.................................................................................não tirem o vento às gaivotas

22/09/2011

escrita desgovernada




rene-magritte-la-victoire



dias em que escrever é uma autêntica loucura. um suicídio – as portas não param de ranger ferozmente. e as letras ficam entaladas com o vendaval – não acredito em fantasmas. mas chego a crer que pode haver por aqui alguma alma perdida. zangada com a minha meditação transcendental na procura das palavras necessárias para compor textos. mas que. infelizmente. ninguém lê –até a janela. perfeitamente geométrica. enfeitada com um tapa sol da última geração. moderníssimo. a condizer com o bege quente das paredes. não resiste ao meu bafo de desagrado: falta de criatividade – não consigo escrever duas linhas seguidas – a verdade é que não sei se foi a mando do tal fantasma que. apesar de tudo. insisto em negar. ou se sou eu. desanimado. prostrado sobre os braços. aproveito a falta de inspiração para embaciar os vidros. evitando a fotossíntese. e assim. limitando os danos no vazio intelectual: evito ver a minha gaivota cinzenta. de tesoura afiada. a recortar nuvens. como o jardineiro faz com os cedros nos jardins – quero escrever. mas tudo são sombras. medos. temores. e o suor encontra nos poros a forma de alimentar a fantasia – as palavras empapam. e pela força do PH ácido desfazem-se. desprendem-se da realidade como lepra. deixam-se cair em pedaços e tudo é letra misturada. sem sentido. sem juízo. sem mão capaz de as juntar – depois. em desespero. parto como carro desgovernado; curva após curva. percebo que quanto mais escrevo mais as retas precisam de ideias lógicas – não têm princípio nem fim. mas têm que ter ideias com lógicas – resta-me pouca lucidez. e como um caminhante de mochila às costas. nunca sei onde pernoitar. nem onde termina a viagem e quando volto a encontrar a palavra-texto – às vezes. em confissão. acabo no caixote do lixo. agoniado pelo cheiro de tinta queimada. papel amarrotado e restos de iogurtes azedos – assim fico a morrer aos poucos até que outro texto me traga à vida – sobrevivo.  resisto. recorrendo ao último grande sucesso do mundo moderno e mediatizado – o medo é uma cena que a mim não me assiste. como diz o hélio: sai da frente guedes 



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