.................................................................................não tirem o vento às gaivotas

13/04/2017

se um dia todas as noites


nick keller


se um dia todas as noites se tornassem dia. talvez eu me cansasse de escrever como escrevo. com esta letra escura. negra. feita de desassossego. pendurada numa luz que se escoa entre palavras moribundas – aqui estou eu numa noite que não é dia. num dia que nunca deixará de ser noite. e tudo a balançar entre o divino e o pecado – já não sei rezar à noite. talvez tenha perdido a oração ou talvez a vida. todos os momentos são agora um precipício – esta noite sou o que sempre fui. sou saudade que carrego de uma rua que me chama de volta – um dia voltarei ao mundo revestido de dias sem noites. com luz que nunca se apaga. com uma lua que nunca dorme. com uma cama que nunca sufoca – um dia serei louco. farei de cada letra um farol para náufragos do papel à deriva em noites de negrume – um dia serei eu própria luz. e as noites nunca mais serão longe. o amor será próximo. e o corpo um pequeno universo – noite escura. negra de carvão. negra de almas pecadoras. negra como se não fosse uma cor de deus. e eu um infiel condenado – este negro da noite sufoca-me de solidão. sei que um dia perderei o que ainda me resta desta pequena luz – se um dia todas as noites se tornassem dia. eu não aguentaria


Sem comentários:

Enviar um comentário