e eu fico. não inteiro. não dividido. fico como
sou – há em mim mais do que um. e nenhum vai embora – aprendi que não se
escolhe o que somos. apenas o que fazemos com isso – há dias em que me
encontro. outros em que me atravesso. e talvez seja isso viver. não a certeza. mas
o movimento – já não procuro ser um. nem deixei de ser muitos. aprendi a não
fugir quando me contradigo – há um em mim que quer silêncio. outro que pede
mundo – e agora deixo-os existir. não em paz. mas sem guerra – talvez nunca
tenha sido sobre escolher. mas sobre suportar. e continuar. mesmo quando não
sei quem sou – e eu só. só de mim. só com as palavras que me cresceram na ponta
dos dedos. e em cada oração o sujeito mergulhado em formol. pergunta ao tempo
quanto tempo vou precisar para que volte a ser apenas um – a cabeça de um lado
para o outro. tenta reconhecer cada sentimento sem nome. e cada palavra um mar em
revolta. e a água um cardume de razões para desistir – é como se dentro de mim
habitassem ninfas dos tolos. e os ouvidos tapados por um eu que desconheço.
como se soubesse que um dia sou engolido por mim mesmo – escrevo por que ouço
as gaivotas a viver. e mesmo que a porta dos eus se feche. e a estrada se desfaça.
eu vou a correr por mim para ser um pouco dessa magia – e se me faltar um eu.
nem que seja inventado. eu crio-o – quero lá saber dos verbos e dos
complementos diretos. eu sou o sujeito de todas as orações – tenho medo. mas
também sei que a noite não fica para sempre – envelheci. e hoje deixo que os
meus eus falem sem lhes pedir explicação – o que fica deles escreve-se sozinho –
durante anos carreguei o que fui às costas – agora começo finalmente a sentir o
peso a afastar-se – se ficarmos colados ao passado não sentimos a mudança – somos
também aquilo que construímos para nos suportar – só o tempo cria distância suficiente para
vermos o erro – e talvez seja por isso que continuo a afastar-me de mim – e eu
sigo – é preciso quebrar
a ampulheta. e partir pelo que ainda não foi – se continuo a escrever é porque
nem tudo em mim nasceu da ruína – às palavras devo o que consegui salvar – foram
as palavras que impediram os meus eus de desaparecer completamente. continuaram
a respirar dentro de mim quando eu já não sabia como voltar – hoje já não me
importa o valor do que deixo. apenas que exista – foi com as palavras que
consegui continuar quando tudo em mim já queria parar – talvez chegue um dia em
que o silêncio já não me doa – não sei quanto tempo vou escrever. sei que sobrevivi
o suficiente para me tornar outra coisa. e mesmo que não voe serei para sempre
gaivota
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