.................................................................................não tirem o vento às gaivotas

05/12/2010

o+ é dezembro








o mau tempo de hoje. é dezembro – o frio que está pelos pés mistura-se com este que me esfria as mãos – já não tenho forma de trabalhar as palavras – se fosse ferreiro. temperava os adjetivos com tenazes. nas brasas. no fogo “que arde sem se ver”. com o maço da minha vida. com batimentos certos. ao compasso do coração: pum. pum. pum – firmes – estes batimentos. em certos dias. parecem-me os passos de alguém a regressar do meu passado –  dentro de mim. do lado direito. em paralelo com a veia cava. construí um banco de ferro com todas as memórias que amealhei – quando preciso de aliviar a trouxa de memórias que trago comigo. sento-as. e lá sossegam no seu banco. e no meu também – sinto que já tenho pouco tempo para perder o corpo de vez – envelheceu. num tempo que nunca foi verdadeiramente o meu –  agora. espero companhia. mas ninguém regressa do que me sobrou. estou cada vez estou mais só –  do lado esquerdo uma mesa de pau-santo ornada com fotos a preto e branco – entre o banco e a mesa uma corda esticada imobiliza um tipo de tule rendado. apenas na cabeceira. onde vê quem passa. com figuras de santos desenhados a fio de ouro – ao centro. em seda preta. o cálice sagrado da vida – é nele que misturo o sangue e as lágrimas que guardo na palma da mão – é tudo o que me resta da vida. umas míseras lágrimas coradas de vermelho – sei. sei que será este tule que um dia cobrirá o meu último suspiro – também eu terei uma foto na mesa. a preto e branco. tal como vivi. e uma coroa de flores com duas fitas negras a dizer: saudade eterna – mas o coração ainda bate. silêncio. mas bate – talvez a vida pare a qualquer momento. o que posso fazer eu? – aguardo em silêncio – fico com medo que o silêncio fique… assim como todos os silêncios. mortos. vazios. sem… sem memórias sentadas. sem futuro. sem olhos negros. sem língua. e nem brisa quente. nem céu. azul – ninguém sussurra nestes ouvidos. mesmo que ainda continuem a ouvir o ferreiro a bater do coração – é dezembro. e o dezembro traz sempre o inverno. ainda me lembro de ser natal em dezembro e não estar só

 


2 comentários:

  1. Obrigada por ser e escrever...

    Beijo grande.
    LIndo demais, uma força tamanha tem seus versos.
    gosto muito.

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  2. Obrigado por estar junto das minhas palavras

    Beijo Grande e uma semana Feliz

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