“Até cortar os próprios
defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso
edifício inteiro” - Clarice Lispector
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e é nestes cortes que sustento o corpo num precário equilíbrio suicida. um impulso contido de raiva. de expiação e de purificação – escrever é um ato de fé – sou um homem só numa só escrita – as amizades estão cada vez mais difíceis de se escrever na palavra – os dias são agora de um outro mundo. tecnológico. amplificador para o bem ou para o mal. divergente na expressão. convergente na busca da felicidade. extremos no amor e no ódio. onde os amigos surgem ao pontapé: és um querido meu amigo; és bonito meu amigo; amigo o teu sorriso é o espelho da tua alma; adoro-te amigo; tenho saudades de te ver amigo; és único meu amigo – e as ligações em fibra ótica espalham a burla pelos quatro cantos do mundo – aqui estou eu neste desabafo inócuo apenas porque me recuso a usar a palavra amigo em vão – cada vez gosto menos das pessoas que me entregam adjetivações de exceção e depois as vejo gastas ao preço da uva mijona – nesta nova arte de fazer amigos pelas redes sociais sou um estranho no meio da multidão - por isso corto nos gestos. nas palavras. nos abraços. nos sorrisos. na forma de como me dou e na raridade com que ofereço palavras a quem não as merece – não gosto de enganos. não suporto erros grosseiros e rejeito erros de simpatia – não quero lacunas nos cânones da palavra amigo - não sou santo agostinho e de peixes pouco entendo. mas sei que a palavra amizade é o único brilho que me incendeia os olhos – há palavras que me custaram a ganhar. muito mais que um dia de trabalho. ou um mês. mais de um ano. quase tanto quanto a vida que lutei para a agarrar. um esforço que não vem de nenhum músculo. de nenhuma corrida. de nenhuma trovoada ou bonança. vem de um arrepio na pele. tão leve que às vezes engana o coração – esta minha liberdade de amar pelo sentir é o único amor certo que ficará para depois da minha morte – não me vendam ilusões – e agora vou sair para o mundo onde a mentira se disfarça de sorrisos. mais podre do que a malvadez. mais rasteira que a lama. mais venenosa que um saco de víboras: internet – amigos. ou assim vos chamam. sigo a caminho
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