nem uma
palavra para enfrentar o medo. resmas de papel e nem um mísero vocábulo para me
alentar. encorajar. para acreditar que sim: que tudo vai ficar bem – o corpo à
roda por esse mundo fora. de imagem em imagem. de grito em grito. de família em
agonia. e as camas dos hospitais em afligimentos. às vezes paradas. outras.
ligadas a sirenes aflitas. a romper ruas num desespero desenfreado – e a cabeça
a estardalhar-se de pânico. de tanto pânico que nem a porta da casa sustém este
medo medonho que me encolhe pela TV – exilam-se os olhos medrosos pelo raso do
corpo. tão raso como soalhos gastos de quem vai para lá e para cá. polido ao
osso. num arrastar de pernas que não conta os dias. só medo. medo-covarde. tão
grande que as paredes procriam urgentemente recordações. e o passado
dependurado em candeeiros que acendem a distância dolorosa entre o certo e o
errado. entre o que já devia ter sido dito. e o que a boca calou – tanta coisa
errada em tantos anos de claridade – o homem bom é preguiçoso – nasci para
isto? para morrer calado? sufocado por palavras que engoli – que fiz eu para
que a espera se aparelhasse em medo? bem sei que a morte é uma curva certa
na estrada* – tanta gente sem falar. sem gritar. sem gritar pelo nome de
quem os abriga na história. presas ao branco. à máquina que respira só porque sim.
sem coração por perto. e os estetoscópios mortos de cansaço. estupidamente silenciosos
sentem a morte a perpassar pelas covas das mãos. trémulas. numa terra escura
como breu. coberta de uma fatalidade estranhamente selvagem. insuportavelmente
selvagem. e infinitamente traidora – tanto silêncio. tanto branco silêncio.
tanto medo. tanta casa fria. silenciosa. como se cada parede caísse ao inferno
e o céu se esculpisse à mão do diabo – que te fizemos deus? este grito
ensurdecedor dentro da minha cabeça. as máquinas a respirar. a resistirem vida
estoicamente. e o sangue a correr por tubos transparentes clareiam humanos que desaparecem
num corrupio de extenuação que não chega sequer para dizer adeus – as camas não
andam. não marcham. não voam – morrer é só não ser visto e acompanhado*
– quero continuar a ser visto e acompanhado – preciso de uma nova oportunidade.
juro que falarei sem tento – nem a merda de uma palavra contra esta coisa
cobarde. uma injeção. um martelo. ou uma bomba presa a um dedo engatilhado –
estou com medo. em pânico. não há dignidade nisto. os mortos escondidos do
mundo. num mutismo asqueroso. triste. malparecido. sem beijo. sem adeus. sem
que as lágrimas possam ecoar salvas de canhão – o mundo não pode desaparecer
assim. renegado por todos. ajustado à sua terra sem um último abraço – há
coisas que não merecem existir: verdugo. tirano da morte silenciosamente
desacompanhada – o fim deveria ter dignidade: morreu de cancro de pulmão. mas
fumou até ao último dia; morreu de cirrose. mas bebeu até cair na cova; morreu
de sexo. mas fodeu até ao fim – só se morre de verdade uma vez – que raio faço
eu em casa. podia ser médico e estava na cura. na guerra. estava a auscultar o
medo em cada alma. a celebrar esperança. a forjar tempo para viagem escoltada
de afetos – que raio faço eu em casa? se nem palavras encontro para me
descansar do medo
[texto redigido enquanto o
pânico tomava de assalto tudo o que tinha como certeza absoluta – março e abril
– confesso aqui o meu medo]
* frase alterada de fernando
pessoa
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