foto: em cima de um banco de pedra a faca
sangra. ao seu lado a língua jaz - reconheci a faca. usava-a sempre que
não podia falar. com esta cortava a língua junto às cordas vocais. guardando-a
depois no bolso da conversa de surdos – anémico pela repetição constante dos sons
fónicos. caía em silêncio – assassinado o ruído. entorpecia o tempo até que o sangue estancasse a morte –
ali ficava. adormecido pelas ninfas da morte. ouvia os cânticos da vida dos
felizes. refletidos na lâmina. polida e brilhante. projetava imagens de gente
que nunca cheguei a conhecer – o melhor era fingir que já não estava vivo.
enganar o chamamento da morte por mais um dia. levar os sons a uma nova vida.
dobrar o cabo das tormentas no fio da lâmina – as pestanas apodreceram. caíram
perdidas no desejo de não ter mais surdos a meu lado – só eu sei que ainda não
estou morto. só meus ouvidos morreram entre amigos – eram exclusivos estes
amigos. eram meus: dizia a faca. muitos. chegados de todos os lados – sou
apenas um. quase morto. sem olhos. a um pequeno nada de cegar – aninho-me. deixo
o corpo entrar dentro do meu outro corpo. protejo-me – para trás ficavam as
mãos amarradas à cabeça – os olhos quase mortos anunciam outras mortes à
gargalhada – todos estaremos mortos. mais cedo ou mais tarde – enterrado entre
o braço e o antebraço. a vergonha de ver o que nunca devia ter visto – apontei o
dedo indicador para dentro de mim: culpado – não havia piedade naqueles corpos.
vaidosos. arrogantes. pretensiosos. presunçosos. elitistas. racistas e anormais
de profissão – por fim parava o sangue com um garrote feito de coisas que ouvia.
sem valor. nas veias deixava de circular tudo o que era revolta. suspendia a
respiração. enroscava-me na posição fetal e hibernava até a memória esquecer a
existência dos pequenos nadas – ali ficava. dia após dia – e a primavera chegou
com palavras
.................................................................................não tirem o vento às gaivotas
04/10/2011
nos ouvidos a faca
lucian freud
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