se me perguntarem o que busco na escrita respondo
sem rodeios -- procuro-me -- a escrita leva-me para um estado de transe que me
traz o que eu não sabia ter – surpreendo-me com as palavras. a escrivaninha
fica mais funda. o corpo acende-se em água. e deixo que me leve para depois do
que sou – descalço entro por corredores sem saber onde eles desaguam –
pergunto-me o que vem dos verbos – fico sem saber se saí do que sou. ou se fui
costurado pelo que entrou – a sombra colou-se ao teto. e não raras vezes quem
vejo na cadeira não sou eu – a memória descomplica-se e os ferros que me
agrilhoavam derretem ao calor do pensamento – um perfume na ferrugem dos dedos
– quando a palavra não faz sentido. escuto-me – repouso nas luzes que me dão
forma – e pergunto que porta abri para escrever o que não sei – é então que sai
de mim uma gaivota a domar o vento. leva as palavras até ao limiar da pós-vida
– tudo o que escrevo é deste mundo – ou de outro que já vivi – e isso faz-me
compreender esta realidade de forma menos brutal – é o que se impõe – por isso.
compreender-me é prolongar a vida em palavras – parto pelas mãos. não pela
ideia de partir. sigo a água – não o infinito – e já não sei se a sombra que me
atravessa pertence a este mundo. ou de outro que inventei para o suportar – a
razão do que sou chega pelo entendimento do que escrevo – bem como pela
gravidade do universo – tal como partículas que colidem – só a liberdade tem a
força de me roubar os olhos e colocá-los nas letras – transformo-me em água –
procuro o desacerto – o erro ortográfico. e interrogo-me nos corredores que
inventei para sair de mim – nem uma janela para descansar. nem uma porta para
me salvar. nem um banco para assentar – ao fim de cada texto um túmulo com o
meu nome – a tecla “a” gasta e o “h” em falta – morto – escrever é um suicídio.
uma bala lenta que rasga cada memória ao som do bater nas teclas – não posso
deixar que a mão escreva o que é só meu. mesmo louco. sei que o destino está
sempre preso ao que fui capaz de construir dentro de mim – o que me resta de
tempo não fará de mim história. talvez apenas um conto com uma mensagem: faz o
que está certo no momento certo – não depois – nem que um comboio te trepe a
alma. nem que um vagão venha cheio de adjetivos – ser livre é planar no vento
que sacode cada palavra. cada imagem – abrir as asas é a vida a fazer-te sonho
– e a sombra é o ponto final da tua história. de fazeres o certo no momento
certo – não depois
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