.................................................................................não tirem o vento às gaivotas

25/07/2011

doença mental e a cura pela palavra




                                                              a extração da pedra da loucura
                                                                               hieronymus bosch


arte – arte de escrever. escrever arte – com a minha arte de escrever quero dizer: estou cansado da arte que não é feita por homens que comigo partilham todas as palavras. estou farto. [ilustre casa de ramires] – a minha arte só precisa de papel. é minha. nasce da vida que vivi e do que colhi de quem passou por mim – escrever é. no fundo. dizer coisas. algumas dessas coisas encontro dentro do corpo. mas. em pânico. deixo-as cair em papel – confesso que não sou dono desta vontade de escrever. vem de dentro para fora. sem controle. sem filtros e sem limites – escrever é uma purgação. a minha forma de evitar o suicídio coletivo dos dedos. dos ouvidos. dos olhos. dos aromas. e até da boca. possuída pela força do vómito. que fala sem que ninguém a entenda – escrever é um estado maníaco-depressivo. faz sobreviver. dá sentido às palavras esquizofrénicas de um corpo são com uma mente louca – escrevo para me salvar. então parto como os cruzados no tempo das cruzadas. também quero conquistar o paraíso. mas sei. mesmo com pouca lucidez. que nunca terei setenta e duas virgens à espera no fim do texto - escrevo porque preciso de escrever. estou doente. diariamente injeto palavras libertadas de mim. daquilo que sobrevive em mim. na revolta. na amargura. na dor. na vontade. na expiação dos demónios que criei – escrevo palavras desprendidas. não das mãos. mas do meu inferno. uma vontade de expiação que incendeia as mãos. e quando o mundo arde. eu fico em paz – mas a cabeça já não está igual. sinto-me esburacado. desfigurado. amargurado. e os amigos perguntam: ele escreve o quê?  mas para os corvos. eu sou apenas alguém que sabe juntar as letras do abecedário. e gargalham – bem queria saber escrever arte. mas o que sinto dentro desta cabeça é confusão. o sujeito em luta com o predicado – saudável. penso nos momentos em que sou capaz de dizer: não escrevas mais – mas não adianta. este cancro cresce. não consigo estripá-lo. talvez um dia me mate. ou talvez me espere um colete de forças. paredes brancas. e seringas a baloiçar. entre cair e não cair. e a salvação venha de um homem vestido de branco a dizer: tome tudo de uma golada. ou corte o fio de uma seringa. e nunca mais reconhecerá as letras. nem a vida. nem os amigos – no fim. restará apenas a esperança de morrer voltado para o mar. olhando uma gaivota cinzenta a cortar o vento de norte para sul – sou louco por palavras que significam tudo e nada ao mesmo tempo. talvez esteja doente. talvez maníaco-depressivo. mas nos textos encontro a única salvação possível: um mundo onde a arte de escrever me salva do meu próprio silêncio – não quero parar de escrever. quanto mais textos escrevo. mais me liberto. menos pessoas sabem que. no interior desta doença. sobrevive o egoísmo – escrevo por mim. para mim. escrevo para ser feliz. para estar longe dos outros e da arte vazia dos que me dizem: bom dia. como se isso bastasse para curar a alma – quero raiva para dizer tudo o que me faz doente. quero raiva para sobreviver ao pesadelo de uma morte que se repete diariamente dentro de mim. do funeral das palavras. da sua cremação. e das cinzas lançadas ao mar no meio de gargalhadas – escrevo. não como vosso escravo. nem vosso dono. escrevo porque estou no abismo. e sempre que estou no abismo. sou feliz. não há nada para pensar nos abismos. a não ser escrever o que escorre nas mãos – todos os que gostam de escrever sabem que só no silêncio se é feliz. não há palavras. há ideias silenciosas. não há pessoas. há apenas luar e estrelas – e um dia. o homem da barca chegará. e eu. com os meus escritos na boca. farei embarcar uma parte de mim. a outra ficará aqui. a falar com as palavras – talvez hoje eu esteja lúcido. e as palavras não morram de loucura  


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