.................................................................................não tirem o vento às gaivotas

04/06/2019

gosto






gosto de quem passa do meu lado e também gosto de quem passa do outro lado – gosto de quem passa para cá e também gosto de quem passa para lá – gosto de quem desce do céu e também gosto de quem sobe do inferno – gosto dos desconhecidos e também gosto dos conhecidos – gosto dos amigos porque gosto e também gosto dos amigos porque gostam de mim – gosto da minha família e não posso parar de gostar porque são sangue do meu sangue – gosto da minha companheira porque sem ela nunca saberia pronunciar o verbo gostar no incondicional – gosto de tê-la a meu lado. gosto de respeitá-la. gosto de lhe dizer que é a mãe dos meus filhos o que concede valor divino a este amor – gosto de a segredar. gosto de a ver sorrir. de a sentir feliz. respeitada por mim e por quem lhe passa pela vida. e gosto de lhe dizer: gosto muito de ti – gosto de a olhar nos olhos. gosto de a abraçar e mesmo nos dias em que não a abraço sei que não parei de gostar – gosto do silêncio do abraço. de a trazer para dentro de mim e escondê-la do mundo da estupidez e da raiva de quem não cabe dentro de um abraço – gosto de abraços. de abraçar e ser abraçado – um homem sem abraços é um homem pequenino. raquítico e mirrado – gosto de fazer alegria mesmo que dentro de mim a tristeza resista ao meu sorriso – gosto da vida cheia de gente. de gente que fala. que fala porque gosta de falar e que abraça porque gosta de abraçar – e agora. depois dos cinquenta. mais sábio. mais tolerante. também gosto daqueles que encontram desculpas para nada aprenderem com a ternura de um abraço. para a sua falta de gentileza por fadiga. de cortesia por machismo de género. de educação por iletrismo e de nobreza por ausência de grandeza – só não gosto de gente que procria a vulgaridade conspurcando as relações sociais com um neandertalismo que presumia já extinto – mas não importa. o importante mesmo é que gosto deste mundo imperfeito. redondo. azul. com mares. sol e sal. mesmo que às vezes me apareçam bestas quadradas. negras. sem mares. sem sol e sem sal – mas a vida é o que é. e hoje sabe-se que a evolução do homem não está completa. e também se sabe que alguns ficaram para trás. perderam-se na centrifugação do mundo e foram atirados para os polos – mesmo assim. gosto de andar por cá e continuo a gostar desta terra que herdei fruto de um abraço único há mais de cinquenta anos – pudesse eu explicar-lhes o valor desse abraço que me gerou. quer dizer. eu poder. podia. mas seria sequer ouvido?! haveria QI?! haveria vontade de sair dos polos?! não importa. existirei sempre para além da escuridão. do erro. da tristeza. da desilusão – sempre – e na minha mão. umas quantas flores colhidas em mim para vos oferecer



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