.................................................................................não tirem o vento às gaivotas

07/11/2010

cruz ansata








não tenho palavras que sustentem a cabeça que comprei naquela loja de ferro velho. pende para o lado vazio. o lado onde não há coração. onde morrem todos os verbos que amparam a injustiça – os braços. outrora selvagens e vigorosos. caíram desesperados –  apareceu a ferrugem. aquela que conheci em tempos. corrosiva. devorava todos os nomes – talvez tivessem crescido demais. e as línguas cuspissem encantos sem nada saber de braços com mãos dependuradas – agora. não sei se desespere ou se espere – mesmo com toda a indiferença que sempre guardei – por detrás do olhar despreocupado temo pelas minhas mãos –  habituei-me a este corpo. despido. descalço. carrego apenas à cinta uma sacola de couro e letras. que trazem minha vida – sorrisos poucos. lágrimas muitas – dos olhos redondos brilhantes já pouco resta. soltam-se agora pedaços de cólera – nasceram talvez na menina dos olhos. sempre tão sensível – sempre acreditou em tudo o que via. ingénua. tão pura em sua crença – voltou tudo novamente ao tempo da ilusão. o tempo dentro de mim afinal é uma mentira. pensava que já me tinha esquecido dos amigos. mas agora vieram estes. os novos. os arrumados. os que se acham eleitos. com direitos imaginados. sem teto procuram hipérboles como o diabo procura o pecado. talvez sejam parentes – sorte a minha. uma vida inteira a ignorar o olhar dos que achavam que não havia nada dentro de mim – não posso continuar calado – estas mãos também escrevem. podem não ser perfeitas. mas não matam palavras – bem sei que não sou fidalgo. e ainda não tenho aquele anel de ouro feito de hematite negra –  e a cor negra que trago no corpo. é a sombra do trabalho árduo que faço com as minhas mãos – mas são sempre estas que escrevem. apenas essas. assim. mesmo cheias de marcas. de veias. de cicatrizes fechadas em dor – são as minhas mãos – estou revoltado. porque me roubaste o nome que escrevia somente para dizer as minhas coisas. não a ti. não ao teu mundo. nem sequer àqueles que gostam deste sinal que tenho na face – escrevo para mim. para ser feliz. mesmo sem nunca ter sido antes – vê o que fizeste destas mãos. umas mãos ásperas. só hoje? talvez sim. talvez para sempre – também se pode escrever ásperas no meio de um substantivo comum – malditos sejam – a escrita não é só um dom. é dor. é prazer. é êxtase. é orgasmo. é vida. é esperança – e quando escrevo sou isso. repito. sou isso sem dúvida



2 comentários:

  1. E és isto, com todas as intensidades...

    Tão belas palavras... admirada!

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  2. obrigado márcia.

    aqui. as tuas palavras são intensas. fazem-me escrever -

    beijo

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