.................................................................................não tirem o vento às gaivotas

11/04/2018

eu. a escola. e o pão com marmelada



ron mueck



encosto o corpo à cadeira. recolho-me num escritório esgotado de reboliço.  retiro as concordâncias para o lado. fecho o word e olho pela janela com a sensação de dever cumprido – dou o que tenho e o que não tenho por cada palavra. quem assim o faz a mais não é obrigado – a noite anuncia em breve a chegada do dia. as estrelas estão em debandada. o escuro já não é um escuro de meter medo enquanto os demónios fogem a sete pés para as catacumbas – reconforto-me numa poltrona que me pertence. o tempo cavou-lhe o esboço do corpo. acerto-me. encaixo na perfeição e procuro arredar-me do que sobra da noite. engulo duas golfadas de ar. liberto-me na desarrumação mental e livro-me do corpo – por fim. livre de todas as malapatas emito um último pedido em banda divina: encomendo aos meus guias espirituais um punhado de sonhos felizes – quando encontrar esse sono afortunado terei então oportunidade de descansar da vida e retratar a morte: sossego absoluto – viver é uma barulheira infernal – sentado e sem corpo. coloco os olhos no parapeito da janela e ordeno-lhes com semblante autoritário: façam o favor de me trazer ao corpo os primeiros raios de luz da manhã – ninguém consegue dormir em silêncio sem pelo menos um raio de luz dentro do corpo – esta não é uma manhã qualquer. é a manhã que traz a primavera. a estação das flores. dos pássaros. da fruta. dos sorrisos em dias grandes. dos namorados encantados com os ninhos das andorinhas. das amizades leais. dos abraços entre pais e filhos. da esperança. da fartura e do conseguimento do corpo para apreender que a vida depende de um raio de sol – com a primavera esqueço que o março é madrasto. esqueço a saudade do meu pai e também esqueço as saudades que tenho de mim – tenho tantas saudades de mim – cresci em demasia. nunca deveria ter crescido. nunca me devia ter desfeito dos meus calções com suspensórios. da bola de couro. daquele chapeuzinho redondo com que um dia atravessei o rio minho no colo de minha mãe. do cheiro a terra na minha aldeia. ou do reboliço na minha cidade com a feira semanal – hoje sei que cresci enganado – cresci. mas não esqueço a minha rua. o mercado. os camiões da fruta a chegar ao mercado. e os carrejões sujos como áfrica a carregar as primeiras uvas do algarve – não esqueço as tendas a vender coisas e coisinhas e aquela gente de preto. mal vestida. suja por fora. limpíssima por dentro. e o bom dia numa vénia humilde. límpida. de gente genuína. gente do meu chão que carregava à cabeça sorrisos de encantar. simples. bonitos. agradecidos a cada raio de sol mesmo quando a boca se fechava de fome – não devia ter crescido. era um miúdo feliz. bonito por dentro e por fora. gostava da minha escola com os seus catraios esfarrapados. pobres como jó. e eu a comer pão com marmelada. eles especados. com os olhos a afoguear necessidade. e eu de bata azul às riscas a imaginar o mundo do tamanho do recreio da escola. raparigas de um lado. nós do outro. e a professora a meio. alta num corpo de mulher perfeita. bata branca. como se tivesse descido do céu. linda. com as mãos a cheirar a conhecimento. e a boca transbordando de letras e números – assim aprendi a ler. os olhos grandes de alegria e o a. e. i. o. u desenhado na perfeição num caderno de duas linhas que nunca se cruzavam – o mundo cabia-me tudinho nos olhos. os sinos batiam as horas certas e a vida anunciava-se tranquila e pressentível. gostava de viver e gostava de falar com deus – mas cresci. agora estou enorme. afundado numa cadeira maior do que eu. com umas mãos que não sabem escrever em cadernos com linhas –  agora já não há magia. nem hora para o recreio. deus deixou de falar comigo. tirou-me a professora – estou cansado de mim. o sol nasce todos os dias da mesma forma. sem trazer o imprevisível. a inocência. aquela esperança cega ou a teimosia. é um sol amorfo. batoteiro. sem aquele calor que queimava. mas não trilhava e sem aquela vontade ingénua de arrastar o corpo para um imenso que afinal nunca descobri – aqui estou nesta primavera que já não reconheço como minha. a apontar para dentro do corpo perdido de quase tudo. a olhar o passado como se tudo em mim cheirasse a defunto. imóvel. sem uma única palavra da minha escola. com a linha do sorriso a cair do queixo e os olhos emudecidos seguram as pernas para não saírem a correr pela desgraça – que saudades tenho do pão com marmelada. que saudades tenho de mim – olho-me de cima a baixo. junto ao corpo uma pistola imaginária apontada ao que sobra do meu nome. e o dedo a tremer. disparo? não disparo? – onde anda a minha professora? onde anda a minha tabuada? tanta reguada para coisa nenhuma – agora as máquinas resolvem as contas de uma vida num segundo – um segundo que nunca terá a magia das mãos da minha professora. uma máquina nunca será alta. bonita. nem nunca virá do céu. nunca. talvez do inferno. porque tudo à minha volta é máquina e tudo parece um inferno – mas não é a mesma coisa. as máquinas não cantam a tabuada. fazem as contas. mas não cantam. nem sabem o valor de um pão com marmelada. e muito menos do que é ter uma professora – estou triste. amargurado. abril trouxe-me ao mundo e o mundo é demasiado belo para tanta tristeza dentro de mim – nunca sabemos quando vai ser a nossa última manhã. e talvez nem importe. hoje tenho este dia para viver e vou amarrá-lo ao corpo como se ainda usasse calções e a bola rolasse de pé em pé.  os amigos a deitar passos para escolher a equipa do maior para o mais pequeno e o jogo a mudar aos oito e acabar com oitenta primaveras. para todos – brevemente será abril. o mês que me trouxe à vida enrodilhou-me num trapo e ali fiquei para crescer. escondido de mim e de todas as palavras do mundo – é nas noites de abril que resisto aos intervalos do coração a bater. resisto em silêncio para que a magia volte a romper num amanhecer e me traga um raio de sol inocente. porque em cada raio de sol vive uma gaivota. e em cada gaivota um vento sul aberto a abril – sei que um dia carregarei comigo todos os amanheceres de abril – mas resisto. resisto amarrado a um raio de sol. de primavera. de abril



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