voz - maria joão
dizem por aí
que se diz
muito em poucas palavras
às vezes
acredito
penso que sou
poeta
iludo-me
e quero
acreditar
que sou
fenomenal
único
e mesmo sem
falar
basta-me um
gesto
para ser um
génio do amor
translúcido
penso eu.
então
digo-me:
é verdade
não escrevas
não fales
sorri apenas
alguém
acreditará que és especial.
mas depois
já nu
de tanto meditar
escolho um
mundo:
redondo
azul
com mares
com alma.
sol e sal
cheio de
gente como eu
aqueles que
são poetas só às vezes
esfrego os
olhos
e vejo
lá no fundo
onde a luz é
escassa
e as sombras
são vida
o choro
esse…
que nunca se
ouve
é aí onde os
poetas de verdade se tornam homens
onde nascem
as dores
as desilusões
as emoções
as perdas
as saudades
as pessoas
perdidas
os tempos
passados
ou mesmo um
grande esforço
para se ser
aquilo que nunca se será
e aí…
sinto a
falta das palavras.
revejo os
sons
do que
poderiam ser palavras faladas
mas afinal
são vaidades
de apenas
terem tempo
para o ego
descubro
então
que afinal
os poetas
nada dizem
eles
dizem que
dizem
porque
escrevem
mas não
transpiram
não ofegam
não sorriem
não tocam
não negam
não gemem
não olham
são papel…
mas eu
homem deste
mundo
redondo
azul
com mares
com alma.
sol e sal
cheio de
gente como eu
esgotado para
todos estes poetas
digo-lhes:
digam-me na
cara
nos olhos
nesta alma
que chora
nesta vida
que também é vossa
digam-me
apenas mais
que uma palavra
mesmo que
seja
gosto de ti
mas não
não…
desculpem
não chega
eu quero
mais
quero que
falem
de vocês
de mim
do vizinho
do irmão
do vosso
amigo
do meu amigo
do mundo
do vosso
mundo
quero-vos
sentados
quero-vos ao
meu lado
quero esse
vosso olhar
mesmo feio
ou bonito
não
interessa
só quero que
não escrevam
quero que
falem
não se calem
falem
sejam poetas
de verdade
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