noite chega. tão igual a todas as outras noites. o corpo. prisioneiro de vibrações que agora se tornaram choques elétricos. e o feed de notícias sem dormir caminha por ti com sinais sonoros de conveniência desumana – os olhos. encostados ao sono. num estado de alerta geral fazem o possível por descansar – são os novos guerreiros da tecnologia. enquanto um olho dorme. o outro vigia o feed notícias – já nada te pesa no corpo. o passado está morto. e às tuas costas já não carregas mais amigos mesmo amigos. carregas um mundo que não é teu. suportando uma dor genética que nunca te pertenceu – estou só. devastado de tudo. de gente que não conheço. de mim também – sou agora um corpo tecnológico num mundo que só me aceita a rir. a falar com frases curtas. ou com pensamentos empacotados em caixilhos dourados de gente ilustre que não merecia este destino – e os sonhos cortados como se a vida fosse apenas estes clicks com o polegar para cima – força amigo. tu vais conseguir. não desistas amigo. a vida um dia compensa-te. adoro-te. és lindo. beijinhos. gosto muito de ti – isto tudo rematado com um smile. um polegar na direção do paraíso. e o inferno é tropeçar numa verdade perdida no meio de tanta mentira – tudo o que digo é um like. e o que não digo também. e o que faço leva um like com um sorriso cada vez maior – um dia. irritado. recuso-me a por mais likes e digo: estou morto. morri. desapareci. cansei. enforcado com um cordão de likes – é então que milhões de likes emocionais explodem para um último adeus.  o feed de notícias chora. os dedos apontam para a terra. e os smiles das lágrimas esbarrotam-se em manifestações de dor e pranto – carpideiras em histeria dolorosa – os amigos que não são amigos vestem os avatares de preto. e milhares de emoções soltam lágrimas que nada molham – estamos interligados a números de computação cruéis – somos então um IP entre janelas que nunca se fecham e promovem uma contabilidade que sobrevive a uma bateria sempre em carga – como tudo isto pode ser efémero – basta um power a menos na bateria. e a morte digital pode chegar a qualquer momento – é então que o pânico acontece. falta o carregador. o isqueiro do carro avariado. e até a eletricidade fugiu. parece impossível. o corpo treme. convulsões. vómitos. e uma ira que pode magoar de verdade. enquanto a realidade está em fuga por causa de uma ressaca que ameaça matar – são os novos toxicodependentes. viciados na carga. na luz do ecrã.  – estamos todos loucos – aqui estou a jogar com a vida. às vezes em ironia. outras. a tentar ser esperto. e lá chega mais um like sabichão – e passam carros e bicicletas com gente que já não pedala. e tudo sem margem de erro ou esquecimento. comandado por apitos que nos avisam: hoje o teu amigo mesmo amigo faz anos – tudo é feito à hora certa – tal como os comboios. os autocarros. o metro. as bicicletas. os táxis. a uber. tudo na hora certa – e os velhos com a solidão às costas. e os doentes em ambulâncias que já não gritam dor. e o povo incapaz de se reconhecer. não pela voz. nem pelos olhos. nem pelo  jeito de ser. nem sequer por um abraço. nem por nada. espera sentado a chegada de um destino que não controla – ninguém tira os olhos do ecrã – por mais noite que seja. há sempre um ex-humano parado num apeadeiro. à espera de uma foto. de uma notícia. da morte de um amigo íntimo do mundo das imagens. de um smile. de um sorriso empacotado – e o like a cair. esvaindo-se como urina na sargeta. logo depois. um escarro. um cão de perna alçada espera também pela sua vez. e o like coberto de um ácido que corrói o cérebro – as fotos sem flexibilidade. tiradas por um braço metálico. estendido para o fim do universo. sacam um último sorriso. e de repente. em total demência. um suicídio coletivo numa gargalhada fotográfica – o mundo. afinal. é todo feliz – infeliz. só eu existo – só eu sei que estou triste. triste de morte. com uma faca encostada à jugular. e o coração a dizer: és o único que não tem vida – não me rio. não sorrio. e não digo que hoje o dia está lindo – não tenho trompete a tocar silêncio porque verdadeiramente não estou morto. estou apenas nada num mundo de merda – e assim termino esta crónica. num sorriso de verdade que. por ter mais de duas linhas. jamais terá direito a um like feliz

 


13/10/2016

fotografia: a luz que guarda o tempo



foto - sampaio rego


fotografia amadora tornou-se a minha última paixão – cada pessoa é um infinito de movimentos. de expressões. de representações. de comunicações que procuro captar e dar-lhe a eternidade de uma máquina fotográfica – iluminar o universo sensível – só a fotografia pode guardar um mundo inteiro. ou apenas um olhar – amo a fotografia de proximidade. de afetos. de entrega. de gestos subtis. onde a cumplicidade do clique inesperado se transforma num instante eterno – a simbiose perfeita: a entrega do fotógrafo e de quem se deixa fotografar – fazer fotografia é também um ato de amor. obriga-nos a sentir e compreender cada momento de partilha. cada raio de luz. cada sombra. cada sorriso. cada movimento de confiança – é isso que faço aos amigos que me deixam fotografar. guardo-lhes os sorrisos. os gestos. os olhos do corpo que os tornam únicos – só os fotógrafos imortalizam momentos inesquecíveis – um fotógrafo é para sempre. depois do clique. somos inapagáveis – sei que. para estes nossos amigos das fotos. eu. fotógrafo entusiasta e amador. ficarei eternamente presente em cada fotografia – um dia inesquecível

 

texto dedicado à minha “colega” e amiga fotógrafa – andreia aluai


05/10/2016

domingo absoluto



                                                                        tela - karen woods


domingo – aprendi que tudo o que sou se resume à palavra escrita. ao modo como entalho cada pensamento na perpetuidade de uma folha em branco –

         – penso:

hoje. domingo. dia de chuva para o corpo. aguaceiros fracos. o vento a puxar norte e o apito do comboio a ressoar pelas traseiras da casa –

         – sempre me angustiei com a chuva anunciada pelo apitar dos comboios   

em casa dos meus pais. nos dias em que se ouvia o apito do comboio. logo intuíamos que a chuva já pairava pelo canteiro do vizinho – aplicava então o ditado popular: quando vires as barbas do teu vizinho a arder. põe as tuas de molho – a chuva estava ao dobrar da esquina – da minha casa à casa dos comboios havia cerca de três quilómetros em linha reta. percurso feito pela criançada em menos de dez minutos em passo ligeiro – mas a distância torna-se irrelevante quando o que chega vem tocado a vento – e tudo o vento arrasta de um comboio revoltado que apita em forma de grito: chuva. chuva. pouca terra. tristeza. pouca terra. chuva. chuva. tristeza. chuva e uma nostalgia de morte que molda o som agudo do apito – o vento a deslizar pelas frinchas das janelas zune nos ouvidos como tortura. e eu a correr para o terraço. e os olhos a esbarrarem nos montes cobertos de um negro feio – o silêncio era maior que as montanhas – só se ouvia o vento a pregar com as árvores. enquanto a passarada fugia em debandada para sul – nas janelas da vizinhança as roupas coradas sacudiam-se inquietas ao que restava do sol. enquanto as donas de casa as recolhiam em aflição – a chuva quando chegava à minha cidade. era para durar –

        – não é por acaso que se diz que braga é o penico do céu

lançava os meus olhos incomodados para norte e lá estavam as nuvens de cara fechada. escuras de ruindade. a marchar num galope de combate. em formação guerreira. rasgando vales e serras. profetizavam angústia. agonia. amargura – havia um silêncio nostálgico puxado a um vento esguio. cheio de maus presságios – havia também uma tormenta anunciada dentro de mim

         – a chuva açoita ferozmente a verdade de cada corpo: lava-lhe a carne. humedece-lhe a alma

os domingos sempre foram assim. incertos. tristes. silenciosos. feitos de nuvens magoadas a murmurar nostalgia numa calmaria amarga – mas com chuva. os domingos tornavam-se desumanos. malvados. perversos. tão cruéis como o apocalipse prometido – finalmente os anjos de joão justificam o livro sagrado do cristianismo –

         – nestes dias dominicais nunca sou de grande imaginação. tudo está parado – eu também

no corredor da minha casa. a passadeira estende-se asseada até à porta da rua. mas também por ali o barulho habitual dos dias da semana esvaneceu – não quero sair. o corpo não quer sair. só quero expurgar da carne esta sombra de morte anunciada – este silêncio é imenso. uma aflição. um sufoco mudo – tomara que nenhum romeiro errante surja para desarrumar as cadeiras e me roube o silêncio dos cortinados – dizem que o domingo é o dia da família – para mim todos os dias são da família menos o domingo –

         – tudo dentro dos domingos é silêncio. é nostalgia. é aborrecimento. é a antecâmara de um velório – é um tempo contado que fere a cada segundo

domingo é dor que dói sem saber onde e porquê – a tristeza invade-me numa sensação de morte antecipada dos sentimentos. e tudo que era para ser escrito é vago. vazio. as mãos. esvaziadas da força interior. deixam-se cair até ao fundo do corpo na procura da salvação – aos domingos preciso de sentir o sangue correr nas veias para saber que existo – olho-me então pela janela. imagino uma chuva diferente. subindo ao céu. numa correria feita água-moço. inocente. talvez adolescente. suave como todas as faces acabadas de nascer. sem segredo. sem mancha. sem engano. numa dança pura. branca. efémera. nada mais do que o regresso ao começo do meu universo – um universo físico pois já não acredito no universo que me pede rezas – o meu céu é a terra que imagino. o inferno ergue-se sempre que viro as costas à janela – é domingo de chuva. chuva que fere. que não purifica. que me humedece a alma e me faz virar as costas ao mundo – é o domingo de um homem-chuva

         – os dedos. ansiosos por escrever. escamam a pele no atrito das palavras que não saem – talvez queira aquilo que não tenho

o cansaço quebra o corpo. é assim que a morte se insinua? e o cinzento preenche cada esquina do quarto onde os ângulos são cada vez mais aguçados. e a geometria das palavras teima em não aparecer – o candeeiro não ilumina coisa nenhuma. nem dentro nem fora do corpo. a única luz que me alcança é a que escapa às cortinas de uma janela virada a sul – mas tudo está a norte. a igreja. com os seus sinos. clama por gente de fé [cada vez há menos crentes]. o jardim onde as crianças brincam com um futuro que não enxergo [cada vez há menos crianças]. as romarias que atiram fogo contra o céu numa tentativa de acordar o santo padroeiro [cada vez há menos romeiros]. os namorados que de beijo em beijo adiam para amanhã o que devia ser hoje [cada vez há menos amor]. aos domingos tudo que vejo é a norte do corpo. a sul. apenas o que nunca vi

         – e aqui estou hoje. a escrever como se fosse criança. – mas não sou. e os domingos também já não são desse tempo

resta-me. em boa memória. o acordar aos domingos em casa dos meus pais. o cheiro a assado no forno ocupando o ar do quarto. e a certeza de uma comida melhorada por ser dia do senhor. enquanto a minha mãe corria a casa em afazeres que nunca compreendi – talvez sentisse também a nostalgia dos domingos. e o trabalho da casa fosse apenas uma maneira de a superar – acordava. bocejava. virava o corpo para o lado da janela. a luz bocejava [também] pelos intervalos da persiana enquanto a vida acontecia noutras partes da casa – no ouvido ainda sonolento. uma cadeira arrastada. uma janela a abrir. um tapete sacudido. um lamento em voz rezingona. uma corrente de ar que não magoava o corpo. enrodilhado nos cobertores. e os braços a espreguiçar felicidade – olhos abertos. e a roupa do domingo sentada na cadeira em frente à cama. em espera. em alegria. aprumada. com os sapatos alinhados pelas biqueiras. e as meias de lã a dar pelo joelho. sem remendos. emparelhadas pelos calcanhares – tanto a roupa como eu sabíamos que este era o único dia em que saiamos de casa orgulhosos: a roupa comigo e eu com o brio do corpo e da mente – e ali estava eu. a vestir-me da frescura. de tudo o que era novo. lavado. passado. engomado. e os sapatos engraxados reluzindo um negro-brilho que serenava a pressa da infância – e a minha mãe em aflição gritava-me:

         -- olha as horas. a missa não espera por ti – não vais voltar a chegar atrasado. é uma vergonha – a igreja do carmo estava a cento e cinquenta metros

corria para a missa das onze e trinta e regressava para o almoço amparado por uma proteção divina que. mesmo invisível. eu sentia – eram horas de sentar à mesa. a aparadeira de barro trazia o aroma da melhor carne assada do universo – éramos cinco numa sala só nossa – e a mesa vestida de um branco encantador. dizia que a minha casa não era pequena – éramos cinco. numa “casa absoluta” – e ali estávamos todos numa graça que também era do senhor. rodeados de palavras por todos os lados. erguidos dentro de um instante que durou a minha vida inteira – ainda vivo dentro dessas paredes. numa mesa que não mudou. na cadeira à direita do meu pai. depois da minha mãe. e de costas para uma natureza morta comprada a um artista-adornado[r] de almas – naquela mesa só eu era pequeno. os pratos enormes. brancos. de uma porcelana grossa. com uma risca azul que era céu. os copos gigantescos equilibravam-se num único pé. delicados. esguios. bonitos. a honrar o dia – nunca compreendi aquele equilíbrio-harmonia de cada copo no seu lugar. e a forma delicada como o meu pai o levava à boca. pousando-o de seguida com uma delicadeza de cristal. enquanto os lábios se tocavam numa caricia gustativa. logo escondida por um guardanapo do mesmo branco absoluto da toalha – à semana eram copos rasos. grossos. feios. feitos para partir. para durar um instante rápido – naquele tempo não havia coca cola. nem sumos. nem outras mixórdias feitas de corantes. só água num jarro de barro com o bico fanado. com a mesma risca azul do céu – os talheres. ajustados ao tamanho certo à direita do corpo. prometiam levar à boca a certeza de que nunca mais deixaríamos de ser cinco. cinco numa casa “absoluta” – o guardanapo pendurado no pescoço cobria-me o corpo. embrulhava-me num branco igual ao da toalha. enquanto as nódoas desertavam para o chão. com medo de irritar a minha mãe. que não se cansava de repetir:

         --tem cuidado com a roupa. não te sujes. olha que não tens outra para sair – não me faças passar vergonha

e ali estava eu à mesa sem ainda perceber a importância do número cinco. de um cinco inteiro e não de um quatro mais um – não sabia nada de contas. e só muito tempo depois é que percebi que quatro mais um nunca é igual a cinco – foi naquela sala só nossa. absoluta. que aprendi a contar – os pés para trás e para a frente distraíam-me das conversas dos meus irmãos. enquanto o meu pai sorria – o meu pai sorria sempre. mesmo quando o assunto era sério – ali estava ele. absoluto. do tamanho da nossa sala. à cabeceira da mesa. vestido também numa roupa de domingo. de família. num corpo bonito. orgulhoso. por dentro e por fora. e o sorriso a envolvê-lo num domingo inteiro. as mãos brilhavam. e a comida chegava à boca numa elegância merecida. embelezada por um bigode finíssimo. traçado a lâmina de barbeiro. que riscava a nossa sala de uma ponta à outra. e os olhos. os olhos meu deus. bonitos. bons. nasciam-lhe na alma e iluminavam um caminho que nunca soube encontrar

         – é domingo. todos os dias são agora para mim domingo – mas já não há assado no forno

mas cá estou agora. a pensar. como os domingos se mantêm chuvosos. agora sem comboios. sem o apito a anunciar chuva. a prever mau tempo – mas a chuva cai todos os dias e o vento já não atravessa as frinchas. atravessa o corpo numa saudade que me rompe a memória. e os cinco já não são cinco. somos quatro e o domingo pesa ainda mais. sem generosidade. sem carne assada. e os cães noutra sala dizem-me que ainda sou mais do que um simples domingo e que tenho de cuidar de mim. entender-me com o tempo que me resta – e o que era soma é agora qualquer coisa que não sei explicar. impossível de calcular – e a saudade amarrada aos anos que passaram por mim. e eu sem saber se o que vem além disto é mais do que um balançar de pés numa cadeira que me prendia a uma sala só nossa. e as nódoas já não caem no chão. colam-se ao corpo. como lapas agarradas a um mar que nunca tocou uma sala como a nossa. absoluta – e o domingo a rasgar-me em imagens que julgava esquecidas. o copo cada vez mais pequeno. e os lábios à procura de um pedaço de tempo que sacie esta sede pelo domingo que me viu nascer – o domingo aperta-me o corpo por um braço que me esgana – sufoco. sufoco. sufoco – é domingo. chove. fora da minha janela – dentro também 


03/10/2016

loucos desejos





tela - fernando botero




mãos malditas com loucos desejos
não me fustigueis com o vosso olhar
que. em horas despidas e sonhos cruéis
sois monstros multiplicados por mil
silêncios parados de encontro ao nada


em cada dedo mora uma esperança.
em cada linha cavada uma sina apocalíptica
dormem ruas ladeadas de luzes insólitas
calçadas de sonhos perdidos e idiotas
onde o peregrino teima em caminhar


sonhos que escutam desespero em mudez  
escutam? sim... o ruído de letras a nascer
onde percorrem braços inertes de sofrimento
partilham um coração que bate poesia    
desagua dor em dedos revoltosos


queria ter algibeiras que fossem prisões
deixar-vos agoniar com a falta do olhar
pois sois mágoa parada num trilho de escrita
onde morrem  as mãos vazias de saber


deste inferno diz-me a voz da rua que dorme
em miradouro onde a beleza é o precipício  
se olhares... se sentires… se escutares…
talvez um dia… quem sabe hoje até…


descobrirás que a ambição também mata




30/09/2016

o epitáfio da memória - IV [fim]



foto - sampaio rego

IV.

sou então este. este que se apresenta agora sem memória. morto – de corpo e alma – definitivamente morto – olhai-me. olhai-me com esses olhos enormes e precisos – amigos – gente que gosta. olhai-me – os amigos sempre tiveram olhos enormes. precisos. bonitos. e sempre viram certezas que eu nunca vi – sempre gostei de me ver nos vossos olhos – amigo é um nome que é mais do que uma coisa. é mais do que aquilo que sou. amigo ilumina. encandeia num finíssimo fio de luz. é vidro de murano. frágil e sofredor nas palavras trocadas em noites de silêncio – amigos são sorrisos que duram uma vida. são flores. girassóis que ocupam campos de sentimento que aprendi a cultivar – quando existe um amigo há sempre uma razão para morrer envergonhado – nunca quis que um amigo se envergonhasse – amigo é um rosto que nos cobre o corpo num absolutismo consentido. desejado. infantil – somos então mais altos do que as torres das igrejas. e os pássaros. que nascem nas árvores. como os de ruy belo. segredam bem-aventurança em alvoradas de abraços – sou lágrima. que mais poderia ser? talvez um sorriso numa face amiga – sou revolta. sou um raio de uma coisa que pode ser tempestade. ou agonia. ou luz. ou um dia feliz no dobrar dos sinos. ferro-velho vendido a troco de nada – nada mais tenho para vos entregar para além destas palavras escassas. e que me matam de raiva por serem tão pouco – todos mereciam mais. todos – amigos que [me] gostam – a vida tirou-me uns quantos. o envelhecimento os restantes – estou morto num corpo inteiro. num nome inteiro. numa vida que morreu um pouco por cada primavera – nasci em abril. lágrimas mil – não adianta. morro sem nome. morro dentro de um sonho que não para de gritar erro – agora sou este que aqui resiste neste cheiro a incenso. a flores. a água benta. a orações. e ao último pai perdido no céu – não estou em lado nenhum para além deste corpo inquieto – rodeia-me satanás num silêncio que incendeia o terror absoluto. e me leva de arrasto com o que me sobra da memória – a vida não passa de um sudário invisível – rezem. rezem e acendam uma vela do meu tamanho que não é mais do que um palmo do que fui – rezem. rezem e falem da minha vida reduzida a um sopro de som – rezem. rezem e falem dos meus feitos que não passaram de defeitos – rezem. rezem e agridam a minha escrita que nunca foi de artista – rezem. rezem pelas minhas lágrimas porque foi nestas que me afoguei – rezem sobre estes ouvidos mortos pois jamais vos escutarei – estou morto. finalmente – preciso agora de empurrar a bala para dentro do silêncio e abafar o eco do disparo – careço de um descanso arrependido. há dentro de mim um corpo que jaz morto de tudo – o fim da vida é o fim da memória – a morte sou eu. ausente de mim numa sala vazia. estou só. insignificante neste corpo vestido de mim. sobram-me as mãos dobradas sobre um peito sem sentimento. por cima de um coração que nunca foi verso. e um girassol coberto de terror anuncia que a vida é apenas um dia mal contado – e o som das palavras é agora cada vez mais baixo. inaudível. com vergonha do defunto. enquanto os gritos de arrependimento se escondem por baixo dos sapatos que me pisaram – mesmo morto estremeço – rezem enquanto o fogo queimar o que me resta da pele – a pele é tudo o que sou. por dentro. o vazio – a morte é um vento brando que nos leva sorrateiramente para um sono interminável – finalmente a noite desaparece para sempre nos meus olhos – deixarei então de ser peso. de ser matéria. de ser rasto. de ser um traço na minha rua – que me perdoem os que gostam de mim. mas não quero mais memória – um corpo sem memória é um corpo quente. livre da dor. um corpo voltado a sul – o meu destino é uma coisa do mundo que vai morrer sem passar de boca em boca – escutem. escutem com atenção e apregoem a cada criança que queira nascer: quem não sabe ao que vem nunca compreenderá porque parte – assim estou. estendido nesta urna feita de tempo. morto. silenciosamente morto. e a língua sem saber dizer nada sobre esta partida que se alimentou de sonhos – finalmente consumido pela ambição de um ideal que me recusou a eternidade – as lágrimas também podem sorrir


28/09/2016

a lápide da amizade



foto - sampaio rego

quando perdemos um amigo que nunca foi amigo a dor transforma-se num poema sem delicadeza. é lâmina. é borracha que nada apaga – quando perdemos um amigo que jamais será inimigo o sofrimento é um poema necrófago. é putrefação. é uma morte que não é morte porque eu e ele continuamos vivos – quando perdemos um amigo de uma rua que ainda é a nossa rua. a raiva é a boca de um lobo. é flecha trespassando a vida por inteiro. é o fim da ilusão – quando perdemos um amigo o caminho para a frente é sempre solidão

.

perdoa-me corpo porque estas palavras são de uma alma que nunca quis ser punhal

.

para um amigo que já não é amigo não há mais palavras garrote. a dor combate-se com dor. o sangue é para verter até à última gota – nem mais uma palavra fácil. justificativa. pacifista. indulta. ou cúmplice de meias verdades – sou agora a favor da pena de morte para as palavras que não dizem a verdade por inteiro – se não há meias vidas também não pode haver meias palavras – tudo o que vos escrevo é sufoco. raiva. contrição. e o corpo a resistir ao exorcismo enquanto o diabo exige sepultura definitiva. fogo. cremação – só o cheiro a carne queimada confirma que a morte existe – só perdemos um amigo para sempre quando perdemos o nosso corpo também para sempre – a dor já não é poema: é lápide

  


24/09/2016

a metáfora que se fez hipérbole



foto - sampaio rego


conheci um escriba que comprou uma metáfora para a transformar numa hipérbole. tão pequenina. tão microscópica. que um dia. enquanto escrevia. percebeu que todas as folhas estavam em branco – sentado. olhou para si e pensou: sou a minha própria figura de estilo – levantou-se. dirigiu-se à casa de banho. lavou a boca com dentine. olhou para o espelho. passou os dedos pelo cabelo espesso. e sorriu para a imagem que o reflexo da sua vaidade lhe oferecia. abanou as ideias com um movimento brusco da moldura do seu orgulho polido. e largou um sorriso maior tão grandioso quanto a entrada triunfal do arco da porta nova de braga – por fim. arrotou uma hipálage que há muito se enroscara no escroto soltou uma gargalhada e. como num ponto final hiperbólico. partiu feliz em busca da próxima metáfora


22/09/2016

quando o silêncio se faz outono


foto - sampaio rego


cai o sol. cai a folha. cai a árvore. cai o frio. cai o homem e o descanso torna-se eterno – é então que o silêncio se faz outono numa simbiose perfeita entre a hora da morte e o interminável sofrimento da  lembrança – emerge a saudade – afinal. um dia. eu existi nos teus olhos

19/09/2016

o 11º mandamento



foto - sampaio rego

pior do que apenas ter um rim. um pulmão. uma perna ou um braço é viver sem cabeça – sem cabeça não há passado. perde-se a vergonha. esquece-se a razão. troca-se o essencial pelo acessório aconteceu a moisés enquanto guiava o povo hebreu pelo deserto do sinai. alguns fieis desesperaram com a demora da viagem e perderam a cabeça – estas pobres criaturas. tomadas pelo desânimo. deixaram de acreditar no seu deus e nos valores que os levaram à caminhada – revoltados forjaram num instante um novo deus. mais belo. mais valioso por ser de ouro. e principalmente. mais tangível – este novo deus falava. dizia tudo o que o povo ansiava de ouvir – agora sim. o povo podia finalmente ser feliz. porque com este deus todos os meios justificavam os fins – a festa começou: música. dançarinas. ilusionistas e malabaristas. animais selvagens e seus domadores iluminaram a noite – mas moisés. fiel aos princípios. bateu com o punho na terra. ergueu as tábuas da lei e. com voz grave. advertiu os foliões: “vem teu inimigo humilhado? guarda-te dele como do diabo” – deus não dorme. continuou moisés. estas são leis universais. para qualquer deus. de qualquer religião. para qualquer homem. seja nrgro. vermelho. verde ou azul

milhares de anos depois

lamentavelmente. havia uma lacuna. nem deus também sabe tudo. digo eu. que gosto de imaginar um deus tão humano quanto os homens – um conselho de sábios. oriundos de todas as regiões da terra. reuniu-se e. em uníssono. concluíram que era necessário um aditamento à tábua das leis divinas – assim nasceu o 11º mandamento – não SUBORNARÁS

termino com mais um provérbio:

"o destino não é uma questão de sorte. é uma questão de escolha:

não é algo a se esperar. e sim a conquistar"


16/09/2016

deambulações noturnas - X



foto - sampaio rego


neste lugar da noite sou muito mais do que um lego – desmonto-me e volto a montar-me – e as peças. sem acerto. gritam-me em acenos diabólicos: -- eu sou daqui. aquela é dali. e tu... não és de lado nenhum



11/09/2016

o epitáfio da memória III



                                                                   foto - sampaio rego


III.

na maior parte dos dias não sou nada. noutros. sou eu. que nada sou também – mas há dias em que me sinto herói. assim como aqueles super-heróis americanos que voam. que andam pelas paredes. que se transformam em rochas e deitam fogo pelas mãos. sempre com uma única motivação: a de proteger os mais débeis – nesses dias. sou então fenomenal. sou herói por inteiro. ainda que tenha pés de barro – sou feliz – a razão dessa felicidade é simples. os meus superpoderes anularam [temporariamente] umas quantas forças do mal que me infernizam a memória – são vitórias curtas. inofensivas e tantas vezes inconsequentes. servindo apenas para ganhar uns míseros instantes de bem-estar no corpo – mas são estas janelas no tempo que me permitem debruçar-me no parapeito e olhar o mundo de uma forma mais tranquila. com mais tolerância. mais sossego. mais ternura. sem amargura. sem desumanidade. sem culpabilidade. sem desassossego. aceitando a sua forma de girar. de rodopiar. de encaixar as pessoas. de criar amigos. de os estimar. e de me levar ao cimo da minha montanha. olhar o futuro com misericórdia. perdoar o passado. reajustar o corpo com o que me resta da alma sã. meter as mãos aos bolsos. escutar o coração. e devolver aos olhos a coragem de caminhar. de não desistir. de acreditar. de desafiar o destino mais uma vez – e ali fico. estático. à procura de um lugar no céu que nunca conheci. sem nunca perceber se o seu azul anuncia tempestade ou bonança – isto tudo numa resignação tranquila. de aceitação do mundo que me foi oferecido. e de uma absolvição sincera. merecida e desejada mesmo que condicionada pelo tamanho do horizonte da minha janela – sempre acreditei que o [meu] mundo é tendencialmente bom – mas às vezes a minha memória atraiçoa-me e não me autoriza ver o seu lado melhor – é o seu lado mais sombrio. mais adulterado. mais egoísta. portando-se como os antigos corsários: terrífica. de tapa-olho. de perna de pau. e espada em riste rouba-me sem piedade a alegria de viver. deixando-me ficar o revés como sinal de aviso: não estás a sonhar – cruel – mas a realidade é que a memória não é mais do que o armazenamento das nossas vidas através de histórias ou experiências vividas – em boa verdade é tudo aquilo que eu quis que fosse – libertar-me do passado indesejado é apagar a memória. mas também é apagar uma parte da minha essência como homem que cresceu numa soma de todas as experiências – sou assim feito tanto de acertos como de enganos – mas mesmo assim há tanto que gostava de apagar – nem sei se são assim tão más. mas cresci e. quando crescemos. mudamos tanto que. inexplicavelmente. queremos apagar ainda mais – cresci tanto que há rostos que apenas reconheço nos sonhos. surgindo-me então os corpos afeiçoados com os sorrisos do dia em que deixei de os lembrar – quando crescemos a saudade cresce connosco. e aquele até amanhã perdido na despedida do amigo torna-se agora uma necessidade – é urgente rever os amigos de calções. da bola. da carica. do jogo do polícia e ladrão – é absolutamente essencial. para o meu sossego. saber que estão vivos e que afinal o tempo não os mudou por dentro – é o lado bom da memória antes que o tempo a corrompa – recordo então os que já partiram e peço-lhes perdão por erros que só a juventude é capaz de perdoar e lamentar – a morte é a saudade vestida de luto – cresci para partes do corpo que rejeito. mas também cresci para outras que aceito com humildade – cresci para um futuro que já não é só meu. cresci tanto que já sento ao colo os netos. um avô renasce como pai duas vezes – cresci para os meus filhos. estão enormes. homens bons. dignos. a saberem coisas do mundo que eu na idade deles. nem sonhava conhecer. a prometerem o resgate da felicidade em definitivo para a nossa família. com honra. com nobreza – cresci para a minha mãe que do cimo dos seus noventa e dois anos não se cansa de me dizer para ter cuidado com os invernos: -- toma a vacina para a gripe meu filho. tem cuidado contigo. já não és nenhuma criança – mas cuidado para quê minha mãe se o único mal que temo é este que me permite sobreviver no vosso meio sem acerto com a minha consciência – fernando pessoa diz que “a memória é a consciência inserida no tempo” – que verdade tão cruel. há verdades que doem como o fogo de camões – não gosto de algumas memórias e faço de tudo para as apagar – infelizmente. quase sempre. temporariamente – não é fácil – há momentos gravados a cinzel na alma. eternos. inapagáveis – como dizia cervantes: “ah, memória, inimiga mortal do meu repouso!” – são estes momentos que nos fazem sofrer – ainda estou a ouvir a minha mãe a dizer: -- um dia vais puxar pelas orelhas – quando um homem quer safar o passado a ruína está sempre para breve – nunca me passou pela cabeça. bem… talvez não seja bem verdade que um dia iria querer dar um apagão à memória. desativá-la. eliminá-la. destruí-la – há recordações que se comportam como a peste negra – a única diferença é a lentidão com que nos leva à morte – nunca imaginei que ao longo do tempo esta adquirisse um tal poder de persuasão capaz de ordenar a destruição do seu próprio corpo – rouba-lhe o sorriso. a vontade de viver. a autoestima. a fala. a vontade de amar e de ser amado – dá-nos a solidão e com esta chega a coragem para esquecer o amor de quem nos quer bem – quando damos conta já não temos nada de nós. gelamos e daí a fragmentar a alma é apenas a ocasião – não é possível lutar contra a vontade de algo que não sei como dominar. alterar. reformular. ou até ajoelhar. pedir perdão e prometer-lhe um novo par de olhos. de ouvidos. de gestos. de sorrisos. tudo para construir uma outra dimensão humana – confesso que não sei o que fazer. tudo o que tinha para fazer já fiz – não podemos entregar a nossa memória a ninguém para retificar o que quer que seja – não foi feita de um dia para o outro. é feita de tempo. do que ouvi. do que vi. do que senti em cada momento. e que por ser apenas minha só eu serei capaz de compreender as suas opções – sou um par de olhos e ouvidos – agora. enquanto vos escrevo. sei apenas que os olhos se apagaram e os ouvidos são zumbidos incessantes que me impedem de descansar – só a memória. em momentos raros de lucidez. ainda é capaz de distinguir o bem do mal. o certo do errado. a luz da escuridão – talvez esteja louco e a memória me esteja a trair. fazendo-me esquecer a razão principal da minha chegada a este mundo. levando-me a ver outra forma do meu corpo. outras vozes. outros gestos. outros sorrisos – agora todo eu sou estranho. e tudo o que imaginava ser meu em definitivo afinal. não é – estou cada vez mais só porque não me reconheço. e também já não tenho a certeza de que esta memória seja realmente só minha – compreender-me neste todo é cada vez mais difícil – há um ruído bem lá no fundo. um cansaço que apela à autodestruição – já não sei se vivi muito ou pouco. há dias em que só quero voltar para casa. e noutros. continuo a magoar-me nesta luta que não me leva para lado nenhum – estou com uma vontade enorme de voltar para sul – sei que nasci a sul e depois caminhei para norte – é a sul que as andorinhas fazem os ninhos e os rios se entregam ao mar em definitivo – é no sul que os meninos jogam à bola numa rua igual à que me viu nascer – é no sul que descobrimos o saber de toda a humanidade. que encontramos tudo o que perdemos violentamente: o meu pai. a sua paz. a sua serenidade e finalmente. a seu lado. a verdadeira aceitação do que realmente sou – com a idade percebi que sou tanto do meu pai – é no sul que podemos definitivamente dizer à memória que já não nos faz mais falta – eliminamos de vez o que nos magoa porque a sul não existe desonra. nem o erro. nem o pecado – a sul existimos exatamente como viemos ao mundo – a memória é pertença de um corpo com uma vontade intrínseca para conquistar a paz – neste mundo. esta memória que me consome diariamente. o corpo existe só para a carregar. é um alforge que a suporta em sorrisos angelicais. em gesticulações graciosas. em fonemas musicais descarregados em boca gentil: --sim. está tudo bem. obrigado – mas a memória nega – dentro dela cabe o corpo. e dentro do corpo a dor que. invisível. ainda assim pode ser descrita: uma lâmina abstrata. de contornos indefinidos. sem linhas retas. de arestas vivas. curvas e contracurvas que nunca deixam uma cicatriz reconhecível. nenhum corte se repete. nenhuma marca se torna assinatura do sofrimento – com esta lâmina invisível. cada ferida assume a forma única da dor que a originou. irreconhecível. impossível de imitar. inconfundível na sua ausência de cicatrização. um golpe que pertence apenas a quem o sente. uma dor exclusiva da memória – é uma dor silenciosa que nos mata em duodécimos para ganhar ao tempo mais humilhação – dor e mais dor – a angústia desta dor não pode ser explicada – sente-se e magoa. só – não há dores iguais. não há cortes iguais na forma. mas todos magoam do mesmo modo – pode parecer. mas não há – por isso peço aos meus amigos que não tentem dar forma a esta dor. não a criem à sua semelhança. não a desenhem. não a preencham com as dores da vossa vida – não seria justo e eu não gosto de amigos injustos. perco-os na memória. e confesso que depois já não sou capaz de os procurar – esfumam-se para sempre – os verdadeiros amigos. os afetuosos. não se zangam pelas dores que não são suas. respeitam-nas – um dia recordarão a minha existência num silêncio-entendimento. de aceitação-paz. de amizade-incondicional. de verdade. de saudade. de compreensão – cada metamorfose da memória projeta no corpo uma dor diferente – bem sei que as dores se tornam públicas quando oferecidas em palavras. também sei que todas estão sujeitas a um julgamento. a um exame. um estudo até. crítica também. mas não se esqueçam nunca da compreensão. da amizade. da tolerância. mesmo da sua aprovação por compaixão e mais importante. da legitimidade das minhas escolhas – bem sei que nem sempre as escolhi. muitas tocaram-me em sorte – a dor é pertença apenas de um corpo com a sua memória. e apenas essa memória será capaz de a julgar e compreender as suas motivações – a memória é uma armadilha dolorosa que. depois de escolher a sua vítima. prolonga-lhe o sofrimento numa espiral suicida – são dores que ficam para sempre. nos dias melhores adormecem atordoadas. anestesiadas. mas na maior parte das vezes. camuflamo-las com sorrisos. com festas surpresas. com brindes. e com amigos que estimamos o suficiente para não lhes transmitir uma dor que não lhes pertence – para sofrer já basta um corpo – acumulamos dor. acumulamos sofrimento. acumulamos falta de compreensão. acumulamos indiferença e o mundo parece querer convencer-nos de que seríamos melhores de qualquer outra forma – como se eu não quisesse ser outra coisa – às vezes queria mesmo ser o resto do mundo. menos ser o que sou – a dor é um vulcão que. de tempos a tempos. precisa de vomitar lava para que o corpo aguente mais um dia. para se reinventar. reformular. reajustar e aceitar uma nova realidade por tempo limitado – mas nem sempre é possível. já não há força. a honra perdeu-se para sempre – o tempo é um embuste: na juventude somos feitos de idiotices. no entanto. juramos a pés juntos que tudo é perfeito – envelhecemos e tudo o que era certeza é agora dúvida. erro. remorso. arrependimento e o perdão perdido entre o castigo violento e um julgamento com direito a pena de morte – e o nosso dedo apontado a tudo. e o dedo dos outros apontado ao nosso coração. e a sentença consumada com a cabeça na guilhotina – dor. arrependimento. dor. arrependimento. dor e mais arrependimento – e esta repetição a ecoar sofrimento. sem cessar. sem piedade – nietzsche dizia que “é possível viver quase sem lembranças e viver feliz, como demonstra o animal, mas é impossível viver sem esquecer” – eu não consigo esquecer – com o tempo a memória rouba-nos a boca. as lágrimas. os olhos incham. esbugalham. deformam-se. rouba a cor. rouba a realidade. e a morte surge por um afogamento que dura tantos anos como quantos levo a pensar – o filme da vida passa-nos diariamente numa agonia de quem sabe que tudo pode acabar de um momento para o outro – o erro e a dor atribuídos a um passado de fé: é a vontade de um deus – perdi a morada deste deus. não sei onde mora – um caminho errado mais cedo ou mais tarde paralisa as pernas ao peregrino – morrer sufocado pelas memórias é desumano – os amigos mereciam de mim muito mais do que esta despedida – que me perdoem os poucos  que comigo caminharam – estimá-los deveria ter sido a minha última honra

[continua] – para a IV e última parte


03/09/2016

post mortem



foto - sampaio rego


hoje. a velha amizade ficou suspensa

mas a culpa não é tua

acredita

é apenas a vida a rolar

seguindo uma nova aventura

sinto que já não tenho nada para te dar

e tudo ainda para relembrar…

sei. no entanto. que não será fácil

aceitares as minhas razões

isso estará para lá do teu entendimento

 

tu que vias com os meus olhos

e sempre ouvias o meu sofrer

no silêncio. acertavas a aprovação

hoje. estás atónito 

 

talvez até tenhas a tua razão

talvez esteja a ser louco

talvez me arrependa

talvez mereça ser réu

talvez encontres um erro em mim

talvez não me possas perdoar

precisas de uma razão

 

envelheceste! dirás tu

rejuvenesci! direi eu

dirás então:

é assim!

eu direi apenas:

assim é!

dirás que fomos passado

eu falarei do que não passamos

lembrarás as borgas

eu falarei das ressacas

dirás porquê?

eu direi porque não!

dirás que eu sou outro

eu direi que sou eu

 

apenas acrescentarei:

não mais serei

nem aquele

nem outro

serei apenas eu

e dos novos caminhos

jamais receberei

risos aos sonhadores

 

hoje. ao fim da noite

sonhador. cairei na cama

sozinho?

nunca mais…

entrelaçar-me-ei nos lençóis frios

e com a alma de um poeta qualquer

adormecerei a dizer:

sou quem sou

 

sorrindo. lembro

sorrindo. recordo

“o sonho comanda a vida”



30/08/2016

morte


                                                                      foto - sampaio rego


tudo amadurece
com sol
ou com chuva

a vindima chegará


26/08/2016

o epitáfio da memória II



foto - sampaio rego

II.

só a memória pode decidir no presente o destino a dar ao seu corpo – só esta tem algo a perder – tudo pertence à memória. e é esta que sentencia. é esta que tem a espada de dâmocles. é esta que tem o saber da humanidade com todos os seus desgostos em contrapeso – a questão é simples: continuar ou não a absorver a vida para perseverar a forma do corpo que. apesar de deformado pela corrosão do tempo. será sempre o fiel depositário de todo o conhecimento – manter o corpo é manter a memória – sustentada por um transtorno dissociativo de personalidade. desperta os sentidos quase sempre aflitos. disfarçando-os de uma alegria silenciosa. pacífica. pacata. pueril. aliando gestos artísticos estonteantes criando a ilusão de um corpo gigantesco – imponente como nenhum outro. ali vem ele. num volume de alma enorme. inconfundível. distinto. único. reconhecido por uma multidão de quase ninguém – podem chamar-nos pelo nome. podem até dizer que nos conhecem bem. de abraço. de paixão também. mas ninguém poderá atrever-se a dizer que conhece o que temos de mais autêntico. mais verdadeiro. mais nosso: a memória – essa é só nossa – ninguém por mais íntimo. por mais profunda que seja a sua ligação poderá atrever-se a contrariar esta afirmação – talvez possam dizer que conhecem algumas características suas mais particulares. algumas manias. fetiches. taras. jeitos. um pouco daquela forma de andar. de não dizer toda a verdade. de encontrar a sua justiça com palavras que se repetem de oratória em oratória. de experimentar a partilha de noitadas. de ressacar de um whisky rasco misturado num hálito a SG gigante. de trocar palavras de camaradagem. de abraço por um golo de camisola vermelha. ou por um campeonato ganho pelo glorioso – isto e mais meia dúzia de manigâncias é o que os mais chegados podem garantir como conhecimento privilegiado – pseudo-amigos que nunca passarão de meras sombras – para estes pseudo-amigos pouco mais há para um [re]conhecimento – que mais se poderá querer saber de um humano? para estes amigáveis controversos. com este saber. neste enquadramento. a equação é simples: são amigos de coração – os amigos do coração não necessitam de ter mais nada – passo a ter então direito a um diminutivo: o zézinho. pedrinho. joãozinho. e tudo isto é como uma medalha ao peito. um galardão. um reconhecimento. um herói de guerra fraterna. com direito a um nome gravado no passeio dos amigos para sempre – raio de tempo vivido em troca de nada. raio de discípulo idiota. raio de caminhada inglória. um rasto de tempo dissolvido – bronco. estúpido. asno. e só agora é que aprendeste a contar pelos dedos os poucos amigos que trouxeste ao coração. as exceções têm um cantinho especial dentro de mim com gratidão e memória eterna – os meus amigos de coração jamais partilharão as minhas amarguras num relato como este – os mais atentos talvez lhe possam adicionar umas inflexões da voz. um revirar dos olhos. um torcer de nariz. do formato da boca nas saudações da praxe. e a autenticação do tamanho de um corpo que nem sempre condiz com o da alma – para os meus amigos sempre quis muito mais e sempre estive disposto a dar-lhes muito mais – dava-lhes a minha única riqueza: a memória – mas não. que interesse há numa memória que fala de si como se estivesse apaixonado por cada palavra. por cada suspiro. por cada olhar a pedir uma resposta para um corpo a mostrar tantas dúvidas – nunca tive certeza de nada – é a incerteza que nos empurra para o desconhecido – sempre corri atrás dele – falava-se de futebol. das mulheres dos outros. da velocidade com que os outros passavam com os seus automóveis de luxo. da sua riqueza.  das ilhas do onassis. dos seus iates. e da nossa memória nem uma palavra. nada. nada de nada – um absoluto deserto de afeição – restava-me rir e fazer figura de tolo – a memória. essa coisa que é só nossa. imaterial. abstrata em tanta mesquinhez. autêntica para nós. subjetiva quando partilhada. louca quando tantas vezes o que lhe era exigido era ponderação. ou um pouco de racionalidade – e o que recebes: inquietação absurda com quase sempre dor a posteriori – como se tudo isto fizesse parte do contrato que assinaste para ser humano – veste-se de luto. de dor. de farrapos. e de agonia assiduamente como se fosse um hábito. um vício sem cura. como se carregasse uma doença terminal – mas não carrega – quando pensas que é o fim o ciclo recomeça – haverá pior castigo do que este? – é esta memória que retira a coerência à vida. a certeza. a planificação. os sonhos. a bondade das ações. a glorificação. a perseverança. a capacidade de lutar. a nobreza dos atos. a certeza de que fizemos o melhor pelos outros e por nós enquanto corpo com memória – nunca sabes quando um elo se quebra e uma parte de nós desiste – chega o momento em que nada do que fizeste é uma certeza – mas a minha memória é só minha e é com ela que me tenho que entender – o que é nosso. é nosso – nada podemos fazer a não ser aceitar o que por lá cresceu – não lhe quero mal por isso. também não me adiantava de muito – aceito-a. aceito-a porque me tornou quem sou – estou agora numa paz cuja duração desconheço. nem sei muito bem o nome que terá. sei que de espírito não é porque este continua turvo. sinto-o cada vez mais escurecido. mais irrequieto. mais tumultuoso. mais impetuoso. com menos mel – talvez esteja a passar o olho do furacão. ou quem sabe a cumprir um ritual qualquer que o corpo ainda desconhece a finalidade – há tanta coisa que ainda desconheço – um passo a sorrir traz sempre três passos para a vala – inevitável – os sorrisos são quase sempre para enganar a plateia no teatro do nada – para a memória não há subterfúgios. nem algazarras. nem silêncios capazes de a enganar. nada mesmo – às vezes o silêncio asfixia – refugio-me num catraio que ainda me habita. na sua ingenuidade intacta e nas suas palermices incompreendidas. e na maior parte das vezes. dissolvo-me em nada – mesmo assim. e por mais que queira. não consigo mudar nada da memória – tenho como destino final aquilo que vive dentro da minha memória 

 

[continua] – para a III parte


21/08/2016

o epitáfio da memória I



foto - sampaio rego

I.

o dia das lágrimas – com vida certa ou incerta. verdadeira ou falsa. bela ou grotesca. rica ou miserável. trágica ou iluminada. excêntrica ou vulgar. aqui estou perante este tempo néscio de compromisso com a memória: um comprometimento de honra com o meu corpo por inteiro – o contrato – sou eu. com a minha face. as minhas mãos arrestadas a impressões digitais únicas. banhado por um sangue enlaçado num DNA que nunca se reconheceu como entidade singular – tudo isto oferecido num jeito de caminhar tortuoso. sinuoso. confuso. como quem ameaça tropeçar a cada passo. a cada fôlego arrancado à vida – os olhos. de um castanho morno. arregalam-se como faróis furiosos em noites de tempestade. procuram ansiosamente um destino que se esquiva – o futuro. em movimento acelerado. persegue sem misericórdia um corpo que nunca aceitou o repouso – nunca fui nada sem movimento. sem vertigem. sem ação incessante. como se o corpo estivesse sempre em descompasso com o pensamento – o próximo lugar era sempre o único refúgio possível para domar o ímpeto de tocar o fim do mundo – ilusório – só a fala se arrastava num vagar ansioso para uma boca que sempre almejou o silêncio – nunca me dei bem a falar. confesso que às vezes nem no silêncio de mim mesmo – e é tudo isto que faz de mim um ser com memória. único. singular. excecional para o bem e para o que há de pior – por fim. e para que não houvesse enganos. deram-me um nome sem nenhum tipo de atenção. e um último nome que diz mais do meu corpo do que todos os particulares descritos – sou então o único dono e responsável da minha palavra. da minha honra. da minha vergonha. das minhas opções e das minhas falhas – sou assim um guardião da memória. que se alimenta da autenticidade. umas vezes pelo contrato assinado. outras pela convicção de que o valor de uma vida não se mede em tempo. mas sim pelo que deixamos no tempo – o futuro e o passado não existem no agora. é apenas uma medida de evolução que neste momento não se aplica a mim – claro que há exceções dentro do meu próprio corpo. exceções essas que se amarram à memória. e determinam que a evolução da razão nem sempre se sobrepõe à virtude – os princípios que amarram a virtude a escolhas inevitáveis são sempre movidos por um ímpeto silencioso. que no meu caso. pouco crente no sobrenatural. foi marcado no primeiro sim à vida pela tômbola da sorte – todos temos uma tômbola invisível que gira sem nos consultar sobre a aposta – baralha. dá cartas. escolhe o trunfo e diz: vais a jogo – e vamos pois. acabamos de respirar. e quem respira aceita as regras do jogo – estamos a viver e a ganhar memória. o que é o mesmo que dizer: estamos humanos – nada acontece de um dia para o outro – pelo meio as leis da sociedade induzem-nos a sua ética e moralismo. nunca tendo em conta a dor. o sofrimento. a falta de vontade de viver. a extinção da motivação. o eclipse da fé – leis pensadas e elaboradas para um mundo ideal. por homens tão imperfeitos quanto eu – mas a razão de uma vida existir divide-se em mais de mil razões concentradas num só ato irrepetível – sou tantas coisas que jamais poderia reduzir a existência a uma única razão para viver. ou para morrer – o fim da vida é uma decisão tecida no tempo. e o tempo é feito de memória. e toda a memória repousa sobre alicerces de desespero e assombro – vivemos a felicidade de forma tão intermitente e rara que. quando necessitamos de recordá-la. ela resume-se a poucos instantes. que quase sempre nos obriga a recorrer à descendência. à companheira que é a luz da minha vida. à família no seu compromisso de afetos. aos raros amigos que conseguimos preservar. e a dois ou três caninos que nunca deixaram de me receber com a cauda a abanar – tudo isto garantido por um batimento cardíaco. ora sobe. ora desce. ora acelera. ora esmorece. ora sussurra que já nada justifica o sacrifício de o escutá-lo – o batimento do único músculo que no passado escondia o amor. o coração – já não há amor no coração. não há remorso. nem arrependimento. e também não há nenhuma medida universal para uma dor que ruge: basta. chegou a hora do silêncio absoluto. da paz – chegou a hora de fazer descansar a memória