há dias em que escrever é uma autêntica
loucura. um suicídio – as portas não param de ranger ferozmente. e as letras ficam
entaladas com o vendaval – não acredito em fantasmas. mas chego a crer que pode
haver por aqui alguma alma perdida. zangada com a minha meditação
transcendental na procura das palavras necessárias para compor textos. mas que.
infelizmente. ninguém lê –até a janela. perfeitamente geométrica. enfeitada com
um tapa sol da última geração. moderníssimo. a condizer com o bege quente das
paredes. não resiste ao meu bafo de desagrado: falta de criatividade – não
consigo escrever duas linhas seguidas – a verdade é que não sei se foi a mando
do tal fantasma que. apesar de tudo. insisto em negar. ou se sou eu. desanimado.
prostrado sobre os braços. aproveito a falta de inspiração para embaciar
os vidros. evitando a fotossíntese. e assim. limitando os danos no vazio
intelectual: evito ver a minha gaivota cinzenta. de tesoura afiada. a recortar
nuvens. como o jardineiro faz com os cedros nos jardins – quero escrever. mas tudo
são sombras. medos. temores. e o suor encontra nos poros a forma de alimentar a
fantasia – as palavras empapam. e pela força do PH ácido desfazem-se. desprendem-se
da realidade como lepra. deixam-se cair em pedaços e tudo é letra misturada.
sem sentido. sem juízo. sem mão capaz de as juntar – depois. em desespero.
parto como carro desgovernado; curva após curva. percebo que quanto mais
escrevo mais as retas precisam de ideias lógicas – não têm princípio nem fim.
mas têm que ter ideias com lógicas – resta-me pouca lucidez. e como um caminhante
de mochila às costas. nunca sei onde pernoitar. nem onde termina a viagem e quando
volto a encontrar a palavra-texto – às vezes. em confissão. acabo no caixote do
lixo. agoniado pelo cheiro de tinta queimada. papel amarrotado e restos de
iogurtes azedos – assim fico a morrer aos poucos até que outro texto me traga à
vida – sobrevivo. resisto. recorrendo ao
último grande sucesso do mundo moderno e mediatizado – o medo é uma cena que a
mim não me assiste. como diz o hélio: sai da frente guedes
.................................................................................não tirem o vento às gaivotas
22/09/2011
escrita desgovernada
rene-magritte-la-victoire
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)
Sem comentários:
Enviar um comentário