introdução.
finalmente uma morte que traz boa disposição –
confesso que já sentia falta de uma escrita levezinha. tranquila. serena. uma
escrita tipo chazinho de camomila – nesta saga analítica de quatro tipos de
morte. a morte dolosa ou fraudulenta. que vos entrego. foge totalmente ao
estilo de escrita do sampaio rego. creio que é mais o género do joão surreal –
mas não importa quem escreve. o importante mesmo é esta vontade de compor a
vida que me sai de dentro. esta emoção. esta perturbação. este desassossego que
me magoa e ao mesmo tempo me ilude com o tempo. faz-me viver. faz-me sorrir –
meu deus. como sou feliz nesta busca incessante das palavras que nunca sei onde
estão – hoje. graciosamente. trago-vos uma morte que é uma história embrulhada
numa bela surpresa. com um final tipo alfred hitchcock – tentarei então fazer
um embrulho com um laço bonito. quer dizer. um laço pomposo e misterioso. só
espero que o papel chegue e a história no final mereça o vosso sorriso – vamos
começar então
1.
um marido convencidíssimo de que a sua esposa
o atraiçoa sente-se completamente desesperado. e de tal forma encasquetou que
essa deslealdade era real que a sua vida se tornou num verdadeiro inferno – o
ciúme passou a governar completamente a sua racionalidade. convertendo-a numa
irracionalidade absoluta – afogado nesse sentimento egoísta e incapaz de
dialogar com a sua companheira. busca em si um motivo para essa traição. mas
por mais que procure uma mínima razão para essa evidente deslealdade. não a enxerga
– está desesperado. sempre amou esta mulher. sempre foi fiel. sempre viveu para
a família – à falta de uma resposta que lhe alivie o sofrimento deixa-se tomar
por uma raiva silenciosa e o desfecho é o colapso emocional – não quer
acreditar que se tenha enganado quanto à companheira que conheceu ainda
adolescente. não pode. a mulher que um dia jurou amar pela santidade do
casamento católico é o centro do seu universo – o que seria da sua vida sem a
única pessoa que deu sentido à sua existência – com a psicose gravemente
instalada. esta leva-o a um pensamento delirante. pouco lúcido. sistematizado
pela negatividade e dotado de uma lógica errática própria de quem está doente –
uma mente doente pensa doentiamente – a falta de confiança arrasta-o para uma
agressividade interior perigosa e desgastante e a relação entra definitivamente
num estágio dramático – o silêncio é agora o seu maior inimigo – o seu
casamento está por um fio. a angústia é contínua e as noites uma enfermidade
dolorosa que o impede de descansar – deita-se infeliz e levanta-se ainda mais
infeliz. sente-se o pior homem do mundo – inseguro e com a sua autoestima a
roçar a lama. percebe que não aguenta muito mais esta sua indeterminação e.
resolve partir em busca da verdade. doa o que doer – ele sabe que o tempo está
contra si. este medo de perder a mulher que ama está a enlouquecê-lo – o
coração está prestes a implodir de sofrimento. é hora de saber toda a verdade.
é hora de saber se ainda é o homem que a sua mulher quer ter a seu lado para o
resto da vida – chegou o momento de enfrentar o medo. é urgente saber a
verdade. a sua amada tem que lhe dizer. olhos nos olhos. que o amor acabou. que
foi bom. mas chegou ao fim – depois de muito ponderar concebe então um plano
que lhe permita. objetivamente. aferir se as suas preocupações são reais ou
apenas a alma doente – tem que saber se a sua esposa tem um caso ou não. se o
ama ou não. meios termos já não são aceitáveis. a dor é colossal. insuportável.
há que colocar tudo em pratos limpos – reconhece as suas fragilidades por que
passa e reconhece também que só um amigo verdadeiro será capaz de o compreender
e ajudar – está desesperado. sabe que o plano é arriscado e maquiavélico. mas
parece-lhe ser esta a única solução capaz de lhe devolver a paz e o casamento
2.
o amigo dirige-se a sua casa. toca a
campainha. aguarda uns segundos. a porta abre-se e dá de caras com a esposa do
zé meireles que. surpreendida com a visita. lhe pergunta:
-- a esta hora aqui. aconteceu alguma coisa?
o amigo pesaroso e pouco à vontade
responde-lhe a gaguejar:
-- si... sim há. nem sei como te dizer…
faz-se silêncio. os olhos da cutilde
arregalam-se. o corpo entesa-se. as faces ruborizam-se enquanto a mudez é
consentimento para que o amigo do seu marido diga rapidamente ao que veio – o
jeremias entristecido. com os olhos encharcados de dor. a tremer e a gaguejar
diz-lhe então:
- o… o zé acabou de falecer. foi atropelado
[colocado num local estratégico. camuflado.
mas com uma perfeitíssima visão para o patamar da sua porta. o zé tenta
perceber nos meneamentos da sua querida esposa se realmente vislumbra algum
detalhe de júbilo ou tristeza]
a cutilde estremece. bamboleia. como se também
ela tivesse sido atropelada e. enquanto os segundos se multiplicavam numa
eternidade toda ela é tomada por uma dor paralisante. não consegue pronunciar
uma única palavra – não se ouve um único som ao redor de si. parecia até que o
mundo tinha acabado de falecer – o jeremias. em pânico. arruma-se igualmente
dentro do silêncio. concentra-se e projeta os olhos para dentro da alma da
cutilde – também ele quer saber se o seu amigo está. ou não. a ser enganado pela
esposa – o zé meireles é o seu amigo do coração. cresceram juntos. fizeram a
escola juntos. andaram nos namoricos juntos e quando um tombava com um copo o
outro nunca ficava para trás. se tivesse que dar a vida por alguém. esse
alguém. seria o zé – são mais do que amigos. são manos e o sofrimento de um
mano não dói. mata-nos – a cutilde dá dois passos atrás. encosta-se à porta.
percebe que está prestes a colapsar. e sem que o jeremias lhe pudesse valer. o
corpo desfalece e as pernas acabam por ceder – cutilde está prostrada no chão –
o jeremias entra em pânico. pela primeira vez. percebe que talvez o plano possa
não correr como tinham planeado. dá-lhe duas bofetadinhas ao de leve. abana-a.
chama-a pelo nome em desespero e. com custo. tempo e terror. a cutilde reabre
os olhos – completamente desfigurada. rapidamente recupera a memória do drama
que está a viver e. numa agonia de estraçalhar o coração. recusa acreditar que
o seu zé a tenha deixado ficar para sempre – a dor é insuportável. o coração
está prestes a partir-se e o corpo a sufocar perde-se em lágrimas –
completamente desorientada levanta-se. anda de um lado para o outro sem
discernir o que realmente deve fazer. sente-se perdida e não raciocina – se por
um lado quer sair a correr para abraçar o zé. por outro. recusa-se confrontar
com a verdade – já ninguém tinha realmente dúvidas que a cutilde amava o zé.
era fácil de perceber que a dor era genuína. saí-lhe da alma. o zé meireles era
o único homem da sua vida – quem entrou em pânico foi o jeremias. também ele
começou a sentir as pernas a desfalecer enquanto o corpo tremia como varas
verdes – estava metido numa alhada e agora não sabia como resolver a situação –
com a voz trémula tentou rapidamente encontrar um paliativo para o drama. pelo
menos adiar um pouco o que parecia já não ter solução – foi uma grande
estupidez. diria mesmo. do tamanho da sé de braga – segurou nas mãos da
cutilde. olhou-a nos olhos e pediu-lhe para ter esperança porque. em boa
verdade. ele não viu o corpo. apenas tinha recebido um telefonema do hospital a
dar conta da tragédia. mas o melhor era realmente verificar se o falecido era
mesmo o zé – lembrando-lhe um episódio recente que passara na TV. também
anunciaram a morte de alguém que afinal não tinha acontecido – suplicou-lhe que
tentasse descansar um pouco. em breve lhe daria notícias a confirmar ou não a
morte do seu marido – a pobre mulher consumia-se em dor. mas percebeu que o
melhor seria mesmo recolher-se um pouco e esperar pela confirmação do seu amigo
– o momento era de solidão. precisava ficar só. libertar a sua raiva com deus.
perguntar-lhe porquê o seu zé. qual a razão para lhe roubar o homem da sua vida
3.
o jeremias completamente tresloucado foi
rapidamente ter com o seu amigo a um café nas redondezas – o zé já o esperava
agitado e tomado por uma cor que prognosticava grandes sarilhos. tudo apontava
para que fosse ele o próximo a desfalecer – o jeremias sem deixar que o zé
dissesse uma única palavra disse-lhe: zé não tens razão nenhuma para
desconfiares da cutilde. ela não só não tem ninguém como te ama perdidamente –
os olhos do zé. momentaneamente.
encheram-se de alegria – mas agora te digo meu amigo. depois do que vi.
creio que ela vai mesmo deixar de te amar – não sei como vamos descalçar esta
bota. fizemos asneira da grossa – juro-te que não sei o que fazer para reverter
esta palermice – o zé se por um lado se sentia feliz por saber que afinal o
amor da sua mulher era realmente verdadeiro. por outro. compreendeu que a sua
cabeça lhe tinha pregado uma partida – e agora o que fazer? o coração acelerou.
o suor começou a escorrer-lhe pela face e o pânico tomou-lhe conta da emoção.
estava como o burro no meio da ponte. não sabia para que lado se deveria virar
– fiz asneira e vou perder a cutilde. desabafou o zé – desesperado. novamente.
pediu ao amigo para o ajudar a resolver a doidice em que se tinha metido. não
podia perder a mulher que amava por causa de uns ciúmes estúpidos – e ali
ficaram aquelas duas almas descarnadas a tentar encontrar uma solução para
resolver o imbróglio. a preocupação era que a cutilde não desconfiasse que
afinal tudo não tinha passado de um teste estúpido e doentio para aferir a sua lealdade
4.
a cutilde. afogada em dor. não encontrava
justificação para continuar a viver sem o seu zé e. num ato desesperado. ingere
um frasco de calmantes – a vida sem o seu grande amor não faz sentido. a
solução é também ela acompanhar o seu marido na viagem final – tudo para ela
tinha sido bem claro no dia em que desposou o zé. viveria a seu lado para o bem
e para o mal. na saúde e na doença e até que a morte os separasse – sim. que a
morte os separasse quando a velhice já não tem remédio. não assim. ainda se estavam
a conhecer. eram umas crianças. dentro de poucos dias comemorariam o quarto ano
de uma união sagrada – que deus lhe perdoe. mas prefere estar ao lado o seu
marido no céu
5.
entretanto o zé continuava a discutir com o
seu amigo a melhor forma de resolver o problema e. por mais voltas que dessem.
rapidamente perceberam que a única saída para aquela palermice era regressar a
casa. pedir perdão à sua mulher e esperar que ela compreendesse que esta
loucura só aconteceu porque a amava loucamente e não a suportaria perder por
nada deste mundo – assim fez. encheu-se de coragem. e pôs-se rapidamente a
caminho. quanto mais depressa resolvesse esta sua triste história mais depressa
a sua vida voltaria à normalidade – entra em casa e depara-se com o corpo da
cutilde estendido no chão da entrada do quarto – toma-a nos braços. e em
desespero. abana-a. chama pelo seu nome umas quantas vezes. pousa o ouvido no
seu coração e rapidamente percebe que a cutilde já não pertence a este mundo –
senta-se no chão e com a sua amada nos braços aperta-a contra o seu peito e ali
fica em silêncio a embalá-la como se estivesse a dormir – revoltado com ele
mesmo. percebe tarde de mais que foi a sua insegurança que acabou por lhe
roubar o seu grande amor. tinha estragado tudo e ele era o único culpado do
desfecho
6.
ao mesmo tempo a cutilde chega ao céu e a primeira
coisa que faz é perguntar ao s. pedro onde está o seu zé. e quando não é o seu
espanto quando ele lhe diz que a morte do zé foi um embuste. infelizmente para
ela o zé não faleceu. mas pode ficar tranquila. o seu amor por ele foi muito
bem recompensado na terra. o zé ficou com a casa e o carro pagos ao banco. para
não falar nos milhares que vai receber do seguro de vida
7.
moral da história: não acredite em tudo que
lhe dizem – antes de tomar uma overdose de pastilhas. atirar-se de um penhasco
ou dar um tiro na cabeça. verifique com os seus olhos se ninguém o aldrabou – e
mais um conselho senhor leitor. tome muita atenção à vida. na maior parte das
vezes é mesmo essa ordinária que nos engana. amámo-la e em troca faz-nos um
manguito – mas no meu caso. que sou o contador da história. aviso-vos desde já
que não tomo pastilhas. exceto as que me aliviam o relinchar dos bicos de papagaio
– pobre cutilde
*título extraído do livro de nuno camarneiro – no meu peito não cabem pássaros
* albert einstein
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