.................................................................................não tirem o vento às gaivotas

29/12/2020

epitáfio – despedida ao meu sogro

 

foto - arquivo familiar 



descansa em pazlentamente o dia encolhe-se. mirra. enquanto o corpo. passo a passo. escapa silenciosamente por mãos indiferentes ao que carregam – os passos marcam o que resta de luz. enquanto as cordas estrugem aceitação e recolhem em si toda a esperança de um milagre – por fim um silêncio absoluto numa calmaria de angústia – o mundo engoliu todo o barulho – as lágrimas encolhem-se atrás da dor numa resignação que nunca nos foi ensinada. e os ais refugiam-se dentro de um luto profundamente negro. num até sempre que não morre – só o aroma das flores anuncia a ressurreição: o céu é o seu destino – o fecho da sepultura proclama em definitivo o fim da carne e o começo da saudade – gostava deste bom homem: bom pai. bom marido e meu sogroninguém merece ser privado da memória do que é seu. mas foi assim que partiu. sem reconhecer aqueles que nunca o irão esquecer – que raiva tenho deste mal. acredito que é coisa do demónio ou de outro planeta – também o meu pai partiu sozinho. esquecido de todos. até de mim que fiquei sem saber o que fazer ao que tinha ainda por lhe dizer – tenho raiva. e nem o tempo. nem essa curva que os fez desaparecer. me alivia esta raiva que sinto ao ver o mundo deserto. é como se o tempo inventasse um novo fim a cada instante do relógio – aqui estou. entretido nos rosários da vida. a fugir de um dezembro maldito: agora sei que existes para me mostrares que o escape da carne se faz até quando o milagre do natal se reboliça dentro de mim – porque não me ensinaram que amamos sempre mais hoje do que ontem – o tempo-saudade magoa. envelhece-nos com a tristeza – o meu sogro era um homem de família. bom e honrado – que mais se pode querer de um homem? nada. por mais coisas que queiram inventar para a grandeza humana. à sua despedida terrena só a honra o leva à glória. à eternidade na memória dos que por aqui ficam a lamentar não haver céu na terra – vou ter saudades dele. da sua forma tranquila de caminhar. da voz doce. amena. como se quisesse passar despercebido dos humanos barulhentos – vou ter saudades de dizer: bom dia sr. joão. trago-lhe a sua maria joão e os seus netos – paz à sua alma 


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