I.
sou um
escrevente de histórias do peito – só
falo com o que escrevo. sou assim: grandioso na idealidade. pálido com a boca. trémulo
nas mãos – mas escrevo. sem palavras. seria quase nada – sempre que me expresso.
os dias tornam-se ínfimos. e as narrativas crescem em embaraços. o corpo
estremece. e a janela que me protege do mundo já não é solução para os medos –
escrevo. digo. tento. a procura da palavra autêntica é incessantemente trabalhosa.
esgotante. e o belo oculta-se na minha falta de arte – quando escrevo.
transformo-me num cavalheiro – fato preto. camisa branca adornada com laço de
cetim preto-cinza. colete de veludo escuro justo ao tronco. botões de madrepérola
e dois bolsos pequeníssimos debruados com duas costuras fortes. elegância – apesar
de diminutos. estes bolsos são marcantes; é no seu interior que repousam os
dedos doridos de agarrar o lápis com que me narro – são como os abrigos dos
pastores nas montanhas: feitos de pedra granítica. entrada rente ao chão. sem
janelas. terra batida. cama de urze e fetos. em tão pouco. o corpo descansa da
imensidão do mundo. ali. vivem no sossego de tudo que marca tempo. com as
estrelas acamam. com o sol despertam – despojados de qualquer conforto. ali
resistem à demora do tempo de uma nova pastorícia. acolher. proteger e
agasalhar o pastor e o seu rebanho é a sua missão. palavras – os meus bolsos
também são assim: abrigos graníticos. que me acolhem sempre que o corpo é
açoitado pelo desalento de não saber trazer às mãos o sentir em palavras – um
deles. o da direita. a sul do coração. guarda o tempo numa engrenagem fantástica:
rodinhas minúsculas. parafusinhos insignificantes. chapinhas retorcidas e outras
coisas que o meu saber não sabe descrever. tudo isto faz andar o tempo com uma
precisão inacreditável – é neste tempo que sofro pela falta das palavras – o
homem faz coisas incríveis – quantas mãos abençoou deus para purificar estas criaturas
com o dom de fazerem coisas genuinamente incríveis? quantas? e todos estes
homens divinos encurralados num bolso minúsculo a tomar conta do meu tempo.
relógio – no silêncio. feroz. posso ouvir um tic-tac. delicioso. suave. compassado.
intercalado com o ritmo intenso do coração ansioso – tic. relógio. tac.
coração. tic. relógio. tac. coração e tudo isto numa cadência perfeita.
melodiosa. a grandeza do tempo no corpo a gastar vida tantas vezes em vão – e as mãos a pedir papel. muito papel.
e um lápis com o dobro do meu tamanho. enorme. e dentro de mim tudo agora é
perfeito. tudo mesmo. tudo que pode ser feito com palavras escritas – sou feito
de gaivotas. de liberdade. de braços abertos ao vento. ao tempo. e o meu melhor
amigo. de braço dado. caminha comigo a passo. em palavras nossas diz-me: sabes!
há uma razão para o vento existir. belo – talvez haja – lembro-me de no passado
ler num qualquer livro que não recordo o nome que o belo é aquilo que desespera
– acredito. sinto-me desesperado – na mão. a bengala de punho de marfim. feita à mão por mais um
par de mãos abençoadas. talvez haja um grupo de deuses divididos por áreas de
interesse. a criar homens com dons para tornar o mundo mais belo. e todos
aqueles que gosto desiludidos com tanta falta de palavras – na cabeça uma cartola
imponente. pomposa. importada do país de sua majestade – sempre ouvi dizer que
o primeiro cavalheiro nasceu nas ilhas britânicas. não sei se é verdade. mas
para o caso também não é importante – para perturbar este cavalheiro da escrita
[desconhecido do homem que escreve] na sua infindável busca da palavra mais-que-certa.
a dúvida e a sua mais-que-perfeita omnipresença em toda a criação. sou aflição
– uma maldade autofágica para uma criatura muda que tem como o mais belo dos
prazeres a escrita. ingratidão
[1
de 4] – contínua
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