1.
sem forças.
preso ao destino. conto o tempo. o cheiro a mar envolve-me do lado direito. e à
esquerda. na montanha. as casas caem em cascata – nascem as primeiras luzes. dentro
das janelas a solidão desvanece com o nascer do dia. e as suas gentes olham
para o mar. interrogando-se porque que razão é tão grande se eles são tão
pequenos – também o meu pensamento cria memórias em cascata. a diferença é que
não estão viradas para o mar. mas para mim – dentro do corpo. a realidade
persiste. é dentro dele que confio a minha sanidade mental. enquanto pertencer
ao que lá guardo. existo – quando pego no sono. a consciência fala-me ao ouvido:
sampaio. o mar está no olhar. tal como as memórias que guardaste – hoje. abro
memórias tão grandes quanto o mar que se vê das casas. não em extensão. mas em
ausência. carregadas de saudade – o dia levanta-se e a noite cai. eu levanto-me
pela manhã. e caio pela noite. e pergunto-me no escuro: onde tenho as mãos?
porque não sou capaz de abraçar o que vejo às escuras? tenho imenso nestas
mãos. até os dias que me trouxeram até ao dia de hoje. que é como quem diz: só
existo porque os outros me fizeram existir. mas no mar sou pequeno.
insignificante. e o que valho para além de mim? só a vontade de escrever.
escrever o que se fez saudade. o que te faz cair na dor sempre que escurece – só
as palavras saberão dizer o tamanho da dor que guardo nos olhos – o mar em mim
representa tudo: a família. os amigos. o medo. a dor. a saudade. até as
palavras que gostaria de escrever e não saem de dentro de mim. talvez seja
pelas casas caírem em cascata. talvez porque nasci assim e não posso ser outra
coisa – nos dias de calmaria. fico com medo. tudo em mim é confusão. as mãos no
ar. a cabeça também. e até as palavras são folhas de outono. caem sem destino
certo. entregues ao vento. levadas para onde já não as posso encontrar – silêncio
em terra. tempestade no meu interior. foi assim que me acostumei a viver – mas
hoje. eu caio por mim como as casas caem em cascata. estou rodeado de um
silêncio que é mesmo silêncio. e quando o silêncio se esconde dentro de si. eu
sou obrigado a escrever todas as palavras que nasceram de beijos e abraços. e
também aquelas que me obrigavam a dizer: gosto de ti – nasci sem boca. estas
mãos que me caem contra o papel não foram feitas para escrever – mas insistem –
repito tantas vezes: sampaio. os dedos são grossos. e os lápis são sempre tão
frágeis. porque insistes? para sobreviver ao silêncio das noites – malditos
lápis. partem-se sempre que procuro uma outra palavra mais difícil. ou apenas para
alguém especial. e que não sei dizer com a boca que tenho – que vergonha nascer
sem boca. que vergonha não ter forma de pronunciar palavras que bem podiam ser
abraços – quando quero falar. choro. e quando choro. quero esconder-me dentro
do mar. que penso ser meu por usucapião – nunca saberemos viver um sem o outro
2.
aqui estou.
parado. a olhar para os anos nos olhos de quem me gosta. e gostam há tantos
anos – como é possível gostar de alguém como eu durante tanto tempo? dizem que
é amor. dizem que gostam de mim com um amor incondicional. e eu fico a olhar o
mar e as casas com luzes. com gente dentro que nunca vi – saio de dentro das
luzes e fico apenas com o belo: o meu mar – olho apenas com os olhos: quase
redondos. quase castanhos. quase transparentes. quase pêndulos num corpo que
não cai. nem no mar. nem dentro do que sou – estes olhos são um castigo de deus. nunca
estão em silêncio. engolem o futuro. dobram-me o corpo em dor para um tempo que
ainda não chegou. tornam o futuro presente – silêncio. eu e o mar. anulamos o
barulho um do outro. as bocas fechadas guardam as últimas palavras. apenas os
olhos falam. é preciso enganar o tempo. enganar
as pálpebras. enganar as noites que ainda faltam chegar. hoje é o dia perfeito
para se ouvir tudo. até o silêncio do mar – ouço o meu primeiro choro. a primeira
palavra. o primeiro passo. o primeiro medo. a primeira oração. a primeira
reprimenda. a primeira bênção. e o tempo sempre a ir e a vir com mais memórias.
tal como as marés – dentro deste ir e vir do tempo nada do que está feito pode
ser refeito. nada do que foi dito pode ser silenciado. nada do que me trouxe
aqui desaparecerá no mar para voltar a nascer – sou feito de água. sal e esperança
– um dia. estes meus olhos castanhos. hão de encontrar sossego. uma ilha
rodeada de certezas – tal como um corsário do passado. roubo lugares para
procurar tesouros que nunca encontrei – balanço dentro de mim. e interrogo-me:
caio para que lado? não sei. talvez para os dois lados. para me equilibrar –
estou completamente perdido dentro de tudo o que os olhos veem – e eu aqui. preso
a um corpo que não para de crescer. sem parar de querer o que nunca vai ter – sou
o que abril me deu
3.
amarro as
mãos e sinto o coração a bater. e eu ali a olhar para os anos. anos que gostei.
anos de orgulho. e eu ali. apenas filho. de mão dada. a equilibrar-me para não
cair. como se estivesse a dar os primeiros passos – mergulho ainda mais fundo
no tempo. o passado acontece como se sobrevivesse apenas para aquele instante –
ao lado. sentado. o meu pai sorri. só lhe faltam as palavras. está ali. tudo o que gostava
dele está ali. a tombar para o meu lado. só o braço deixou de acenar. aquela
maleita quase te levou. e até o sorriso continua perfeito. pendurado no bigode que
mais não é do que uma linha que separa a boca do corpo magoado – apetece-me ficar
aqui para sempre. tenho aqui tudo. até o que pensava ter perdido – não souberam
que o tempo também se acaba – tudo acaba. agora sei que tudo acaba. e o meu
momento vai acabar – aperto as mãos com força. as mesmas que me acarinharam nos
primeiros dias da vida – um dia acordei e não as vi mais. tinham fugido para
sempre. e eu sem saber parti também com elas – nasci para não ser quase nada. apenas
mais um menino que falava sem querer ser ouvido. demasiado novo. e para te
zangar não queria dizer: sou teu filho porque fiz isto. a minha obra vai para
além do que os teus olhos alcançam – mentira. não tinha nada para mostrar. nada
para dizer que te orgulhasses. só tinha o teu sorriso guardado em mim.
invisível para os outros – sabes. mãe. tu que me viste ficar sem pai. este nosso
coração está sempre a doer – dói pela perda do pai. noutro dia dói porque preciso de
lembrar que eu sou carne da vossa carne. e não suportaria perder esta dor – há ainda
outros dias em que dói pelos teus netos. agora também pelos bisnetos. é a nossa
família mãe.
somos nós – perdoa-me mãe. mas
não sou capaz. não fui capaz de aprender o que tu aprendeste. o que tu fizeste.
o que tu sempre me tentaste ensinar. nasci diferente. ando por aqui ainda sem
saber como ser filho. bem sei que para ti não é importante. sempre irás
encontrar uma razão para dizeres: é meu filho e eu gosto dele assim – mas mãe. há os
meus filhos. e estes precisam de saber que o teu filho não soube levar-te à
boca tudo o que tu merecias. precisam de saber que os avós são a única razão
para hoje terem o vosso nome – prometo-te que um dia saberão dizer: chamo-me
assim porque os meus avós se chamavam assim. e os pais dos meus avós também se
chamavam assim. e nós nos chamamos assim porque somos uma família – mas a tua carne
já não resiste como antigamente. já não é igual. está cansada pelo tempo. está ali
apenas para te proteger os ossos que já não são ossos. são raízes amarradas ao
ar que respiramos – não quero que descubras que o tempo se faz das batidas do
coração. quero sentir as tuas mãos. quero amarrar-te para sempre dentro destas mãos
que estiveram tanto tempo sozinhas. quero afagar a tua pele que é também a
minha. e ver no teu olhar que as dores que dizem que estás a envelhecer não
existem quando as minhas mãos amarram-se às tuas – não desistas mãe. não expulses
o tempo. ainda quero dizer-te tantas coisas. coisas que ainda não consegui dizer.
preciso de envelhecer um pouco mais. ficar mais sábio. mais tranquilo. e entre
tanto. tu também ficas mais bonita – não compreendo. parece que um filho só aprende
a falar quando o coração deixa de bater – encosto a cabeça no teu ombro e ouço
o nosso sangue a correr como se houvesse festa. e ouço: deixa cá ver um beijo
meu filho – ainda tens tempo para me ensinares a dizer todas as palavras que
mereces – foram tantos anos mãe e eu sempre imaginei que os corpos não partiam.
e as palavras não faltariam. e o tempo resistiria. mas é tudo mentira minha mãe.
a vida mentiu-me. eu também estou a envelhecer. e eu. desesperado. com medo de
não chegar a tempo – e foi assim que disseste: quando deus me levar. quando estiver
de partida para o céu. vou pensar que estou a voar. a andar de avião – eu
também minha mãe
Gostei Bastante
ResponderEliminarBjs
obrigado dolores
ResponderEliminarbeijo