claro que sou escritor – escrevo porque não sei calar o que
me cresce dentro – escrevo-me no papel. conto histórias do meu passado. umas
doem. outras abrem o fundo onde ainda me procuro – talvez isto bastasse. mas um
homem quer sempre saber em que divisão joga – foi então que pensei nos homens
da bola. nos que fazem do jogo um ofício – comecei a perguntar-me que espécie
de escritor sou eu afinal – um homem raramente sabe o tamanho exato de si. conhecendo-me.
sei que escreveria metade do que sou. e esconderia a outra metade por medo de a
exagerar – um homem procura sempre uma imagem que lhe não minta – olho para aqueles
homens. e vejo-os entrar em campo como homens que nunca tiveram outra língua. ganham
milhões a pontapé. e repetem até à exaustão o que fazem. o que gostam – nenhum
escritor. por mais excecional que seja. toca o dinheiro que corre nos pés
desses homens – a única semelhança. é que no fim. todos regressam ao campo no
dia seguinte – andamos todo o dia aos pontapés à língua e às suas regras.
e pagamos cada erro com silêncio – falhar uma concordância é para um escritor.
o que falhar um penalty é para um avançado – um erro ortográfico é entrar fora
das leis do jogo. e às vezes custa-nos um jogo inteiro – depois há os
jogadores das ligas menores. onde a exigência baixa. mas o dinheiro também fica
difícil – e. no entanto. dizem o mesmo que os que ganham milhões. fazem o que
gostam – já os escritores bons. a dois dedos dos mestres. mas fora do foco da
luz. dizem também que fazem o que gostam. a diferença é que muitos acabam a contar moedas ao fim
do mês. vivem encavalitados no cartão de crédito – eis a conclusão. sou um
escritor que joga nos campeonatos distritais. sai do trabalho. arruma a cabeça
numa pasta de arquivo. coloca a placa na porta: volto já – levanta a cabeça e
diz para si: agora sou real – tomo o equipamento. chuteira e caneleiras sem
esquecer. e começo o aquecimento. primeiro uma vogal. conto os toques que dou
sem a deixar cair – depois. uma palavra pequenina. e aí já domino com a cabeça.
às vezes ombro. e quando dou por mim. chuto sem parar para o écran. e fico ao pontapé
às palavras até que a luz me consuma de cansaço – a alvorada desperta-me. e
quando volto ao que escrevi encontro sempre uma palavra que falhou o remate –
mas não importa. sou eu que marco as balizas no tempo. mas também sou eu que
lavo o equipamento – há seres estranhos. vivem no meio das palavras e confundem
silêncio com salário – mas não me importa. os jogadores da bola reformam-se ao
trinta e poucos anos. ficam à procura da bola e já não rola – eu. não tenho
idade para deixar de chutar vogais. e quando me canso. encontro sempre um verbo
que me motive. atiro uma palavra ao ar e sem a deixar cair remato-a para o
papel – quando acordo para o trabalho. a única certeza que levo é que mesmo
sendo pior escritor. no regresso. nenhuma letra me abandonou. às vezes até as
confundo com o meu cão. vêm ao meu encontro. abanam a cauda. e perdoam-me todos
os erros – e assim sigo. a lavar o equipamento para o jogo seguinte – neste
jogo de palavras não há apito final
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