.................................................................................não tirem o vento às gaivotas

10/11/2010

estes lados. nossos






tenho entre os mãos uma porção de terra. trouxe-a de um jazigo para suavizar uma saudade – desde que partiste sinto-me amargurado. perdido e zangado. tinha ainda tantas coisas minhas para te dizer – eram importantes. digo eu – não devias ter apanhado aquele autocarro. bem sabes que o carreiro por aí é demorado. estreito. tão isolada. tão triste. tão sem vida. tão escuro – tenho medo que estejas sozinho e com frio. podias ter levado aquele sobretudo de lã às cores. sempre te fez mais novo. era lã pura. combinava contigo – lembro-me de como sorrias ao vesti-lo. como se o inverno nunca te tocasse – um dia vesti-o. enfureci-me. não me assentava nos ombros – sempre foste mais aprumado. as tuas as costas alinhadas carregavam a vida com leveza – as minhas. bem. as minhas sempre foram apenas mais umas costas – tenho dias em que adormeço acreditando que é possível viver-te nos sonhos – ontem consegui falar-te com os lábios. sempre depois daquele beijo na face. quente. senti eu – fiquei com um trago açucarado na boca. mel – depois. guardei-te no silêncio criado nos meus olhos. nossos – estendi as mãos. toquei-te. senti-te. abracei-te. e ali fiquei aconchegado a mim. a nós – tive medo de acordar. e guardei a mão onde tenho cravada a linha da tua vida. foi cortada pela tua ausência – nesta minha mão. que é nossa. a linha prossegue outro caminho. que é também o teu – quem nos ensina a andar quando não temos mais o chão. meu pai? como vou caminhar com o que é teu. meu pai? não sei. eras tão diferente de todo o mundo. meu pai – a nossa árvore. é a nossa árvore. respira a nascente. para onde sempre me guiaste – mas eu era novo demais – nos dias em que me pegavas ao colo. todas as árvores pareciam ser do teu tamanho – a vida acontecia sempre nos teus braços. fortes. tão fortes que o céu ficava à distância de um sorriso – ainda nem sabia que esse céu. um dia. receberia todos aqueles que gostamos – do mundo. conhecia apenas o jardim que criaste para mim – havia sempre tanta gente a dizer coisas nesse jardim. nosso – faziam um quase barulho. às vezes sussurro. às vezes música. às vezes amor. nosso – tu. falavas como se inventasses as palavras ao dizê-las. nossas – nunca paravas – e nos teus olhos. nos teus olhos a alma das pessoas. eras um homem bom. e como fazem falta homens bons no meu mundo agora – nesse mundo. que me deste a conhecer. sempre houve um baloiço onde eu te esperava. às vezes levava-te. às vezes trazia-te. nunca parava de ir e vir. como tu. partias para o teu mundo que mais tarde haveria de ser também meu. nosso – e depois. regressavas. sempre. por mais que o tempo matasse o próprio tempo. a tua casa éramos nós. todos – sempre o soube – tudo parecia tão simples. o mundo. a vida. e dentro de mim. tudo era simples. bem sei que tu também eras simples – em ti havia vida. havia certeza. havia mel. havia sorrisos. tu eras um sorriso. nosso – e o baloiço andava para lá e para cá. como se imitasse os dias a nascer. porque tudo que nasce carrega consigo uma razão para existir – havia uma razão maior para existires em mim. eras um homem bom. como mais ninguém – era tão jovem. não sabia nada da vida. nada do que ela guardava para mim. não sabia como nasciam os dias. nem sabia como todos são obrigados a morrer – sabia apenas que o destino nos leva. de norte para sul. até o infinito das memórias – tu bem que me apontavas o caminho. mas era demasiado jovem para entender que até o sol. tão luzente. um dia pode morrer – não foi por desistires que eu não me fiz homem mais cedo. nunca sossegaste com as palavras. eu é que era surdo. cego de tão jovem – na tua presença o baloiço nunca parava – sempre foste um homem livre. eu também sou. como tu – sempre usaste as palavras. para me falar. os ouvidos para me escutar. os olhos para me ver – eras o meu pai – as argolas de ferro que seguravam o baloiço já rangiam. e eu sem saber como o nosso tempo estava prestes a esgotar-se. lento. mas inevitável doloroso   – nesses dias. ouvia-se o vento furioso. mal eu sabia que nesse ir e vir era já a vida a esgotar-se – cansado. respiravas amparado no sinal da cruz. com que te deitavas. sempre – tu ainda tinhas um deus. o mesmo que já foi meu. agora. estamos amuados. para te ser franco nada sei dele – no ar as folhas chamavam o outono. e os dias pequenos. cansados. prestes a desaparecer – depois. apareceu aquele autocarro. as argolas partiram-se e as cordas começaram a chorar. como se o ar debandasse – nesse dia que viajaste fiquei só. e fiquei para sempre – tínhamos ainda tantas palavras para dizer. tantas coisas para partilhar – mais tarde um homem de chapéu preto chamou-me pelo teu nome. aquele que eu nunca uso por ser só teu. deu-me uma chave. atada com uma fita negra. disse-me que era da tua nova morada. nunca acreditei – partiste sem uma única palavra. tua – tu não eras homem para partir em silêncio. não podias ser – tu sempre me dizias: porta-te bem enquanto estou fora. não aborreças a tua mãe. faz sempre o que a mamã te mandar – alguém te enganou. digo eu – fomos enganados – tiraram-te a memória para partires sem boca – a dor comeu as palavras – sei que um dia vais voltar. ou talvez esperes por mim. tens de me explicar onde deixaste aquele santinho. o que usavas na carteira. nunca mais o vi. talvez tenha fugido com a vergonha – sei que um dia vais pedir para falar da vida que guardo em segredo. todos os dias – enterrei tudo num buraco onde. criei a nossa árvore. é a tua memória

 


Sem comentários:

Enviar um comentário