.................................................................................não tirem o vento às gaivotas

25/10/2013

o cavalheiro das palavras: uma dissertação sobre a escrita e a existência - 2



alexandre pavan


II.

a vida sem quase nada é gasta a anotar a presença de quem me demora no olhar – e são tantos os que por aqui ficam em silêncio. a ocupar o tempo. sem pressa. a falar baixinho. e sempre com tanta coisa pendurada no corpo – chegam em pezinhos de lã. sem olhos. sem sorriso. sem fé. e com os braços a suspirar em todas as direções. olham para sul. esperança. e eu ali a ouvir com os olhos – gosto de ouvir assim. a sentir os corpos a invadir o que é só meu. e o cavalheiro ali. aflito. a guardar tudo que consegue agarrar. às vezes tanto. dorido. pesado. colorido. também a preto e branco. e o que era meu deixou de ser: sou feito de gente. sou nós – quem entende este nós? alguém? não sei. não sei mesmo. sei que os sinto. sinto toda esta gente amarrada ao corpo. nosso. e o espaço dentro do cavalheiro cada vez mais apertado para o homem que já não consegue viver sem ele – a culpa é do homem que escreve. deixo entrar sempre tanta gente pelo corpo. mas como faria a escolha. pela roupa? pelo corte do cabelo? pelas mãos? não sei. sou um ingénuo? não. preciso deles para falar. quer dizer. para escrever o que sou com eles – são eles que me fazem escrever. é com eles que sinto – só não sei por que aceitam viver num corpo em agitação. não sei mesmo. imagino que seja esperança. talvez acreditem que a eternidade é feita da palavra escrita – loucos. alguém pode acreditar que posso dar a eternidade ao que quer que seja com o que escrevo – pobre gente. enganados por todos. até pelos cavalheiros – já não há cavalheiros como antigamente. esses sim. tudo o que escreviam era para sempre. basta olhar para a minha estante e vê-los vivos. com as capas duras. gravadas a ouro imponente. e os nomes. como se fossem família. orgulho – escrevo. não tenho outra forma de dizer o que sinto senão escrever. mesmo que nunca chegue a ter a certeza de que o que escrevo é verdadeiramente sentido. loucura – a dúvida das palavras é grande. a do homem que escreve é o dobro – se houvesse uma palavra para cada coisa que sinto. mas são tantas a dizer sempre tanto e o corpo encurralado em ilusão.  serei capaz de escrever a minha vida sentida na primeira pessoa? o que sinto é verdade? tenho a certeza que não. se fosse verdade escrever seria fácil e as palavras surgiriam a qualquer instante do dia. baixavam da boca às gargalhadas – o papel branco. raivoso. em agonia. nem uma pinga de tinta. nem uma palavra escrita. solidão – e os olhos cada vez mais cansados de procurar as palavras desta gente que me entra pelo corpo. pesam – tem de existir uma área de bem-estar neste corpo enorme. tem de haver um local de sossego onde o olhar descanse do que sente. tem de haver – acredito e procuro – talvez esse local esteja escondido nas pernas. não escrevo com as pernas. nem penso. nem corro. as pernas servem para me manter de pé. e quando quero parecer maior também servem para me colocar em bicos de pés. não fico muito maior. mas há quem pense que sim – mas a vida dobrou-me e passo a maior parte do tempo de joelhos à procura de palavras perdidas – dentro do corpo que escreve. um nada gigantesco. sinto-me tomado por ele sem explicação. tenho mais de meio dia gasto no corpo. e nada de palavras – sinto que a solução é trazer os corpos até às mãos. povoá-las. dar-lhes vida. escrever – nenhum relógio de sol marca o tempo sem sombra – a chegada da noite é a qualquer hora. acontece com a escrita. recolha – um papel. e logo aparece gente sem nome. e ali ficam dias e dias a fazer de conta que o tempo não pesa para os homens que gostam de escrever. para os cavalheiros – talvez saibam ler o futuro de quem trabalha constantemente com orações subordinadas. sabem que o erro e o belo estão na mão que escreve. na linha da escrita. no apuro da dúvida. mestria – somos tantos dentro deste corpo – mas ali ficam. às voltas no papel. à espera da palavra mais-que-certa para perdurarem na eternidade de uma folha – escrevo. escrevo cada vez o que é menos meu e mais desta gente que não se cansa de me acompanhar. tudo é deles. tudo. não tenho nada meu. nem o cavalheiro. nada – quem sou eu para lhes retirar o que só a eles pertence? o homem que escreve não é dono de nada. escreve porque escreve. escreve para ter voz. escreve para dar sentido ao que sente. ao que lhe entra pelos olhos dentro. escreve para não adoecer – não conheço mais nenhuma razão para escrever – escreve porque o coração não se cansa de bater sentimentos – quem sabe um dia a ciência faz “mea culpa” de tudo o que disse sobre o coração –  afinal o músculo não bate por bater. o músculo bate paixão. bate pessoas. bate abraços. bate vida. bate sentir – há um fundamento sério dentro do homem que não escreve para aceitar esta gente sem nome dentro de si. sente-os  – o cavalheiro sem eles não existiria – e o homem que escreve permanece em alerta. vigilante. tenso. a doer. a devastar minuciosamente cada corpo. em espera. estáticos. clementes. transparentes. humanos. e eu a sentir. a ver como sentem. tudo. tudo de um lado ao outro – sinto.  paulatinamente sinto. escrevo. e esqueço o mundo dos que me amam tal e qual como sou. nada – o coração a trabalhar calmamente. sereno. doce. sem ruído. e o silêncio perfeito silencia a dor das palavras que nascem a ferros – a cada batimento um golpe no músculo que sustenta o cavalheiro. e o homem vai sofrer – pela boca. chega um sopro frio de melancolia existencial. mais silêncio – e os corpos que me ocupam vagueiam de um lado para o outro sem saberem que os sinto como se fossem meus. nascidos de mim. cobertos de palavras. alimentam-me a esperança de um dia saber falar sem ser através da escrita – e o cavalheiro em duelo de morte promete ao homem o sossego – um dia cravo o lápis no coração – a beleza perfeita está sempre nas palavras que ficam por escrever. sofrimento

 

[2 de 4] – contínua


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