encosto o corpo à cadeira. recolho-me num escritório
esgotado de reboliço. retiro as
concordâncias para o lado. fecho o word e olho pela janela com a sensação de
dever cumprido – dou o que tenho e o que não tenho por cada palavra. quem assim
o faz a mais não é obrigado – a noite anuncia em breve a chegada do dia. as
estrelas estão em debandada. o escuro já não é um escuro de meter medo enquanto
os demónios fogem a sete pés para as catacumbas – reconforto-me numa poltrona
que me pertence. o tempo cavou-lhe o esboço do corpo. acerto-me. encaixo na
perfeição e procuro arredar-me do que sobra da noite. engulo duas golfadas de
ar. liberto-me na desarrumação mental e livro-me do corpo – por fim. livre de
todas as malapatas emito um último pedido em banda divina: encomendo aos meus
guias espirituais um punhado de sonhos felizes – quando encontrar esse sono afortunado
terei então oportunidade de descansar da vida e retratar a morte: sossego
absoluto – viver é uma barulheira infernal – sentado e sem corpo. coloco os
olhos no parapeito da janela e ordeno-lhes com semblante autoritário: façam o
favor de me trazer ao corpo os primeiros raios de luz da manhã – ninguém
consegue dormir em silêncio sem pelo menos um raio de luz dentro do corpo – esta
não é uma manhã qualquer. é a manhã que traz a primavera. a estação das flores.
dos pássaros. da fruta. dos sorrisos em dias grandes. dos namorados encantados
com os ninhos das andorinhas. das amizades leais. dos abraços entre pais e
filhos. da esperança. da fartura e do conseguimento do corpo para apreender que
a vida depende de um raio de sol – com a primavera esqueço que o março é madrasto.
esqueço a saudade do meu pai e também esqueço as saudades que tenho de mim – tenho
tantas saudades de mim – cresci em demasia. nunca deveria ter crescido. nunca
me devia ter desfeito dos meus calções com suspensórios. da bola de couro. daquele
chapeuzinho redondo com que um dia atravessei o rio minho no colo de minha mãe.
do cheiro a terra na minha aldeia. ou do reboliço na minha cidade com a feira
semanal – hoje sei que cresci enganado – cresci. mas não esqueço a minha rua. o
mercado. os camiões da fruta a chegar ao mercado. e os carrejões sujos como
áfrica a carregar as primeiras uvas do algarve – não esqueço as tendas a vender
coisas e coisinhas e aquela gente de preto. mal vestida. suja por fora.
limpíssima por dentro. e o bom dia numa vénia humilde. límpida. de gente genuína.
gente do meu chão que carregava à cabeça sorrisos de encantar. simples. bonitos.
agradecidos a cada raio de sol mesmo quando a boca se fechava de fome – não devia
ter crescido. era um miúdo feliz. bonito por dentro e por fora. gostava da
minha escola com os seus catraios esfarrapados. pobres como jó. e eu a comer pão
com marmelada. eles especados. com os olhos a afoguear necessidade. e eu de
bata azul às riscas a imaginar o mundo do tamanho do recreio da escola. raparigas
de um lado. nós do outro. e a professora a meio. alta num corpo de mulher
perfeita. bata branca. como se tivesse descido do céu. linda. com as mãos a
cheirar a conhecimento. e a boca transbordando de letras e números – assim aprendi
a ler. os olhos grandes de alegria e o a. e. i. o. u desenhado na perfeição num
caderno de duas linhas que nunca se cruzavam – o mundo cabia-me tudinho nos
olhos. os sinos batiam as horas certas e a vida anunciava-se tranquila e pressentível.
gostava de viver e gostava de falar com deus – mas cresci. agora estou enorme.
afundado numa cadeira maior do que eu. com umas mãos que não sabem escrever em
cadernos com linhas – agora já não há
magia. nem hora para o recreio. deus deixou de falar comigo. tirou-me a
professora – estou cansado de mim. o sol nasce todos os dias da mesma forma.
sem trazer o imprevisível. a inocência. aquela esperança cega ou a teimosia. é um
sol amorfo. batoteiro. sem aquele calor que queimava. mas não trilhava e sem aquela
vontade ingénua de arrastar o corpo para um imenso que afinal nunca descobri –
aqui estou nesta primavera que já não reconheço como minha. a apontar para
dentro do corpo perdido de quase tudo. a olhar o passado como se tudo em mim
cheirasse a defunto. imóvel. sem uma única palavra da minha escola. com a linha
do sorriso a cair do queixo e os olhos emudecidos seguram as pernas para não
saírem a correr pela desgraça – que saudades tenho do pão com marmelada. que
saudades tenho de mim – olho-me de cima a baixo. junto ao corpo uma pistola
imaginária apontada ao que sobra do meu nome. e o dedo a tremer. disparo? não
disparo? – onde anda a minha professora? onde anda a minha tabuada? tanta
reguada para coisa nenhuma – agora as máquinas resolvem as contas de uma vida
num segundo – um segundo que nunca terá a magia das mãos da minha professora.
uma máquina nunca será alta. bonita. nem nunca virá do céu. nunca. talvez do
inferno. porque tudo à minha volta é máquina e tudo parece um inferno – mas não
é a mesma coisa. as máquinas não cantam a tabuada. fazem as contas. mas não
cantam. nem sabem o valor de um pão com marmelada. e muito menos do que é ter
uma professora – estou triste. amargurado. abril trouxe-me ao mundo e o mundo é
demasiado belo para tanta tristeza dentro de mim – nunca sabemos quando vai ser
a nossa última manhã. e talvez nem importe. hoje tenho este dia para viver e
vou amarrá-lo ao corpo como se ainda usasse calções e a bola rolasse de pé em
pé. os amigos a deitar passos para
escolher a equipa do maior para o mais pequeno e o jogo a mudar aos oito e
acabar com oitenta primaveras. para todos – brevemente será abril. o mês que me
trouxe à vida enrodilhou-me num trapo e ali fiquei para crescer. escondido de
mim e de todas as palavras do mundo – é nas noites de abril que resisto aos
intervalos do coração a bater. resisto em silêncio para que a magia volte a
romper num amanhecer e me traga um raio de sol inocente. porque em cada raio de
sol vive uma gaivota. e em cada gaivota um vento sul aberto a abril – sei que
um dia carregarei comigo todos os amanheceres de abril – mas resisto. resisto
amarrado a um raio de sol. de primavera.
de abril
.................................................................................não tirem o vento às gaivotas
11/04/2018
eu. a escola. e o pão com marmelada
ron mueck
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