II.
a
vida sem quase nada é
gasta a anotar a presença de quem me demora no olhar – e são tantos os que por
aqui ficam em silêncio. a ocupar o tempo. sem pressa. a falar baixinho. e
sempre com tanta coisa pendurada no corpo – chegam em pezinhos de lã. sem olhos.
sem sorriso. sem fé. e com os braços a suspirar em todas as direções. olham para
sul. esperança. e eu ali a ouvir com os olhos – gosto de ouvir assim. a sentir
os corpos a invadir o que é só meu. e o cavalheiro ali. aflito. a guardar tudo
que consegue agarrar. às vezes tanto. dorido. pesado. colorido. também a preto
e branco. e o que era meu deixou de ser: sou feito de gente. sou nós – quem entende
este nós? alguém? não sei. não sei mesmo. sei que os sinto. sinto toda esta
gente amarrada ao corpo. nosso. e o espaço dentro do cavalheiro cada vez mais
apertado para o homem que já não consegue viver sem ele – a culpa é do homem
que escreve. deixo entrar sempre tanta gente pelo corpo. mas como faria a
escolha. pela roupa? pelo corte do cabelo? pelas mãos? não sei. sou um ingénuo?
não. preciso deles para falar. quer dizer. para escrever o que sou com eles – são
eles que me fazem escrever. é com eles que sinto – só não sei por que aceitam
viver num corpo em agitação. não sei mesmo. imagino que seja esperança. talvez
acreditem que a eternidade é feita da palavra escrita – loucos. alguém pode
acreditar que posso dar a eternidade ao que quer que seja com o que escrevo –
pobre gente. enganados por todos. até pelos cavalheiros – já não há cavalheiros
como antigamente. esses sim. tudo o que escreviam era para sempre. basta olhar
para a minha estante e vê-los vivos. com as capas duras. gravadas a ouro imponente.
e os nomes. como se fossem família. orgulho – escrevo. não tenho outra forma de
dizer o que sinto senão escrever. mesmo que nunca chegue a ter a certeza de que
o que escrevo é verdadeiramente sentido. loucura – a dúvida das palavras é
grande. a do homem que escreve é o dobro – se houvesse uma palavra para cada
coisa que sinto. mas são tantas a dizer sempre tanto e o corpo encurralado em
ilusão. serei capaz de escrever a minha
vida sentida na primeira pessoa? o que sinto é verdade? tenho a certeza que
não. se fosse verdade escrever seria fácil e as palavras surgiriam a qualquer instante
do dia. baixavam da boca às gargalhadas – o papel branco. raivoso. em agonia. nem
uma pinga de tinta. nem uma palavra escrita. solidão – e os olhos cada vez mais
cansados de procurar as palavras desta gente que me entra pelo corpo. pesam – tem
de existir uma área de bem-estar neste corpo enorme. tem de haver um local de
sossego onde o olhar descanse do que sente. tem de haver – acredito e procuro –
talvez esse local esteja escondido nas pernas. não escrevo com as pernas. nem
penso. nem corro. as pernas servem para me manter de pé. e quando quero parecer
maior também servem para me colocar em bicos de pés. não fico muito maior. mas
há quem pense que sim – mas a vida dobrou-me e passo a maior parte do tempo de
joelhos à procura de palavras perdidas – dentro do corpo que escreve. um nada
gigantesco. sinto-me tomado por ele sem explicação. tenho mais de meio dia
gasto no corpo. e nada de palavras – sinto que a solução é trazer os corpos até
às mãos. povoá-las. dar-lhes vida. escrever – nenhum relógio de sol marca o
tempo sem sombra – a chegada da noite é a qualquer hora. acontece com a escrita.
recolha – um papel. e logo aparece gente sem nome. e ali ficam dias e dias a
fazer de conta que o tempo não pesa para os homens que gostam de escrever. para
os cavalheiros – talvez saibam ler o futuro de quem trabalha constantemente com
orações subordinadas. sabem que o erro e o belo estão na mão que escreve. na
linha da escrita. no apuro da dúvida. mestria – somos tantos dentro deste corpo
– mas ali ficam. às voltas no papel. à espera da palavra mais-que-certa para perdurarem
na eternidade de uma folha – escrevo. escrevo cada vez o que é menos meu e mais
desta gente que não se cansa de me acompanhar. tudo é deles. tudo. não tenho
nada meu. nem o cavalheiro. nada – quem sou eu para lhes retirar o que só a
eles pertence? o homem que escreve não é dono de nada. escreve porque escreve. escreve
para ter voz. escreve para dar sentido ao que sente. ao que lhe entra pelos
olhos dentro. escreve para não adoecer – não conheço mais nenhuma razão para
escrever – escreve porque o coração não se cansa de bater sentimentos – quem
sabe um dia a ciência faz “mea culpa” de tudo o que disse sobre o coração – afinal o músculo não bate por bater. o músculo
bate paixão. bate pessoas. bate abraços. bate vida. bate sentir – há um fundamento
sério dentro do homem que não escreve para aceitar esta gente sem nome dentro
de si. sente-os – o cavalheiro sem eles
não existiria – e o homem que escreve permanece em alerta. vigilante. tenso. a
doer. a devastar minuciosamente cada corpo. em espera. estáticos. clementes. transparentes.
humanos. e eu a sentir. a ver como sentem. tudo. tudo de um lado ao outro –
sinto. paulatinamente sinto. escrevo. e esqueço
o mundo dos que me amam tal e qual como sou. nada – o coração a trabalhar calmamente.
sereno. doce. sem ruído. e o silêncio perfeito silencia a dor das palavras que
nascem a ferros – a cada batimento um golpe no músculo que sustenta o
cavalheiro. e o homem vai sofrer – pela boca. chega um sopro frio de melancolia
existencial. mais silêncio – e os corpos que me ocupam vagueiam de um lado para
o outro sem saberem que os sinto como se fossem meus. nascidos de mim. cobertos
de palavras. alimentam-me a esperança de um dia saber falar sem ser através da
escrita – e o cavalheiro em duelo de morte promete ao homem o sossego – um dia
cravo o lápis no coração – a beleza perfeita está sempre nas palavras que ficam
por escrever. sofrimento
[2
de 4] – contínua
Sem comentários:
Enviar um comentário