.................................................................................não tirem o vento às gaivotas

10/10/2010

palavras desamparadas








acordei sobressaltado – puxei-me para cima dos quadris e sentei-me no topo da cama. virei-me para sul fugindo do mau olhado. o norte traz sempre ventos frios e húmidos – há uma janela quase quadrada que me dissipa a solidão. é lá que ponho os olhos a sossegar – lá fora. nos socalcos do olhar. mesmo ao junto ao beiral. já há gente a correr atrás da vida – pego num dente de alho e penduro-o ao pescoço. talvez precise de proteção contra os demónios. não tenho medo das suas crueldades. mas irritam-me contra absurdo que nem sempre compreendo – pressinto dentro de mim umas cogitações. querem ganhar forma. flutuando no espaço entre o que vejo e o que penso – são como ondas nesta cabeça: ora ourada. ora torta. ora inclinada para a loucura – são ideias como barcos à deriva oceano. sobem. descem. mas sempre ao correr de ventos que ninguém sabe onde nasceram – neste mar sem fim. há peixes. peixinhos e peixões que se alimentam deste emaranhado de ideias. nadam como se tudo fosse águas calmas. tranquilas. águas sem predadores ou mesmo sem leões marinhos – nem sei se são estúpidos ou arrogantes. talvez as duas coisas – habituaram-se a refúgios seguros que tenho por detrás dos olhos – sempre que os fecho. nada mais é capaz de perigar dentro deste oceano de pensamentos loucos – há profundezas que desconheço completamente – é nestas alturas que sinto a morte nos dentes. fico com medo. vejo tanta coisa estranha. e nomes que chamam por mim. ruídos que me são familiares – certo dia. até ouvi a campainha da escola. aquela que me fazia correr à procura da vida – nestas memórias. meias loucas. permanece a imagem de um sargaceiro vestido de fato amarelo. trauteia umas quantas canções de sereias que já morreram – eram do tempo de ulisses. meias mulheres. meias feiticeiras. das profundezas dos mares. faziam sonhar homens destemidos. mesmo aqueles que nunca foram embalados e amamentados por peitos secos de amor – coitado! esqueceu-se que está com água até à cintura e a maré continua a subir – as algas que em tempos eram abundantes são agora meia dúzia de ideias desprendidas de um cérebro em decomposição – talvez seja melhor içar a bandeira vermelha. talvez assim volte a subir às dunas onde costuma descansar o corpo coberto de sal – também ele quando fecha os olhos consegue ver as gaivotas a bicar as incongruências da imaginação – um dia morrem os dois. e nem as ideias com guelras sobreviverão. morrerão sentadas no areal da praia a chorar a morte do corpo



2 comentários:

  1. Desamparo, memórias, perdas...

    VIDA CONTINUANDO... alegrias e tristezas como ondas do mar, vem e vão.

    BEijos, parabéns, gostei muito do blog, das letras, ja te disse que me identifico com elas... mas ainda não sei e não saberei escrever assim... então leio- te e sinto os teus versos... tão sentidos.

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  2. márcia.

    fico muito feliz por saber que vens até ao meu espaço e que ao mesmo tempo te identificas com as minhas palavras.

    obrigado por estares aqui

    beijo

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