este poema é teu
[sempre que perdemos alguém que
nos quer bem - com a sua leitura]
procuro-te
procuro-te todos os
dias mesmo que não saiba onde te encontrar
fugiste-me.
fizeste-te silêncio
ocupaste as mãos que
me tocavam com o primeiro sol da manhã
e o que era
pressentimento passou a separação
agora. tudo me rasga
nestas veias de sino
emersas em sangue e
gás sarin
e sufoco
sufoco quando calo
esta boca cada vez mais imunda
e por mais que os
astros se alinhem em perdão
o corpo bate em
retirada
águas perdidas não
moem sentimento
agora
o som da tua voz
emancipada pela distância
é fúria de cem
fantasmas
paridos em almofia de
solidão
procuro-te
procuro-te todos os
dias mesmo que não saiba onde te encontrar
procuro-te para
renasceres
no que sobra deste
corpo esquecido
magoaste-me como
magoa o som da trovoada
cravaste-me a
ausência ao peito
enfureceste-me
roubaste-me o perdão
e agora as palavras
são o que são:
sujas e aflitas
maldito seja este eu
que vive na ponta da flecha
procuro-te
procuro-te todos os
dias mesmo que não saiba onde te encontrar
não te procuro para
escutar o teu nome ofendido
procuro-te para que
me voltes a encontrar em frente a ti
olha-me. corta-me com
o silêncio que inventaste
e a pedra que não
atiraste
nunca mais te voltará
à mão
fugiste-me.
fizeste-te memória
nessa corda
silenciosa
presa a pássaro que
não voa
nem sou deus. nem
diabo
nem proveito preso a
sino que bate ausência
sou talvez… sentença
magoada
procuro-te
procuro-te todos os
dias mesmo que não saiba onde te encontrar
procuro-te mesmo que
o corpo já não saiba o que procurar
e por cada pancada do
sino
paira uma gaivota no
ar
e pergunto à boca:
será este o meu
destino?
não sei -
ouvir-te é um
desígnio
nesta imensidão de
mim
que te procura sem
cansar
serei doente em terra
apodrecida?
não sei
as veias dilatadas de
tanto escorrer fim
amargam raiva num
desvario despercebido
raio de dor essa de
ter sinos a gemer
se não sei a cor do
que geme
nem o que geme é
alerta
dentro de mim
e agora estou assim:
coisa inútil nesta
espera
que te espera
procuro-te
procuro-te todos os
dias mesmo que não saiba onde te encontrar
procuro-te para que
me declares de vez
o silêncio da tua
boca
mas se as palavras te
fugirem para a indiferença
que seja por carta ou
por abraço
que o destino me
desprenda ao que sobra das manhãs
e se um dia morreres
dentro de mim
então
os sinos que batam
sem parar
batam sem ser devagar
batam castigo que não
seja dor
porque o tempo
roubado a vénus
é punição que não
sustento
procuro-te
procuro-te todos os
dias mesmo que não saiba onde te encontrar
e o que parecia um
sonho
é afinal um avião a
voar para o fim do mundo
fugiste para onde eu
nunca parti
e o corpo é agora um
grito que ecoa em palavra triste:
mata-me. mata-me ou
salva-me da tourada
em que ficou a minha
rua
acende-me o corpo com
os teus olhos
incendeia-me as mãos
de virtude
mesmo que o sol se
esconda no teu regaço
e se algum dia
escutares touros a correr com saudade
se algum dia ouvires
sinos a evocar tristeza
e mesmo que nada
entendas de cores
não me voltes a fugir
são apenas palavras
minhas
a falar para ti
procuro-te
e pela última vez te
imploro
lê
este poema é teu
[abril trouxe-me ao mundo – brevemente completarei mais um aniversário natalício e. mais uma vez a soma deste aniversário é diferente de tudo aquilo que aprendi no último ano – mas a vida já me ensinou a não procurar mais o santo graal – escrever é a minha expiação. pacificação do corpo – sou feliz a escrever e se houvesse uma porta para o passado. tipo exterminador. sentar-me-ia na primeira carteira da minha escola primária para aprender todas as palavras que perdi pelo caminho – escrever faz-me viver em compromisso com o bem. com dignidade. com verdade. num abraço silencioso. verdadeiro e infindável – por isso aqui estou. em palavra humilde. e com um imenso obrigado a todos aqueles que se me entregam com a sua leitura – confesso-vos que nada mais me poderia deixar-me tão feliz – grato para sempre]
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