IV.
no corpo. em local desconhecido. um minúsculo
grupo de átomos ligados por palavras funde-se: nasce o texto – as trompetes
rompem o silêncio e anunciam a nova obra do cavalheiro-artista. alegria – no
céu. as nuvens desistem de profetizar tempestade. e o céu dá agora lugar a um
novo astro-anunciador. este indica o caminho aos amantes da leitura para as novidades
do homem que escreve – a comprovação. em papel. é feita de vocábulos
organizados pelo talento dos olhos que ouvem no silêncio – no corpo. a gente
silenciosa parte para o descanso. recolhe-se à mudez das catacumbas do homem que
guarda o cavalheiro. harmonia – é a hora do leitor apaixonado. é a hora da
calmaria. é a hora da serenidade – tudo escrito à mão numa paixão abençoada
pelo ouvir dos olhos – “tenho apenas
duas mãos e o sentimento do mundo” [carlos drummond de andrade]. sinto – o
momento é de paz – o cavalheiro feliz. digo. quase feliz. se não houvesse aquela
dúvida persistente. talvez hoje fosse o dia certo para morrer acorrentado a uma
palavra de gratidão – mas há – a dúvida perdura. sufoca o mundo das pessoas que
guarda sem nome. das gaivotas. dos frutos. da sorte. dos animais. das árvores.
da chuva. da criança protegida no colo da sua mãe. da bicicleta que nunca
existiu. do vento norte. dos pesadelos das noites do nada. do corpo a pedir morte
por um distúrbio mental – paranoico. vive num delírio permanente na procura da
palavra que nunca existiu. mito – o cavalheiro que escreve vive doente na recapitulação
de um texto que nunca está pronto. louco – lê. volta a ler. a calma dói. e já se
vão em cem dias. e o coração a segredar pânico para um abismo de silêncio
sepulcral – não! acabou. não leio mais. a perfeição é a morada dos deuses. só
conheço a casa onde guardo o corpo. agonia – solidão. sofrimento. suicídio – chegou
o momento. coragem. um dia tinha que ser. o cavalheiro resistirá. o homem
resistirá. sobreviver é também escrever – o homem que escreve ali. relembro. os
olhos também. o sentimento. o mesmo de sempre. de dentro. medo – tantos corpos
parados a murmurar cada vez mais baixinho. e as noites que nunca foram noites
em memória-dor. teimavam em iluminar um caminho que nunca encontrei – louco.
acreditei no silêncio das noites. e o corpo cada vez mais doente por não saber
distinguir a loucura da ambição genuína. resignação – tudo parte. tudo na vida
é assim. tudo tem um princípio e um fim. eu também. o cavalheiro também – para
trás uma porta aberta indica desespero: perder para sempre as palavras ouvidas
com o olhar – mais medo – agora sou de quem não me conhece – sobra-me o corpo. tudo
o resto nu. despido pela leitura – contrataria a morte por um dia – mais medo.
muito medo. terror. as palavras no leitor podem dizer o que nunca senti. mais
terror – não há boa escrita sem consciência. sem angústia. sem gemido. sem
arrependimento – amanhã sei que escreveria tudo de forma diferente – morte e
ressurreição – para o leitor. a descoberta de novas vidas. talvez sim. talvez
não. não importa. nunca haverá certezas para olhos que não ouvem – no
cavalheiro. finalmente um momento silencioso anuncia descanso. acredita na
mensagem das palavras. paz – o belo não tem pressa. aparece a cada leitura e
descansa num marcador de livro: é ali que a vida parou. mais tarde será noutra
página – tudo é agora texto. fundido em verdade. ganhou existência terrena.
como o verde das montanhas. como o mar batido a vento. como um instrumento que
trabalha a terra. como árvore de fruto. como flor a nascer e o fruto a aparecer
– as palavras dão pão às bocas e saciam a alma de quem as lê. tudo é real na
escrita de quem escreve para falar. o cavalheiro mais não é do que um homem a
lutar pela sobrevivência do homem que lhe oferece o corpo para se revelar – para
o homem que lê a leitura é apenas a junção das letras de dois homens que se
toleram para sobreviver – a boa leitura é invisível. sente-se – no corpo o
sentimento da leitura encurta o tempo e tudo é
como se hoje fosse o primeiro dia do universo – lá está adão. e eva. nus.
desta vez sem parra. e o cavalheiro ali a ouvir tudo com os olhos. com as árvores vergadas ao fruto – assim está o
homem que escreve. vergado pelo peso das palavras – há um novo mundo sempre que
há um novo texto e também um novo cavalheiro – o homem que escreve prolonga-se
na procura da perfeição – a morte não sobrevive à imperfeição – escrever pouco
e dizer tudo é delírio – para o cavalheiro o texto nunca mais voltará a
pertencer-lhe. a alma do homem-escritor perdida para sempre – e o humano que lê
gosta e ama. não gosta e não ama – recorda e ama. não gosta e esquece – acredita
e sonha. não acredita e o pesadelo acontece – sente verdade e acalenta.
experimenta mentira e o gelo aparece – exigente. egoísta. quer sentir as
palavras como se fossem suas. uma boca para compensar outra – sou também tu
–“ser poeta é ser mais alto. é ser maior” – uma vida à procura do belo-supremo
e o tudo é quase sempre nada ao dia seguinte – as palavras de ontem estão
mortas. o belo é agora arrependimento. a história repete-se. tudo que é palavra
está amaldiçoado – tudo se resume a dar vida ao ouvir dos olhos – o escrevedor
vive com o nascer das palavras e morre com o sono
[4
de 4] – fim
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