ainda tenho de encontrar as palavras para te dizer tudo – tudo em mim é pequeno. insignificante. quer dizer: és tudo. mas eu sou tão pouco. tão pequeno. tão curto. tão vazio. sou o que posso ser. um sem camisa branca. sem colarinhos engomados. sem botões de punho. sem roupa feita à medida. sem anel. nem branco nem amarelo. nem nada. não há em mim arte ou engenho que alcance tudo – ainda tenho tanto por te dizer. tanto. mas só os teus olhos sabem. só – e tudo é quase o nada dentro de mim. nada. mesmo. só pode ser culpa minha. deveria saber escrever. mas não sei – mas mesmo sem palavras. és tu sempre que trago comigo. é tudo o que quero. tudo o que sinto quando respiras a meu pé. tu – eu sou um tudo e um nada. um quase nada de amor. um tudo menor que o céu. menor que o futuro. que a vida. que o tempo que resta – quando vejo os teus olhos. quando os olho por dentro. onde guardas ainda o menino que um dia te abraçou. como se todas as primaveras de março florescessem no teu sorriso. tudo dentro de mim diz que não tenho ainda o necessário para te dizer tudo. abraçar. para te beijar. para te segredar ao ouvido: tu és o meu tudo – mas quando estás perto. não há palavras. a boca treme e até a meiguice que trouxe do passado fugiu para um lugar que não conheço – dentro de mim tudo desaparece – tenho os olhos nas mãos. quando adormeces encosto-os ao teu peito. e nos teus caracóis. enrolo a vida. bem apertados – deixo de respirar. até o ar que respiro é teu. tudo é teu nas noites onde me desculpo por não ser tudo. um homem sem tudo é um homem desesperado – dormes. dormes como se habitasses o primeiro sono. e quando o amor é ainda uma criança. pequena – guardo no peito todas as lágrimas. as que afogam o coração de medo. até ao dia em que um de nós parta. sei que as minhas lágrimas são tuas. todas – são tantos anos amor. são tantos anos. foram tantos anos que o meu coração migrou. está no teu peito. e é o teu nome que bate no meu tempo agora – és a minha vida. és o corpo. o corpo que corre. que abraça. que grita. és. desde o dia em que me aceitaste para ser teu. não tinhas de o fazer. és tudo o que há em mim – tudo o que quero amor. tudo. mesmo. é guardar os teus olhos para o dia seguinte. onde o tudo deixará de ser tudo. tu não estarás mais a meu lado. partirei para um lugar diferente de tudo o que tive – não quero chorar por ti. não suportaria ver-te partir. tu és tão bela. sempre foste. a pele ainda cheira às flores que um dia colhemos em junho. loucos. começamos a falar de amor até hoje. nunca paramos. mesmo quando de porta aberta o vento fazia gelar os corpos. nós falávamos. falávamos de amor. de tolerância. companheirismo. lealdade. e da beleza de estarmos juntos. sempre mais apaixonados – somos amor. tudo é amar-te – tu és tudo. tudo o que tenho para chorar no dia em que partir – de ti amor quero lágrimas. quero sentir o teu amor. a tua tristeza. a tua saudade – quero que sintas a pele fria. gelada. de quem vai para o inferno. por saber que não mais te verei. quero sentir os teus lábios quentes. na minha carne gélida. quero que recebas a chave que me encerrará no lugar onde o amor terreno já não existe. quero os teus beijos desesperados por deslaçarmos as mãos – quero as tuas mãos ao pescoço e ouvir: nós fomos tudo um para o outro. ainda somos – eu. jamais conseguirei dizer-te. merecias mais. não sei escrever o amor. talvez sussurrar-te. mas não sei. perdoa-me. mas não sei moldar palavras. só sei dizer que não suporto viver sem ti
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