30/12/2025

2026. a incerteza do tempo

 



nota de autor

ao fim de cada ano escrevo este texto para medir o que o tempo me deu e o que me levou – não é um balanço de contas nem um gesto de esperança – é uma forma de tocar no que ficou. no que nasceu. e no que partiu – escrevo para fechar o ano com memória. e abrir o seguinte sem promessas

 

2026 à vista – o calendário avança mas nada se resolve por magia – o ano termina sem fechar coisa alguma – apenas se acumula – chegamos ao novo tempo com as mesmas virtudes gastas. e as mesmas fragilidades intactas no corpo. porque é disso que somos feitos – esperar que tudo seja diferente é uma forma educada de recusar a morte – o que fomos não se dissolve na mudança do número – e sem que a mão amarre o que passou. o universo revolve a memória segundo a segundo – é aí quando nos apercebemos do peso de cada instante – e o que pensamos ser cura é apenas ilusão – nenhum homem muda num segundo – o tempo é um embuste bem montado. por isso nada recomeça por nada ter terminado – o que encontramos na palavra esperança não é magia. mas resiliência para continuar a carregar o que já pesa – tudo é medido em tempo. o tempo que levamos casados. o tempo dos filhos. o tempo exato das pessoas que perdemos. dos amigos. do trabalho. e do tempo que encontramos em nós para nos renovarmos. voltar os olhos ao futuro – é no futuro que começa cada segundo. e dentro dele o que ainda não sabemos. carrega a força da verdadeira transformação – a mudança de ano é uma equação lançada às estrelas. o homem insiste em medi-la com o que tem e com o que sabe. no seu mecanismo interno. como quem dá corda a um relógio. mexe as pernas para aceitar o tempo que chega – este. mesmo indiferente. por vezes também alheio ao nosso sofrimento. segue para o fim – para um tempo. apenas não existimos – quando precisamos que volte atrás. o tempo não responde. envelhecemos e a única contagem que é certa é o nosso desaparecimento – chegamos às vinte e quatro. o fogo estala no ar. dá-mos gritos como quem venceu o ano. abraçámo-nos como quem abraça a vida eterna. prometemos à primeira brisa juramentos que a tempestade leva. e  quando acordamos do teatro. as pancadas de molière abrem-nos os olhos para a escuridão – num segundo mudamos o ano no calendário. mudamos de roupa. às vezes de carro. mas o homem não acompanha essa pressa – o nosso tempo conta um tempo que só nós sentimos – o nosso maior desejo é impossível de ser realizado num segundo. precisamos de anos para mudarmos o que ninguém consegue ver – o homem vive sem garantias. num segundo perdemos a pessoa que mais amamos. num segundo ganhamos a lotaria. nada na vida é certo. cada segundo guarda o tempo necessário para nos iludir de que amanhã será melhor – o que faz com que brindemos a um ano novo é a raça que guardamos dentro de nós. cada homem é uma raça em vigília. carregámo-la porque os nossos antepassados se recusaram a desistir. rangeram os dentes e disseram: quero mais um segundo – mas aqui estou às portas de um novo ano. para os que me conhecem ficarei igual. nenhum segundo tem força para me mudar o suficiente para que alguém se surpreenda comigo – mas para mim. continuarei com a minha mudança silenciosa. envelhecer cada dia com mais luz. abrir a janela. e deixar o ar correr dentro de mim – mas eu sei que o próximo ano não será igual a este. isso deve-se à raça que habita em cada um de nós – a minha neta carolina nasceu. resistiu a nove meses de gestação. e no seu segundo. com a nossa raça. eclodiu no mundo com a grandeza que todos os bebés trazem consigo – a família com o seu nascimento percebeu que o passado nunca fica para trás. levámo-lo para a frente de nós. dá-nos a eternidade. passamos o testemunho para que os segundos façam tempo. porque só com pessoas existe tempo – sem filhos e netos para que servia o tempo? tudo podia acabar amanhã que nenhum sino tocava o nosso nome. nenhum ouvido pediria silêncio – eu conto o tempo porque conto a família viva. nós todos somos uma cápsula de tempo aberta. e é naquele segundo que mudamos o calendário. e temos a coragem de fazer o deve e haver do ano. às vezes de vários anos. às vezes apenas olhando para o céu. e em cada foguete que sobe ao infinito. uma memória dos meus pais. e pergunto ao universo. porque não me dás apenas um segundo intacto desse passado – as saudades não têm tempo – quando perdemos alguém que amamos o tempo não existe. é tudo hoje. o beijo é de hoje. o abraço é de hoje. a chávena do pequeno almoço quente. e a comida na mesa a fumegar. e as cadeiras ocupadas de nós todos – não podemos esquecer. mas temos a obrigação de continuar. é preciso deixar aos filhos a força da perda. somos nós. os pais. que transformamos esta saudade num número de calendário. ser forte é saber recordar – o calendário nasceu porque a memória é seletiva e precisa de datas para não se perder – este ano um fecho honrou-nos em silêncio – o meu filho joão. em janeiro. concluiu o seu doutoramento em tecnologias e sistemas de informação – e passou a ensinar de forma plena – realizou um dos meus sonhos. ver um filho honrar o saber pelo gesto de ensinar – vê-lo lecionar na universidade é perceber que o conhecimento também é uma forma de continuidade – setembro também o guardei para ele e para a minha nova nora sofia – o melhor setembro da minha memória – nesse mês deixou de precisar do meu nome para existir – e isso não doeu como eu temia – ensinou-me onde acaba o pai e começa o homem – as mãos dadas. o silêncio em mim à espera do sim. e a certeza de que o deus deles os vai guardar para sempre – eu e a mãe levámo-lo ao altar. e saímos pela primeira vez em quarenta anos sem filhos. trazíamos a cobrir-nos o dever cumprido. e nos lábios o nosso sim: sim. fizemos tudo certo. o tempus nostrum entregue aos frutos do amor – há outros nomes que vivem não apenas este ano. mas em todos. completam o puzzle daquilo que sou – o luís e o pedro são outros dois filhos que caminham comigo e me levam para a frente – que bons eles são. parecidos com o avô – o pedro tem apenas uma promessa por cumprir. eu espero. tenho tempo – as noras andreia e bela. acrescentam luz. uma mais recatada. outra mais expansiva – as diferenças aproximam-nas – que bom – os netos. beatriz e santiago. devolvem-me a inocência – uma referência especial à minha neta beatriz. que este ano aprendeu que quando se trabalha com seriedade os resultados aparecem – a excelência começa a mostrar-se – e por fim a avó lurdes lembra-nos que o tempo também sabe ficar. a memória compreende. o corpo resiste – quem já não precisa de calendário é a minha companheira há muito tempo – nós já não sabemos quando começou esse dia – fundimo-nos um no outro sem ruído – é ela que organiza o meu caos. mantém a casa de pé quando o tempo deixa de contar comigo. e o silêncio que partilhamos é o castelo que me protege – ela é a certeza de que a bondade pode caminhar pelo tempo sem pedir lugar à vaidade – abre e fecha a circunferência invisível da família. impede-nos de quebrar. resistimos à desordem do mundo. o passe-partout onde todos descansamos – são os segundos dela que dão valor ao nosso tempo – houve ainda este ano um lugar onde o tempo deixou de me pesar – foi no boom festival que fui levado para fora do que pensava ser – o corpo aprendeu outra vez a escutar. a consciência abriu uma porta que eu julgava fechada – não fui procurar nada. mas encontrei-me – chorei o que não tinha chorado. enterrei o que julgava enterrado – voltei com menos certezas. e com mais espaço dentro de mim – sei apenas isto: não voltei igual – obrigado. luís silva. por me levares a um novo conhecimento –importante também este ano e de relembrar para sempre. foi a luz com que a minha irmã mais velha atravessou a sua doença – aos setenta e seis anos ensinou-nos que a vida não se vence. luta-se – hoje está curada. não porque derrotou a morte. mas porque soube ficar de pé enquanto ela passava – ela é o nosso grande exemplo de luz serena – ainda bem que o tempo me deu o tempo para lhe dizer que a amo – é a minha irmã. aurora – creio que chegou o momento de fechar o ano. nada deve ser prolongado quando o tempo tem a sua hora de fecho – os amigos são sempre importantes – não vou enumerá-los – eu e eles sabemos quem são – sabemos também que são como os corais – protegem o nosso habitat. mesmo quando moramos no cimo de uma onda – são quase sempre eles que nos seguram. para que o fim não se proclame pelos sete mares – aos mais próximos exigimos sempre mais. queremos receber o mesmo que guardámos dentro do que construímos – às vezes não é possível. somos todos diferentes. mesmo sendo muito parecidos nos desígnios do caminho – mas não há ano que não traga uma boa colheita – ângela e marco. bem vindos ao meu tempo. foi aquele segundo que nos ligou – este ano também tive segundos perdidos para sempre. o almeno gonçalves partiu. viveu na minha adolescência e depois correu para lisboa à procura do seu grande amor: o teatro – ficam as recordações – recuperei imenso de mim neste ano. encontrei-me com o meu passado. e fiz-me mais bonito – a família e os amigos não pesam. sentam-se ao nosso lado e fazem o tempo connosco – bem-vindo dois mil e vinte e seis


1 comentário:

  1. Obrigada meu irmão
    Eu também te amo pela pessoa que és, forte sem se deixar intimidar pelos obstáculos que surgem na vida
    Sempre a olhar em frente em busca do que a vida nos pode dar
    Não mudes e tudo chegará em acréscimo
    Tua irmã

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