I.
o
dia das lágrimas – com vida certa ou incerta. verdadeira ou falsa. bela ou grotesca.
rica ou miserável. trágica ou iluminada. excêntrica ou vulgar. aqui estou
perante este tempo néscio de compromisso com a memória: um comprometimento de
honra com o meu corpo por inteiro – o contrato – sou eu. com a minha face. as minhas
mãos arrestadas a impressões digitais únicas. banhado por um sangue enlaçado
num DNA que nunca se reconheceu como entidade singular – tudo isto oferecido num
jeito de caminhar tortuoso. sinuoso. confuso. como quem ameaça tropeçar a cada
passo. a cada fôlego arrancado à vida – os olhos. de um castanho morno.
arregalam-se como faróis furiosos em noites de tempestade. procuram ansiosamente
um destino que se esquiva – o futuro. em movimento acelerado. persegue sem
misericórdia um corpo que nunca aceitou o repouso – nunca fui nada sem
movimento. sem vertigem. sem ação incessante. como se o corpo estivesse sempre em
descompasso com o pensamento – o próximo lugar era sempre o único refúgio
possível para domar o ímpeto de tocar o fim do mundo – ilusório – só a fala se arrastava
num vagar ansioso para uma boca que sempre almejou o silêncio – nunca me dei
bem a falar. confesso que às vezes nem no silêncio de mim mesmo – e é tudo isto
que faz de mim um ser com memória. único. singular. excecional para o bem e
para o que há de pior – por fim. e para que não houvesse enganos. deram-me um nome sem nenhum tipo de atenção.
e um último nome que diz mais do meu corpo do que todos os particulares descritos
– sou então o único dono e responsável da minha palavra. da minha honra. da
minha vergonha. das minhas opções e das minhas falhas – sou assim um guardião
da memória. que se alimenta da autenticidade. umas vezes pelo contrato assinado.
outras pela convicção de que o valor de uma vida não se mede em tempo. mas sim pelo
que deixamos no tempo – “o futuro e o passado não existe no agora” é apenas uma
medida de evolução que neste momento não se aplica a mim – claro que há exceções
dentro do meu próprio corpo. exceções essas que se amarram à memória. e
determinam que a evolução da razão nem sempre se sobrepõe à virtude – os
princípios que amarram a virtude a escolhas inevitáveis são sempre movidos por
um ímpeto silencioso. que no meu caso. pouco crente no sobrenatural. foi marcado
no primeiro sim à vida pela tômbola da sorte – todos temos uma tômbola invisível
que gira sem nos consultar sobre a aposta – baralha. dá cartas. escolhe o
trunfo e diz: vais a jogo – e vamos pois. acabamos de respirar. e quem respira
aceita as regras do jogo – estamos a viver e a ganhar memória. o que é o mesmo que
dizer: estamos humanos – nada acontece de um dia para o outro – pelo meio as
leis da sociedade induzem-nos a sua ética e moralismo. nunca tendo em conta a
dor. o sofrimento. a falta de vontade de viver. a extinção da motivação. o
eclipse da fé – leis pensadas e elaboradas para um mundo ideal. por homens tão
imperfeitos quanto eu – mas a razão de uma vida existir divide-se em mais de
mil razões concentradas num só ato irrepetível – sou tantas coisas que jamais
poderia reduzir a existência a uma única razão para viver. ou para morrer – o
fim da vida é uma decisão tecida no tempo. e o tempo é feito de memória. e toda
a memória repousa sobre alicerces de desespero e assombro – vivemos a
felicidade de forma tão intermitente e rara que. quando necessitamos de recordá-la.
ela resume-se a poucos instantes. que quase sempre nos obriga a recorrer à
descendência. à companheira que é a luz da minha vida. à família no seu
compromisso de afetos. aos raros amigos que conseguimos preservar. e a dois ou
três caninos que nunca deixaram de me receber com a cauda a abanar – tudo isto garantido
por um batimento cardíaco. ora sobe. ora desce. ora acelera. ora esmorece. ora sussurra
que já nada justifica o sacrifício de o escutá-lo – o batimento do único
músculo que no passado escondia o amor. o coração – já não há amor no coração.
não há remorso. nem arrependimento. e também não há nenhuma medida universal para
uma dor que ruge: basta. chegou a hora do silêncio absoluto. da paz – chegou a
hora de fazer descansar a memória
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