.................................................................................não tirem o vento às gaivotas

02/06/2014

balancete


radaelli
 

sou – tu. escrita. agora és o meu alimento – bem sei que as palavras estão sem sal. sem vinagre. sem cozedura. sem a força do fogo sagrado. bem sei – trago dentro de mim frases feitas e não sei para que servem. são recordações – amargurado. escrevo – a mágoa alonga sempre o que escrevo – as palavras multiplicam-se na exata medida da mágoa – o que não era relevante é agora tudo o que me resta de um tempo fértil – e eu em banho-maria. a levantar fervura de recordações que nem sabia existirem – um homem carregado de recordações pode morrer a qualquer momento – tempo-sábio. aprendemos tanto com a soma dos dias – trezentos e sessenta e cinco vezes cinquenta e dois. isto é igual… o resultado pouco importa. sei que é muito tempo – depois. chega a prova dos nove. quase tudo é resto zero – nas contas do tempo sobram unicamente as recordações. centésimas que fazem a diferença no acerto das contas – agora. sou feito de tempo e recordações – escrever é um ato solitário. um encontro com o silêncio de todas as almas. cobrem-me com uma proteção sagrada. a mão escreve em estado puro. sem pecado. sem remorsos. sem relógio. sem idade. sem nenhum dedo a julgar. e a balança parada num equilíbrio justo: de um lado o homem errante. do outro. em jeito de contrapeso. o perdão sobre a minha palavra de honra – sou feito de tempo – para quem escreve. o silêncio é a única prova de que a vida existe – no interior as palavras libertam-se finalmente das correntes. o passado volta a ser hoje – com a escrita. volto a ser o que fui. e então. como criança. reencontro a felicidade – ser feliz. alguém consegue ser feliz enquanto pensa?

– só escrevo com a mão direita e a direito

estou só. como gosto. e não tenho para quem ler esta folha. que ainda agora era branca. bastou um leve mover de mão. exagerado. para sarrabiscar tudo o que carrego numa saudade-medo – tenho medo de me esquecer – um dia esquecerei – sinto que as palavras são a única forma de não esquecer deste sou – podia trazer outro sou para a escrita. mas não. trago este – não escolhemos o sou nem o seu fruto. somos o que somos. e não há forma de fugir às palavras que me crescem nas mãos deste sou – da mesma forma que as macieiras dão maçãs e não dão cerejas – sou este sou e nunca conseguirei ser outro – cada árvore dá o que tem na raiz. e a minha raiz é esta. o corpo caído para norte. a mão a teimar escrever para sul – escrevo torto por linhas direitas – escrevo para dizer que existo. se não tivesse estas palavras como testemunhas. neste papel que já foi árvore. ninguém saberia da minha existência. talvez nem eu – neste tempo grisalho. os sonhos encolhem-se cada vez mais – quando escrevo. faço-me existir. ler-me é saber que existo de verdade – escrevo. logo existo

 


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