.................................................................................não tirem o vento às gaivotas

24/07/2019

ouço




noites onde o escuro é feito unicamente de sons – ouço. encolho-me contra a almofada. agonizo. suporto-me num quase-silêncio que me rompe os tímpanos e mutilo-me num negrume que me esconde o corpo dos próprios fantasmas.

 

ouço;

ouço orquestra. ouço hauser e a consciência a enlouquecer;

ouço datação. ouço paixão e coisas que já não sei como são;

ouço assombro. ouço asserção e palavras de papelão;

ouço lamentos. ouço frustração e o pulmão a pedir perdão;

ouço amigos. ouço tiaguinho e o mundo todo em pequenino;

ouço zé. ouço herói e a separação é o que dói;

ouço bola. ouço piões que nada sabem de ladrões;

ouço carrejões. ouço camiões com frutas de outras regiões;

ouço encarnado. ouço golão e a luz é lampião;

ouço crenças. ouço capelões e a religião aos trambolhões;  

ouço sombras. ouço lázaro e a luz voa como pássaro;

 

ouço amo-te. ouço sim e o caminho é valentim;

ouço prenha. ouço destino e a cabeça ficou sem tino;

ouço pai. ouço amor e o corpo todo num tremor;  

ouço moda. ouço glória e a roda é vitória;  

ouço coração. ouço vida e a alegria revivida;

ouço papá. ouço medo e a morte será cedo;

ouço saudade. ouço luanda e a luta não abranda; 

ouço caçula. ouço festança e tudo agora é mudança;

ouço horror. ouço despedidas e gritos que são partidas;

ouço terra. ouço dor […];

 

ouço ua. ouço ações em cinco gerações; 

ouço mutação. ouço destempo e a certeza num contratempo;

ouço livro. ouço glosas e leituras graciosas;

ouço braços. ouço labuta e a fábrica chalupa;

ouço aflição. ouço injustiça e o sino enfermiça;

ouço prantos. ouço sentenças e abraços de malquerenças;

ouço mandarins. ouço pasquins e o fim dos jardins;

ouço anjos. ouço querubins e tudo a valer xelins;

ouço liberdade. ouço gaivotas e o sustento às cambalhotas;

ouço mãos. ouço prosa e a pena pesarosa;

 

ouço amigo. ouço coração e abraço com gratidão;  

ouço aterro. ouço odor e os dias com calor;

ouço boda. ouço prata e a vida sempre grata;

ouço diversão. ouço exaltação e fé na religião;  

ouço formatura. ouço orgulho com postura;  

ouço nora. ouço casamento;  

ouço netos;

ouço escrita;  

ouço luta;

ouço traição;

ouço batalha;

ouço fim;

ouço mãe;

ouço para sempre;

ouço terra. ouço dor […];

 

ouço a alma e a paz;

ouço as gaivotas e o mar;

ouço os filhos com as noras;

ouço um louvor para o meu amor;

ouço um abraço a apertar e a saudade a chorar;

ouço o sombrio a chegar e o perdão a estoirar;

ouço o corpo a perecer;

ouço;

ouço;

ouço o que não quero ouvir.

 

ouço porque ouvidos que me nasceram no peito se abrem como as magnólias em abril – ouço o tempo que faz na rua e também ouço o tempo que faz dentro de mim – ouço o que me dizem e o que me nasce na cabeça – sou prisioneiro do que ouço – ouço [vos] mesmo que o silêncio se eternize

 


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