aqui estou.
a olhar. a pensar nas coisas que ainda existem dentro de mim. e também nas
coisas que não estando dentro de mim me iluminam como iluminam as auroras do
norte –faz anos hoje que nasci. e sempre que este dia regressa penso nas coisas
boas que me aconteceram. na chuva que me molhou. nos lábios que me beijaram
como se fossem primavera. e no voo doce que me levou até ao céu de marte – e
agora que o tempo é menos do que sou. o que faço comigo? vivo com quê? recordo os
afetos que me seguraram até aqui? ou choro a raiva que transporto e me corrói a
alma como se fosse um alien? vivo – vivo sem vagar – o mundo moldou-me na forma
que eu escolhi – a verdade é que são as coisas que existem em mim que me fazem
do tamanho que sou – aqui estou. a contar os anos. mais um. e o calendário
rasgado em quatro. e corro. corro desalmadamente pois sei que se faz tarde para
o que há de vir – corro e escondo-me – só resguardado estou sereno. só resguardado
sou eu numa verdade boa – e aqui estou com o tempo às voltas – há dias em que sorrio
por gratidão e outros. apenas por obrigação – motivo-me com as palavras que escrevo.
fortifico-me com a fé num deus que inventei só para mim. e conto as rugas
porque não me apetece contar mais nada – fujo do que não se escapa. desespero.
insulto-me com palavras ordinárias e juro que estou ainda mais vivo do que
ontem – corro ao redor de cadeiras que não se ocupam por ordem minha. enquanto
a chuva não para de cair num buraco que me entra pelos olhos e me encharca o
coração – esbracejo e grito com o que me resta para a vida: aqui estou deus
cruel. crucifico-me não por ti. mas pelo que trago em mim. esta é a minha casa.
é aqui que farei da morte desculpa – e os fantasmas a correr pelas paredes como
se tudo em mim fosse uma casa saqueada – estou desgostoso. melancólico. dorido
e em agonia. tudo o que tenho rima com nada e com campos plantados de sonhos – apetece-me
descansar estas pernas sem descanso – e eu aqui a ler o tempo como se bombas me
explodissem dentro dos olhos. as mãos a rasgar o dia de ontem e as lembranças agoniadas.
esbaforidas. doentes. a sangrar. a ferir os vivos. e o sino tlim… tlam… tlim… tlam…
e [agora] o silêncio nas coisas que existem é muito mais do que saudade – fujam…
fujam… o coração não vê o que não ama – de frente o vento rasga-me a voz e as
montanhas devolvem-me os gritos em desespero – sou neste corpo envelhecido o
inventário de tudo o que o tempo me trouxe – e aqui estou eu a escrever como se
as palavras me trouxessem uma vida extra – se deus me desse uma vela e um sopro
apagava toda a tristeza que guardei para sobreviver – procuro ainda esperança. ainda
tempo. ainda tudo o que sempre procurei para que as coisas se acalmem – vivo
num fogo de poeta – toda a minha vida é feita de coisas. certas e incertas. às
vezes sorriso. outras. amargos de boca. fel. revolta. crucificação que não
quero merecer – não importa. tudo se perdoa quando o outono chega – a cabeça
não para de pensar. mata-se. agonia-se com a saudade. e todas as coisas
valiosas cada vez mais afastadas… e grito nos ouvidos do mundo: só tenho uma
vida – cheiro a desespero desde o dia em que me obriguei a crescer – só a esperança
ralha comigo – a mãe de tudo o que sou partiu pela escada da escuridão e as
coisas enlouqueceram dentro de mim. as minhas coisas revoltaram-se. e o sótão outra
vez desarrumado. e caixas abertas. estraçalhadas em baba e ranho – e as coisas que
amo a morrer vezes sem fim. como se os aniversários quisessem rebobinar os dias
– estou aqui porque não posso estar noutro lugar. noutro inferno. e o que
imagino é um negro que magoa – nenhuma palavra será girafa. gaivota. ou garrafa
perdida num oceano repleto de beijos e abraços – e as orcas gordas penduradas nos
himalaias a rir à gargalhada – nada acontece às orcas nem às velas que não
ardem. e eu pendurado nas coisas que existem dentro de mim. que amo. que beijo.
e. que sofro sempre que as tomo em silêncio – é tudo o que sei fazer –
perdoo-me. e os que gostam de mim também me perdoarão – o mundo só me tem
servido para envelhecer
24/04/2019
abri... meu abril. meu abril
06/04/2019
traço um desejo
Há
sempre um sopro nas madrugadas...
Sente-se
o suave deslizar…
é onde os sonhos interrompidos tomam forma
em pequenos bocejos
no aconchego das estrelas. aos nossos desejos
O
belo! Adornos cristalinos nas tuas mãos que me afagam a alma.
É
um mundo que irrompe madrugadas
Nas
noites em que a solidão toma conta de mim
mas não da esperança… embebida nas lembranças.
forço as recordações a romper…
a chuva que ouço cair.
não é mais do que pétalas de estrelas a florir
dentro de mim
Há
um mundo a transbordar dentro de outro ainda maior.
Do
meu peito soltam-se primaveras que se abrem a ti
e dum sorriso voltará a nascer o desejo
de poder partilhar todos os instantes que soltaste
dentro de mim
neste caminho. que o destino traçou
escreveremos a duas mãos. o mundo
com
as mãos traço o destino que me rouba um sonho trancado
Em
nuvens de algodão,
E
elas tocam o meu corpo já tão cansado…
este dueto nasceu nas palavras
do luso poemas. destas. e apenas destas. criámos o carinho necessário para
encontrar no escrever os laços de amizade que todos os dias vamos construindo.
eu gosto de chamar-lhes afetos a lápis
se viajássemos ao passado.
tínhamos que esperar pelo correio para ter as boas novas das palavras. mas hoje.
postamos por aqui. e mesmo quando estamos “tu cá. tu lá”. na hora descobrimos
as palavras que dão sentido ao nosso escrever. e do virtual. para nós. felizmente.
já passou ao real.
até já. dolores. dia 17 lá estarei ao teu lado. para fazer do nosso livro o eco eterno das nossas palavras
01/04/2019
entre o respirar e o resistir
respiro
e resisto neste respirar que me cansa – às vezes gostava de estrangular esta
minha respiração. matá-la. estropiá-la. obrigá-la a falecer no
mundo das pessoas – para dizer a
verdade. o que gostava mesmo. era de esconder-me deste mundo bárbaro
– nesta vida já não valho nada. só a
morte me porá de novo no mundo das coisas com interesse – mas quero que saibam. aqueles que ousadamente tiverem a coragem
de ler estas palavras. até ao fim. que estou lúcido. esperto e desperto para as antíteses que alimento em mim – por
isso é que resisto neste respirar de socorro – vivo de antíteses. são estas que me despertam da
escuridão silenciosa. são estas que
me equilibram o desequilíbrio imposto por um mundo sem generosidade. sem tolerância. sem respeito onde eu me recuso a acreditar que há sempre uma
razão superior para as coisas acontecerem como acontecem – convictamente digo: não há nenhuma razão superior a não ser a razão que os homens
inventam – também eu inventei uma para existir nesta forma absurdmente
insignificante: plantei uma linha
imaginária no centro do meu cérebro:
de um lado a insignificância. do
outro. o saber para compreender e
aceitar tudo que é insignificante – [suportação encontrada] – pendurado nesta
linha de loucura intermitente eu numa composição orgânica dolorosa: ora numa assimilação trémula. ora numa desassimilação débil – aguento-me. suporto-me. amarro-me
aos ossos emersos na última reserva de líquido amniótico – pelas manhãs acendo-me
numa energia raivosa e baloiço-me de um lado para o outro. ora no que não sei.
ora no conhecimento do que não sei – quando baloiço o destino constrói-se. mistura-se e ajusta-se – a vida
foi-me oferecida por dois seres maravilhosos – quando fazes parte de algo tão maravilhoso
ficas para sempre com a obrigação de respirar – sempre que respiro aceito viver
– respiro gratidão – coloco o pescoço a noventa graus. olho o topo. o corpo
encaracola-se. sobe por si acima porque
é a única forma de regressar à terra – procura – o que não vejo. sinto ou toco. não existe – se nada existe.
então. quem sabe. os meus sonhos também não existem – talvez eu não sonhe. talvez seja apenas parvo. a minha biologia evolutiva degenerou
– a evolução do homem é a acumulação de mudanças através de sucessivas gerações
– eu não mudei nada. sonhei. elastifiquei-me no que não sou e o
resultado é esta caverna inundada de sombras que nem sei se existem – e eu a
baloiçar cada vez com mais força. a
suster a respiração. as lágrimas. a raiva e o corpo perdido em
incertezas que só existem porque teimo em fazer dos sonhos a realidade – e o
mundo todo aos berros. com as
línguas a tocar-me os pés. a dizer: lambe e verás como deixas de baloiçar
– soubesse eu dar um mortal à retaguarda e cair de pé no mundo de quem não
sonha e não lhe sente a falta – soubesse
eu tanta coisa – agora. nos
intervalos do soubesse. toco no que
há para tocar. vejo o que me é permitido
ver e sinto o que o corpo entende que é mais do que desejo e menos do que sonho
– tudo o resto. é o saber de quem
sabe que nada sabe – quem sabe que nada sabe não pode ser tolo ou
insignificante – mas é então o quê?
24/03/2019
06/03/2019
luxúria das palavras
serei impuro apenas porque desejo sentir o abraço das palavras? serei impuro por querer experienciar o feminino das palavras? serei impuro por abandonar de vez o miserável receio de ser sentimental com as palavras? não sei – nos dias que escrevo há dentro de mim uma histeria desenfreada. atabalhoada e febril – corre-me pelas mãos o desejo de afagar em pecado cada palavra do vocabulário – a sirene invade o silêncio. ligo os holofotes e ilumino-as - as palavras – matreiramente sorrio. procuro dizer-lhes que estou com uma ereção factual e substancial – estou louco. perdidamente louco: preciso urgentemente de as usar. de as trazer para o meu mundo de afetos. preciso de as trazer ao mundo dos leitores – william shakespeare dizia que “enquanto houver um louco. um poeta e um amante haverá sonho. amor e fantasia – e enquanto houver sonho. amor e fantasia. haverá esperança – a esperança também é feita de palavras – quando escrevo sinto-me o melhor amante do mundo. sinto-me eu – e ninguém é melhor do que um eu perdidamente enamorado – as mãos procuram o papel enquanto os vocábulos continuam a emergir em fantasias selvagens: gemem. contorcem-se. esfregam-se. roçam-se. afagam-se. as veias endurecem e ao ouvido o prazer supremo: és único. não há outro como tu – e entre elas corre agora um mel pegajoso que anuncia. a todo o momento. o orgasmo – o papel está pronto – enfeitiçado pela luz sedutora das palavras e pela generosidade de um corpo ávido de sucesso. derreto-me em sedentas perversões reprodutivas: multiplicai-vos e enchei a terra de palavras – finalmente uma relação de simbiose: elas excitam-me e eu levo-as à loucura da leitura – não quero mais o passado. as palavras rascas e indiferentes nunca mais serão pronunciadas – quem nunca me compreendeu não merece o verdadeiro êxtase de uma leitura – o melhor do mundo são as palavras – o que seria de nós sem amo-te. sem paixão. sem abraço. sem beijo. sem quero-te. sem desejo-te. preciso de ti. tu és tudo o que necessito para ser feliz. para existir. para me fazer eterno. ejacular e fecundar – as palavras são tudo para mim – resta-me aproveitar cada dia desta paixão certa e sedutora – estou completamente apaixonado e assim espero que continue. porque se me perguntarem se podia viver sem elas - “poder podia. mas não era a mesma coisa”
27/02/2019
num lago batido a vento norte
onde
param os meus amigos de infância? se alguém souber do seu paradeiro. por favor.
não entre em contacto comigo. não me mande SMS. cartas. telegramas ou
recadinhos em pedacinhos de papel. não os quero encontrar e também não os quero
de volta ao meu mundo – não é por mal. acreditem que não. creio apenas que não
resistiriam ao desencontro do meu crescimento – o tempo passou. envelheci. o
catraio também envelheceu. as feições mudaram. as ideias solidificaram-se. os
ossos enfraqueceram. a alma enrijou e descobri que só o silêncio e o isolamento
me protegem dos desencantos – agora. agora que o corpo estagnou. vivo numa toxicidade
só minha: solitária e silenciosa – tornei-me egoísta. foquei-me na contemplação.
no agora. retirei das paredes todas as fotos da infância e juventude. abafei as
recordações num saco plástico e atirei ao mar – o sal corrói tudo. destrói
todas as provas – solidifiquei a indiferença e rendi-me aos espaços vazios –
dentro destas paredes só existe o que sou capaz de imaginar. e quando não
penso. e as paredes se tornam gigantescas. fico sem saber o que fazer ao corpo.
é aí que escrevo. escrevo tudo o que sinto e fico com a sensação de que nada
sei do que sinto – é esta insatisfação persistente. cruel e impiedosa que me
revolve o corpo. e o que estava longe está agora aqui: o primeiro dia de
escola. o carrinho de rolamentos. o autocarro para monte d`arcos. a hora de
comungar. de amar. de guiar a 4L ou das mãos a cheirar às anilinas. às máquinas
e às pessoas vestidas com batas autênticas. o tempo não mudou esta sensação de
sentir. está tudo igual – há coisas que permanecem em nós para sempre. é como
se dentro do corpo houvesse uma gaveta mágica onde guardamos o que sentimos e
sabemos o que sentimos: este sentir não tem tempo. nem vento. nem chuva. nem
andorinhas. nem folhas caducas. nuvens para lá e para cá. sinos. azevinho ou
gaivotas a planar sobre um lago batido a vento norte. o que era continua a ser.
e o que sentia continuo a sentir – sempre achei que sabia tudo. mas agora dei
conta que não sei nada – sou afinal quem? se fosse sábio. se fosse um homem
igual aos outros. se não tivesse medo do que não sei. se não tivesse medo da
minha ignorância. não gastava mais tempo a escrever o que sinto. não. saía de
mim e vivia. vivia sem medo de não saber o que não sei – saia das mãos.
encerrava-as no correr da morte. transformava-me numa gaivota e voava por esses
céus desconhecidos. voava e vivia. porque para viver basta abandonar o que se pensa
e quando deixas de pensar deixas de ter corpo e um homem sem corpo é um homem
livre – escrevo a liberdade que sempre desejei – é nesta solidão-silenciosa.
tranquila. plácida que recuperei o caminho para me reencontrar na minha
desarrumação. numa afetividade serena. meiga. sentida. desprendida.
despreocupada e de uma compaixão imensa. sem culpas passadas. sem dedo
acusador. rancor. revolta ou rebeldia – vivo num reencontro permanente. é a
minha dança com as sombras ou os lobos. o meu passado à volta de uma fogueira
onde todos os que já foram meninos surgem para recontar a minha história – é
neste reencontro de histórias que adormeço como criança e acordo com a
esperança de que ainda vou a tempo de me aceitar no destino – agora. agora
preciso de todos os dias que me restam para fazer de mim o que realmente sou –
cumprir os desígnios do pensamento. aceitar a comoção. o desassossego dos
reencontros. inventar perdões. assumir culpas e relembrar insistentemente que o
que se sente é a única verdade que o corpo aceita – já não sou capaz de vender
a alma ao diabo. o que ficou para trás ficou e não quero que volte –
entreguei-me em definitivo ao isolamento cerebral. estar só evita estar
mal-acompanhado – a vida é um desafio constante onde a desilusão está
garantida. depois. ainda lhe juntamos a ingratidão. a injustiça. o azar e os
desígnios de deus. é como se fosse um circo. e nós ali sentados. sem saber a
quem dirigir as palmas. se ao domador pelo estalar do chicote se à fera que o
tenta morder – não quero ninguém do passado perto de mim. não quero ninguém que
me volte a ocupar o corpo. não quero mais aborrecimentos – envelheci.
degradei-me. perdi a inocência. a fé e a vontade de mudar o mundo –
envelhecemos todos. todos os meninos envelheceram – não há remédio contra o
envelhecimento – quando se perde a fé todo o corpo deixa de acreditar. os
ouvidos deixam de ouvir. a boca cala-se e mantemos os olhos fechados mesmo
quando estamos acordados – estou mais morto do que vivo – tenho a certeza que
um dia. depois da minha morte. cada palavra escrita encontrará um sentido para
existir – o que escrevo será para sempre o meu reflexo num lago batido a vento
norte: ondulo… ondulo… ondulo
20/02/2019
a dignidade do erro - 2
“e quando
o corpo arder por minha ordem. e ao pó voltar. e ao vento marchar. e ao mar
cheirar. tudo ficará divino e novamente às ordens de um deus que me queira
recriar”
15/02/2019
a dignidade do erro
1.
deixemo-nos de eufemismos.
a morte é o fim da consciência em definitivo – por isso. quando invoco a
ressurreição. o retorno ao mundo num novo corpo. para uma nova oportunidade.
estou a troçar. a gargalhar. porque só “gargalha de uma cicatriz quem nunca foi
ferido” – realmente. eu nunca morri por inteiro. às vezes morre uma mão. o
cérebro. os olhos. a vontade de correr. de viver. e até morrem as reservas de
estupidez que me mantêm lúcido no intervalo dos carateres – dentro dos
carateres existe apenas vida. a minha vida. o que amei. o que aprendi. o que
construí. o que perdi e me magoa com saudade e todas as desilusões que nos matam
mais do que a própria morte – e é por isso que escrevo. só a escrita me
ressuscita desta morte faseada – estar morto é não ser coisa nenhuma e também
não existir em lado nenhum – eu existo. primeiro aqui enquanto respiro. e depois.
em vocês que me leem – sei que estou vivo. mesmo que às vezes cheire a defunto
2.
gosto de desvalorizar
a morte. acicatá-la. gosto de espetar-lhe uma metáfora hiperbolizada. robusta.
enérgica e feroz. de forma a abrir fendas na semântica: o corpo que sustento
dentro desta minha cabeça respira e resiste mesmo sabendo que o cheiro a
defunto persiste – nenhum corpo deveria ter direito a uma cabeça que desiste do
mundo – e pergunto: se tivesse nascido em montmatre… e fosse um pintor de rua.
será que os meus olhos faleciam antes da cabeça? e se fosse malabarista no cirque
du soleil... será que os meus braços faleciam antes da cabeça? e se fosse uma
folha perdida na floresta negra alemã… será que o vento me levaria até ao mar?
nunca saberei ao certo – nada em mim tenho como certo.
nada em mim é de tal forma meu que jamais colocaria em causa que não pudesse
ser de outra pessoa. nada em mim sou eu em definitivo e tudo em mim me faz
querer ser outra coisa qualquer que não sei o que. outra coisa que não sendo
minha eu acreditasse que com sorte poderia ter sido. nem que fosse apenas por
uma hora. ou um segundo que demorasse a passar. um segundo que fosse uma vida e
essa vida só pudesse ser minha – é esta antítese que me faz baloiçar entre
um corpo falecido e uma respiração moribunda que teima em prolongar as dúvidas
num pensamento agonizante – é assim que me mantenho vivo – no entanto. não me
custa admitir que devo ser insuportável. nenhum corpo quer alguém como eu.
ingrato. aborrecido e mal-agradecido
3.
a
simbiose continua. e eu dentro desta troca de favores: o
corpo respira para que a cabeça continue a pensar e a cabeça pensa para que o
corpo não pare de respirar – isto deveria ser suficiente para viverem a vida
tal e qual como lhes é oferecida – afinal é assim para todos – eu não posso ser
exceção por mais que me sinta a cheirar a defunto – tudo na vida acontece num instante.
tudo é celeridade. esta ideia errada de que a nossa passagem terrena é demorada
é a maior trapaça que nos enfiaram pelo corpo. acabei de nascer ontem e o
amanhã já não sei se vai acontecer – para acelerar ainda mais esta viagem vamos
morrendo aos poucos. às vezes o corpo respira e a cabeça já é defunta há dez anos
– houve uma época em que acreditava que morreria todo de uma vez. de velhice.
de mão dada com a minha companheira. amarrado à saudade. às memórias e a pedir
a um deus qualquer que me desse outra vida. que me deixasse voltar à juventude.
às correrias. ao amor fácil. aos carros velozes e aos amigos loucos e bonitos –
fazia tudo diferente. bem. não digo tudo. mas muita coisa seria diferente – o
que fazia igualzinho era conquistar a mesma mulher. no mesmo sítio. à mesma
hora e com o mesmo beijo – amo-a daqui até ao infinito – mas enganei-me. poucos
são aqueles que morrem de uma vez só – a fé já me abandonou. envelheci nuns
dias e apodreci em outros. e agora. nada do que resta em mim. enquanto humano
que respira. tem força para mudar esta vida que me manipulou. aldrabou e iludiu
– todos os dias morro um bocadinho – o tempo não flui num só sentido. o tempo
flui de fora para dentro do corpo e atafulha-nos de anseios que não podemos
alcançar e depois. há um dia. de raiva. deitamos todo o acreditar para fora e
perdemo-nos. e já não há caminho de regresso – partimos. fragmentamo-nos em
pedaços de nada e sumimos para sempre na escuridão do mundo – só inteiros somos
visíveis. só inteiros valemos alguma coisa – estou perdido. não me encontro em
lado nenhum e o que me faz sentir vivo é o barulho que faço a respirar – estou
entre as mãos que escrevem e o falecimento de tudo o que me trouxe até aos dias
de hoje. perdi-me das memórias. perdi-me da chave das portas que fechei. das
orações que não rezei. e pior. das palavras que escrevi e me construíram como
se fosse uma fábrica de coisas inúteis: de facas que nada cortaram. agulhas que
nada coseram. água que nada lavou e pernas que não andaram. um baú cheio de
relíquias de vidro. frágeis. inúteis e sem valor – nada do que deixo como
tesouro. as palavras que escrevi. mudarão o que quer que seja do mundo que era
meu. digo “era” porque já me considero
falecido para a criação – o que criei está criado – ingratidão sempre houve e
também sempre houve homens bons que morrem muito tempo antes de morrer a
respiração – morto sou muito mais feliz – quando um homem falece o mundo deixa
de punir e começa a perdoar – era bom homem. não teve muita sorte na vida mas
tinha bom coração… e péu péu. péu péu e péu péu –
fossem todos como ele e este mundo seria bem melhor… e péu péu. péu péu e péu péu – coitado. tanto
sacrifício para isto. morreu sem glória… e péu péu. péu péu e péu péu – esta
vida são dois dias. tanta maldade no mundo para todos acabarem assim… e péu péu. péu péu e péu péu – que se lixe a lamechice. tudo o que fui. bom ou mau. está dentro de
mim e inevitavelmente arderá comigo no dia da cremação – e quando o corpo arder
por minha ordem. e ao pó voltar. e ao vento marchar. e ao mar cheirar. tudo
ficará divino e novamente às ordens de um deus que me queira recriar – se este
deus existir. e se a minha imagem se fizer novamente à sua imagem. então
peço-lhe: que não me roube a memória. nem me alteres a morada de minha casa.
pois esse é o único caminho que guardo no pó – “do pó viestes. ao pó voltarás
(Gn 3,19)”. do coração te fizeste. e ao coração voltarás
4.
e
assim se cumprirá a profecia de um livro que me pesou
tanto como a vida: finalmente serei corpo sem respirar e sem fé – as palavras
não ardem – é nas palavras que continuarei a respirar. continuarei ofegante.
mas agora sem mágoa. sem correrias. sem o silêncio nostálgico. cheio de
barulhos. a magoar. nascido no lado escuro da lua – bem. confesso que não tenho
a certeza onde nasceu. talvez tenha sido parido nos anéis de júpiter. ou quem
sabe. enviado numa cegonha por um deus extraterrestre. ou então. dentro de uma
pia de água benta para me proteger dos demónios do escuro – mas já que estamos
em tempo de confissões. aqui vai mais uma. tenho medo do escuro da morte.
sempre tive medo do escuro. no escuro perco-me de mim com mais facilidade e o
silêncio amedronta-se. aterroriza-se. fica ainda mais negro do que o próprio
negro do escuro. e os fantasmas. só para me irritar. vestem-se de branco.
trepam as paredes e empecilham-me as recordações – estúpidos. abutres. quando
lhes cheira a morte não nos largam – há anos que os sinto a poisar sobre mim –
só nas palavras sou eu. e mesmo que a respiração vos pareça terminal. sou eu a
resistir – a minha realidade viverá na dignidade do pó
13/02/2019
a dignidade do erro - 3
nada em mim tenho como certo. nada em mim é de tal forma
meu que jamais colocaria em causa que não pudesse ser de outra pessoa. nada em
mim sou eu em definitivo e tudo em mim me faz querer ser outra coisa qualquer
que não sei o que. outra coisa que não sendo minha eu acreditasse que com sorte
poderia ter sido. nem que fosse apenas por uma hora. ou um segundo que
demorasse a passar. um segundo que fosse uma vida e essa vida só pudesse ser minha
in a dignidade do erro
03/02/2019
25/01/2019
a tenda II
e a tenda enche-se
de gente emocionada. olhos no ar. e os corpos rodopiam num desafio
constante à gravidade – elas voam de baloiço em baloiço. sem rede. e um sorriso.
e outro. e entre as pernas
afogueadas insinua-se o calor de um humano escuro como breu – o amor ao circo
permite tudo – e o chicote estala enquanto os leões rosnam em cio comprado numa
loja de bugigangas orientais – as leoas retocam os lábios. prometendo-lhes
afagos e segredos que os tornam reis numa selva de manjericão – e o mágico faz
desaparecer tudo quanto seja amor. e
da cartola sai mais uma ereção para o público gritar em delírio: sexo. sexo. sexo – as palmas
já não bastam – é o vício – é o jogo das cadeiras a circular… e corre o leão. segue-se o elefante. atrás.
o jacaré. depois o hipopótamo e a formiga sem lugar para se sentar – é o circo
da vida – e o que é fogo que não arde é agora uma labareda – a estrada da noite
é longa e o desatino torna-se alegria dentro de uma caixa de viagra – o circo
sempre em movimento. de cidade em cidade.
de alma em alma. de controle em controle ninguém quer parar a ilusão –
brevemente numa casa de ejaculações perto de si
22/01/2019
deambulações noturnas XXXVI
se fosse um escritor com chancela. as passadeiras do
chão nunca se teriam enrodilhado – uma metáfora vazia para não dizer nada – e
também a quem interessa o que digo?
20/01/2019
um domingo de 2019
engrenagens e
relojoaria
a
escrita é como uma oficina de reparações de relógios – é assim. quando no
interior do espaço intracraniano os devaneios entram em delírio. amarro neles.
todos. e atiro-os para o papel – o alívio é instantâneo. o transtorno
neurológico volta ao sossego e o artista retoma a forma humanizada – uma casa
mágica. onde o papel é a relojoaria e o escriba o relojoeiro [o contrário
também] – o relojoeiro. é o homem dos restauros geralmente complicados. pressupostamente
sábio. amigo de atena. solitário. olhos curtos e precisos. amarrado a tudo quanto
seja silencioso e a ferramentas minúsculas – tudo ao seu redor é pequenino:
parafusinhos. alicatezinhos. rodinhas. cordinhas. pincinhas. um folinho para
soprar poeirinhas e uma série de lupinhas para aumentar mil vezes a imperfeição – sou então
relógio e relojoeiro ao mesmo tempo. quer isto dizer. dou corda e gasto-a – muitas
vezes não se trata de nada grave. troca-se a pilha. duas abanadelas e tudo
volta à hora certa – e digo para mim mesmo: está como novo sr. sampaio. tens
aqui uma máquina para a vida – hoje já não se fazem coisas destas – um sorriso que
dobra a esquina da rua e sigo para o mundo com a convicção de que as palavras são
pontuais. rigorosas. extremosas e bonitas. tudo a bater certo com greenwich –
gosto de pontualidade. um homem nunca deve chegar atrasado a nada. muito menos
nas palavras que falam sobre ele – não tolero aqueles sujeitinhos que se
esquecem de ver as horas. e depois. com cara de pau. têm a lata de dizer que
não é por mal. é feitio. são assim – não acredito em homens sem relógio – mas
por vezes acontece o inesperado. volto à relojoaria e. mal cruzo os olhos com o
relojoeiro. percebo logo que a coisa é grave – a máquina encostada ao ouvido. ar
sombrio. carregado de preocupação. mexendo para lá e para cá. como se estivesse
a tentar reanimá-la de uma paragem cardíaca – mais uma abanadela. revira e
volta a revirar com o semblante em agonia acelerada. os batimentos estão por um
fio – o terror estampado na face do relojoeiro – nem necessita falar. percebo
que a situação é grave. irreversível. com os olhos na lupinha diz-me: vamos ver
o que se pode fazer sr. sampaio. mas pelos sintomas não lhe descortino grande
futuro – isto está mesmo muito mau – deixe ficar para ver o que posso fazer. passe
daqui a três ou quatro dias e já lhe poderei adiantar alguma coisa – esperemos
que tudo corra bem – saio da relojoaria com a certeza de que o perdi para
sempre – não haverá mais tic tac – esta crónica chegou ao fim. morta
[e assim foi preenchido cada dia da minha semana.
crónicas sem rede. escrever e postar no mesmo dia – foi um teste árduo e
complicado – confesso que gosto muito mais de deixar as palavras a alourarem em
lume brando. ficam mais condimentadas e as papilas gustativas excitam-se com
mais facilidade – bem sei que cada leitor sentirá um sabor diferente. mas
creiam. tudo foi ao lume cuidadosamente e sempre a pensar em vocês – tenham uma
boa semana]
19/01/2019
um sábado de 2019
o mundo numa cabeça de fósforo
há
terra. florestas. desertos. cidades e casas rodeadas de penúria – há igrejas.
sanatórios. casebres e albergues que não passam de casas de putas – há sangue.
vespas. sanguessugas e ceifeiras vestidas de preto a rebolar em campos que já
foram de trigo – há raiva. vómito. dor e comboios que só param no inferno onde
tudo não passa de agonia – e há dentro de mim uma vontade enorme de meter a
terra num foguetão e mandar tudo para um caralho que foda todas as estrelas do
céu – e tudo na vida não passa de uma prosa presa a uma cabeça de fósforo que
arde como ardem as desordens dentro do subconsciente – se tivesse um pouco de
sorte neste azar de quem já nada pode alterar nas palavras que escreveu. e se o
meu corpo em vez de se decompor em estrume se transformasse em abraços quentes.
quem sabe. a primavera acontecia mesmo em tempo de inverno. numa ambição que
vai da terra até ao céu. e lá do alto. o que vejo é saudade a cair dos bolsos.
como se fossem gaivotas e soubessem que a vida voa sempre em direção às janelas
abertas
18/01/2019
uma sexta-feira de 2019
imperativo categórico
com a idade fui-me aproximando da teoria moral de kant. as
regras morais são agora. mais do que nunca. imperativos categóricos – incluí
nestas regras morais a mentira – confesso que. ultimamente. não consigo
suportar gente mentirosa – na maior parte das vezes tudo começa com um sorriso
impostor. não satisfeitos iniciam o carregamento da burra com elogios
descabidos. mentirosos. burlões – na parte final. como o discurso não é
sustentado pela verdade. tudo termina numa mão cheia de desculpas esfarrapadas –
se respeitassem a doutrina de kant saberiam que agir com moralidade significa
agir de acordo com o dever. mesmo que as consequências não sejam favoráveis – e
nem era preciso muito para fazer cumprir esta doutrina: 1º. não rir sem
propósito quando nos encontramos com alguém que não apreciamos. não é
obrigatório receber ninguém com um sorriso de orelha a orelha – 2º. não elogiar
sem uma qualidade ou virtude objetiva. o elogio é sempre uma resposta
excecional para um comportamento extraordinário – 3º. por último. não se
despeçam com festas e mordomias excessivas emolduradas em promessas que todos
sabem que não se vão cumprir. basta um até sempre e ficavam livres do
constrangimento de uma desculpa pindérica – a mentira só existe para enganar.
para magoar. atraiçoar. iludir ou mesmo burlar – quem mente não tem ética e age
sempre com base em algum interesse – a mentira foi inventada para ferir
infindavelmente por não ter reparação – quando perdes um[a] amigo[a] por uma
ilusão mentirosa é fácil reparar o estrago. basta procurar uma outra razão para
te iludires e o que está para trás logo esquece – quando és burlado chamas uns
quantos impropérios ao burlão e interrogas-te como foste capaz de cair naquela
palermice. aprendes com o erro. deitas tudo para trás das costas e juras que
não voltarás a cair noutra esparrela – quando és atraiçoado a dor ao princípio
pode ser cruel. mas aos poucos. percebes que a cura depende apenas de ti e
partes ao encontro de um novo sentido para a vida – a mentira é diferente.
quando te mentem é para sempre. não consegues perdoar porque nunca a
conseguiste compreender e interrogas-te o que fizeste para a merecer – na maior
parte das vezes nada fizeste para além de falares com frontalidade. com
verdade. e às vezes. sim. também com crueldade – detesto a mentira. detesto
sorrisos mentirosos e ainda mais as mentiras trajadas com pele de cordeiro –
vivemos tempos novos. as mentiras e as aldrabices são feitas com um simples
batimento de uma tecla do teclado – os perigos ainda estão em fase de enumeração
e catalogação. mas. já é certo. que há gente contaminada. mais ou menos
perigosa. alimentando dentro de si novas estirpes de psicose. onde a mentira
deixou de pertencer exclusivamente ao roto. trajou-se de um chique delirante e
passou a uma verdade absoluta lunática – nem o mentiroso sabe que está a
mentir. contaminado pelo vírus da excentricidade passou a ver o mundo todo de
pernas para o ar. o único que está de pé é ele. perdeu o completo contacto com
a realidade – são tempos difíceis. onde cada um quer exibir nele o melhor dos
outros: o melhor marido. o melhor ego. o melhor sorriso. o melhor passado. o
melhor pensamento. o melhor amigo. o melhor par de sapatos. o melhor filho. e
tudo o que pode ser feito com um simples bater de uma tecla. e o que não
consegue ter a teclar é porque entendeu ser o melhor para a tia. para o cão.
para o gato. para o padre ou para o sacristão – estou farto de gente mentirosa.
de gananciosos. de burlões – é altura de começar a “agir apenas segundo uma
regra pela qual possas ao mesmo tempo querer que se torne uma lei universal” –
não contem com a minha boca fechada. continuarei a falar como sempre. com a
minha verdade. custasse ela o que custasse
17/01/2019
uma quinta-feira de 2019
o
autocarro só passa uma vez à nossa porta
depois de uma determinada idade perder o que quer que
seja é um aborrecimento e. no meu entender. deve sempre merecer a nossa melhor atenção
e reflexão. se essa perda se tratar de pessoas que prezamos – podemos perder a
carteira por descuido. o cartão de crédito por tontice. o carro gamado por um
meliante sem escrúpulos ou a pantufa devorada pela boca do nosso fiel amigo – todas
estas coisas se podem recuperar ou em último recurso redimensionar para baixo os
danos da perda – é hábito dizer que só a morte não tem solução. e é verdade –
mas há uma coisa que já não dá mais para perder. falo de amigos ou mesmo apenas
de pessoas que estimávamos e que. com as suas diferenças. nos ajudavam a manter
a nossa saúde mental e principalmente. iluminavam emocionalmente a nossa
passagem terrena – o que seria de nós sem amigos – mas já todos perdemos um
amigo. creio que são poucos aqueles que nunca tiveram uma desilusão com alguém
que estimavam – eu não sou diferente. já perdi amigos e confesso-vos que não
foi nada fácil – mas são estas perdas que nos fazem valorizar aquelas que
resistem ao tempo. com diferenças. com brigas e com a nossa constante adaptação
ao tempo que gastamos à inevitabilidade do envelhecimento – como diz o ditado
popular os amigos veem-se no hospital e na cadeia – por mais teorias. juras. abraços.
boas palavras e sorrisos de orelha a orelha só saberemos o valor de uma amizade
depois de testada – é nos momentos menos bons que ficamos a saber quem realmente
está connosco e dá o corpo às balas – e não raramente temos surpresas. os que
pensávamos estarem connosco são os primeiros a abandonar o barco. e quando
olhamos para o lado somos surpreendidos com a presença de alguém que não
imaginávamos ser possível estar ao nosso lado a segurar as pontas – o que
acontece é que as amizades mais antigas. fruto dos anos. acabam por cair numa
rotina ilusória – isto é. fruto de um conhecimento adquirido ao longo do tempo acabamos
por nos desviar daquilo que somos para agradar exclusivamente aos nossos amigos
– os amigos fazem o mesmo e tudo parece perfeito até que um dia a faísca
acontece. a combustão lenta mina a tolerância e a lealdade. os laços
desfazem-se e quando ninguém espera dá-se a explosão – lá se foram dezenas de
anos desfeitos em segundos – no passado raramente demonstrava interesse por
conquistar novas amizades. achava sempre que já tinha amigos suficientes – com
o tempo passei a dar mais oportunidades às amizades recentes. surgem numa fase
da vida em que estamos mais sábios e mais competentes para ver além do papel embrulho
– geralmente. estas novas amizades. acontecem já como fruto de uma comunhão de
interesses. se gostamos de futebol fazemos esse novo amigo num jogo de casados
e solteiros. se gostamos de pesca fazemos o amigo a vender o seu espólio na
lota e por aí adiante – são momentos fantásticos. o mundo parece-nos perfeito e
estamos-lhe gratos pela sua imprevisibilidade – com milhões de hipóteses para o
desencontro e contra todas as estatísticas a equação deu erro e o encontro
aconteceu quando menos esperávamos – e dizemos os dois: olha a sorte que
tivemos. quem havia de dizer que nos haveríamos de conhecer neste lugar – e é
assim mesmo. quem haveria de dizer. ninguém. mas aconteceu e estamos todos
muito felizes por habitar o planeta terra – olhamos em frente e passamos a
acreditar no destino: estava escrito nas estrelas. ainda bem que assim foi. estamos
agradecidos por fazerem parte da nossa vida – finalmente podemos arrasar com a
teoria de que é necessário andarmos todos na escola para construir um
relacionamento de amigo verdadeiro baseado no respeito mútuo. na verdade. na
cumplicidade e na lealdade – mas com a idade. e apesar de toda a sapiência
adquirida ao longo da vida. perder uma amizade levanta outros problemas: a vida
começa a escassear e pode cair por terra aquela velha máxima de que o tempo
coloca tudo no seu lugar – pode muito bem não colocar já coisa nenhuma e não
coloca só por falta de tempo. não coloca também por falta de vontade ou paciência.
já não há força e muito menos a ingenuidade e perseverança da juventude – o
corpo está cansado e a mente já não tem flexibilidade ou disposição para
grandes reflexões sobre o que está certo ou errado. o que pode ser desculpado e
o que não tem desculpa – as atenuantes para o erro. ou para o perdão cristão. já
não são levados em conta. não porque não haja atenuantes ou por não querermos
perdoar e desejarmos até um mal maior em forma de pena compensatória. não. o
problema não é esse. é bem mais simples do que se possa imaginar – em boa
verdade. há apenas o desejo de uma nova vida. um recomeço. os limites para a
tolerância alteram-se e já não há pachorra para aceitar mais do mesmo. oferecer
a outra face está definitivamente fora de hipótese e que se lixe o caminho para
o céu – que se dane o paraíso. o preço da entrada é demasiado alto – dobramos a
curva da tolerância. deixamos de a ver. e não fazemos conta de voltar para trás
para a recuperar – já não dá. estamos esgotados e sem forças para compreender
os outros – chegou a hora de nos compreenderem. e principalmente. de nos
aceitarmos exatamente como somos – já não dá para fazer fretes – recordo aqui
uma frase de clarice lispector que no meu entender resume bem a perigosidade de
conceder… “Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe
qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro.” – já entrei naquele estágio
da vida em que pago para não ter aborrecimentos e. sobretudo. não ter que
aturar cromos – nem tudo na idade é mau. nestas coisas de gerenciar relações a
idade é um posto e quando deixamos para trás qualquer coisa já não há volta a
dar – se no passado era um problema que nos tirava o sono. ficávamos tristes.
os dias confundiam-se com a noite. a comida não passava. os cigarros
acumulavam-se na boca e a vontade de dar dois murros no culpado era substituída
por um murro numa porta e os dedos é que pagavam com um inchaço durante oito
dias – ficávamos para morrer. e não havia forma de acabar com a depressão. azedávamos.
sentíamo-nos injustiçados. protestávamos com o mundo e connosco e só o tempo
nos lavava a alma – agora. maduro. mas ainda sem estar a cair de podre. percebo
que a vida é assim mesmo. todos diferentes por dentro e todos iguais por fora.
é feita de perdas e ganhos. de alegrias e dissabores. de gratidão e ingratidão
e de opções que não podemos nem devemos questionar – cada um sabe o que é
melhor para si – as amizades podem ser conquistadas. mas nunca compradas –
estes são apenas contratempos que nos obrigam a reajustar a nossa entrega aos
que queremos e gostamos de ter por perto – fecha-se uma porta. abre-se outra.
redireciona-se o tempo para mais de mil coisas que ainda temos por fazer. a
vida pode ser inventada todos os dias. há tanta coisa nova nos espera – por
mais que nos custe. estou certo. que o melhor para todos é a arquivação das
comoções. boas e más na pasta dos diversos – já não compensa a trabalheira de
refazer uma relação de amizade ou apenas de cordialidade – assim faço. sempre
que uma pretensa amizade me aborrece. não há papas na língua. bato a porta e
sigo em frente que o santo tem pressa – confesso. nem quero saber se tenho
muita ou pouca razão. sei que tenho a suficiente para não me aborrecer ou maltratar-me
– o importante mesmo sou eu e aqueles que caminham comigo – o autocarro só
passa uma única vez na vida. se o perdes já não há volta a dar – podes mudar de
local e apanhar outro. mas já não leva o mesmo destino nem os mesmos
passageiros – uma coisa eu sei. tudo o que fazemos tem um preço na vida – eu
pago o meu preço. a diferença em relação ao que fui em tempos idos é que agora
prefiro sorrir para o futuro em vez de ficar preso ao passado
16/01/2019
uma quarta-feira de 2019
escrevo porque voo
escrevo. escrevo como se as palavras fossem um avião. como
se eu fosse um avião sentado numa cadeira que voa como os aviões. como se tudo
em mim não fosse mais do que uma massa de ar que sustenta todos os aviões do
mundo. que são parentes das gaivotas que voam como voam os aviões – gosto de
voar com as palavras. voo em volta das recordações. em volta das cadeiras. das
fotos. dos amigos e dos que não o são. dos dias soalheiros e das noites geladas.
da solidão e das histórias que quero contar e mais umas quantas coisas que
estão no ar e que não sei se são aviões ou ilusões. ou magia. ou coisas que
tenho dentro da cabeça e que não são capazes de se ligar à terra – e as mãos a
escrever noutro mundo onde vivo desde que nasci. para que as palavras se formem como se formaram
as crianças do meu passado. nas ruas. atrás das bolas. dos amigos. e das
caricas que com “triclas” correm as beiras dos passeios num furor de alegria – éramos
dezenas. éramos tantos como são hoje as palavras que escrevo. tantos como os
piões. como abraços e juras de que assim seria para sempre – e os aviões a
rasgar os céus como se pudessem pousar no nosso campo de futebol. bonitos. a
carregar sonhos de um lado para o outro. em bicos de pés. e a criançada de
braços abertos subia ao céu e ali ficava até a noite chegar – escrevo. escrevo
porque quem escreve sonha e sonhar é voar. não importa o que és desde que saibas
sonhar e tenhas um par de asas para voar. uma história para contar ou até um
abraço para dar – estendo-me pela memória de braços abertos. a fingir que sou
um avião e quando não sou avião sou gaivota – [como se as gaivotas voassem com
braços] e grito pelo cosmo que não é mais do que o meu espaço encefálico
carregado de neurónios que querem voar – só o chão da terra corre ao contrário
dos aviões. a fugir para trás. com lamentos de nunca ter aprendido a voar – há
um universo das coisas que não voam. não sonham e não medram – tenho pavor
deste universo. das suas correntes e das palavras que ofendem por nada saberem sobre
o que voa – quando não estou a querer voar não escrevo. levanto os pés na
cadeira. meto os joelhos debaixo do queixo e encutinho-me ao redor dos braços.
fecho os olhos e adormeço amarrado a um pesadelo que me leve para o fundo do
mar – e morro afogado nos meus sonhos – e mesmo nas mais sombrias profundezas do mar eu sonho. sonho sempre que voo
15/01/2019
uma terça-feira de 2019
o sínodo do cadáver
sei que
um dia tudo o que escrevo neste equilíbrio desequilibrado tombará para dentro do
meu peito – sei também que chegará o dia em que a balança pesará tudo quanto
escrevi. o que ficou nas entrelinhas e até o que pensei escrever e nunca
escrevi – será o tempo da justiça terrena – os homens. todos. os que me
ocuparam o corpo e os que passaram a meu lado. reunir-se-ão no sínodo do cadáver
para interpretar o papel de deus – assim será e eu nada poderei fazer. esta é a
sua génese – o passado nunca desaparece nem será esquecido às mãos dos puros – sei
que não será um julgamento justo. mas quem se importará? – eles sabem quem eu
sou. mas não sabem como cresci. sabem o que escrevi. mas não sabem o peso de
cada palavra. sabem o que fiz. mas não sabem a razão porque o fiz – o perdão à
mão do morto – quem julga define-se – haverá sempre tantas sentenças quantos
homens sobre a terra – o mundo permanece sempre belo para quem ainda vive – sei
o que sou. o que não sou. e o que gostaria de ser e. que. por obra do diabo. ou
coisa que o valha. não fui capaz de ser – levarão então toda a minha palavra do
início ao fim. da forca à guilhotina. do credo ao ato de contrição. e o
ponteiro da balança oscilará de um lado para o outro procurando os contrapesos
para a ressurreição: uma palavra bonita ali. um gesto acolá. uma esmola àquele.
um sorriso. um abracinho. e umas quantas futilidades que não servem para nada –
querem-me enterrar sem pecado – e a balança sem saber para que lado cair – todo
o mundo vai querer equilibrar o desequilíbrio de uma vida que não lhes
pertenceu. foi minha. só minha. e de minha escolha e responsabilidade –
finalmente o fogo do crematório fará a sua justiça salomónica. sem venda. sem
espada. e sem balança: o corpo ao pó voltará – só eu conheço o caminho
percorrido. só eu serei capaz de me castigar. mais ninguém – os sapatos estão
no armário para quem se quiser fazer ao caminho – sigam felizes neste dia de
marte. neste dia em que o deus da guerra reclama o seu tributo. entre cinzas e
combates perdidos
14/01/2019
uma segunda-feira de 2019
sessenta velas e outras galáxias
três da manhã e eu às voltas com o mundo – o mundo é mais do
que carrego nesta tristeza que me consome – o mundo é redondo. azul. com mar.
sol e sal e ainda outras galáxias que desconheço – é infinitamente grande para
que alguém como eu o queira ferir com este corpo perdido num solstício de
inverno – aqui estou à procura das palavras. as horas batem dentro de mim e o
sol escondido atrás de uma lâmpada de sessenta velas – estou triste por dentro.
por fora preparo-me para me entregar a quem realmente me merece. carrego o
alforge com o que me sobrou do fim-de-semana e espero que o sol se ponha sobre
mim para que a semana possa acontecer: um par de olhos meigos. uma manada rasa
de gente feliz. um abraço apertadinho. uma conversa por acabar na madrugada. um
copo de cerveja gelada. uma seta perdida lançada por um cupido estúpido. uma
boca parva que nunca se cansa de dizer o que lhe vai na alma e um sorriso capaz
de enganar uma multidão – aqui estou. os olhos alinhados com o destino. à
espera do melhor e do pior. com uma mão a estrangular o que já não aguenta e a
outra a dizer: sampaio ri-te pelo menos mais uma vez. afinal ninguém melhor do
que tu sabe que o mundo é redondo. azul. com mar. sol e sal e ainda outras
galáxias que desconheces – és um ignorante tolo. acorda porque já é quase dia e
os espertalhões nunca dormem – bom dia. boa semana
08/01/2019
última proclamação divina – o fim da virtude
num momento de fraqueza da minha fé resolvi recriar o meu
mundo espiritual com uma nova ordem celestial
deus. após rezar o angelus com o papa e os fiéis presentes
na praça são pedro. dirigiu-se a todos os seus súbditos desejando-lhes um feliz
ano novo – de seguida. em tom informal. reuniu com os seus representantes na
terra para lhes transmitir a resolução do seu último concílio
-- dada a impossibilidade absoluta de continuar a prestar o
meu trabalho espiritual no planeta terra: promover a espiritualidade. a plinitude e a justiça divina. quero
informar-vos que me retirarei definitivamente da vida dos humanos – saio sem
mágoas e com a certeza de que tudo o que estava ao meu alcance foi feito – até
deus tem limites que não pode transcender – claro que ninguém sabe isso melhor
do que eu: o homem é um ser profundamente complexo. fui eu que o criei com
razão. com emoção e com espírito – toda esta complexidade tinha como objetivo o
seu desenvolvimento sustentado numa espiritualidade esclarecida e na busca
permanente da verdadeira felicidade: com misericórdia e limpidez interior – ao
longo de todos estes milénios não houve um único dia em que não tenha seguido a
evolução interior e exterior do homem. acreditem que nunca foi fácil. mas eu
sabia que não seria – a ambição humana nunca me facilitou a vida – no entanto.
sempre acreditei na vitória do bem sobre o lado escuro do homem e também sempre
acreditei que o erro ou o pecado seria sempre a verdadeira motivação para a sua
renovação – aprender com os seus próprios erros e perceber a necessidade de se
recriar diariamente com novos desafios para uma religiosidade assente na
bondade. tolerância. proteção aos mais vulneráveis. e resiliência perante as
complexidades do mundo contemporâneo – infelizmente nada disso aconteceu. o
homem multiplicou por mil as razões para pecar: mais egoísmos. mais ódio.
inveja. ciúme. mágoa e tristeza. a estrutura familiar colapsou. as novas
tecnologias corromperam o tempo. as igrejas esvaziaram-se de fé. o consumismo
selvagem promoveu o egocentrismo e multiplicou as desigualdades entre ricos e
pobres. a fome espalhou-se sem controlo. as guerras intensificaram-se. as
alterações climáticas ameaçam o apocalipse e outras tantas malignidades que
recaem quase sempre sobre os mais fracos e debilitados: crianças e idosos – o
homem dos nossos dias. para além da pobreza material. está contaminado pela
pobreza espiritual – em suma. habitamos um mundo caótico e em degradação
acelerada onde a minha omnipresença é constantemente colocada em causa –
confesso-vos com humildade que a desordem também já se alojou em mim. a
sustentável leveza do meu ser foi gravemente contaminada e infelizmente não
vislumbro solução capaz de reverter esta desordem agoniante – criei uma máquina
sobre a qual perdi o controlo – estou no fim.
exausto. desiludido. mas com a consciência tranquila. tudo fiz em prol
deste planeta e dos seus seres vivos – chegou a hora de dar descanso ao corpo.
é hora de entregar definitivamente o destino da terra nas mãos dos seus
colonizadores – deliberei então que os humanos. sem exceção. ficarão livres do
pecado como fator decisório para entrar no paraíso – assim. informo que a
partir das vinte e quatro horas do dia de hoje o pecado será definitivamente
despenalizado – é com amargura que vos comunico que me retirarei
definitivamente para o céu e comigo levarei todos os anjos. santos. arcanjos e
querubins. reconhecendo com humildade a vitória do pecado sobre a virtude – e
agora que a nova palavra de deus parta por esse mundo fora a anunciar a boa
nova: nasceu um mundo novo. o mundo sem pecado – sejam felizes e deixem voar os
pecados da mesma forma que voam as gaivotas
nota final - a ausência de pecado não implica ausência de
valores éticos e morais – vivam com consciência e iluminem a vossa existência
com atos de tolerância


















