nota de autor
ao fim de cada ano escrevo este
texto para medir o que o tempo me deu e o que me levou – não é um balanço de
contas nem um gesto de esperança – é uma forma de tocar no que ficou. no que
nasceu. e no que partiu – escrevo para fechar o ano com memória. e abrir o
seguinte sem promessas
2026 à vista – o calendário avança mas nada se
resolve por magia – o ano termina sem fechar coisa alguma – apenas se acumula –
chegamos ao novo tempo com as mesmas virtudes gastas. e as mesmas fragilidades
intactas no corpo. porque é disso que somos feitos – esperar que tudo seja
diferente é uma forma educada de recusar a morte – o que fomos não se dissolve
na mudança do número – e sem que a mão amarre o que passou. o universo revolve
a memória segundo a segundo –
é aí quando nos apercebemos do peso de cada instante – e o que pensamos ser
cura é apenas ilusão – nenhum homem muda num segundo – o tempo é um embuste bem
montado. por isso nada recomeça por nada ter terminado – o que encontramos na
palavra esperança não é magia. mas resiliência para continuar a carregar o que
já pesa – tudo é medido em tempo. o tempo que levamos casados. o tempo dos
filhos. o tempo exato das pessoas que perdemos. dos amigos. do trabalho. e do
tempo que encontramos em nós para nos renovarmos. voltar os olhos ao futuro – é
no futuro que começa cada segundo. e dentro dele o que ainda não sabemos. carrega
a força da verdadeira transformação – a mudança de ano é uma equação lançada às estrelas. o homem insiste em
medi-la com o que tem e com o que sabe. no seu mecanismo interno. como quem dá
corda a um relógio. mexe as pernas para aceitar o tempo que chega – este. mesmo
indiferente. por vezes também alheio ao nosso sofrimento. segue para o fim –
para um tempo. apenas não existimos – quando precisamos que volte atrás. o
tempo não responde. envelhecemos e a única contagem que é certa é o nosso
desaparecimento – chegamos às vinte e quatro. o fogo estala no ar. dá-mos
gritos como quem venceu o ano. abraçámo-nos como quem abraça a vida eterna.
prometemos à primeira brisa juramentos que a tempestade leva. e quando acordamos do teatro. as pancadas de
molière abrem-nos os olhos para a escuridão – num segundo mudamos o ano no
calendário. mudamos de roupa. às vezes de carro. mas o homem não acompanha essa
pressa – o nosso tempo conta um tempo que só nós sentimos – o nosso maior
desejo é impossível de ser realizado num segundo. precisamos de anos para
mudarmos o que ninguém consegue ver – o homem vive sem garantias. num segundo
perdemos a pessoa que mais amamos. num segundo ganhamos a lotaria. nada na vida
é certo. cada segundo guarda o tempo necessário para nos iludir de que amanhã
será melhor – o que faz com que brindemos a um ano novo é a raça que guardamos
dentro de nós. cada homem é uma raça em vigília. carregámo-la porque os nossos
antepassados se recusaram a desistir. rangeram os dentes e disseram: quero mais
um segundo – mas aqui estou às portas de um novo ano. para os que me conhecem
ficarei igual. nenhum segundo tem força para me mudar o suficiente para que
alguém se surpreenda comigo – mas para mim. continuarei com a minha mudança
silenciosa. envelhecer cada dia com mais luz. abrir a janela. e deixar o ar
correr dentro de mim – mas eu sei que o próximo ano não será igual a este. isso
deve-se à raça que habita em cada um de nós – a minha neta carolina nasceu.
resistiu a nove meses de gestação. e no seu segundo. com a nossa raça. eclodiu
no mundo com a grandeza que todos os bebés trazem consigo – a família com o seu
nascimento percebeu que o passado nunca fica para trás. levámo-lo para a frente
de nós. dá-nos a eternidade. passamos o testemunho para que os segundos façam
tempo. porque só com pessoas existe tempo – sem filhos e netos para que servia
o tempo? tudo podia acabar amanhã que nenhum sino tocava o nosso nome. nenhum
ouvido pediria silêncio – eu conto o tempo porque conto a família viva. nós
todos somos uma cápsula de tempo aberta. e é naquele segundo que mudamos o
calendário. e temos a coragem de fazer o deve e haver do ano. às vezes de
vários anos. às vezes apenas olhando para o céu. e em cada foguete que sobe ao infinito.
uma memória dos meus pais. e pergunto ao universo. porque não me dás apenas um
segundo intacto desse passado – as saudades não têm tempo – quando perdemos
alguém que amamos o tempo não existe. é tudo hoje. o beijo é de hoje. o abraço
é de hoje. a chávena do pequeno almoço quente. e a comida na mesa a fumegar. e
as cadeiras ocupadas de nós todos – não podemos esquecer. mas temos a obrigação
de continuar. é preciso deixar aos filhos a força da perda. somos nós. os pais.
que transformamos esta saudade num número de calendário. ser forte é saber
recordar – o calendário nasceu porque a memória é seletiva e precisa de datas
para não se perder – este ano um fecho honrou-nos em silêncio – o meu filho
joão. em janeiro. concluiu o seu doutoramento em tecnologias e sistemas de
informação – e passou a ensinar de forma plena – realizou um dos meus sonhos.
ver um filho honrar o saber pelo gesto de ensinar – vê-lo lecionar na
universidade é perceber que o conhecimento também é uma forma de continuidade –
setembro também o guardei para ele e para a minha nova nora sofia – o melhor
setembro da minha memória – nesse mês deixou de precisar do meu nome para
existir – e isso não doeu como eu temia – ensinou-me onde acaba o pai e começa
o homem – as mãos dadas. o silêncio em mim à espera do sim. e a certeza de que
o deus deles os vai guardar para sempre – eu e a mãe levámo-lo ao altar. e
saímos pela primeira vez em quarenta anos sem filhos. trazíamos a cobrir-nos o
dever cumprido. e nos lábios o nosso sim: sim. fizemos tudo certo. o tempus
nostrum entregue aos frutos do amor – há outros nomes que vivem não apenas este
ano. mas em todos. completam o puzzle daquilo que sou – o luís e o pedro são
outros dois filhos que caminham comigo e me levam para a frente – que bons eles
são. parecidos com o avô – o pedro tem apenas uma promessa por cumprir. eu espero.
tenho tempo – as noras andreia e bela. acrescentam luz. uma mais recatada.
outra mais expansiva – as diferenças aproximam-nas – que bom – os netos.
beatriz e santiago. devolvem-me a inocência – uma referência especial à minha
neta beatriz. que este ano aprendeu que quando se trabalha com seriedade os
resultados aparecem – a excelência começa a mostrar-se – e por fim a avó lurdes
lembra-nos que o tempo também sabe ficar. a memória compreende. o corpo resiste
– quem já não precisa de calendário é a minha companheira há muito tempo – nós
já não sabemos quando começou esse dia – fundimo-nos um no outro sem ruído – é
ela que organiza o meu caos. mantém a casa de pé quando o tempo deixa de contar
comigo. e o silêncio que partilhamos é o castelo que me protege – ela é a
certeza de que a bondade pode caminhar pelo tempo sem pedir lugar à vaidade –
abre e fecha a circunferência invisível da família. impede-nos de quebrar.
resistimos à desordem do mundo. o passe-partout onde todos descansamos – são os
segundos dela que dão valor ao nosso tempo – houve ainda este ano um lugar onde
o tempo deixou de me pesar – foi no boom festival que fui levado para fora do
que pensava ser – o corpo aprendeu outra vez a escutar. a consciência abriu uma
porta que eu julgava fechada – não fui procurar nada. mas encontrei-me – chorei
o que não tinha chorado. enterrei o que julgava enterrado – voltei com menos
certezas. e com mais espaço dentro de mim – sei apenas isto: não voltei igual –
obrigado. luís silva. por me levares a um novo conhecimento –importante também
este ano e de relembrar para sempre. foi a luz com que a minha irmã mais velha
atravessou a sua doença – aos setenta e seis anos ensinou-nos que a vida não se
vence. luta-se – hoje está curada. não porque derrotou a morte. mas porque
soube ficar de pé enquanto ela passava – ela é o nosso grande exemplo de luz
serena – ainda bem que o tempo me deu o tempo para lhe dizer que a amo – é a
minha irmã. aurora – creio que chegou o momento de fechar o ano. nada deve ser
prolongado quando o tempo tem a sua hora de fecho – os amigos são sempre
importantes – não vou enumerá-los – eu e eles sabemos quem são – sabemos também
que são como os corais – protegem o nosso habitat. mesmo quando moramos no cimo
de uma onda – são quase sempre eles que nos seguram. para que o fim não se
proclame pelos sete mares – aos mais próximos exigimos sempre mais. queremos
receber o mesmo que guardámos dentro do que construímos – às vezes não é
possível. somos todos diferentes. mesmo sendo muito parecidos nos desígnios do
caminho – mas não há ano que não traga uma boa colheita – ângela e marco. bem
vindos ao meu tempo. foi aquele segundo que nos ligou – este ano também tive
segundos perdidos para sempre. o almeno gonçalves partiu. viveu na minha
adolescência e depois correu para lisboa à procura do seu grande amor: o teatro
– ficam as recordações – recuperei imenso de mim neste ano. encontrei-me com o
meu passado. e fiz-me mais bonito – a família e os amigos não pesam. sentam-se
ao nosso lado e fazem o tempo connosco – bem-vindo dois mil e vinte e seis
Obrigada meu irmão
ResponderEliminarEu também te amo pela pessoa que és, forte sem se deixar intimidar pelos obstáculos que surgem na vida
Sempre a olhar em frente em busca do que a vida nos pode dar
Não mudes e tudo chegará em acréscimo
Tua irmã