.................................................................................não tirem o vento às gaivotas

30/06/2014

pescadinha de rabo na boca




françoise nielly
 
 


quem escreve
teme
quem teme
existe
quem existe
vive
quem vive
sofre
quem sofre
escreve
quem escreve
teme
 
 
 

foi pela mão de um poeta que nasceu a expressão: pescadinha de rabo na boca

 


29/06/2014

palavras do poeta




paulo themudo*
 
 



tenho dias que sem saber escrever.
arranjo um sonho para poder contar.
dias que nada sou sem a utopia.
daqueles que me impelem a escrever.
são os mestres. os poetas.
donos na proficiência de domar letras;
como seria se apenas eu escrevesse?
seriam letras sozinhas. chorosas.
moribundas do desgosto.
despidas de emoção da pureza das ideias.
letras privadas do contraste das cores
e o amarelo. seria verde?
o florir dos campos
seriam searas
ceifadas em campos vazios de saber
onde os pássaros voariam
apenas baixinho…
e o poeta?
poderia ele morrer?
sozinho. entre palavras que nunca atracaram.
palavras azedas. onde o pólen
nunca voará.
palavra que é palavra 
veste-se para ser ouvida.
acarinhada. açoitada
maltratada. amada.
riscada. desenhada.
ou apenas um aceno
no coração de quem precisa
palavra honrada será sempre de todos.
desde que traga com ela
o orgulho de camões
a nós compete-nos apenas
mantê-las virtuosas e belas

 

 
paulo themudo* - tenho o prazer de conhecer pessoalmente da minha cidade e aconselho vivamente a visitar a sua obra





28/06/2014

meta[-]morfose




a. amorim
 



noite: o coração bate borboletas
– crisálida –
manhã: ressurreição de um outro mundo



25/06/2014

guilhotinei-me




google - autor desconhecido
 

I.

prostrado no estrado de madeira o tronco – guilhotinei-me. a cabeça rebolou em silêncio para o lado dos rejeitados repousando agora à beira do precipício – a norte. as testemunhas assistem vigilantes ao fim aguardando calmamente o último suspiro – olham uns para os outros. e num silêncio uníssono. agitam as cabeças para baixo e para cima – morta – na cabeça inerte só os olhos teimam em guardar o que resta da vida. abertos. fitam o mundo a sul. agora num plano raso. profundidade horizontal. olhos e vida deitados no mesmo estrado – tudo o que era vertical está agora nivelado pela linha imaginária do horizonte – o mundo também foi guilhotinado – nuvens tombadas. árvores tombadas. casas tombadas. janelas tombadas. chaminés tombadas com o fumo a desfalecer pelo chão. talvez morto. guilhotinado também – só as crianças se mantêm de pé – talvez o mundo exista para ser olhado de outra forma que não na vertical – agora está tudo deitado. tudo inclinado para perto da terra. a fazer lembrar a trágica constatação de eclesiastes : “Tudo caminha para um mesmo lugar; tudo vem do pó e tudo volta ao pó” – nunca me tinha apercebido de que para os lados também se faz vida. só quando estamos prostrados é que compreendemos que o mundo é feito de lados – aglomerados de pessoas marcam lugares como se fossem a rosa dos ventos. fazem vida para todos os lados. só o norte aponta sempre para o mesmo sítio. guilhotina – nunca vi uma rosa dos ventos enquanto suportei o corpo na vertical – talvez estivesse a olhar o céu. talvez estivesse à procura de uma estrela com o meu nome. nunca vi nenhuma. nem mesmo a estrela polar – crescer para os lados é a prioridade. crescer para o céu só depois de preenchido o intervalo vazio entre lados – para os lados crescemos em direção ao nosso semelhante. não crescemos para cima indiscriminadamente. crescemos de encontro uns aos outros e quando nos tocamos acabam os lados. ficamos ligados pelo toque. pelo encontro da pele e o que era esquerda é agora centro. e a minha direita é a esquerda de quem vem ao meu encontro – a fusão de pequenos núcleos formam um núcleo colossal. único. monocelular. e a teoria de einstein aplicada ao homem. um novo big bang dá origem a um novo planeta-luz – a radiação de luz solidária é uma nova recombinação molecular do material genético humano – talvez neste novo homem se possa aplicar a teoria renegada pelos físicos do estado estacionário – agora há matéria nova nos intervalos crescentes. o toque da pele é real – crescer para os lados é o triunfo sólido da evolução das espécies de darwin. evoluímos por processos naturais. crescemos em resultado do erro. da persistência para o evitar. da vontade de nos superarmos. crescemos porque fizemos da vida uma marcha coletiva. distinguimos o bem do mal. o homem do animal. o abraço do gelo. o beijo do punhal. a fé do desalento. crescemos porque a dor deixou a singularidade e fundiu-se numa pluralidade de inteligência emocional – foi assim que as montanhas cresceram. primeiro para os lados e só quando se tocaram é que cresceram para o céu – depois apareceram as nuvens. trouxeram água. de seguida os pássaros. os peixes. as flores. as árvores. e quando tudo era perfeito plantaram-lhe crianças a jogar à bola. às escondidas. à macaca. à estátua e por último desenharam-lhes na face sorrisos infinitos. sorrisos que nascem para lá da linha do horizonte – dentro dos sorrisos um planeta azul. redondo. com mar. sol e sal – não há crianças sem sorrisos – enquanto estive com a cabeça ligada ao tronco convenci-me de que só era possível crescer para cima. ingénuo. a ambição de crescer para as estrelas não dava tréguas ao corpo – as montanhas queriam tocar o céu. as árvores queriam tapar o sol. os rios queriam galgar as margens. e os pássaros de um lado para o outro a fugirem de mãos-prisão – nenhum pássaro vive sem liberdade. voar em sentido contrário às nuvens é a solução. voar para sul. voar para a terra quente. terra da fraternidade – só os pássaros voam junto ao céu. os homens nunca serão capazes de voar junto ao céu. o céu não é dos homens. muito menos daqueles que cortam a cabeça – para o céu só vão as crianças que cresceram para os lados – as crianças que conheço cresceram todas em direção ao céu. fizeram-se homens. algumas têm as cabeças presas por um fio. perderam-se em pecados terrenos e partiram para norte à procura da criança perdida – caminham descalços e a falar sozinhos. atiram pedras ao passado sem nunca acertar – o passado sobrevive a tudo. às pedras. às desilusões. às injustiças. às perdas. às lágrimas. ao arrependimento. à segregação. ao fim do corpo uno – o passado alimenta-se da dor. do erro. do equívoco. da frustração. depois vem o silêncio. a solidão e o fim dos sonhos – sem asas não há céu – os homens não têm asas. têm sonhos. mas nem todos os sonhos conseguem a voar  

 

II.

sinto a cabeça pesada. deve ser de estar parada nesta posição. a olhar a sul. sinto o cabelo desarrumado e não tenho mãos para o ajeitar – não sei porque me importa o cabelo agora se estou decapitado. quando tinha mãos nunca o ajeitava. andava sempre no ar e nunca percebi porquê. talvez fosse das correrias e agora que estou decapitado chegou-me a vaidade – resquícios da educação. um homem deve perder a cabeça asseado. ainda ouço a minha mãe dizer: esse cabelo está uma vergonha. tens que ir ao barbeiro. pareces um pobre de pedir – tinha razão. sempre fui um pobre de pedir. mesmo quando vinha do barbeiro com o cabelo cortado à navalha. sempre soube que o meu destino seria feito à lâmina – continuo com a cabeça ao pé do precipício. não me importo nem tiro os olhos da linha do horizonte. não quero saber. agora é tarde. sempre me dei bem perto dos precipícios. tal como ulisses também eu tive de me amarrar á vida para resistir ao chamamento das ninfas dos precipícios – nunca coloquei cera nos ouvidos. sempre gostei de ouvir: sampaio. sampaio. sampaio salta. salta. a felicidade está no desconhecido – em equilíbrio e num pé só. com o corpo a querer ficar e a cabeça a pedir para cair. com os pássaros a voar em círculo como se a morte estivesse anunciada pelo cai ou não cai da cabeça. a mão num dilema. apanho um pássaro. não apanho. só quero um par de asas. mais nada – ambição amaldiçoada – em frente aos olhos o céu estatelado. horizontal como eu. o que teria acontecido? será que também foi decapitado e tombou no meu estrado? não creio. o céu não me fazia uma desfeita dessas. um homem que corta a cabeça não quer o céu como companhia – quando nos guilhotinamos não queremos esperança. não queremos uma nova fé. queremos desistir. partir para um lugar onde ninguém saiba nada de guilhotinas. queremos silêncio – quero ficar só. quero abraçar-me sozinho. beijar-me. perdoar-me no tempo. não quero o céu no meu estrado. não quero – no céu só tem entrada quem morre a mando de deus – não me dou com deus – tenho a certeza de que deus não suporta ouvir o meu nome quanto mais chamar-me para o seu pé – confesso que também não ia. não quero como parceiro um deus injusto. sempre com a treta de que está literalmente em todo lugar. isto é. omnipresente – mentiroso. nunca o senti por perto – em mateus 18:20. jesus faz uma promessa aos que lhe consagram a vida a servi-lo: “Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles” – treteiro. em minha casa sempre nos reuníamos em sua honra e nunca o senti no nosso meio – éramos mais de dois ou três. éramos uma família inteira – para perder a cabeça não preciso de nenhum chamamento. sou mouco há muito tempo. muito antes de começar a pensar em guilhotinar-me. muito antes – o dia está cinzento. cinzento-triste. talvez cinzento-descanso. mas que seja só cinzento. nunca guilhotinaria a cabeça num dia de sol. não quero ficar amarrado a nenhum raio de sol – o céu está deitado a meu lado para me ver fechar os olhos. apagar definitivamente o passado. sem pedras a magoar – talvez o céu me queira a dormir por uma última vez. quando durmo sou feliz. os sonhos nunca deixam de ser sonhos. confesso que a  alguns faço-os voar. transformo-os em gaivotas malhadas. das que não têm medo das nortadas – talvez consiga pôr o céu a dormir um soninho. pequenino. aconchegadinho. os dois enroladinhos um no outro por uma última vez – não é fácil. quem sabe se hoje é o meu dia da sorte – ficava feliz. nunca o vi de olhos fechados. anda sempre a correr de um lado para o outro. sempre a dizer que pode acabar tudo a qualquer momento e que a vida passa num abrir e fechar de olhos – se o céu adormecer a meu lado. nem que seja só por um momento. prometo que quando acordar não terá mais os olhos virados a sul aceitarei o destino com resignação e adotarei para sempre o norte como a minha última morada. prometo. nunca quebro uma promessa – o silêncio é agora verdadeiro. quando perdemos a cabeça do corpo o silêncio é de cortar à lâmina – as mão atadas atrás das costas suam enquanto o tronco espera pela absolvição de todos os pecados – não se move. sabe que perdeu a cabeça. não é a primeira vez na vida. já em outras ocasiões andou sem cabeça e nem por isso deixou de fazer o que estava certo. só não tinha as mãos presas – desta vez é diferente. o corpo sabe que nada voltará a ser como dantes – agora tudo vai ser muito mais difícil. sem mãos não vai ser fácil – também não sei se quero ver de novo as mãos desatadas – há nós que nunca se devem desatar. são feitos de destino. e no destino não se deve tocar – não percebo porque é que o destino me reservou este final de mãos atadas. nunca fizeram nada de jeito para merecer este castigo – quando digo nada é mesmo nada – se o destino me queria castigar. apertava-me o pescoço num laço apertado. e talvez assim tivesse evitado a guilhotina – não adianta. o que está feito. feito está. a cabeça está separada e para cá não volta – só encontro uma razão para as mãos estarem atadas. não me deixarem escrever – estupidez – não sei para quê. sempre que escrevo as palavras dizem coisas que a maioria das pessoas não entende. coisas que fui amealhando da vida – não é fácil dizer o que me vai na alma com as mãos atadas e a cabeça guilhotinada – estou doido. juro que não sabia. se fosse sãozinho não me guilhotinava  – tantas vezes me diziam: a escrever essas coisas um dia vais acabar no inferno – ninguém consegue chegar ao céu só porque tem a cabeça bem presa ao tronco. é preciso ter asas – não tenho asas. bem queria ser gaivota mas não sou – amo gaivotas. amo aquela liberdade de se atirarem contra o mar. contra o vento. contra o destino. com a coragem de construírem os seus abrigos em precipícios – mas agora com o céu de lado posso meter-me a caminho. talvez consiga chegar ao seu pé. mesmo que não leve a cabeça – estou mesmo doido. nunca pensei chegar a este estado de loucura – já não há mais mentira. o que sinto não é barulho. sinto o coração a baloiçar. num vai e vem que mais parece não levar a lado nenhum. cheguei a pensar que pudesse estar a soluçar. mas não. o meu coração já não sabe chorar.  o que sinto é o baloiçar puxado a vento norte – baloiça. para lá. para cá. para lá. para cá. num barulho que não é barulho. é silêncio sem retorno – baloiça com um corpo que por não ter olhos não sabe que este baloiçar é o perder da cabeça para sempre – não há arrependimento. um dia todos temos que partir. eu vou mais cedo. mas vou pelas minhas mãos e as guilhotinas são elegantes. vistosas. aparatosas. altas e as lâminas sempre afiadas. a cortar tudo de uma só pancada – poucos homens partem guilhotinados pelas suas mãos – o corpo bamboleia. para lá por força do vento norte. para cá escorraçado pelo vento sul. não há troncos sem cabeça a sul. a sul só se aceitam homens inteiros – é a guerra dos ventos e o corpo a bambolear contra o destino mesmo depois de perder a cabeça – neste ir e vir do corpo a cabeça mantém-se imóvel. olhos abertos. cabelo desarrumado. da boca nem um ai – não estranho. sempre fui assim. sempre andei para lá e para cá – não é justo. decapitei-me e mesmo assim não chega para poder descansar – nunca nada chega para este mundo que já não é céu. refém. dentro do corpo mesmo sem cabeça – talvez apareça uma mão a fechar-me os olhos. com os olhos fechados os sonhos voltam a existir e talvez alguns aprendam a voar – quando os olhos não abrem a noite fica eterna. os sonhos não acordam. a fantasia confunde-se com o real e as crianças nunca chegam a homens – quem sabe um dia o corpo acorda inteiro. acorda homem. acorda homem a jogar às escondidas. à macaca. à bola. á vida quase perfeita – infelizmente só a morte é redentora – é agora que creio na vida depois da morte. preciso de acreditar. mesmo que o corpo já não tenha cabeça para me dizer o que está certo ou errado – só quem morre sai do corpo e volta ao passado – é no passado que tenho gente à minha espera – decapitei-me e nem uma lágrima deito pelo homem que fui – o salmo 23  lembra que ele está ali. ainda que eu ande pelo vale da sombra e da morte. não temerei mal algum. porque ele está comigo – este ele é a minha esperança. não é deus é o meu pai





08/06/2014

deixo-te um beijo




ernst ludwig kirchner
 
 
olho para ti amor
e sinto o nunca -
nunca poderia viver sem ti
 
 
talvez o era uma vez -
era uma vez uma princesa
com cabelos dourados
 
 
na menina dos teus olhos
leio um desejo -
a loucura de me amar
 
 
se fosse poeta
talvez te escrevesse -
uma canção
 
 
mas não sou
sou apenas o teu amor -
louco por te tocar
 
 
crescemos tanto os dois
eu envelheci
mas tu…
tu…ficaste mais bonita
eu talvez mais homem
tu…mais brilhante
eu mais cego com o teu brilho
 
 
crescemos tanto amor
e tu continuas tão bonita
sobras-me sempre nos abraços
um dia vou conseguir
trazer-te toda para dentro de mim
e dizer baixinho:
amo-te mais hoje do que ontem
 
 
deixo-te um beijo
 



06/06/2014

Bernardo Soares




bernardo soares - fernando pessoa




A solidão desola-me, a companhia oprime-me. A presença de outra pessoa descaminha-me os pensamentos.



Bernardo Soares - Livro do Desassossego



05/06/2014

não leia prosa




sérgio gaspar
 
 
 
ler prosa é uma chatice de grande desgaste intelectual  onde os minutos são como elefantes. pesados .lentos e  com trombas
 
[para dar descanso os meus amigos leitores prosistas resolvi tirar o dia para versejar um pouco]
 
ler prosa
é uma  chatice
 desgasta ? sim. desgasta
intelectualmente . às vezes
gasta? sim. gasta
os minutos
e os elefantes também
cria trombas? sim. cria
ao leitor
e ao escritor
 
os elefantes já nascem trombudos




04/06/2014

estar morto é o contrário de ter memória




pintura digital - ivan solyaev

 
 
 
momentos em que morro – morro para me apagar do mundo – estar morto é bom. estar morto é o contrário de ter memória. é sair do corpo. entrar por uma rua qualquer sem hora de retorno –
 
                                                        perguntam-me: a que horas voltas
 
não sei. não esperem por mim. vão comendo. não deixem arrefecer a comida – quando chegar como o que houver. aqueço os restos – sempre me dei bem com os restos. liga bem com o que resta de mim – nos restos acabo sempre por encontrar muito do que sou – não me importo de comer comida aquecida. às vezes até é melhor. está mais apurada. como eu – também sou apurado – gosto de paladares fortes. às vezes picantes. doces também. e salgados e insossos como nos hospitais. com a enfermeira a gritar em voz dominadora: o sr. doutor mandou fazer uma dietinha. tudo a meio sal. tem que ser sr. sampaio. é para seu bem –
 
                                                              quem é que sabe o que é melhor para mim. na minha doença não há doutores  
 
não gosto nada de comida a meio de qualquer coisa. ou é ou não é. ou desce a garganta ou não desce – não suporto meias descidas. o meu paladar não aguenta estas coisas do era e não era – para mim não há trinta e seis. só o oito ou o oitenta – desde que a comida chegue inteira até pode tostar o céu-da-boca –
 
                                                        merda. a comida está quente pra caraças
 
é o único céu que conheço. sem constelações. sem estrelas. sem cometas a indicar acontecimentos de coisas que depois não acontecem. sem descobertas de novas galáxias onde meia dúzia de iluminados garantem que finalmente é possível provar a existência de extraterrestres – no meu céu-da-boca a única forma de vida resistente ao meu oito ou oitenta são organismos que vivem em comunidade com outros que não dou importância: parasitas – este ser vivo aproveita-se de mim alimentando-se de restos de palavras difíceis que. por não saber escrever. não sei engolir –
 
                                                              ainda não percebi ao certo se são os parasitas que vivem das minhas palavras. ou pelo contrário. sou eu que os alimento para não findar esta vontade de encontrar novas palavras
 
não importa – nada disto é essencial para deglutir o que me escalda o céu-da-boca – importante é saber que a dor existe. não há palavra sem dor. mas homem que é homem aguenta a dor – com o tempo fui aprendendo a proteger-me destas peladelas maldosas. tantas vezes te queimas que passa a ser hábito –  comer muitas vezes é um verdadeiro inferno. mas se o que me chega à boca queimar dou duas voltas e mando tudo para baixo num só trago – prefiro que me queime as tripas do que o céu-da-boca. um homem sem céu não vive em paz –
 
                                                             o inferno conheço eu bem. já do céu sei o que vou ouvindo pelas esquinas do inferno
 
mas se a comida estiver esfriada também engulo. com custo mas engulo. não gosto de fazer dos restos mais restos – sempre ouvi a minha mãe dizer que estragar comida é pecado – o que aprendemos em criança fica para sempre. e pesa como chumbo. por muito que queiras modificar não consegues. afinal de contas foi a tua mãe que disse. e mãe só há uma e onde há mãe há um céu que não queima – por tudo isto não consigo estragar comida. prefiro estragar-me a mim. eu sou forte. aguento tudo. e quando a força me abandona morro. morto sou mais feliz do que quando estou vivo e não sou obrigado a comer o que não quero –  
 
                                                               por favor não esperem. desta vez não sei quanto tempo preciso de estar morto
 
quando deixo de acreditar necessito de ficar morto – quando estou morto não tenho telefone. nem facebook. nem likes. nem email`s. máquina de lavar. micro-ondas ou outra qualquer tecnologia que produza metamorfoses que me usurpem esta vontade de morrer-catarse –  inevitavelmente só a morte limpa o corpo. é assim comigo – acredito nesta inevitabilidade. por isso quero morrer. não sei por quanto tempo. mas também não é importante. o que me faz morrer não me faz viver –
 
                                                              a morte é a conquista definitiva do silêncio
 
quando morro encontro-me com um tempo só meu. um tempo de perdão. também preciso de me perdoar e quem sabe aprendo a perdoar os outros com mais doçura – quando estou morto esqueço os amigos. estimo-os demais para os obrigar a estarem presentes na vida de quem morreu – amigo é coisa séria. não é palavra vã. é sacrifício agradável – sempre que morro o barulho ao meu redor diminui. gente que desconheço parte para locais que nunca saberei entender – gente. apenas gente – desta gente que me abandona nada sei. sei que partiram porque o barulho também partiu – um homem com barulho não consegue pensar. se falassem. nem precisavam de falar para mim. bastava que falassem – gosto tanto de ouvir pessoas a falar umas com as outras – mas perdoem-me. bem sei que não sou justo. e logo eu que não suporto a injustiça. mas incompreensivelmente tenho amigos que fazem barulho e gosto deles. gosto de os ouvir. não suportaria vê-los partir para lugares que nunca saberia entender – não sou injusto. sou apenas um homem –
 
                                                              os homens dos oito ou oitenta acabam sempre por perder amigosquem fala expõe-se  
 
quando chego da morte tenho sempre menos amigos à minha espera – já não me importo. tanto se me faz. eles lá têm as suas razões e eu gosto demasiadamente dos meus amigos para os questionar. quero sempre o melhor para quem gosto – estou convencido que a culpa é minha. ando sempre a morrer de um lado para o outro. não deve ser fácil ter amigos que morrem por tudo e por nada – os tempos mudaram e os amigos já não são como antigamente – hoje cada amigo tem a sua vida. e a maior parte dos que conheço nunca quiseram morrer. são felizes com barulho e estão sempre a sorrir de coisas que não sei valorizar – antigamente a palavra amigo era coisa de responsabilidade. amigo tirava a própria roupa do corpo. para dar ao seu amigo  
 
                                                             dá cá mais um aperto nestes ossos sampaio
 
o último tratado de amizade que li deixou-me com vontade de nunca mais morrer por coisa nenhuma – o romance do escritor húngaro sándor márai. as velas ardem até ao fim – nunca mais fui o mesmo. agora não me sai da ideia de um dia poder morrer por uma amizade igual à do henrik. esperou mais de quarenta anos para terminar o julgamento com o seu amigo konrad e assim poder morrer pela última vez com o amigo de uma vida – os livros são sempre tão bonitos e ensinam tanta coisa. tanta coisa de outras vidas – queria ser um livro assim –
 
 
                                                              como é que vou encontrar uma amizade para morrer feliz?
 
desculpo com mais facilidade aqueles que meteram papelada assinada sobre palavra-de-honra para uma amizade eterna e que. por um qualquer cansaço. separaram o abraço e partiram com a coragem de uma despedida do que aqueles que partem sem dizer que partiram– não gosto de perder amigos. tenho tão poucos e espaço também – quando deixo entrar no corpo novos amigos os que tenho ficam mais apertados. não é justo – nos dias de hoje nunca sabemos quem é o verdadeiro amigo. é tudo tão passageiro. tão material. tão interesseiro – não gosto de ver os meus amigos apertados por outros que não sendo verdadeiros amigos ocupam um espaço reservado a afetos do coração – esqueço igualmente os inimigos. os que fazem barulho e também os silenciosos. os indiferentes. os ingratos. os mal educados. os desarrumados. os que lhes falta bom-senso e que por via disso se tornam injustos teimando em atribuir a culpa ao feitio – todo o pecado tem remissão –
 
                                                        o meu corpo cada vez está mais apertado
 
quando morro. sinto obrigação de morrer de vez. não gosto de morrer aos bocadinhos – não sou capaz de fazer morrer o fígado num dia e no dia seguinte decretar a morte de um rim. ou pior ainda. estrangular a garganta numa semana e passado um mês silenciar os lábios – não sou capaz. não sou homem para deixar morrer o que é meu aos bocados. mesmo que nenhum dos órgãos já não valha grande coisa – não. não seria possível. não fui feito com esse fermento. não consigo ficar a levedar para morrer atrancado de palavras azedas – quando morro estou morto. estou todo morto ao mesmo tempo –
 
                                                        um homem de bem morto vale por dois
 
os mortos têm honra mesmo depois de mortos – não gosto que me tentem ressuscitar com velórios harmoniosos. criados em tempo que não sendo genuíno já não servem para coisa nenhuma e que por estar morto não ouço – estou morto porque optei por morrer. certo ou errado gosto de estar assim é no mundo dos mortos que melhor vejo os vivos – e não tenho dia certo para ressurgir. escusam de esperar. vão às vossas vidas e não deixem arrefecer a vossa comida – a maior parte de vocês não está preparado para comer a comida fria e muito menos aquecida –
 
                                                             há palavras que por serem verdadeiras não podem ser ditas em vida. magoam mais do que a própria morte
 
sou muito melhor morto do que vivo. morto não falo. nem me zango. nem olho para o lado. nem para cima e muito menos para baixo – detesto olhar para baixo quando tudo o que faço é para manter a cabeça em cima – com a cabeça em cima tenho os olhos em cima. e os olhos nunca me enganaram  – quando morro esqueço a falta que me faz ser desejado. esqueço os que não tem amor próprio. os que não sabem que amar é dar mais que receber. esqueço todas as dores que não são do corpo e as do corpo também –  quando morro esqueço que a vida continua mesmo para quem está morto por tempo indeterminado –
 
                                                             morto compreendo melhor o mundo dos vivos
 
não quero que esperem pela minha volta à vida. desta vez morro para poder descansar da vida – há momentos em que é melhor estar morto do que vivo – gosto de estar morto. quando estou morto tenho a certeza de que não posso voltar a morrer. estou protegido da vida – * “Por vezes é preciso morrer para ver melhor. Morrer para renascer.”
 
 
 
*“Por vezes é preciso morrer para ver melhor. Morrer para renascer.” - Paulo José Miranda
 
 

 

 

03/06/2014

Inscrição para um portão de cemitério




mário quintana
 
 
 
Na mesma pedra se encontram,
Conforme o povo traduz,
Quando se nasce - uma estrela,
Quando se morre - uma cruz.
Mas quantos que aqui repousam
Hão de emendar-nos assim:
"Ponham-me a cruz no princípio...
E a luz da estrela no fim!"


Mário Quintana


02/06/2014

balancete




radaelli
 



soutu. escrita. és agora o meu alimento – bem sei que as palavras estão sem sal. sem vinagre. sem cozedura. sem a força do deus fogo. bem sei – trago dentro de mim umas quantas frases feitas e não sei para que servem. recordações – amargurado. escrevo – a mágoa alonga sempre o que escrevo – as palavras multiplicam-se na proporcionalidade da mágoa – o que não era relevante é agora tudo o que me resta de um tempo fértil – e eu em banho-maria. a levantar fervura de recordações que nem sabia existirem – um homem com recordações pode morrer a qualquer momento – tempo-sábio. aprendemos tanto com a soma dos dias – trezentos e sessenta e cinco dias vezes cinquenta e dois isto é igual… não interessa. sei que é muito tempo – depois. chega a prova dos nove e quase tudo é resto zero – nas contas do tempo sobram unicamente as recordações. centésimas que fazem a diferença no acerto das contas – agora sou feito de tempo e recordações – escrever é um ato solitário – quando escrevo encontro o silêncio de todas as almas do mundo. cobrem-me com uma proteção sagrada. e a mão escreve num silêncio divino. em estado puro. sem pecado. sem remorsos. sem relógio. sem idade. sem nenhum dedo a julgar. e a balança parada num equilíbrio justo: de um lado o homem errante. do outro. em jeito de contrapeso. o perdão sobre a minha palavra de honra – sou feito de tempo – o silêncio para quem escreve é a prova de que a vida existe – no interior as palavras libertam-se finalmente das correntes. e o passado volta a ser hoje – com a escrita consigo ser hoje o que fui no passado e então. como criança. sou novamente feliz – ser feliz. alguém consegue ser feliz enquanto pensa?
– só escrevo com a mão direita e a direito
estou só. como gosto. e não tenho para quem ler esta folha. que ainda agora era branca. bastou um leve mover de mão. exagerado. para sarrabiscar tudo o que carrego numa saudade-medo – tenho medo de me esquecer – um dia esqueço-me – sinto que as palavras são a única forma de não deixar esquecer este sou – podia trazer outro sou para a escrita. mas não. trago este – não escolhemos o sou nem o seu fruto. somos o que somos e não há forma de fugir às palavras que me crescem nas mãos deste sou – da mesma forma que as macieiras dão maçãs e não dão cerejas – sou este sou e nunca conseguirei ser outro – cada árvore dá o que tem na raiz. e a minha raiz é esta. assim. com o corpo caído para norte e a mão a teimar escrever para sul – escrevo torto por linhas direitas – escrevo para dizer que existo. se não tivesse estas palavras como testemunhas. neste papel que já foi árvore. ninguém  saberia da minha existência. talvez nem eu – neste tempo grisalho. os sonhos são cada vez mais pequenos – quando escrevo faço-me existir. lerem-me é saber que existo de verdade – escrevo logo existo