.................................................................................não tirem o vento às gaivotas

15/02/2011

hoje. ando por aqui: o último verão dos castelos



luc tuymans e michaël borremans


hoje ando por aqui. nem compreendo bem o que significa este andar. talvez sentir o movimento das marés. ouvir as gaivotas a falar com o vento. recordar o calor dos verões que me fizeram crescer. lembrar o homem fada que vendia língua da sogra – dentro de mim há uma praia azul. enorme. com baldinhos. forminhas. ancinhos. e grandes castelos de areia – nos meus castelos. aqueles que eram feitos por mãos que ainda não conheciam o pecado. só havia o bem –  naquela praia todos os dias nascia um novo castelo – eu era rei. a meu lado os meus súbditos: estrelas-do-mar. búzios. lapas. mexilhões. o sargaço e aquele cheiro a iodo que me faz correr vida adentro – o mar ia e vinha. vaga após vaga. dia após dia e os castelos de sonhos cresciam e desfaziam-se com o sol a afundar-se no mar – pela manhã. no areal. o prenúncio de uma vida: ruínas – mas os meus súbditos ali estavam. fiéis. nunca me abandonaram. a cada dia de sol. um novo castelo de esperança – ainda hoje. sempre que vou à praia. ali estão os meus amigos. mas já não sou capaz de construir castelos. não os quero desiludir mais. sei que vão ruir ao cair da noite. e pela manhã não terei a mesma força para construir outros. como no passado – não sou capaz. já não sou capaz – o meu mundo já não é igual. o sol já não volta a cair no mar – agora sou peregrino. as mãos outrora brancas. agora cinzentas. sem alegria. sem vida. sem iodo. respiram apenas para sobreviver. encurtam caminham lentamente para a morte – um dia. depois de outro verão. as marés não mais subirão até ao meu areal. não mais voltarão a destruir os meus castelos. estarei então. finalmente frente a frente com o tudo e o nada – o meu último verão – eu e os meus castelos seremos então. para sempre. uma história de fadas. enterrados num mundo só nosso.  mágico. viveremos para sempre onde agora vivem aqueles que. um dia. me ajudaram a fazer verdadeiros castelos – hoje ando por aqui. este verão não me larga. a água é tão azul. encontro ainda as barracas enterradas no areal. guardavam famílias felizes. pais cansados pelo trabalho o meu pai falava. gostava de falar. era enorme. havia dias que tapava o sol. as nuvens. e até o horizonte acabava morto a seus pés. nunca vi nenhuma onda maior do que ele. sabia que a vida era feita de palavras. palavras francas. livres. doces. doces como mel. sempre enfeitadas de gestos para rostos passageiros –  a minha mãe. sentada na areia. ouvia o sol. olhava o futuro com orgulho na face – sempre teve medo dos inesperados males de um mundo feito de trabalho que não queria para os seus – o futuro tão perto e tão longe – a saudade é cada vez mais cruel. deve ser por conhecer a morte  cada dia mais perto. mais negra – a carne. mais dia menos dia. não vai aguentar. levará definitivamente outra metade de mim – o homem fada que vende língua da sogra grita pelo meu nome. enquanto as pernas revolvem a areia que ainda não chegou ao mar – nesta areia branca. pura como estas memórias. enterrei os meus sonhos – hoje ando por aqui. recordo quem fui e o que sou agora. como falava. com ele aprendi a falar. como sorria. com ele aprendi a sorrir. como sonhava. com ele aprendi a sonhar. como amava. com ele aprendi a amar. como era amigo. foi com ele que aprendi a ser pai – hoje ando por aqui. penso. porque é que o mundo não anda para trás. devia andar. tenho tantas saudades do homem fada que vendia língua da sogra




2 comentários:

  1. Hoje eu ando por aqui, talvez atrasada mas feliz por ler esse texto vivo de inocência, de lembranças...porque é que o mundo não anda para trás, devia andar... devia... Sempre belas as palavras , o sentido, já disse que me vejo nos teus versos... Parabéns poeta,

    Tudo de bom

    Abraços.

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  2. obrigado pelo carinho e companhia.

    as palavras são todas para os meus amigos leitores

    beijo

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