imagina um homem com uma cicatriz na testa. funda.
impossível de ignorar. vive com ela a vida inteira. carregou-a. e entregou-a a
todos que com ele partilharam a sua existência – um dia imagina-se sem ela. os
que não o conheciam antes não diriam nada. seria apenas mais um a circular pelo
mundo. não seria mais bonito porque nunca o viram feio – quando levo a cicatriz
comigo. percebo que me olham mais tempo do que deviam. não perguntam. nunca
perguntam. há qualquer coisa em mim que parece já ser dos que me olham. como se
tivessem chegado antes de mim à conversa – o espanto não dói. fica. acompanha –
e eu deixo-os ficar. sempre vivi assim. oferecendo ao outro aquilo que não
posso retirar – há quem nada queira saber do que lhe antecede. a cicatriz
chega. e só depois há antes – se perdesse a cicatriz. não saberia o que
restava. não por falta. mas por excesso de silêncio – haveria gestos que já ninguém reconheceria. histórias
que deixariam de encontrar lugar. alguns afastar-se-iam sem saber porquê.
outros ficariam à espera de algo que não voltaria. eu seguiria inteiro por fora.
mas sem chão no ponto exato onde tudo começou – há coisas que não se retiram
sem que o mundo se desorganize um pouco – às vezes. no meio de um silêncio
partilhado aparece o amor. não como gesto bonito. mas como urgência – e ali
fica. há alguém a quem devo mais do que palavras. não o digo. deixo-o ficar. o
que não desaparece fica para sempre – escrevo para devolver o que me foi dado.
não como agradecimento. mas como forma de permanência. só assim me completo: quando
aquilo que vivi encontra lugar nas palavras – quero um espaço onde caiba
inteiro. e se um dia alguém me encontrar ali. ficará. se não. seguirá. ambas as
coisas são justas – escrevo mostrando o que me acontece quando o mundo falha.
quando um objeto se parte. quando algo não corresponde. é nesse desvio que me
reconheço. não procuro tranquilidade. procuro não mentir – no fim. resta apenas
isto: continuar a escrever como quem aceita a própria finitude. sabendo que
certas marcas não pedem explicação. e que a linguagem. quando é verdadeira.
basta
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