ninguém sabe exatamente o que sou – às vezes sou uma coisa sem
pés nem cabeça. outras vezes. carrego uma cabeça que não me leva a lado nenhum.
e nos dias em que a cabeça sabe para onde ir. faltam-me os pés. por isso fico
onde estou – quando me aborreço de ser uma coisa sem pés. nem cabeça. sou o que
encontro à mão: sorrio. canto. danço. leio os astros. deito cartas do tarot.
faço serenatas para a lua e. nas noites de lua cheia. uivo e suplico aos
morcegos para me purgarem desse sofrimento – gostava de ser um transmorfo e.
quem sabe. transformar-me numa dessas criaturas que não têm alma e se alimentam
dos espíritos desassossegados. mas não sou coisa nenhuma para além de não saber
o que sou – talvez por isso. por não me transformar em coisa nenhuma. os
“outros” entendem que sabem tudo do que sou – que palermice – esquecessem-se
eles do que são e. sem se aperceberem. transformam-se no que não é bom – desses
“outros” nada sei. às vezes acredito que
são como são porque. infelizmente. nada podem fazer para não serem assim como
são. mas confesso. não são como eu gostaria que fossem – reconheço que não sei
nada de ninguém. houve tempos em que também acreditei que sabia quase tudo do
mundo e dos “outros”. agora. com o tempo a esgotar-se. percebo que quanto mais
envelheço menos sei do mundo. dos “outros” e também de mim – não sei nada de
nada e mesmo que pudesse saber não queria. perceber o pouco que sei de mim já é
coisa séria e complicada – sou um ignorante ingénuo. um analfabeto que sabe ler
e escrever e que. com o tempo a gastar os minutos. atrás de minutos. reconhece.
agora. que apenas o que faço com o meu destino me preocupa – todos temos uma
missão a cumprir nesta passagem efémera pela vida. tristemente e em agonia. eu ainda
procuro a minha – quando os “outros” crêem que sou o que não sou. olho para o
céu. abano a cabeça. rezo ao anjo da guarda. invoco os meus santos protetores.
são três: o velho s. judas tadeu que controla tudo o que são causas difíceis;
stª bárbara porque sempre tive medo das trovoadas; e stº estevão que em miúdo
fez o milagre de me tirar uma dor de dentes e. porque quero muito acreditar
nesta fé invisível. a troco de umas quantas orações. suplico-lhes que me aliviem
a carga dessa gente que me pesa – mas quando essa malta me aborrece mesmo muito.
e não quero maçar os meus benfeitores. saco da flauta mágica e disfarço-me de
hamelin. e tudo o que rasteja levo para desaparecer e o que é exasperação…
deixa de existir – estou demasiado ocupado com esta nova certeza de que estou mesmo
a envelhecer. não posso. não quero. e
nem necessito de me aborrecer com o que não me pertence – de seguida invoco o
destino e renovo-lhe a minha lealdade ao caminho traçado: sou o que sou e assim
será até ao seu final – por mais voltas que deem à balança ela tombará sempre
para o meu lado. tranquilamente e em serenidade – no entanto. nem sempre estou
no mesmo lado do equilíbrio. às vezes estou do lado da razão. outras da emoção.
mas na maior parte das vezes. estou no outro lado de mim. no escuro. no
silêncio. onde o medo acontece e os pecados se expiam – só eu sei onde centro a
coerência. sendo eu um homem com valores renascentistas. recordo leonardo da
vinci num dos seus muitos pensamentos: “é preciso deixar a sua marca na
história. fosse em que campo da existência fosse” – é neste caminho. que é só
meu. que tudo faço para me tornar mais indulgente. tolerante e condescendente
com o que os “outros” pensam que sabem de mim – continuo a ser como sou.
continuo à procura do melhor em mim e para mim. continuo a tentar aquilo que
ainda não fiz. encontrar a minha marca para a minha história. para o meu
bem-estar. que bem pode não ser o vosso – termino com duas anotações de
leonardo da vinci:
.................................................................................não tirem o vento às gaivotas
13/12/2019
eu. os pés e a cabeça
pintura - rené magritte
“Posso
sorrir, e matar enquanto sorrio,
E
proclamar-me feliz com o que me aflige o coração,
Molhar
as minhas faces com lágrimas fingidas
E
acomodar a minha cara a todas as ocasiões...
Posso
acrescentar cores ao camaleão,
Mudar
de forma mais depressa que Proteu
E
mandar para a escola o sanguinário Maquiavel!”
//
“Vede
aqueles que podem ser chamados
Simples
condutores de comida,
Produtores
de estrume, enchedores de latrinas,
Pois
deles nada mais se vê no mundo
Nem
qualquer virtude se observa no seu trabalho,
Nada
deles restando além de latrinas cheias”
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