podem pensar
que estou louco por escrever isto. não estou. estou apenas cansado de me falar
– nunca me respondo – o outro. o que vive comigo. nada me diz. calou-se de cansado
com o meu tempo – pensa que estou desmiolado e. sempre que quero dizer coisas
estranhas. vira-me as costas. pensa que são coisas inúteis. ocas. fúteis. sem
futuro. sem terra. sem braços entrelaçados – estou cansado – habitamos dentro
do mesmo corpo. partilhamos os lençóis. os cristais presos aos aros das
janelas. a luz do teto. os ponteiros de um relógio ausente. os pesadelos que
sobrevivem agarrados à almofada. a cadeira onde escrevo. preta. alta. gasta
pelo roçar das dores que fazem a escrita. partilhamos tudo. tudo menos os
sorrisos. estes são sempre no outro que me olha com desdém. decompõe a face enquanto as feições tomam a
forma de troça – no fundo. bem lá pelo fundo. somos tempo. somos contraposição
silenciosa: não sou. não vivo. não falo. não respiro. estamos no mesmo tempo. vivemos.
respiramos. falamos. e olhamos para coisas diferentes com olhos iguais – um dia
sonho eu. outro. sonha ele. um dia tenho mau dormir. outro. dorme ele mal.
nunca temos uma noite inteira. estamos sempre desacertados. nascemos desacertados.
um quer trazer os sonhos para dentro de si. o outro quer levar o que sonha para
a vida – não nos entendemos – não há forma de resolver isto. não há. não há
tempo. há apenas um tempo para o mesmo olhar – escrevo. escrevo para não estar
só. sempre que estou só. escrevo - o outro olha-me a escrever. sabe que estou a
escrever. sabe que não estou só. nem com ele. sabe que escrevo para não estar
só. e para não estar com ele
.................................................................................não tirem o vento às gaivotas
09/05/2011
dualismo em oposição
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Uma palavra : fabuloso !
ResponderEliminarParabéns , amigo !
adoro a música de fundo!
(ah , tantas exclamações!)
Abraço
um grande abraço luiz - obrigado pela companhia
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