não olheis vós para o que faço. mas sim para o
que rabisco – o que enxergais em mim é uma ilusão para me libertar do que
escrevo – com a chegada da noite amarro-me aos sonhos e vagueio pelas
madrugadas tal qual um cigarro se incinera: brasa instável. cor impulsiva. metodicamente
vagaroso a retrair-se para o fim da combustão – e assim. em contagem
decrescente. dissolvo-me em cada pedaço de fumo que sobe ao céu – perco-me.
perco-me na noite pelo que penso e também me perco quando me recuso a pensar –
perco-me. perco-me na noite em sonhos e também me perco quando me recuso a
divagar – perco-me. perco-me na noite dentro de mim e também me perco quando
não estou em mim – um homem perdido só está bem onde não pode estar – a
insustentável leveza do meu ser vacilou. quebrou. faleceu com o corpo ainda a
reclamar mais vida – e o fumo proibido a chegar à casa dos deuses como chegam
os balões das romarias. perdidos. sem rumo. num vento incerto. sem tino – e a
enormidade do que sou a deixar de o ser numa terra em apartheid – segreguei-me
– devagar devagarinho elevo-me rumo às bem-aventuranças. como se fosse o último
fumo. como se fosse vento. como se fosse catraio e me quisesse perder num
paraíso iluminado por uma luz esquecida no fundo da gaveta – por isso te digo:
perde-te com um laço. aperta-o à volta do inferno e faz-te memória – perde-te
de raiva e cospe para o chão que nunca te deu de comer – perde-te de coragem e prende
a ponta da corda à barbatana de um tubarão. deixa-te arrastar ao fundo das
palavras – absolve-te num parêntesis e não deixes que um ponto de interrogação
te faça voltar a [re]acreditar – morre
pois já não tens mais tempo para te [re]perder – perde-te antes que te falte a vontade de
escrever
.................................................................................não tirem o vento às gaivotas
07/11/2017
perder-me para me encontrar
bem howe
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